terça-feira, 10 de julho de 2012

O riso amargo das distopias

Adeus à carne,  de Michel Melamed
O riso amargo das distopias

Elvira Vigna

Em 1957, Charles Chaplin fazia o seu "Um rei em Nova York".
Semana passada fui ver "Adeus à carne", de Michel Melamed (*). Me lembrei de Chaplin. Deste Chaplin. Com o passaporte confiscado e impedido de entrar nos Estados Unidos pelo mccarthismo. Chaplin ri. O riso amargo (mas amoroso) das distopias. Melamed também. O passaporte confiscado de Melamed o foi pelo mercado, pela TV. Pelos bons costumes, pelo politicamente correto. É deles que ele se vinga aqui.
Um rei em Nova York, Charles Chaplin
O espetáculo abre, como em um filme, com a passagem dos "créditos". Os atores. Vêm de máscara teatral borrada, figurinos teatrais rasgados, gestos cansados. Passam, sempre  na mesma direção (da esquerda para a direita), na nossa frente. Passam e passam, em silêncio. Enquanto isso, um holofote ilumina ... a plateia.
E isso já é resumo suficiente.
Vamos nos ver, nós, que lá fomos. E vamos nos ver depois de terminado o fingimento, a ficção, o entretenimento. Vamos nos ver no cansaço.
A partir daí uma sequência de esquetes arrumados, mal e mal, como um desfile. O desfile máximo pátrio, o de uma escola de samba. De que gostaremos sempre, mesmo este, composto por erros e dores. Porque perpassa, nesta crítica, um amor ao criticado, a um Brasil pouco definido. E por ser pouco definido. Músicas cantadas em inglês e português, tanto faz. Referências sem fronteiras, enquanto canta um sabiá. Aliás vários. Não sei se é sabiá o que escutei na trilha sonora. Acho que é.
Algumas das risadas que eu dei e outras nem tanto:
- o cu enfeitando o centro da cruz de malta. Gratuito. Justamente por ser gratuito, só assim, para chatear (e o epílogo hilário da frase dita para a plateia: "que dia cu, hein!");
- o sinal da cruz feito por atriz segurando um pau de razoável proporções. Idem. Idem;
- as cusparadas alentadas das atrizes, de resto tão bonitinhas, em direção à plateia. Idem, idem;
- a historinha da cidadezinha que batizou todos os paus com nomes femininos e todas as xoxotas com nomes masculinos, só para terminar com uma pouco edificante versão de João e Maria;
- os dois verdugos da Inquisição católica que se enrabam em um canto porque sobra um tempinho;
- a mesa de bar de subúrbio. Empregadas, secretárias, motoristas vão falando suas frases de submissão cada vez mais ritmadas, à medida que ficam bêbados, até os sins-senhoras, os é-pra-já-doutores virarem um sambinha. Recebem nota de um jurado-deus, em off: nota sete.
Nada funciona muito bem. Todas as músicas, em algum momento, sofrem uma pane elétrica e saem de sintonia, obrigando a interrupção de coreografias e atuações. Acidentes fortuitos se integram sem problema algum. No dia em que fui, uma vassoura perdeu o cabo. Podia estar no script. Vai ver estava. No fim do espetáculo, quem agradece os aplausos é uma trupe de quase mendigos, mortos de frio. A cortina fecha. Um braço aparece por trás do pano e deixa um pratinho no proscênio. Esmolinhas serão bem-vindas em uma última risada, esta autoral, a de uma classe teatral sem dinheiro a rir, ainda assim, de si mesma.
Mas é sério.
Melamed usa a técnica televisiva de nunca se estender no que não for absorvível rapidamente pelo olho de quem olha. São estereótipos, quase. Só que a falar do que não é estereotipado. Estereótipos a falar do antônimo do estereótipo. Carnaval é lantejoula. Que é vermelha e que é cuspida por foliã ao ser esganada por outrem. O grito de alegria vai sendo mostrado em câmera lenta até virar grito de angústia. O passista pode estar tendo, na verdade, um ataque epiléptico. O romântico casal canta junto românticas canções, que interrompem no meio, abraçados, em gargalhadas de ironia.
E uma tristeza enorme, pelo tempo todo. Nas músicas que falam de tristeza. Na infantilização caricata, de propagandas recitadas com voz de professora primária, a terminar com o plim, plim esperado. Nas redes de TV a lutar para chegar em primeiro lugar na frente do palco. E, para mim com especial apreço, nos sapatos de salto alto que prendem as mulheres no chão; nas grávidas presas em correntes que acabam por se beijar entre elas, as barrigas comprimidas. E na noiva, terrível, que passa em lentidão excruciante, com um grito à la Munch, mudo, preso na garganta. Na idiotinha que diz sim para tudo e principalmente para o pedido de casamento ("Mas eu sou gay!" "Sim, sim! Este é o dia mais feliz da minha vida!").
Um rei em Nova York, Charles Chaplin
No filme de Chaplin, a música inicial faz citação ao hino nacional americano e o Rei Shadov fala, assim que chega em Nova York, "This wonderful America!", com uma ironia apenas pela metade.
Porque é isso o que fica. O que não está lá. Em Melamed e em Chaplin, o que fica é o que poderia ser e não é. O que gostamos como se lá estivesse, mas não está. Um e outro nos obrigando a ver a ausência.
Chaplin também usa a estrutura de desfile. Em mesa de restaurante ou em quarto de hotel, passam os estereótipos da vida americana: o bangue-bangue, o erotismo de buraco de fechadura de falsos pudicos, a cirurgia plástica da juventude eterna. Uma auto ironia, aqui também, em cenas de pastelão na cara. E principalmente, a sociedade de consumo e publicidade. Mais do que qualquer sonho de energia barata que traria a utopia para todos, é a participação em filmes publicitários de televisão o que vai tirar o rei-Chaplin da miséria em que se encontra.
Na obra de Chaplin, o personagem Rupert, um menininho politicamente de esquerda, é quem dá o recado que Chaplin gostaria de dar, e é também quem paga o preço por isso (é destruído psicologicamente pelo governo, escola e demais autoridades). Em Melamed é ele mesmo quem dá o recado. E é ele mesmo quem paga o preço, ao estender simbólica e, acredito, realmente, o prato para uma plateia para lá de desconcertada. O teatro era da rede Sesc. É um esforço que poucas vezes vejo elogiado. O Sesc traz, para uma classe média de televisão e ideias pouco expostas a mudanças, espetáculos experimentais, criativos, de uma qualidade inovadora que, sem esta rede, talvez não se viabilizassem. O mérito é duplo, justamente por ser esta a plateia, a que se desconcerta. A plateia de associados que têm assim, na sua frente, e por preço pagável, o que de outra maneira não teriam. O preço, que Melamed também, pelo visto, considera pagável, é o de desconcertar o público que só queria rir de um pastelão.

(*) Adeus à carne. De 07/07/2012 a 19/08/2012, no Sesc-Santana, São Paulo.
Atuação: Alessandra Colasanti, Bruna Linzmeyer, Giselle Motta, Michel Melamed, Pedro Henrique Monteiro, Thiare Maia
Criação e direção: Michel Melamed
Produção: Bianca de Felippes
Direção musical: Lucas Marcier e Fabiano Krieger
Cenografia e objetos: Bia Junqueira
Iluminação: Adriana Ortiz
Figurino: Luiza Marcier


Elvira Vigna
Julho de 2012

Consultem as outras resenhas de Elvira Vigna na rubrica Artes ou no site da escritora no link http://vigna.com.br/

Assistam ao depoimento de Elvira Vigna para o blog Estudos Lusofonos no link : Elvira Vigna




Julho

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