segunda-feira, 23 de julho de 2012

A poesia e humanidade dos pequenos dramas


A poesia e humanidade dos pequenos dramas

Ronaldo Cagiano(*)

            Uma grande literatura constrói-se não apenas por ousadias ou subversões das estruturas formais, com suas extravagâncias estilísticas e formais para impressionar, mas pelo artesanato que cria pequenas epifanias ao se contar uma história É possível falar com sutileza sobre o banal e o ordinário do quotidiano, sem perder a densidade nem cair na obviedade e simplificação ou incorrer na pieguice.
Essa é à sensação que se tem após a leitura de cada livro de João Anzanello Carrascoza e que se confirma especialmente no recém lançado Aquela água toda (CocacNaify, 2012). O volume de onze contos, confeccionado com primorosa arte editorial e enriquecido com ilustrações de Leya Brander, traz um panorama das peculiaridades da vida comum, dos corriqueiros episódios domésticos com suas relações e enfrentamentos, cheias aparências e  espantos.
 Desde sua estréia com Hotel solidão (1994), Carrascoza vem demarcando sua oficina criativa com grande habilidade e talento, aprisionando o leitor pela alta voltagem lírica, pela subjetividade e uma fiel representação psicológica de seus personagens, enfeixada por uma linguagem fluente, cristalina e de grande intensidade poética, plena de ritmo e melodia.
Nesses textos resta a palavra em potencial estado de graça, temperada com singelas metáforas, com referenciais e totens de sua infância vivida em Cravinhos, interior de São Paulo, cujas fontes são as reminiscências dos convívios, com toda sua carga de nostalgia e sentimento. O autor estabelece um trânsito onírico com o seu passado por meio de um olhar delicado que, ao fundir invenção e memória, reflete e questiona sobre o mundo e a passagem do tempo, uma sondagem em suas raízes históricas, verdadeira cartografia do menino exilado no homem. O foco de toda sua obra é a tensão que habita o núcleo familiar, ambiente em que são compartilhados dramas e conflitos, esperanças e amarguras, onde os ritos de passagem e o clarão insinuante da realidade e do imponderável constituem o coração da vida.

No conto que dá título ao livro, o domingo de verão na praia é o enredo trivial que se converte num território excitante, proporcionando o mergulho num imenso oceano de novidades e perigos, em que limites e fronteiras se interpõem. “Passeio” exemplifica outro instante sublime, quando a narrativa se desdobra de forma envolvente, como numa seqüência de palimpsestos, em que, instaladas a dúvida e o suspense, o mistério serve de pretexto para antecipar uma grande emoção. A promessa de um fim de semana diferente transforma-se numa epopéia para a família, quando o pai apresenta aos filhos um mundo novo e desconhecido na visita ao aeroporto. Em “Cristina”, quando afloram o desejo e a sensualidade, nascem também o primeiro beijo e a insegurança no coração aos pulos de um adolescente. Já em “Paz”, a cobrança de aluguel atrasado é motivo para uma indagação que culmina numa descoberta dolorosa, com o sofrimento silencioso do garoto, destronado de seu mundo e de seu quintal, ao perceber nas entrelinhas de uma conversa enviesada um momento de instabilidade no lar.
Em todo o conjunto, povoado de situações e experiências distintas e antagônicas, Carrascoza desvela o mundo real, a nossa existência permeada de ilusões e t(r)emores, de afetividades e lacunas,com suas possibilidades e seus contrastes. Como em Duas tardes e outros encontros silenciosos (2002), Dias raros (2004), Espinhos e alfinetes (2010), A vida naquela hora e Amores mínimos (2011), os contos de Aquela água toda transportam temas recorrentes e caros ao autor, aqui revisitados com eficiência renovadora por um novo e pulsante olhar, tocando no que é essencial e palpável em nossa natureza e condição, porque falam das tormentas e fantasmas que nos afetam. A sofisticação da linguagem funciona também como recurso que harmoniza forma e conteúdo, um ponto de equilíbrio que mimetiza a placidez e ternura de alguns episódios e suaviza a aridez, as feridas e o escuro de outros.
Na atual safra da ficção brasileira, quando muitos se apropriam do grotesco, da violência, do surreal e do nonsense para expressar uma literatura que flerta com o mercado, é salutar poder comover-se com a leitura de histórias contadas com profunda humanidade.
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(*) Autor de Dicionário de pequenas solidões (contos, Língua Geral, Rio 2006) e O sol nas feridas (Poesia, Dobra Editorial, 2011, SP), dentre outros, é mineiro de Cataguases e vive em São Paulo. Assistam ao depoimento que Ronaldo Cagiano concedeu ao Blog Estudos Lusófonos e no qual ele homenageia os escritores João Antonio, Samuel Rawet e Augusto Roa Bastos. Cliquem neste link

Confiram também, a intervenção de João Carrascoza no encontro “A jovem literatura brasileira” realizado na Universidade da Sorbonne em Março de 2012 e a sua participação no Salão do livro em Paris (2012). Cliquem nos links abaixo  para acessar os vídeos.

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