terça-feira, 14 de agosto de 2012

Um dedo de prosa com Maria Valéria Rezende


Um dedo de prosa com Maria Valéria Rezende


Confiram a  entrevista que Maria Valéria Rezende concedeu ao Blog Estudos Lusófonos. Nos vídeos aqui apresentados, a escritora  fala de seu projeto em torno dos neoleitores,  do seu último trabalho Ouro dentro da cabeça, lançado pela Editora Autêntica em 2012 e comenta o  romance O que deu para fazer em matéria de história de amor da escritora Elvira Vigna.

Assistam aos depoimentos  de Maria Valéria Rezende através dos links :








Maria Valéria Rezende nasceu em 1942, em Santos (SP), onde morou até os 18 anos. Em 1965 entrou para a Congregação de Nossa Senhora - Cônegas de Santo Agostinho. Sempre se dedicou à educação popular, primeiro na periferia de São Paulo e, a partir de 1972, no Nordeste. Formada em Pedagogia e em Língua e Literatura Francesa, e mestre em Sociologia, trabalhou durante 20 anos como educadora em movimentos e organizações populares urbanas e rurais e na formação de educadores. Viveu no meio rural de Pernambuco e da Paraíba e, desde 1986, mora em João Pessoa. Já esteve em Angola, Cuba, França e Timor, entre outros países, convidada a falar sobre seus projetos sociais. Em 2001, começou a publicar ficção e poesia para adultos, jovens e crianças, tendo recebido importantes prêmios nessa área.
A experiência de Maria Valéria com a dor do analfabetismo e também com a educação de jovens e adultos foi o mote para O voo da guará vermelha. “Uma personagem se apaixona por aprender a ler e a outra descobre um sentido para sua vida, ensinando”. A autora constrói no livro o encontro de Irene, uma nordestina que vira prostituta em São Paulo, com Rosálio, um servente pedreiro. Dona de uma escrita inventiva e conhecedora da realidade de “Rosálios” e “Irenes”, Maria Valéria fez uma obra poética e forte, que dispensa trivialidades.
Em seu  última trabalho, Ouro dentro da cabeça, lançado pela editora Autêntica, a escritora evoca a história de um lutador que correu sérios perigos e andou o Brasil todo buscando um tesouro nem de prata nem de ouro: de coisa mais preciosa. No fim da longa jornada, que valeu uma vida inteira, quando ele estava perdido, sem saber por onde ir, foi que encontrou o tesouro na frente de suas vistas, onde o olho desprevenido só vê miséria e tristeza. Segundo Maria Valéria, Ouro por dentro da cabeça tem um leitor muito específico em vista, embora não exclua leitor nenhum. "Eu mesma, vetero-leitora, depois que ele chegou, li de capa a capa com prazer, como se nunca o tivesse lido. Nasceu doVôo da guará vermelha, na verdade, que contava a história, entre outras, de um jovem analfabeto que descobre a magia da literatura e cai no mundo tentando aprender a ler. Muitos amigos que, como eu, trabalham ou trabalharam justamente com a educação de adultos privados de escola na infância, que agora são milhões no país (categoria hoje chamada de neo-leitor), quiseram levar seus alunos a lê-lo, mas a estrutura do texto e o formato gráfico do livro mostraram-se complicados demais para esses leitores. Por isso, decidi fazer uma autobiografia linear desse personagem, reescrevedo e montando o texto de modo a diminuir as dificuldades para esse leitor e ir mais diretamente à história que, de algum modo, é a história dele. E a editora compreendeu o que eu propunha, fazendo o projeto gráfico adequado, enriquecido com a ilustração belíssima do Diogo Droschi (*), ao mesmo tempo popular, com jeitão de xilogravura, e sofisticada", diz a autora. E será que a literatura é capaz de nos fazer garimpar ouro dentro da cabeça? "Para quem não se contenta com seu mundinho individual e tem fome do mundão inteiro, a literatura, seja escrita ou oral, lida, dita ou cantada, semeia e garimpa ouro dentro de qualquer cabeça!", conclui Maria Valéria

Um pouco de leitura 

OURO DENTRO DA CABEÇA

ROMANCE



COMO NASCEU ESTE LIVRO


Meus queridos leitores,

este livro é filho de duas paixões que animam minha vida.

A primeira delas começou desde criança, muito cedo,
e nunca mais me deixou: a paixão pelas histórias,
o desejo imenso e urgente de aprender a ler  para explorar
todas as vidas e os mundos escritos em todos os livros;
a paixão de ler, ler, ler que tem me acompanhado sempre,
há quase 70 anos, e me faz continuar crescendo até hoje.

Ao descobrir as desigualdades e injustiças deste mundo,
fui agarrada por uma outra paixão: a de lutar para que todos,
crianças, jovens e adultos,  possam conquistar o direito de ler
e de alargar sempre mais seu mundo e sua vida.

Aos 15 anos, pela primeira vez, alfabetizei um grupo
de jovens trabalhadores do porto, na minha cidade de Santos, São Paulo.
Nunca mais abandonei a educação de jovens e adultos:
rodei o Brasil e o mundo com essa mesma paixão, 
por causa dessa missão.

Conheci muito de perto inúmeros Coisa-Nenhuma,
Piás, Marílios e Marílias, cujos sonhos, aventuras, paixões,
desventuras e lutas vocês vão encontrar aqui neste romance.


Maria Valéria Rezende  

Venho aqui me apresentar
Vim contar a minha vida, pra quem quiser conhecer
a história de um lutador que correu sérios perigos,
andou o Brasil inteiro, tentando achar um tesouro
nem de prata nem de ouro: de coisa mais preciosa.
Procurei por toda parte onde disseram que havia
um mapa desse tesouro, ou onde eu mesmo inventei
que ele poderia estar, mas não conseguia achar.
No fim de longa jornada, que valeu uma vida inteira,
quando eu estava perdido, sem saber por onde ir,
foi que encontrei o tesouro na frente das minhas vistas,
onde o olho desprevenido só vê miséria e tristeza.
Estava onde, o tesouro?
Ah, esse é o grande segredo que só no fim contarei. 

COISA-NENHUMA, filho DAS NUVENS 
É difícil explicar como foi que começou essa vida,
que é a minha, e que aqui quero contar.
Até o meu nascimento, que é o começo de tudo,
ninguém sabe explicar bem, muita coisa se adivinha,
mas sem saber de certeza. Nasci e cresci sem nome,
num lugar bem escondido que não se acha no mapa,
e vivi por muito tempo sem ter nome de respeito.
Então não posso contar como se contam as vidas:
dizendo certo o lugar e a data do nascimento, dia e ano,
bem certinho, nome do pai e da mãe.
Pra explicar quem eu sou, tem de fazer um arrodeio.
O lugar de onde eu venho, onde nasci e me criei,

fica no pé de uma serra de que ninguém sabe o nome

e tem no alto umas penhas: são as Pedras do Perdão. 


Confiram também as outras entrevista de Maria Valéria Rezende para o Blog Estudos Lusófonos, bem como suas intervenções no no Salão do livro de Paris em 2012 e no encontro “A jovem literatura brasileira” organizado pela Universidade da Sorbonne.  Cliquem nos links abaixo  para acessar os vídeos.


(*) Diogo Droschi. Nasceu em 1983, na cidade de Belo Horizonte, MG, onde ainda vive. É formado em Design Gráfico pela UEMG e em Artes Gráficas pela Escola de Belas Artes da UFMG. Pela Autêntica Editora, ilustrou os livros Histórias daqui e d’acolá, Vagalovnis e Desenrolando a língua.

Alguns links...quelques liens

Vídeos

Maria Valéria lê Geraldo Maciel .


Resenhas e informações editoriais

Conversa de Passarinhos traz o diálogo em haikais das escritoras Alice Ruiz e Maria Valéria Rezende” por Wilson Beuno  ( 19/12/2008)

Sobre Modo de apanhar pássaros à mão  ( 05/08/2006)

Reseña de O vôo da guará vermelha de Maria Valéria Rezende. Brincher, Sandro. Revista Estudos Feministas, vol. 18, núm. 1, enero-abril, 2010, pp. 274-275.

Agência Riff

Editions Métailié

Editora Alfaguara

Editora Autêntica

Críticas e comentários

Site Verdes Trigos. (27/05/2006)

Blog do escritor Alfredo Monte (6/11/2011)

“O porto encarnado de Maria Valéria Rezende” por Alessando Atanes ( 28/07/2010) 
http://www.portogente.com.br/texto.php?cod=32966

“Narrativas com fôlego” por Tânia Regina Oliveira Ramos. In : Letras de Hoje.Porto Alegre, v. 42, n. 4, p. 32-41, dezembro, 2007






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