terça-feira, 15 de maio de 2012

O lado de fora


Lygia Pape, Ttéia

O lado de fora

Elvira Vigna

Fui para fazer uma experiência. Como seria minha vivência do espaço visitando um espaço de outra época, no caso, o espaço modernista que começava a deixar de sê-lo da artista neoconcreta Lygia Pape.
E com mais uma complicação. A exposição está na Estação Pinacoteca, que fica no meio de uma região barra pesada do centrão de São Paulo. Oba. Duplo choque, já sabia eu.
Então fui.
Pensei em completar indo de noite na peça do Antonin Artaud, que também questionou o espaço da sua época, e que tinha uma montagem de seus textos em cartaz no Teatro Augusta. E aqui também eu já me via sentindo como seria sair dos bares, pixações e muvuca do baixo-Augusta direto para uma sala de teatro, fechadinha, silêncio e tal.
Quase fui. Mas isso digo depois.
O que eu já sabia de antemão, sem nem me mexer:
Em ambos os espaços, eu veria os limites restritos de um espaço artístico, o deles, modernista, frente ao espaço artístico mais amplo, que inclui (e depende de ) o seu entorno, e que é o espaço artístico de hoje. O espaço criativo restrito de uma época que mal deixava de considerar a arte como algo autônomo, e o espaço de hoje, sempre contextualizado, atuado, o espaço possível da arte contemporânea. A diferença é grande.
Aliás, entre os dois artistas meus parceiros na aventura, eu também já sabia de uma outra diferença, a que existe entre eles, e que também é grande. O espaço usado por Lygia Pape fica, para quem entra nele hoje (pelos pés ou pela cabeça), bem mais restrito do que o de Artaud, embora o preso fosse ele. Num hospício durante sua vida. Ou em palquinho cercado por arame grosso, o cenário anunciado de "Artaud - A realidade é doida varrida". Pape muito mais contida do que Artaud. Mais do que já era, a cada dia mais, como se a contemporaneidade fosse caminhando para assimilar Artaud e se distanciar de Pape.
(Embora Antonin Artaud nascesse em Marselha em 1896 e Lygia Pape trinta anos depois, em 1927, Nova Friburgo, Rio de Janeiro.)
E isso não só pelo que fizeram. Mas como podemos recebê-los. E como são ofertados.
Por exemplo:

"A partir das minhas andanças de carro pela cidade - porque eu ando muito de carro - fui percebendo um tipo novo de relação com o espaço urbano, assim como se eu fosse uma espécie de aranha tecendo o espaço, pois é um tal de vai daqui, cruza ali, dobra adiante, sobe e desce em viadutos, entra e sai de túneis, eu e todas as pessoas da cidade, que é como se passássemos a ter uma visão aérea da cidade e ela fosse uma
imensa teia, um enorme emaranhado. E eu chamei de espaços imantados porque aquilo tudo era uma coisa viva, como se eu fosse caminhando ali dentro a puxar um fio que se trançasse e se enovelasse ao infinito."

Texto escolhido pela curadoria para apresentar Lygia Pape. Chama-se "Espaço Imantado". É o mesmo título da retrospectiva e também está presente à porta da instalação principal, da série Ttéia, que ocupa uma sala escura, logo na entrada mas em direção contrária ao caminho do visitante.
Há outras instalações. A Roda dos prazeres, de 1968, com corantes de comida que o público pode pingar em conta-gotas na própria língua. O vídeo Eat me, de 1975, em que as palavras gula e luxúria são repetidas em várias línguas enquanto se vê a boca e seu habitante, a língua, em tarefas de lamber, chupar ou revolver gosmas não identificadas.
Os Jogos matemáticos em uma grande parede. Os Tecelares. As dobraduras, os filmes, os livros. Duzentas peças ao todo.
E mais o que já se sabe:
O início da guinada em direção ao contexto, ao lado de fora, mas ainda meio longe, esse lá fora. O convite à participação de um fruidor, embora ainda educado e segundo regras. Um Olho, mais que um fruidor, mais que uma pessoa comum, dessas que passam (passamos) na rua.
Um platonismo compartilhado. Ao transpor o detector de metais disposto no corredor do elevador, nos tornamos, sem armas, o ideal de nós mesmos, única maneira de nos relacionar com o ideal conceitual da artista. Só eu acho engraçado? Você ascender a este mundo perfeito, o que não tem armas, para poder ver uma exposição?
Ainda lá, presente, o que Lygia Pape e seus companheiros de neoconcretismo mal começavam a atacar. A arte autônoma. Ainda lá, a presença do rótulo "especial" da coisa artística, ainda o Cubo Branco (mesmo que negro, como no caso da instalação dos fios da Ttéia.). E, ainda lá, o que vem junto com isso tudo, com esse cuidado zeloso, esse ambiente controlado: o subtexto de que aquilo que lá está, a merecer tantos cuidados, só pode ter muito valor. E durar muito. E ser, portanto, digno de investimento financeiro - e lucro. Pode comprar sem susto.
E mais - e é a mesma coisa - a aspiração de eternidade. Que é o que esse mercado, o de arte, na verdade vende. Eternidade não só da obra, lá, cuidada, imutável, para além do tempo. Mas, principalmente, a eternidade do poder vigente e das relações sociais vigentes, da época em que essa arte foi produzida, e em qualquer tempo em que seja consumida. Poder encarnado na figura de quem compra, e recompra. Ou apenas visita. Uma osmose, metonímia. Um contágio: a obra é eterna, e eterno sou eu em meu poder supremo, pois a detenho fisicamente na minha coleção, ou simbolicamente na minha análise erudita de conhecedor, de partícipe das esferas mais altas e educadas da sociedade. Eu, o poderoso, que vou dizer às pessoas inferiores o que elas de fato viram na exposição que visitaram. Eu, que assim, me torno alguém útil. Necessário mesmo. E digno de ser mantido no meu status atual. Pois mantenho a arte inútil (sem atuação no mundo real).
Uma ilusão: abre-se mão do passado (ou do registro de época, abstraído em prol do registro das relações abstratas dos elementos formais) em troca de uma garantia de futuro.
E, ainda lá, justamente, o fascínio com a abstração, a matemática. São pontos, linhas, sólidos. Não como parte de nada. Só isso mesmo: pontos, linhas, sólidos. Ou jogos de luz. Abstração a provocar reação igual: há um ritual respeitoso, igualmente desencarnado de impulsos e acasos e individualidades, igualmente avesso a vicissitudes do tempo (guarda-chuvas são deixados na entrada). Um ritual de caminhar com pouco barulho, de frases aos cochichos, gestos comedidos. Guardiães garantem o bom desenrolar - entendido como exclusão de variáveis - do espetáculo: há guardas em profusão, faixas de aqui não. Proibições.
Não se pode fotografar. Sequer um contato mediado, portanto. Não. Não se pode. E a foto distribuída pela divulgação não tem pessoas. Só as obras em um fundo neutro. Sintomaticamente.
Também não se pode entrar no espaço que a artista desejou que se entrasse. Você circunda a Ttéia. Não passa entre seus fios. O carpete sobre o qual os fios estão dispostos é a moldura desse quadro. Tudo que ela não queria.
Não é só o início desse caminho que levou a arte para fora de seu espaço separado e para dentro da vida o que hoje parece ser tão restrito. É que mesmo esse início restrito ainda diminui pela forma como nos é apresentado, tolhido. E, mais uma vez, isso é mais verdade em Pape do que em Artaud. O Teatro Augusta é dos mais informais. Um café. O sinal sonoro de início de espetáculo soa meio irônico, por grandioso, em meio às mesinhas onde compete com o espremedor de laranjas. O porteiro responsável por coletar os bilhetes é um fortão com roupa de bombeiro. A qualquer momento espera-se que arranque seu uniforme (estará preso com velcro?) e dance só de botas e sunguinha. O contexto de hoje, da Augusta, mantido até a entrada da sala, quase invadindo.
Nem precisava. Mas fica engraçado. A Estação Pinacoteca, com suas salas assépticas, é cercada de terrenos baldios. Viciados em crack, com seu andar suave de fantasmas, ficam pelos cantos. Nada menos controlável do que viciados em crack. Ou fantasmas. No entanto, Lygia Pape se julga uma aranha a tecer o seu espaço. Julga controlar o espaço. Exprimia uma ilusão modernista. A do controle, a da centralidade do conceito e de quem conceitua, a dar significado para o que está em volta. Não é assim hoje. Fazemos parte. Nós, o crack e até essa coisa tão estranha chamada museus. E o significado que nos inclui, exclui, muda a toda hora, é dado pelas tensões entre todos os componentes, igualmente. É sempre temporário. Não há aranhas. Ou donos. Valemos a mesma coisa (não muito) e só somos o que somos com o outro junto, também sendo. Velhos conhecidos do desconforto físico, do barulho excessivo e da ausência de constantes na nossa percepção diária, nos damos bem com as transgressões lógicas, as dissociações sensórias. E não vamos ao centrão de carro.
E o Artaud.
A realidade é doida varrida pelo Teatro Coletivo/SP
Ia ver. Rever. Estava marcado para as 19h. Era dia de Virada Cultural na cidade. O ator/diretor Marcos Fayad, responsável pelo "ritual teatral" (subtítulo do espetáculo), atrasou-se. Mais porosidade com o entorno é impossível.
Mas deu para pensar, outra vez, na ideia de ritual. Aqui em sentido contrário ao da ritualização da visita à Estação Pinacoteca. Ritual, aqui, porque não exatamente uma representação. Mas algo a ser reencenado, reatuado. Há aqui uma entrada, uma brecha, para modificações, desvios.
Fayad faz, em sua montagem, uma homenagem a contemporâneos de Lygia Pape: Rubens Corrêa e Ivan de Albuquerque, do Teatro Ipanema. Foram os primeiros a encenar a peça. Foram eles que me apresentaram, há muito tempo, a Artaud.
Lygia Pape e Antonin Artaud compartilhavam, então, um entendimento de espaço como algo que se abria. Embora pouco para o que viria depois. Compartilhavam um gesto de ir em direção ao lado de fora. Mesmo que esse lado de fora ainda fosse entendido como plateia.

Maio de 2012

Leiam as outras resenhas da escritora na rubica  Artes do blog



A exposição “Lygia Pape : espaço imantado” esteve em cartaz na Pinacoteca do Estado de São Paulo  de 17 de março a 13 de maio de 2012. Para outras informações clique aqui no site oficial da Pinacoteca.

A Realidade é Doida Varrida é é o mesmo texto da peça “ Artaud! ”, roteirizado e encenado pela lendária dupla de sócios do Teatro Ipanema / RJ: o ator Rubens Corrêa (1931-1996) e o diretor Ivan de Albuquerque (1932-2001) no final dos anos 1980. A peça é uma coletânea de textos - reflexões sobre a vida e o teatro, a realidade e a loucura - do poeta, ator, dramaturgo e encenador francês Antonin Artaud ( 1896-1948) : "O verdadeiro teatro sempre me pareceu o exercício de um ato terrível e perigoso". (…) O espectador que vem ao nosso teatro sabe que vai se submeter a uma cirurgia de verdade, onde não somente o seu espírito mas os seus sentidos e a sua carne estão em jogo. O espectador deve estar convencido de que nós somos capazes de fazê-lo gritar". A montagem cumpriu temporada histórica no porão do teatro, onde ficou em cartaz por três anos, e por mais quatro em outros teatros do país. Este texto foi oferecido a Marcos Fayad pelo próprio Rubens , que o via como um dos dois únicos atores capazes de montá-lo. A peça foi enceneda no Teatro Coletivo de São Paulo durante o mês de março de 2012.

Consultem o website de Elvira Vigna e sua entrevista ao blog Estudos Lusofonos, nos links abaixo: 
Website de Elvira Vigna
Um dedo de prosa com Elvira Vigna


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