segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Sozinho ninguém existe

Foto: Agência Periferia Revista

Sozinho ninguém existe
Uma leitura de Deus foi almoçar, novo romance de Ferréz

por Laeticia Jensen Eble

Para quem acompanha a trajetória literária de Ferréz, não há como ler Deus foi almoçar (Planeta, 2012) sem ter em mente seus romances anteriores, especialmente Capão pecado e Manual prático do ódio. A comparação é inevitável e pode até gerar certa frustração ao percorrer as primeiras páginas, quando, então, percebe-se que o livro exige um outro olhar. Aqui a escrita foge a tudo que o autor havia explorado antes, a injustiça social, as drogas e a violência física não são mais o foco; os personagens são em número reduzido; a linguagem não tem nada do dialeto suburbano e das gírias, pelas quais o autor alimentava apreço; nem mesmo o ritmo ágil e dinâmico das narrativas embaladas pelo rap aqui encontra eco; enfim, o estilo se apresenta completamente diverso. No entanto, encontramos em algumas passagens deste romance um tom bastante próximo ao de alguns contos de Ninguém é inocente em São Paulo, marcado por um estilo mais leve, reflexivo e poético.
Fonte: http://ferrez.blogspot.com.br
Se, como o autor afirma, trata-se de um romance psicológico, não é difícil ao leitor deduzir o diagnóstico: depressão. Ao mapearmos as ações e reflexões do personagem, vemos um homem que vai gradativamente evoluindo em um quadro depressivo, até chegar ao colapso. Talvez o distúrbio psíquico que leva à prostração física e ao abatimento moral do personagem justifique o ritmo arrastado e a fragmentação que se fazem presentes nos primeiros capítulos, quase desestimulando o leitor de seguir adiante. Contudo, a partir da metade do livro, a narração começa a crescer, ganhar intensidade e fazer sentido, prendendo, finalmente, a atenção e instigando a leitura.
Ainda que se pretenda um romance psicológico, esta obra de Ferréz não deixa também de ser realista. Diferentemente de seus livros anteriores, em vez do propósito de retratar a realidade da periferia e de uma coletividade, em Deus foi almoçar, Ferréz apresenta a realidade vivida internamente por um único personagem, que se mantém alheio a tudo que o cerca, quase que em uma realidade paralela. Se, por um lado, nesse romance, não há a espetacularização da violência, que tanto atrai leitores, por outro, há a possibilidade de identificação com as angústias do personagem. Mas, para além dessa constatação, o que há de comum com os romances anteriores? Em uma tentativa de resposta, pode-se mencionar o tom fatalista que predomina ao não indicar possibilidades de fuga para seus personagens. A narração parece ser necessária para justificar a morte, a morte que o personagem procura desde as primeiras páginas, já que “a vida não interessa a ninguém” (p. 142).
O protagonista, Calixto, sem conseguir se recuperar do trauma da separação e, principalmente, do fato de ter de viver apartado da filha – com a qual mantém uma ligação poética que pode ser mencionada como um dos pontos altos do livro –, é um homem que se debate diante da desilusão com a vida e, como consequência, cultiva a solidão e a misantropia. Distanciando-se cada vez mais de seu único amigo, quando não se refugia no ambiente deteriorado de sua casa, entrega-se à rua, onde vivencia experiências um tanto quanto bizarras, que só fazem ferir sua autoestima e sua masculinidade, aumentando sua prostração.
Se os laços sociais são importantes para a constituição de um ser, na medida em que é em relação à família, ao trabalho e às relações afetivas que o indivíduo se identifica e se reconhece, em Deus foi almoçar, acompanha-se passo a passo a perda de referências e o esfacelamento total do personagem. Por um lado, Calixto tenta se apegar às poucas pessoas com quem esbarra em sua perambulação pelas ruas, por outro, percebe que as tentativas são insuficientes para preencher o vazio afetivo que o consome e que ele tenta aplacar com fantasias, sonhos e delírios. O amor que alimenta pela vizinha, uma senhora que lava insistentemente a calçada de casa, revela-se, afinal, nada mais que a carência do amor maternal.
Como alternativa para estruturar seu romance e construir a narração, Ferréz lança mão de um narrador autodiegético, que orienta, assim, as intercalações temporais da narrativa, ora no presente, ora no passado. A confusão do narrador, que alterna a narração em primeira e em terceira pessoa,[1] tumultua também a percepção do leitor, mas não se dá por acaso. O que temos é um personagem/narrador que dialoga consigo mesmo, enquanto rememora alguns eventos relevantes dos últimos momentos de sua vida e de seu passado, refletindo sobre eles, para, então, depurá-los (e editá-los), enquanto se põe a escrever um livro de histórias infantis, que o personagem deixa para sua filha por ocasião de sua morte.
Em uma mostra de desapego, em vários momentos, o narrador tece críticas ao colecionismo, personificado na pessoa do amigo Lourival. Enquanto, em vida, a acumulação de objetos parecia algo inútil para ele, ao final, após atravessar o “portal”, tem-se uma nova reflexão – que deixa o leitor em suspensão, forçando a rememoração de todo o romance. No que seria uma experiência de além-morte, Calixto se depara com inúmeras gavetas, as quais guardavam, cada uma, como em uma coleção, um objeto de sua vida, pleno de significações afetivas e construções subjetivas – do boletim da escola às fotos com sua filha. Esta imagem faz lembrar a exposição sobre Clarice Lispector, montada pelo Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), em 2008. Em uma das salas montadas, repleta de gavetas em todas as paredes (ver foto), cada gaveta acondicionava um objeto pessoal, um fragmento da memória da autora, surpreendendo os que se punham a abri-las e iam, como num quebra-cabeças, montando uma biografia sentimental de Clarice. É assim que, finalmente, as palavras de Seu Roberto fazem sentido: “As coisas só existem quando a gente acredita nelas” (p. 36).
Fonte: http://rostovms.blogspot.com.br/2010/06/gavetas.html
Para concluir com uma observação crítica, não se pode deixar de comentar a intenção declarada por Ferréz com este livro, que é sair um pouco do rótulo de marginal e do gueto da periferia, mostrando que pode e sabe fazer diferente. E fez, com certeza, saiu-se bem. No entanto, apesar de mostrar habilidade ao estruturar esse romance, fica a impressão de que ele acaba caindo nas mesmas armadilhas e esquemas empregados pelos autores da elite – que ele tanto critica em seus discursos públicos –, como se disso dependesse fazer parte do “clube”. Infelizmente, o discurso político de Ferréz não parece ter muito eco aqui. Não obstante a crítica recorrente ao sistema, que o autor sempre coloca, Em Deus foi almoçar, os personagens principais são todos brancos. Não há, por exemplo, problematização de questões raciais ou de gênero – assim, a ex-mulher de Calixto, é muito mais retratada por suas qualidades ao cuidar da casa do que por suas capacidades intelectuais. Daria uma boa reflexão analisar a forma abjeta como as várias prostitutas que aparecem ao longo do romance são representadas. Ferréz já afirmou a pretensão de que seu próximo romance seja narrado por uma mulher, fica a expectativa, então, de que ele consiga amadurecer mais essas questões.

Laeticia Jensen Eble é doutoranda em literatura na Universidade de Brasília e integra o Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea (UnB/CNPq). Sua pesquisa atual, na linha de pesquisa de representação, detém-se sobre a produção literária dos autores da periferia urbana ligados ao movimento hip-hop, como Ferréz, Sérgio Vaz, Emicida, GOG entre outros. No mestrado, trabalhou com as xilogravuras de Oswaldo Goeldi e o romance Eles eram muitos cavalos, de Luiz Ruffato (http://goo.gl/XRmG5).

Sobre o autor:
Ferréz ganhou projeção e se tornou conhecido no meio literário brasileiro com o lançamento de Capão Pecado (2000), romance ambientado no bairro do Capão Redondo, periferia de São Paulo, onde mora o autor. Desde então, Ferréz passou a colaborar com a revista Caros Amigos, tendo sido responsável por três edições especiais (2001, 2002, 2004) dedicadas à literatura marginal, garantindo, assim, visibilidade a um grupo de autores da periferia que passou, a partir daí, a ganhar corpo e conquistar seu lugar no campo literário nacional assumindo a responsabilidade e a autoridade de sua própria representação. Ferréz publicou também Manual prático do ódio (2003), Ninguém é inocente em São Paulo (2006) e  Cronista de um tempo ruim (2009). Atua, ainda, como roteirista, rapper, e autor de quadrinhos e livros infantis, e desenvolve diversas atividades junto à sua comunidade.

Mais informações:
·         Blog de Ferréz: http://ferrez.blogspot.com.br
·         Manifesto “Terrorismo literário”: http://goo.gl/NUedY








[1] Não se pode deixar de notar que há também no livro capítulos narrados pela perspectiva dos outros personagens, dos quais, destaca-se o capítulo 51, narrado por Carol, ex-esposa de Calixto, em que a visão dela dos fatos é apresentada ao leitor. Como o próprio Ferréz citou em entrevista, esse detalhe trata-se de um ensaio em direção a um novo projeto de livro, em que a protagonista será uma mulher.

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