terça-feira, 31 de julho de 2012

Digamos assim


Fabio Morais, Escombro, 2007

Digamos assim (*)

Wladyr Nader

Que fique bem claro, assunto proibido inexiste para escritor que se preze. Faço por isso minha reflexão progredir, absolutamente convencido de que me acenam de longe as chamas do inferno. Preciso dizer a mais alguém que a morte do papa serviu para frustrar o  lançamento do romance em que tanto  me empenhei, na esperança de obter a benevolência dos críticos e a  compreensiva atenção dos amáveis leitores? Não, talvez não seja o caso. Mas você há de concordar que o castigo tem origem conhecida.
Portanto, foi-se embora sábado o segundo João Paulo e, cancelada a festa, o pequeno volume não saiu da editora por razões algo obscuras mas, tratando-se de quem se tratava, perfeitamente aceitáveis. O encontro  havia sido marcado para um  Rotary desses da vida, sob protestos reconhecidamente religiosos de seus associados, de hábito avessos a voos da imaginação, supostamente os meus. A ira divina se voltaria contra eles se o lançamento fosse mantido, apesar do adeus do papa a esta existência amarga em que em conjunto estamos mergulhados. Se a ideia era mesmo essa, para que insistir, não é verdade? Quanto a mim, obviamente, já que nem católico sou, nada a ver com a questão, embora autoridade em enxergar barbaridades em qualquer dos santos credos da igreja que for, dos quais  espertamente me distancio.
Se encrencaram com o meu romance, recheado de  canalhices como o mais abusado  humanitarismo e a mais deslavada fé nos bons sentimentos de homens, mulheres e gays, não sei, porém rolou uma coisa  esquisita e imprecisa, que acabou com a minha dissimulada alegria pelo suposto retorno às prateleiras e gôndolas das livrarias, após anos de deliberado ostracismo. Aceitei as condições que me impuseram, fiz meia-volta volver e, se usasse chapéu, enfiaria o meu e cairia fora sem dar até logo.
Desejo acrescentar ao que acabei de narrar uma experiência diferente por que passei à época para ver se surge acordo entre nós dois, eu e você. Em resumo, é a história de um  amigo querido que, ao que tudo indica, morreu mas não morreu, o que explicarei na sequência. Chamava-se Arsênio não sei bem por quê — talvez  uma fraqueza dos pais pelo teatro clássico —, mas me importunava seguidamente vivo ou morto: vivo, quando  se postava no meio do caminho pelos motivos mais estapafúrdios, morto porque deixou sequelas em minha  vida acobertada pela desonra, o que, se sobrar tempo, esmiuçarei sem o menor constrangimento.
Sim, talvez não me tenha feito entender e aqui vai: dinamitávamos intelectualmente tudo que fosse suspeito que nos aparecesse pela frente, de fatos a pessoas. Era, e ainda é para mim hoje, uma espécie de vocação para desestabilizar os bem-comportados, quaisquer que eles sejam ou onde se encontrem. Não é por gosto, não, é a nossa maneira de  infelicitá-los, por conta do mal que suas omissões  fazem aos demais.
A nossa atitude é uma exceção ou foi, já que o meu bom Arsênio de guerra desapareceu ou coisa parecida. Pois não nos perfilamos todos no seu enterro, cada qual chorando ao seu modo e por motivos diversos, e o caixão nada de abrir-se para o nosso derradeiro e eterno  ósculo?  Vimos pela janelinha que se tratava dele mas lanço mão do cinema para levantar a suspeita de que a  sua imagem, ali clara e rica, resultava de efeitos especiais, uma vez que o meu companheiro de um sem-número de inquietações vem dando sinais de não haver abandonado este mundo.
Ou seja: fiquei meio perdido eu próprio e parti para as especulações aqui registradas, sob o argumento de que o escritor conta com toda a liberdade para fazer o que quiser se pretender tornar o seu texto verossímil  como manda o figurino. O problema é saber que figurino é esse.
Ponha o que der e vier no mesmo caldeirão do diabo, como batizaram no Brasil aquele melodrama barato com a Lana Turner — que a TV reprisa religiosamente  a cada semestre —, e terá um melhor quadro das  minhas dúvidas e dos meus passos em falso, que redundaram em alguma coisa nociva e estúpida.
Sem querer mergulhar ainda mais fundo, malgrado o fazendo, me sinto no dever de confessar que sou dado a intuições, quando não premonições. O mais certo é ficar com a primeira hipótese: considere-me apenas um intuitivo que encara a vida com indiferença, por desconfiar  que ela não dura muito. Assusta-me, com certeza, mas, cético por natureza, repito como Jamelão, que já passou dos 90, que estou na prorrogação, embora com 50 menos que ele. Não, não bebi nem cheirei, é realidade pura, a minha cabeça viaja longe,  me perco e, quando acordo da fantasia, descubro terra arrasada à vista.
Primeiro acentuemos as diferenças entre intuição e premonição, que são primas-irmãs: quando uma falha, a outra está lá, procurando emergir do fundo do poço da imaginação de gente doentia como eu. Tenho  consciência de que é uma desgraça sem tamanho  sobreviver com essa capacidade intuitiva que acaba virando premonitória, mas insisto em não misturar a com b. Porque, se fizer isso, me danarei e deixará de existir qualquer tipo  de escapatória. Digo o que digo porque venho sendo vitimado por estranhas espécies de  visões e preciso encontrar uma saída, no mínimo para  não enlouquecer, como o meu Arsênio odiado e querido. Com certeza, ele possui parte nisso, já que aparece e desaparece das minhas vistas, como se eu não existisse, sugerindo ações e comportamentos em geral condenáveis, para dizer o mínimo. Ele me aponta caminhos, ciladas, e isso é que me incomoda, como, por exemplo, diante da morte do papa. Tentou convencer-me por sinais, pormenores dos mais variados, e entrei de cabeça, não ignorando os perigos todos. Está bem que adiar um lançamento de livro não constitui nenhuma tragédia, contudo é como se o papa me houvesse impedido de cometer um tipo de crime, quem sabe contra as pessoas que se acotovelariam para obter o meu autógrafo, sob o pretexto de se acharem frente a frente com um dos grandes das letras nacionais.
Quero dizer é que não sou um grande das letras nacionais e sei disso. Os meus compromissos são, ao contrário do que pode ter parecido até aqui, diretamente ligados ao social. Existiu tempo — e de tal fantasma não me livrei em meia dúzia de livros — em que pensei demais em mim e me dei mal: o narcisismo aflorou e fui de alguma forma obrigado a me penitenciar, primeiro entre as quatro paredes da Santa Madre Igreja, depois com familiares e chegados. Compreendi que estava tudo errado e me redimi ou suponho haver me redimido, para o bem e para o mal.
Por tudo que falei é que admiro o Machadão, a  simplicidade e a sutileza dele: conta uma história e a  ninguém restam dúvidas a respeito. Sente-se à vontade ao atuar como simples narrador e não comete desatinos por mero esquecimento. Já os romances e contos que escrevo são circulares à minha moda, se você me entende, beligerante e pretensiosa, às vezes ganhando e às vezes perdendo o fio da meada. Ou seja, pretendo desculpar-me por eventuais fragilidades, até não apostando no meu taco. Não merece que apostem nele, realmente. Você é testemunha de que almejei desde o começo me pautar por uma linha de coerência para não largar nada pendente. Debite todas as obscuridades ao velho Arsênio, que some e ressurge sob os menores pretextos. A sua imagem vai e volta, trocamos uma dezena de palavras, nos acertamos, eu parto ou ele parte.
Não, não bebi nem cheirei, apenas me acho em estado de abandono. Com certeza houve falha de comunicação ou não fiz ligação direta entre uma coisa e outra. Se a narrativa derrapou ou sonegou informações, me ajude a reconstituir alguns amargos detalhes, o principal deles o da última e rica conversa que tivemos, em que resolvemos usar explosivos para destruir a ação maldita da memória e da imaginação. Ele aceitou os meus termos e eu aceitei os dele. Laboramos em juízo perfeito, pode-se falar assim. Estabelecemos as ações e agora só falta executá-las, com aquele espírito de persuasão que capacita os nossos passos. Com efeito, usar explosivos é a única alternativa para não explodirmos. Nenhum de nós deseja isso, porém  em tese Arsênio já foi desta para o desconhecido, embora o veja e alcance a sombra que o representa no decorrer dos  seus constantes desaparecimentos e reaparições.
Trocando em miúdos e procurando ser claro: estamos dispostos a explodir uma ideia, uma ideia que nos importuna desde a mais tenra idade de adulto, se é gramaticalmente correto falar-se assim. Pensamos adquirir  duas braçadas de dinamite, que é como as vendem,  num desmanche perto daqui. Tudo de segunda mão, que fique transparente, com aquele objetivo único acalentado há mais de década: o de tirar da cabeça e de  circulação, a um só tempo, a alegada superioridade da inteligência brasileira, erroneamente cantada em prosa e verso por artistas dos mais diversos calibres. Se dilapidada e destruída, ela jamais tornará a prosperar e nos sentiremos enfim iguais a todo o mundo, o que a nossa tradicional empáfia nunca foi capaz de engolir. Arsênio e eu, eu e Arsênio, já temos tudo acertado, para que, quando ele tornar a materializar-se, estejamos preparados: acionaremos a dinamite — é certo que  aprendemos a usá-la como raros neste Brasil varonil — e mãos à obra, embora conscientes de que segundos depois nada mais restará a fazer. Todos serão reduzidos à expressão mais simples, graças a Deus, eu e meu amigo de um lado, os demais do outro. E o nosso orgulho bobo e barato deixará de ser a pedra filosofal  do infortúnio a que fomos levados de roldão. Sim, é isso, reduzidos à expressão mais simples. Aí haveremos de começar de novo o admirável futuro que nos espera.  Fique sabendo, portanto, de uma vez por todas, que, quando Arsênio tornar a virar gente, o plano mais idiota que enfraquece a nossa personalidade estará enterrado, graças a Deus. 

( *) Conto inédito de Wladyr Nader enviado em Julho de 2012. Nossos agradecimentos ao autor. 
O paulistano Wladyr Nader  é autor de nove livros, entre romances e coletâneas de contos, e lança este ano O Tamanho do Estrago, reunião de novas histórias curtas. Criou em 1975 a revista Escrita, com apoio de um grupo de amigos também escritores e hoje tem um blog literário: escritablog.blogspot.com

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