domingo, 1 de julho de 2012

Caravaggio está morto

São Jerônimo que escreve, Caravaggio

Caravaggio está morto

Elvira Vigna

Caravaggio estará a partir do dia 27 de junho, no MASP. É a segunda vez.
“A lição de Caravaggio”, no mesmo MASP, em 1998, trouxe duas telas do artista e dezenas das de seus seguidores e colegas de ateliê. Nesta de agora, chamada "Caravaggio e seus seguidores", curiosamente diminui o número de seguidores. Aumenta a de telas do artista: são oito. A mesma curadora em ambas as exposições: Rossella Vodret. E repetição de alguns dos caravaggistas: Giovanni Baglione (c.1566-1643), Hendrick van Somer (1615-1684/85), Jusepe di Ribera (1591-1652), Leonello Spada (1576-1622), Simon Vouet (1590-1649), entre outros. Orçamento de R$ 3,5 milhões. Patrocínio do governo italiano e brasileiro, Fiat e  Bradesco.
Como ver Caravaggio.
Posso dizer como eu veria: como algo morto.
Mas como não sou ninguém e o Caravaggio é uma vaca sagrada da cultura europeia, me escondo atrás de outra vaca sagrada, o Pasolini: "(...) as coisas pintadas por Caravaggio estão em um universo separado, em certo sentido morto". No seu texto, o cineasta e pensador italiano cita a possibilidade - já aventada por Roberto Longhi - de Caravaggio pintar os quadros através de reflexos em espelhos - e não diretamente a partir dos modelos vivos, ali, posando.
Cito um cineasta e vou citar outro daqui a pouco. Tem a ver. Caravaggio foi "redescoberto", no século XX, por causa de algumas técnicas cinematográficas avant-la-lettre. Por exemplo: contre-plongées, zooms, profundidade de campo e uma luz que sempre vem de fora.
(Para quem quiser ler, em vez de mim, o Pasolini na íntegra, o link é: http://www.pasolini.net/madrid-saggi01.htm pier paolo pasolini)
Além da história de pintar através do espelho, há várias outras:
O nome é Michelle Merisi. Caravaggio, porque é deste povoado que se origina a família. Ele mesmo nasce em Milão. O pai é mestre de obras aclamado. A família tem dinheiro. A família perde todo o dinheiro. Caravaggio vai viver seus 38 anos bêbado, em meio a moradores de rua e prostitutas. Mata um cara e passa a fugir da justiça, sem contudo parar de pintar. Aliás, pinta sem parar. Faz dois, três retratos por dia para quem lhe der uns trocados. Santinhos de qualquer tamanho. Cópias de imagens de outros. Qualquer coisa. Só há, hoje, pouco mais de sessenta quadros reconhecidos. Mas caravaggios podem estar, neste exato momento, em qualquer feirinha ou porão italianos.
Mais histórias: não transa só com mulheres. Com homens também. Isso inclui o cara que ele mata, embora, ao que parece, a briga (ou foi duelo) seja por causa de uma mulher que ambos repartem - e com mais sócios. Entre seus amantes homens estaria seu benfeitor por uns tempos, o cardeal Del Monte. Morre de malária, doença tropical desconhecida na Itália. Um jovem assistente mantém o corpo morto escondido, inconsolável, antes de anunciar a morte. Não. Morre no hospital sem ninguém ao pé da cama. Não é malária a causa da morte, é um ferimento mal curado ainda da briga/duelo. Não é ferimento nem malária, é cirrose. Não é cirrose, é pneumonia e exaustão. Isso porque, quando acorda de uma bebedeira, vê que perdeu o barco que o levaria à Roma e onde está toda sua bagagem. Segue a pé mesmo. Quase sem roupa. Chega. Mas morre. É um homem atraente. É um homem repulsivo.
E por aí vai.
O que traz a pergunta. Não só como ver Caravaggio. Mas o que exatamente se vê ao ver Caravaggio. E os caravaggistas. Porque tem isso, a assinatura: é um campo (no conceito de física quântica) mais do que uma assinatura. No sentido de serem muitas, em movimento constante, e com futuro pouco determinável.
E isso não só em relação às circunstâncias de produção. Mas também com as de recepção. É a assinatura perfomática que Derrida descreveu em seu livro Otobiographies, de 1984 e sem tradução em português. Como se vê, complica-se, essa ida ao MASP.
Começo por experiência própria. Quanto mais você tenta representar o real, mais fica claro o teu fracasso. E o problema não está na palavra real, mas no representar. Representou? Isso significa: tirou aquilo do mundo e o inseriu em outra instância, a que vem separada do mundo real por algum tipo de quadrilátero - moldura, tela, pedestal ou papel. E aí, pode ser real o quanto quiser, não será real. É do que falava Pasolini.

Quanto a Caravaggio tentar pintar o real, há discussões. Seus pretos não são uma superfície de chegada. Explico. Quando se pinta na técnica a óleo tradicional europeia, que é a técnica da época de Caravaggio, os valores absolutos do claro e do escuro, primeiro não são absolutos, só parecem. E, segundo, são uma meta a se chegar. Nunca um ponto de partida. Você começa pelos neutros da metade do caminho. E vai indo, puxando o claro e puxando o escuro. Você não sabe até onde isso vai dar. Digamos que chegue no preto-preto. Não é preto-preto. É um preto calçado. No azul, no marrom, no vermelho. O preto de Caravaggio é preto-preto. Não é uma chegada. É uma partida. Igual e contrária aos claros tão claros das pinturas medievais. Nelas, o fundo é dourado ou branco. Um ponto de partida, digamos, "positivo". Glorificação do Senhor, êxtase a ser alcançado, ou simplesmente o céu prometido (realmente visto?) dos cristãos. Igual ao preto do Caravaggio. A mesma tentativa de exacerbação emocional a induzir o paroxismo do sublime x horror hegeliano. Com ou sem religião (mas na verdade, sempre com). Na literatura, seria o "realismo" não-realista da violência gráfica, personagens brutais, ambientes marginais etc. Igual. A mesma metafísica, só que invertida. O "bom" é o "ruim".
É, então, a representação não realista, e que não o seria ainda que o pretendesse, assinada por um "Caravaggio" que não é o signo de uma pessoa física real, mas o de histórias contadas sob este nome. E que se afasta, este signo, da pessoa física que o signo representaria, a cada nova história/exposição realizada. Derrida outra vez: uma assinatura icônica dessas é ao mesmo tempo a marca do autor e o que o separa de sua obra. Que adquire vida própria, na ausência de quem a faz presente.
Se incluirmos nesse angu a tendência tão contemporânea de mesclar ficção e autobiografia em tudo que fazemos, chegamos ao seguinte: de um lado, a busca/necessidade contemporânea de autenticidades incontestáveis, explicitadas aqui pela assinatura famosa, embora nos venha junto, incongruentemente, um campo de reflexos em mutação constante. De outro lado, a exclusão mesmo dessa presença fixa e apaziguadora (apaziguadora por se pretender fixa), na medida que Caravaggio e sua Europa hoje incorporam mais morte do que seria imaginável até bem pouco. É uma cultura que hoje, hum, não está viva.
Ainda Derrida: toda assinatura é apócrifa. Já que ela é feita e refeita, sem parar, pelos receptores da obra. Diz ele que o autor é o autor da assinatura e também o produto dessa mesma assinatura. O autor definido, por assim dizer, a posteriori.
Nós produzimos o Caravaggio que vamos ver.
Derek Jarmen, cena do filme Caravaggio
Há outro cineasta, além do Pasolini. Derek Jarmen. Seu filme, Caravaggio, data de 1986. Mortes a granel. E não só no banquete, ápice da narrativa, que acaba com os convivas passando por seus próprios cadáveres já consumidos pelo tempo e cheios de teias de aranha.
Para começar, a morte do tempo. Jarmen faz o que outros (eu, modestamente, aí incluída) farão: emparelhará a recepção (atualizada) do produto no próprio produto (um século XVII), matando assim as referências de passagem de tempo.
Exemplos pescados do filme:
- O banqueiro que janta com o cardeal Del Monte faz contas sem parar, usando uma calculadora eletrônica;
- Sonoplastia de jazz, trens que se afastam, música flamenca;
- Coreografia de dança contemporânea para dançarina de cabelo punk pintado de laranja e figurantes em summer jacket;
- Fumam um cigarrinho maneiro em diversas cenas;
- Burocratas do Vaticano teclam em máquina de escrever Royal. Teclam o texto de um livro. O livro é da coleção Skira. E é sobre ...Caravaggio.
E mais: um velho caminhão Ford em paiol de feno; luzes elétricas no bar da briga; bigodes falsos, desses de teatro, na cara de cardeais; garçons oferecendo desde um sorvetinho até preciosidades da vinicultura italiana como Lambrusco e Lacrima Christi.
Derek Jarmen, cena do filme Caravaggio
Jarmen também faz referências a outros filmes relacionados a pintores: A menina dos brincos de pérola, de Peter Webber (2003), sobre o quadro famoso de Johannes Vermeer; o clássico de Abel Gance, Napoléon, com sua cena antológica, que repete a pintura de David representando a morte de Marat (1927), e que foi atuada por Artaud. Há uma Ofélia shakespeariana lá pelas tantas. É a arte fechada na história da arte, história essa que se desenvolve em paralelo e independente da história real. E que gera, por sua vez, outras obras de arte, também auto referenciadas.
No seu texto, Pasolini termina dizendo:

O que me entusiasma é esse diafragma luminoso que torna as figuras distantes, artificiais, como que refletidas em um espelho cósmico. Seus rostos vulgares adquirem uma característica mortuária. Os personagens estão doentes. Eles, que por definição, deveriam ser vitais, trazem a pele abatida pela cinzenta palidez da morte.

Quando Pasolini fala que os personagens, por definição, deveriam ser vitais, está se referindo ao pan-erotismo que Caravaggio exerceu na vida (mais uma vez, as histórias!) e que tentou simular nos corpos nus, ou quase, dos seus amigos mendigos e putas, os modelos de seus santos e anjos. Sem escândalo, aliás. Aliás, até com incentivo. O barroco e seu erotismo sendo uma arma da igreja da época, em crise. Urbano VIII, morador do Vaticano ali do lado, enquanto Caravaggio pintava, escrevia versos eróticos igualmente famosos, igualmente teatrais.

São Paulo, Junho de 2012

Consultem o website de Elvira Vigna, suas resenhas e  a entrevista para o  blog Estudos Lusofonos, nos links abaixo: 
Website de Elvira Vigna
Um dedo de prosa com Elvira Vigna

Resenhas Artes


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