quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Rapeando e as empreguetes

MC Marechal, Higo Melo, Dino Black. Yalê Gontijo e MC Ahoto. 

A nova classe média e as mudanças no rap
Por Andressa Marques[i]
www.blogueiratardia.blogspot.com

Está para surgir novidade que cause tanto debate quanto a tal “ascensão da classe C”. A preocupação em avaliar o impacto do consumo da “nova classe” é discutida com alvoroço e frisson em diversos setores. Recentemente, Brasília foi palco de um evento que refletiu acerca desse advento econômico brasileiro com mais densidade do que vem ocorrendo. O projeto RAPensando (que reuniu shows de artistas do rap do DF e outros Estados durante todo o mês de julho) encarou a responsabilidade de promover um debate acerca da nova classe média e as possíveis mudanças que isso ocasionou no rap. Qual seria a relação do avanço econômico com avanço do rap em termos de público e mídia?
Os artistas Marechal, Higo Melo (Ataque Beliz), Dino Black (ex – Morte Cerebral) e MC Ahoto, sob a mediação da jornalista Yalê Gontijo, protagonizaram a conversa acerca do impacto dessas novas dinâmicas no meio em que atuam. Esse texto não é uma reportagem do que ali foi dito, já passou o tempo de ser uma notícia, mas sim, uma breve reflexão acerca das ideias que ali surgiram.
Segundo dados da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República*, está na classe média quem vive em uma família de renda mensal per capita entre R$ 291 e R$ 1.019. Então, se o somatório dos salários e rendimentos de quatro pessoas de uma família superar R$ 1.164 por mês, todos serão considerados de classe média. O crescimento econômico brasileiro e as políticas públicas de distribuição de renda são alguns dos responsáveis para que um número cada vez maior de pessoas pudesse lançar mão de diversas ferramentas, produtos e serviços outrora nada acessíveis. Pensando no nosso cotidiano, é evidente que a possibilidade de comprarmos computadores, celulares, termos acesso à internet ou mesmo termos os dois reais para pagarmos a hora da lan house confere novas formas de lidarmos, inclusive, com a arte. No entanto, a fala dos artistas aqui citados alerta para o fato de que essa “facilidade” pode escamotear outros interesses. A discussão da mesa foi norteada pela comum compreensão de que a categoria “classe C” é configurada mais como um discurso dissolutivo empreendido pelo Estado e pela mídia coorporativa que visa o desmantelamento de algumas posturas combativas, do que como um evento que desencadeie mudanças efetivas nas classes sociais.
O rap está acostumado a ter como matéria os acontecimentos políticos, sociais e econômicos historicamente maquiados pela máquina estatal. Se deparar com percepção de artistas que colocam para jogo a estagnação existente nessa tramada mobilidade é algo inesperado para os que forjam as ilusões de bem estar para a classe que carregou “Brasis” nas costas. Os(as) artistas do rap que não compraram o discurso estatal-midiático da explosão do consumo da classe pobre estão na contramão da ideologia, essa que tem como objetivo fazer o(a) dominado(a) acreditar e agir como se a exploração fosse natural ou até mesmo “glamourosa”, vide a jornada de gliter que inventaram para as empregadas domésticas das novelas.  Todo esse confete para cima da “classe C” me instiga e me transformou em um ser que pisa em ovos diariamente. Já olhei com mais otimismo para esse evento, não quero, absolutamente, negar os avanços, temos mais jovens de classes populares nas universidades hoje, porém não é bom perder de vista que as exclusões são apenas atualizadas nessa sociedade. Há vinte anos, ter um diploma superior garantia um salário que sustentava a família “clássica” com tranquilidade, atualmente esse mesmo diploma sustenta o eterno aperto do cheque especial sempre no vermelho, o carnê das Casas Bahia, os infinitos juros dos cartões de créditos e daí, o patrão está lucrando menos com isso?
A parte boa dessa instrumentalização da classe C como a educação, o acesso à comunicação e aumento da autoestima dos jovens da periferia precisa ser trabalhada para que não caiamos no fosso arquitetado pela ideologia: a improdutiva sensação de “bem estar social”. O rap e toda uma gama de agentes que atuam sem o braço do Estado como as mídias alternativas e as ONG’s (algumas delas), estão formando boa parte da juventude herdeira de anos de exploração de toda uma classe e isso fez com que o poder começasse a forjar mecanismos que freassem a sagacidade reflexiva que essa combinação pode causar. Daí o burburinho e a cansativa repetição de que o rap está mudado e expressando uma variedade temática inédita. Será mesmo que o rap mudou seus temas ou o poder estatal-midiático percebeu nele um potencial agente de reflexões e resolveu criar uma caixinha oportuna de “futilidades” para enquadrar sua produção?
MC Marechal, quando questionado na mesa acerca dessa “mudança temática” do rap, respondeu que sempre existiu variedade temática no gênero, mas o que ocorre hoje é a tentativa (já tão repetida) de apropriação de algumas manifestações genuinamente populares por parte das elites. Assim fica fácil manipular: ou o rap tem de ser sempre guetizado ou diluído para ser consumido por um público maior e comercializado nos meios de comunicação que estão a serviço da ideologia.
O lema punk setentista do “faça você mesmo” é importante para a configuração do momento que estamos vivenciando. A manipulação de ferramentas sofisticadas e equipamentos refinados deixou a precariedade no passado, o rap hoje é produzido com alta qualidade técnica e a agência comunicativa de seus produtores(as) expandiu seu consumo de forma considerável. O otimismo temático que a ideologia tenta referendar para o rap hoje é um fosso perigoso. Manipular a falsa impressão de que seus temas estão diversificados pode ser mais uma forma de promover o “bem estar social” e facilitar sua “apropriação” por parte das elites, como bem colocou Marechal.
Esse debate tem mil pormenores, construir pensamentos ao passo que as coisas estão acontecendo é estar disposto a re(formular) ideias constantemente. O rap é um gênero disposto a desconstruir discursos, prisões e violências a partir de matéria do cotidiano e isso o obriga a empreender uma autorreflexão sobre sua cena sempre. A discussão empreendida no projeto RAPensando deixou o alerta para que estejamos atentos(as) à ilusão que querem nos vender. Ser empregada doméstica não é tão glamuroso como diz a novela das sete, a “modernização” das cidades que receberão a Copa do Mundo e as Olimpíadas não é tão benéfica quanto parece (essa classe C “consumista” está indo viver onde agora?)**. Diluir o discurso do rap em litros de água com açúcar e no “avanço da classe C” pode ser o desenho de uma alegria vaporosa tão falsamente ilustrativa quanto a das Empreguetes.




*  Fonte “O que define a classe média”, por Moreira Franco e Ricardo Paes: http://www.sae.gov.br/site/?p=12489
**  Texto bacana do Observatório de Favelas sobre esse problema aqui: http://rioonwatch.org.br/?p=3464



[i]Artigo publicado no site da Central Hip Hop. Andressa Marques é Mestranda em literatura pela Universidade de Brasília, pesquisa a literatura afro-brasileira e o rap feito por mulheres, é também blogueira e colaboradora do site Central Hip Hop. Outras informações nos sites :



Um comentário:

  1. Parabéns Andressa por uma belo texto! Minha opinião é que o Rap mudou muito e tem que mudar. Sem perder sua raiz, sem perder a essência e objetivo, qual o objetivo do Rap hoje?

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