domingo, 1 de julho de 2012

Um dedo de prosa com Marçal Aquino


Um dedo de prosa com Marçal Aquino


Assistam à entrevista que Marçal Aquino concedeu ao Blog Estudos Lusofonos.

Num primeiro video, o Marçal Aquino evoca o seu percurso literário e fala de suas inquietações estéticas enquanto escritor andarilho. Acesse o video aqui.

Num segundo vídeo evoca sua admiração pela obra de Luiz Ruffato, uma das melhores vozes, segundo ele, da recente literatura brasileira. Clique aqui para acessar o video.



Marçal Aquino (Amparo SP 1958). Contista, romancista, jornalista e roteirista. Na infância, tem contato com as narrativas orais da zona rural, o que influencia mais tarde a sua obra. Na adolescência, apaixonado pelo cinema, literatura e história em quadrinhos, decide tornar-se escritor. Cursa jornalismo na Pontifícia Universidade Católica de Campinas - PUC/Campinas, São Paulo, graduando-se em 1983. No ano seguinte, faz sua estréia literária com a edição independente do livro de poemas A Depilação da Noiva no Dia do Casamento. Muda-se para São Paulo em 1985, e trabalha nos jornais Gazeta Esportiva, O Estado de S. Paulo e Jornal da Tarde, nas funções de revisor, repórter, redator e subeditor. Posteriormente, prefere ser redator freelance. Publica seu primeiro livro de ficção, As Fomes de Setembro, em 1991. A partir de 1997, quando é lançado o filme Os Matadores, de Beto Brant (1965), em que é co-roteirista com Fernando Bonassi (1962), dedica-se a roteiros para o cinema. Sua obra mostra uma visão realista do submundo, com abordagem original de temas como sexo, crime, violência e corrupção.

Obras publicadas - primeiras edições 
Poesia
A Depilação da Noiva no Dia do Casamento - 1984
Por Bares Nunca Dantes Naufragados - 1985
Abismos: Modos de Usar - 1990

Conto
As Fomes de Setembro - 1991
Miss Danúbio - 1994
O Amor e Outros Objetos Pontiagudos - 1999
Faroestes - 2001
Famílias Terrivelmente Felizes - seleção de contos dos livros anteriores e mais quatro inéditos - 2003

Romance
O Invasor - inclui o roteiro do longa-metragem com o mesmo título - 2002
Cabeça a Prêmio - 2003
Eu Receberia as Piores Notícias de Seus Lindos Lábios - 2005

Infantil e juvenil
A Turma da Rua Quinze - 1989
O Jogo do Camaleão - 1992
O Mistério da Cidade-Fantasma - 1994
O Primeiro Amor e Outros Perigos – 1996

Fonte : Enciclopédia de Literatura – Itaú Cultural  : http://conexoesitaucultural.org.br/

Na França Marçal Aquino é publicado pelas Edições Anacaona : http://www.anacaona.fr/


O AMOR É SEXUALMENTE TRANSMISSÍVEL[1]

Não adianta explicar. Você não vai entender.
Às vezes, como num sonho, vejo o dia da minha morte. É uma coisa meio espírita, um flash. E, embora a mulher não apareça, sei que é por causa dela que estão me matando. E tenho tempo de saber que não me deixa infeliz o desfecho da nossa história. Terá valido a pena.
Hoje, a Lua está transitando por sua casa astrológica favorita. Câncer. Uma criança nascida neste dia terá personalidade calma e cordata. Gente boa, portanto. Sofrerá num lugar como este.
Sopra uma brisa vinda do rio e a noite está silenciosa e com um cheiro de dama-da-noite tão intenso que chega a ser enjoativo. Faz calor ainda. À tarde, vi pássaros voando em formação rumo ao norte. Não demora e teremos frio. Menos aqui, claro.
O homem que sai na varanda da pensão é calvo e barrigudo, e usa camiseta, bermuda listrada e chinelos. Ele diz um boa-noite torcendo a boca - derrame? - e senta-se na cadeira de palhinha. Abre o jornal com suas mãos micóticas e passa a grunhir a cada notícia que lê. Tosse, bufa. O mais próximo que um ser humano pode chegar de um bovino.
Um garoto da redondeza vem sentar-se nos degraus da escada, como já aconteceu em outras noites. Não gosta de conversar, mas fica ali, ouvindo a prosa alheia. As roupas dele são ordinárias, porém limpas. O garoto tem altivez no olhar, uma espécie de confiança em estar no mundo. Algo secreto na cabeça dele, que não consegue se exprimir ainda, mas que o informa: você é melhor do que essa gente ao seu redor. É só uma questão de tempo para que todos saibam disso.
Dona Jane aparece com a garrafa térmica numa bandeja. O café costuma ser infernalmente adocicado.
Vai chover, dona Jane.
Isso quem diz é o careca, sem tirar os olhos do jornal. Uma notícia se destaca na página que consigo enxergar: estão liberando o rio para mineração outra vez. A cidade à beira de um novo surto de prosperidade. É só ver como aumentou o número de putas que circulam pelo centro e pelos lados da rodoviária. Noite e dia. São as primeiras a farejar o ouro.
Ainda demora pra chover, seu Altino.
Dona Jane também fala sem olhar para o careca. Ela coloca a bandeja sobre a mesinha e me presenteia com um sorriso que mistura afeto e apreensão.
Minhas juntas estão doendo, o careca diz.
É só o reumatismo, seu Altino.
Mas à tardinha eu vi relâmpagos na serra.
Dona Jane espia a noite na lateral da varanda. Uma enorme casa de marimbondos dependura-se do forro verde-água. Está abandonada.
Não vai chover, já mudou a lua.
Dona Jane apóia as mãos nas cadeiras. Veste uma blusa de mangas compridas, apesar do calor. Para esconder o nome de um homem que tem gravado no antebraço esquerdo. Nunca mostra a ninguém. Pecados de juventude.
O segredo, dizia Chang, o china da loja, não é descobrir o que as pessoas escondem, e sim entender o que elas mostram. Mas Chang está morto. Existe algo mais íntimo para exibir ao mundo do que as entranhas? Existe algo tão obsceno?
O careca grunhe e farfalha as folhas do jornal, como se quisesse derrubar as notícias que o desagradam. Dona Jane volta para dentro e sua passagem desprende uma lufada agradável. Lavanda. O menino me observa de forma direta. Tem traços bonitos, cabelos escorridos e a pele bem escura. Chang teria gostado dele.

Pensar no china faz com que eu me lembre da mulher, nesta noite escura como breu em que Urano, o deus cordial, atravessa o grande corcel de fogo. Além de mim, era a única ali que acreditava nessas coisas.
Foi na loja de Chang. Enquanto esperava que ele embalasse os filmes que havia comprado, distraí os olhos nas fotos da vitrine. O rosto de uma mulher num porta-retrato capturou minha atenção. Era jovem ainda, e muito bonita. Tinha os olhos grandes e escuros e sorria como se estivesse vendo, atrás de quem a fotografava, algo que a deixava imensamente feliz. Só vi mulheres sorrindo daquela maneira quando olhavam para gatos ou crianças.
Que rosto maravilhoso, eu disse.
E ouvi uma voz às minhas costas:
Muito obrigada.
Eu me virei e dei de cara com ela, a mulher do porta-retrato. Os cabelos estavam mais compridos e sorria de um jeito bem diferente do sorriso da foto. Um rosto com uma luz extraordinária. Cravou em mim um par de olhos cor de lodo de bauxita. Perdi o rebolado.
Desculpe, eu disse.
Ela balançou a cabeça, sem tirar os olhos dos meus.
Que pena. Tanto tempo sem receber um elogio e, quando recebo, logo depois pedem desculpas.
Senti um espasmo elétrico me percorrer abaixo da cintura. Com o canto do olho, vi que Chang me observava.
Nesse caso, mantenho o elogio, eu disse.
Que bom, fico feliz.
E continuou feliz ao encostar-se no balcão para entregar a Chang um canhoto de revelação de filmes. Usava uma camiseta que deixava à mostra, em seus ombros, meia dúzia de sardas e as alças de um sutiã preto.
O professor Benjamim Schianberg escreveu sobre as tentações em seu livro O que vemos no mundo. Segundo ele, alguns homens sublimam seus desejos, projetando-os num plano apenas mental, e isso é suficiente para satisfazê-los. Outros, diz Schianberg, apesar de resistirem com diferentes graus de esforço, acabam por ceder às tentações. São o que ele chama de "homens de sangue quente".
Ela abriu o envelope e espalhou as fotos sobre o balcão de vidro. Um arco-íris; o número de metal enferrujado na fachada de uma casa antiga; raízes de uma árvore que pareciam um casal num embate amoroso de muitas pernas e braços; a chaminé de uma olaria; uma bicicleta caída na chuva. Nenhuma pessoa ou animal. Apesar disso, fotos boas, feitas por alguém com olho e senso.
Ela notou meu interesse.
Gostou?
Esta aqui é muito boa.
Indiquei uma das imagens: fachos de sol entrando pelas falhas no telhado de uma casa em ruínas.
Poesia e precisão.
Falei isso, vê se pode. Ela me olhou, intrigada. Daí, riu.
Você é fotógrafo?
Já fui, eu disse. Hoje em dia só fotografo pra consumo próprio.
E o que você fotografa?
Um pouco de tudo.
Que nem eu.
Peguei a foto e a examinei de perto.
Você não fotografa gente.
Não gosto.
Porra, pensei, a foto que eu tinha nas mãos não era só boa, era formidável. Um dos fachos de sol incidia, em segundo plano, sobre uma boneca de pano jogada num monte de entulho. Parecia um spot iluminando uma bailarina caída num palco.
A boneca já estava lá?
Claro.
Chang empurrou o pacote de filmes em minha direção. E ela já estava guardando as fotos no envelope, quando falei:
Eu adoraria ter uma cópia.
Ela congelou o gesto de colocar as fotos no envelope, virou o rosto e me estudou, como se avaliasse se eu tinha mérito suficiente para receber o que pedia. Sustentar aquele olhar escuro foi uma experiência difícil. Fez com que eu me sentisse desamparado. Fiquei com a impressão de estar sendo visto de verdade pela primeira vez na vida. E também de estar vendo algo que o mundo não tinha me mostrado até então.



[1] No momento em que começa a narrar os fatos de Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios, o fotógrafo Cauby está convalescendo de um trauma numa pensão barata, numa cidade do Pará prestes a ser palco de uma nova corrida do ouro. Sua voz é impregnada da experiência de quem aprendeu todas as regras de sobrevivência no submundo - mas não é do ambiente hostil ao seu redor que ele está falando. O motivo de sua descida ao inferno é Lavínia, a misteriosa e sedutora mulher de Ernani, um pastor evangélico. A trajetória do fotógrafo, dado a premonições e a um humor desencantado, vai sendo explicada por meio de pistas: a história de Chang, fotógrafo morto num escândalo de pedofilia; o mistério de Viktor Laurence, jornalista local que prepara uma vingança silenciosa; a vida de Ernani, que tirou Lavínia das ruas e das drogas no passado. Mesmo diante de todos os riscos, Cauby decide cumprir seu destino com o fatalismo dos personagens trágicos. "Nunca acreditei no diabo", diz ele. "Apenas em pessoas seduzidas pelo mal." Marçal Aquino. Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios.  São Paulo : Companhia das Letras, 2005. Fonte : Companhia das Letras. http://companhiadasletras.com.br/detalhe.php?codigo=11927






Alguns Links - Entrevistas
Marçal Aquino - Jogo de Idéias. 09/11/2009
Trecho de entrevista com Marçal Aquino para o Jogo de Idéias, programa de TV do Itaú Cultural com convidados da música, da literatura, do teatro, da educação, entre outras áreas.

O escritor Marçal Aquino fala sobre a matriz de sua literatura, sobre sua relação com a leitura e sobre sua geração literária.
Depoimento gravado durante o Encontros de Interrogação, em novembro de 2004, no Itaú Cultural.

Metrópolis - Marçal Aquino. 23/09/2010
Escritor e roteirista fala no estúdio sobre o livro Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios e da série que produz para a Tv.

Beto Brant e Marçal Aquino - Literatura e Cinema - Jogo de Ideias (2003). 13/02/2012
O cineasta Beto Brant e o escritor Marçal Aquino debatem sobre as ligações entre cinema e literatura e comentam a parceria estabelecida desde o primeiro longa de Brant, "Os Matadores", com roteiro adaptado de um conto homônimo de Aquino, e prosseguida em trabalhos como Ação entre Amigos" e O Invasor.

Antônio Abujamra entrevista o escritor Marçal Aquino (bloco 03)
28/09/2011. TV Cultura

Época SP. Marçal Aquino lê trecho de seu novo livro
22/12/2010
Escritor apresenta capítulo do livro Como se o Mundo Fosse um Bom Lugar

Entrevista com Marçal Aquino - O Acompanhante
21/07/2011.
No programa Mostra Internacional de Cinema na Cultura, apresentado por Leon Cakoff e Renata de Almeida, o escritor e roteirista Marçal Aquino fala sobre o filme O Acompanhante, de Paul Schrader.

Marçal Aquino, Milton Hatoum, Gregorio Dantas_01
19/08/2010. Salão de Ideias - Brasil, Brazil

Alguns estudos
Artigo de Wilson Alves-Bezerra. “Promessas antológicas: o conto latino-americano  contemporâneo a partir de algumas antologias” in : Estudos de literatura brasileira  contemporânea, n.38, jul./dez. 2011, p. 61-72

Artigo de Regina Dalcastagnè. “Violência, marginalidade e esapço na narrativa contemporânea.” In :  Diálogos Latinoamericanos, número 011 Universidad de Aarhus Aarhus, Latinoamericanistas; 2006,  pp. 72- 82

Artigo de Eder Rodrigues Pereira. “Espaço Urbano e Violência na narrativa brasileira contemporânea”. In : Revista Línguas & Letras . ISSN: 1981-4755 (eletrônica) — 1517-7238 (impressa). Vol. 12 – Nº 22 – 2º Semestre de 2011

Artigo de  Alessandra Brum. “Da literatura ao fime: elementos de transcrição em O Invasor.”in : Razón y Palabra, núm. 76, mayo-julio, 2011. Instituto Tecnológico y de Estudios Superiores de Monterrey. Estado de México, México

Artigo de Regina Dalcastagnè. “Renovação e permanência: o conto brasileiro da última década”. In : Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea, Brasília, n. 11, p. 3-17, jan./fev.2001.

Artigo de Maria Zilda Ferreira Cury. “Novas geografias narrativas”. In : Letras de Hoje. Porto Alegre, v. 42, n. 4, p. 7-17, dezembro 2007

Artigo de Tânia Pellegrini. “No fio da navalha: literatura literatura e violência no Brasil de hoje”. In : Estudos de LiteraturaBrasileira Contemporânea, nº 24. Brasília, julho-dezembro de 2004, pp. 15-34

Enciclopédia Itaú Cultural.

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