sábado, 4 de agosto de 2012

Os novíssimos novíssimos.


Os novíssimos novíssimos.

Elvira Vigna

Fiz uma pergunta, com meus olhos, a cada um dos 22 artistas da Novíssimos, uma exposição anual organizada pela galeria do IBEU do Rio de Janeiro há 42 anos. A pergunta foi sobre o futuro. Como eles viam e se viam, se é que viam e se viam, eles e a arte, amanhã.
A pergunta não estava pronta. Foi se fazendo depois que entrei, ao ver um ou dois quadros ou vídeos, ao notar o bom humor e a ausência de grandiloquência. Nenhuma. Zero.
Aliás, uma digressão. A Granta dos melhores jovens escritores brasileiros. No caso, em vez de 22, 20. E com um aposto falso, marqueteiro, o geracional, somado a uma bazófia, seriam os "melhores", o futuro da literatura brasileira e outros ridículos. Nada disso aqui. Os Novíssimos do IBEU são de todas as idades e respondem à minha pergunta dizendo que não se trata desse tipo de futuro, o de um pouco definido "sucesso", mas o da garantia do jogo, da troca. Chamemos de arte. Aceita-se a palavra significado. Linguagem. Jogar o jogo infinito da linguagem, eis o "sucesso" almejado.
Vou falar um pouco do que vi, começando pelo que mais gostei.
Alex Topini trouxe três vídeos. Num, a referência literária a Mário Quintana ("Todos estes que ai estão / Atravancando o meu caminho. / Eles passarão. / Eu passarinho!").
O "eu passarinho" vem escrito na camiseta de um cara comum (o artista) que fica lá, assobiando trinados. Com cara de pobre,  brasileiro a mais não poder. No segundo vídeo, Topini berra "artista!" para o nada branco e fica lá, mão em concha no ouvido, tentando ouvir pelo menos um eco. O terceiro fala sobre o silêncio. Quer dizer, não fala. Cartazes apresentam frases sobre o silêncio. As frases são banais, ele não se vende como um grande pensador, não é isso.
Alex topini
Sofia Caesar, formada em dança pela Angel Vianna, dança. Dança em silêncio dentro de uma sala burguesa, no espaço pequeno entre mesas e armários, bibelôs, toalhinhas. Uma mulher que existe nos espaços pequenos que conseguiu obter. O vídeo é em looping, o que aumenta sua força, é uma dança que não para, apesar de tudo e todos.
Alexandre Hypólito também faz, como Sofia Caesar, um comentário de gênero a partir de suas pequenas baionetas, presas na parede. Uma delas carrega, à guisa de culhões, dois desses saquinhos de pano que, nas HQs infantis, estão sempre cheias de moedas de ouro. A outra baioneta tem uma bolinha vermelha na ponta. Quase um nariz de palhaço.
Alexandre Hypólito
A portuguesa (radicada aqui) Ana Carolina Druwe, desmancha, com tíner, imagens da cultura de massa. Faz o mesmo que Moisés Crivelaro, com imagens da cultura de massa cobertas de uma tinta a óleo pesada, texturizada. Ambos se afirmam, assim, como sujeitos que enfrentam um processo de desindividuação, que é o do consumo. 
Moisés Crivelaro
Também nessa lista entra Alexandre Rangel, que usa chiclete de bola para fazer lindo tapetinho cor-de-rosa, onde gruda sua carteira escolar, ela também cheia de chiclete. O título também é bom: "Pequenas transgressões".
Arthur Arnold pinta o tema, em vez de apontá-lo através da linguagem como seus três colegas recém citados. Seus dois acrílicos de grandes dimensões, "Mary" e "John", mostram um casal de meia-idade tomando sol com suas banhas e seus objetos caros, tecnológicos.
Pedro Victor Brandão também denuncia a tentativa mercadológica de caracterizar a tecnologia como instrumento de status, como garantia de alguma coisa. Mas, a meu ver, com um grau de sutileza e eficácia maior do que Arthur Arnold. Faz o seguinte: na galeria, eis uma televisão de última geração com a tela quebrada. Nessa televisão, passam filminhos institucionais típicos de ambientes de alta tecnologia. Tudo asséptico, todos sorrindo, jovens de futuro levemente estrangeiros, e tudo funcionando às mil maravilhas. Lá, no filminho. Mas a tela do computador que foi filmado coincide com a tela da televisão quebrada onde passa o filminho que mostra tudo sendo tão perfeito e lindo. E você só pode rir. Chama-se "A exaustão dos dêiticos" e vou voltar a esse título daqui a pouco.
Pedro Victor Brandão
Nena Balthar também quer chegar lá. Sendo que seu "lá" nada tem de asséptico. Pelo contrário. Sua obra é um tríptico. Três vídeos de alguém nadando, ponto de vista de quem nada. E nada e nada. Sem horizonte à vista. No segundo, o perfil do Rio de Janeiro lá longe, a dar novo alento. No terceiro, é o prédio do Parque Lage (centro principal do estudo de arte da cidade), o que o pobre nadador vê, entre uma braçada e outra, de dentro da água agora não mais oceânica, mas a do laguinho retangular do edifício histórico. Para se chegar ao Parque Lage, muito esforço, muita água. E é isso o que ela quer. Nenhuma máquina que funciona às mil maravilhas. Não. É um sonho do difícil, de prováveis fracassos, nenhuma perfeição à vista. O da arte. Também gostei bastante.
Há os que apontam os limites da tecnologia "infalível" contrapondo-a a obsolescências, uns de forma mais irônica do que outros. É o caso de Paula Scamparini e seus papeizinhos artesanais cortados, sujos, simples. De Bete Esteves e suas duas máquinas hilárias, uma de frente para a outra. Fazem lembrar carrinhos de algodão doce. Fazem um "bum" e soltam um anel de fumaça. Do tempo em que se fumava. Do tempo em que se fazia anéis de fumaça. É ainda o caso de Jonas Arrabal, que ressuscitou um mimeógrafo. E de Maikel da Maia, que usa um carimbinho de galinha e com ele sai carimbando paredes, suportes das obras e "livros de arte". Em um deles, a galinha anda para trás, se o folheamos rapidamente.
Quatro artistas buscaram a violência. Uma dessas violências é a atual, num assassinato encenado e fotografado (Elen Gruber). Outra violência é medieval, na tortura feita em aguada sobre papel, cuja leveza de técnica teve o mérito de reforçar o tema (Paul Setúbal).
Paul Setúbal
Lucas Osório se filmou pixando as paredes de um túnel urbano. Luana Aires pôs em looping sua chegada a um porto supostamente seguro, seu apartamento.
Pedro Moraes faz um exercício de perspectiva, pondo o quarto pé de uma cadeira como rastro no chão, o que a faz desabar; Fabiano Devide, com formação em educação física, faz quatro figuras cansadas e bem pouco atléticas; Felipe Fernandes se rende ao mercado com duas grandes telas em acrílico perfeitamente vendáveis; e a dupla de artistas Nathalia Gonçales e Marina Murta revive Duchamp assinando-se "Mãe Duchampa": o que ele seria se vivesse hoje. Temos um dos pontos altos do humor do grupo nesse Duchamp assumido, transexual, a oferecer um passe, um descarrego, para "romper com as ervas daninhas" que prejudicam a criatividade. Talvez por uma módica quantia, talvez apenas através da venda de incensos, oferecidos no local.
Mãe Duchampa

E volto ao dêitico. E ao artista que falta: Felippe Moraes. Sua obra é simples. Um tronco fino cortado ao meio no sentido longitudinal. Dentro está escrito "1/2". Ou seja, metade. Isso, em uma metade. A outra metade tem o mesmo "1/2", mas espelhado. Como se o tronco, antes de ser cortado, contivesse o seu futuro de tronco cortado, e já, humildemente, (se) dissesse metade.
(Ou como se o "1/2", aberto assim, uma metade espelhando a outra, fosse um fóssil. Um fóssil lá desde sempre, contendo, há milênios, sua afirmação, lá, para quando alguém o abrisse. E descobrisse: o fóssil, lá, presente no futuro, e sabendo disso desde sempre.)
Felipe Fernandes

Não vou repetir aqui a perda da centralidade do humano. Ok, vou repetir: primeiro a terra a girar em redor do sol, depois o lance da hereditariedade a partir do macaco, depois Freud, depois, ai, você sabe. Também não dá vontade de falar sobre a viagem construtivista, sobre a tentativa de ordem e controle, a independência da obra de arte em relação a seu contexto e entorno. Só vou dizer que, ao pôr as condições de significação, a sintaxe do artístico, junto com o "pronto" artístico, com uma finalização exibida como temporária, esses artistas novíssimos são de fato novíssimos. No meu entender, estabelecer as condições de interpretação, os limites, "erros" e o funcionamento da obra, junto com a obra em si, é a melhor e mais atual maneira de poder existir. Ou a única.
É um breque eficientíssimo contra o que Karl Marx (sorry) chamou de Entfremdung. Estranhamento. A nossa velha e conhecida alienação dos anos 1960. Segundo ele, causada pela perda de capacidade da sociedade em produzir significado a seus membros. Culpa dos processos industriais do tempo dele ou dos tecnológicos, no nosso, mas com um só remédio: empatia. Ou Einfühlung. Que só acontece quando há uma relação panteística (não só artística, não só tecnológica, não só nada, mas tudo junto, deslizando, deslocando) e uma confiança em algum tipo de futuro comum. Nunca fixo, mas de jogo, das articulações infinitas do jogo.

Elvira Vigna
Agosto de 2012

Consultem as outras resenhas de Elvira Vigna na rubrica Artes ou no site da escritora  : 

Assistam ao depoimento de Elvira Vigna para o blog Estudos Lusofonos. Confira nos links: 
A Galeria de Arte Ibeu inaugurou no dia 12 de julho, às 20h, a exposição “Novíssimos 2012”. A mostra ficará aberta ao público até o dia 10 de agosto, com visitação das 13h às 19h, de segunda a sexta-feira, na Av. N. Sra. de Copacabana, 690 | 2º andar. A entrada é franca. Novíssimos 2012 conta com a participação de 22 artistas que apresentarão trabalhos em desenho, pintura, instalação, objeto, vídeo e fotografia. Os artistas selecionados são: Alex Topini (Rio de Janeiro), Alexandre Hypólito (Rio de Janeiro), Alexandre Rangel (Rio de Janeiro), Ana Carolina Druwe (São Paulo), Arthur Arnold (Rio de Janeiro), Bete Esteves (Rio de Janeiro), Elen Gruber (São Paulo), Fabiano Devide (Rio de Janeiro), Felipe Fernandes (Rio de Janeiro), Felippe Moraes (RJ, atualmente morando em Londres), Jonas Arrabal (Rio de Janeiro), Luane Aires (Rio de Janeiro), Lucas Osorio (Rio de Janeiro), MÃE DUCHAMPA (Rio de Janeiro), Maikel da Maia (Curitiba/PR), Moisés Crivelaro (Brasília/DF), Nena Balthar (Rio de Janeiro), Paul Setúbal (Goiânia/GO), Paula Scamparini (Rio de Janeiro), Pedro Moraes (Rio de Janeiro), Pedro Victor Brandão (Rio de Janeiro), Sofia Caesar (Rio de Janeiro).
Mais informações no site da Galeria IBEU : http://ibeugaleria.blogspot.com.br/


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