sábado, 22 de setembro de 2012

As manhãs adiadas de Eltânia André


As manhãs adiadas de Eltânia André

Alexandre Staut (*)

Esses dias, num bate-papo com meu editor, falávamos nos tantos autores mineiros que fundaram a literatura contemporânea nacional. São poetas, crônicas, romancistas e contistas, de temas e obras diversas. Começamos a enumerar um ou outro escritor. Dezenas de nomes foram lembrados. Tão vasta é a lista, que há até mesmo um Dicionário biobibliográfico de escritores mineiros (2010), obra deConstância Lima Duarte. Há ainda o livro de Humberto Werneck, O desatino da rapaziada (de 1992, reeditado recentemente), fonte e tanto sobre o celeiro que representa Minas na seara da literatura, com verbetes sobre Carlos Drummond de Andrade, Otto Lara Resende, Fernando Sabino, Hélio Pellegrino, Paulo Mendes Campos, Ivan Ângelo, Silviano Santiago, Murilo Rubião, entre dezenas de outros, que fizeram bonito entre 1920 e 1970.
Pois bem, dentro de tal república das Gerais, há microrregiões produtivas, como se fossem microclimas, caso estivéssemos falando de geografia. Um desses lugares chama a atenção. Trata-se de Cataguazes, cidade operária da Zona da Mata, que se situa a 320 quilômetros da capital do Estado. De lá, destacam-se vários nomes. Para ficar em alguns, cito Rosário Fusco, Ascânio Lopes, Ronaldo Werneck, Chico Peixoto, Luiz Ruffato, Ronaldo Cagiano e Eltânia André. É sobre o trabalho dela que escrevo aqui.
Autora do livro de contos de título charmoso, Meu nome agora é Jaque (2007), Eltânia André acaba de lançar sua segunda coletânea de histórias curtas, Manhãs adiadas, que sai pela Dobra Editorial.
Logo no primeiro dos 14 contos, “Parábola para Olgamaria”, é possível perceber o domínio técnica da escritora, que cria imagens poéticas por meio do encadeamento de palavras, em frases de carpintaria poética. Aqui, ela investiga o cotidiano de uma mulher surda, de “rosto coberto por mapas, que traçavam rotas insondáveis: duas geografias distintas que se cruzam com o silêncio da boca”, seu cotidiano comezinho, construído de forma a mostrar os vazios e ecos da alma da protagonista.
A observação microscópica, detalhada de personagens, lugares, coisas continua em outros contos e chega ao ápice no texto “O canto da cigarra”, em que uma personagem se aproxima de um inseto. “Retenho em minha mão uma cigarra, entre tantas espalhadas pelas árvores. Os machos numa sinfonia histriônica anunciam o verão, serenatam para as fêmeas. Ela, a cigarra, encara-me; somos seres da natureza, vivos, mas se eu decidisse, bastaria um ágil gesto de fechar as mãos para aniquilar um inseto”, diz a autora, num diálogo com certa “nobre senhora”, que ao entrar no quarto da ex-empregada, avista uma barata, a “barata-de-Clarice”, conforme escreve Eltânia.
Cada história traz uma frase, com pílula de ideias daquilo o que o leitor vai encontrar nas páginas seguintes. Em “Monólogo sobre leões e borboletas”, por exemplo, a autora diz: “(...) eu via sinais de sorte, mas tava montado era no azar”. Já em “Pássaros que não voam”, surge a frase: “Viver é essa gaiola aberta: o medo da liberdade”, pequena ideia, que, por si só, representa um instante poético inspirado.  
Em antítese aos contos de observações microscópicas, em que a autora parece se apropriar de pequenas formas da vida, com precisão quase cirúrgica, há textos que parecem ter sido escritos para se ler em pé, com voz empostada. Exemplo: “Dias de rato”. Aqui, o estopim da ação traz a cena de um sujeito deitado, abandonado à própria sorte, na Rua da Consolação, em São Paulo, um obstáculo que parece morto em meio às tantas pernas da multidão anônima que atravessa o lugar. Assim como neste exemplo, outros textos se aproximam da crônica. Trazem os dramas do cenário urbano, em que a linguagem se aproxima do popular, com crendices e conflitos de um Brasil contemporâneo.
Se no pequeno texto introdutório do conto “A solidão de Alzira”, a autora sugere uma figura que não entendia de metáforas - “Ela não entendia as metáforas, sucumbiu à fantasia de não ter vivido como queria, mas nunca em vão” -, é preciso dizer que ela consegue captar, neste livro, as tantas metáforas de um Brasil múltiplo, que vai do extremo da luminosidade a pontos mais sombrios e dramáticos. Por isso este livro merece ser lido. 

(*) Escritor e jornalista, é autor dos romances Jazz band na sala da gente (Toda edições, SP, 2010)  e Um lugar para se perder (Dobra, SP, 2012)

Eltânia André

Em Manhãs adiadas, Eltânia André, autora mineira radicada em São Paulo, reúne 14 contos cuja temática aborda os dramas, conflitos e perplexidades do homem contemporâneo numa sociedade da tecnologia e do consumo, que vive um rápido escalonamento de valores e demandas.

As histórias falam de gente comum, de homens e mulheres apartados em seus ambientes domésticos ou laborais, cujas vidas, muitas vezes estão no limite entre o sonho e a frustração, presos nos seus labirintos de perplexidades e frustrações.

Ambientados em diversos cenários urbanos, seja na metrópole ou no interior, os contos falam de solidão, de deslocamento, de isolamento social e afetivo, fenômenos tão comuns ao ser nesses tempos regidos pelo pragmatismo e pela velocidade, pela insegurança e pela falta de perspectivas, pela miséria material e moral, excludentes e individualizantes.

Como assinala o escritor Menalton Braff, os contos de Manhãs adiadas captam com extrema sensibilidade tanto conflitos interiores, de cunho mais metafísico, como a trepidação dos seres humanos convivendo espremidos em uma grande cidade.

Nascida em Cataguases (MG), formada em administração e psicologia, é autora de Meu nome agora é Jaque (Contos, Ed. Rona, BH, 2007).

Fonte : blog Em Verso e Prosa. http://emversoeprosa.blogspot.fr

2 comentários:

  1. Muito boa leitura a de Manhãs adiadas. Recomendo!

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  2. Excelente leitura! "Manhãs adiadas" é a vida de todos, é a alma do mundo revelada pela arte das palavras de Eltânia André. Recomendo!

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