domingo, 13 de maio de 2012

Dois olhares sobre a emigração


Dois olhares sobre a emigração

Isabel Mateus, écrivain
A Terra do Chiculate e as novas tendências da diáspora portuguesa”

Maria Isabel Edom, Professeure à l’Université de Brasilia
“Lisboa, terra estrangeira: emigração e perda em Luis Ruffato”

le mardi  22 mai 2012
salle 22  de 15h30 à 17h30

Institut Hispanique
31, rue Gay-Lussac - 75005 PARIS

A Terra de Chiculate
Isabel Mateus

A obra divide-se em três partes e dá voz, através dos seus relatos, na primeira pessoa, aos seus “reais protagonistas”. Na primeira parte, intitulada “Naufrágio”, a narração da criança, entregue aos cuidados da avó materna, com apenas 12 meses, centra-se nas suas memórias indeléveis da infância e da juventude, exprimindo, sobretudo, o modo como a ausência dos seus pais se reflecte, de forma nefasta, na sua vida. Aliás, a sua experiência individual remete a temática para um panorama mais vasto, pois a sua situação vai ao encontro da mesma realidade familiar e social de tantas outras crianças e jovens do Portugal rural, principalmente do Norte e Interior do país, durante a época da Ditadura.
A segunda parte, “Viagem(ns)”, trata dos percursos de vida daqueles que deram “o salto”, isto é, dos seus sucessos e infortúnios provenientes desta epopeia da era moderna. Entre outras, aqui perpassam as histórias do passador, da criança e dos jovens arrancados à terra de origem, bem como as referentes aos homens e às mulheres e aos seus muitos trabalhos que passaram para se adaptarem ao novo país, à língua e à cultura. No presente, “os protagonistas” mais idosos desta efeméride deparam-se com outro tipo de problemas: surge o dilema do regresso para Portugal ou da sua permanência em França ou, então, a opção pelo contínuo vaivém entre os dois países, até que as suas forças físicas e psicológicas o permitam.
Quanto às várias gerações de luso-descendentes, debatem-se pela procura e pela afirmação da sua identidade portuguesa, resolvendo deste modo o conflito, por vezes existente, entre o desequilíbrio da influência das culturas francesa e lusa.
A última parte da obra resulta das impressões de viagem do narrador adulto em peregrinação pelos espaços da diáspora dos primeiros emigrantes portugueses, onde se incluem os seus próprios pais, os seus familiares e os seus amigos. A partir daqui, pretende-se que as suas reflexões e considerações elucidem o leitor acerca deste período da emigração ainda mal conhecida por muitos e, até então, com aspectos por desmistificar.
Ao mostrar o difícil passado recente da emigração portuguesa, A Terra do Chiculate alerta, igualmente, para a vigência e a actualidade do tema da emigração clandestina neste início de século.
Fonte website da autora. Clique aqui para consultá-lo.

Lisboa, terra estrangeira: emigração e perda em Luiz Ruffato

Maria Isabel Edom

Os deslocamentos de alguns protagonistas na literatura brasileira têm indicado algumas das motivações de saída do país e certamente poucas convergências quanto aos procedimentos de sobrevivência. Talvez se possa destacar, desde o romance Lorde, de João Gilberto Noll, dois aspectos que variam em gradação: a consciência do exílio e o contato com a clandestinidade. Personagens como os de Algum lugar, de Paloma Vidal; Azul-corvo, de Adriana Lisboa; e Estive Lisboa e lembrei de você, de Luiz Ruffato, apontam para essas diferentes motivações, encarnam a migração contemporânea e assinalam mapas culturais diversos – ao evidenciarem sobretudo os contatos com outros imigrantes. Na obra de Luiz Ruffato, a partida se apoia no na desilusão com o presente em uma cidade de Minas Gerais e no desejo de juntar dinheiro para voltar. O personagem aqui não é um intelectual escritor ou a filha em busca de um pai, tal como aparece nos outros romances. Sua vida simples nos diz sobre aqueles que podem ser contabilizados pelo número da ficha de atendimento do serviço médico da fábrica. Sua simplicidade é tanta que ele nem imaginava de que forma sairia do país, como conseguiria se estabelecer e permanecer em Portugal contrastando com o tamanho das dificuldades encontradas e da esperteza dos outros que, como ele, sobram nas estatísticas, para pensar aqui nos refugos dos projetos modernizadores de que nos fala Bauman. Os contornos da emigração em Luiz Ruffato se desenham pelas perdas sucessivas. O recurso à oralidade por meio do qual transborda a mineiridade encadeia passado e presente, mostrando a família e a cidade de Sérgio. As relações sociais no Brasil variam não apenas de acordo com a afetividade dos vínculos familiares e sociais, mas segundo um código de futuro e de sucesso que engloba o estabelecimento material e é uma exigência do presente. Assim o personagem projeta a sua vida e é de dentro dessa quimera que ele cai na clandestinidade em Portugal, permanecendo no âmbito das estatísticas, agora a dos refugos internacionais. A Lisboa procurada torna-se uma terra estranha, tal como foi para os personagens do filme de Walter Salles e Daniela Thomaz, “Terra estrangeira”, de 1995, onde se protagonizava de forma frenética e desolada a história de outro emigrante e suas perdas.

Isabel Maria Fidalgo Mateus nasceu nas Quintas do Corisco, Felgueiras, Torre de Moncorvo, em 1969.Licenciou-se em Português-Francês na Universidade de Évora. Após dez anos de ensino secundário em várias escolas em Portugal, a sua paixão pela literatura portuguesa levou-a a prosseguir os seus estudos. Matriculou-se na University of Birmingham (Reino Unido) na School of Humanities – Department of Hispanic Studies, na qual obteve o grau de Doutor (PhD) e onde também leccionou língua e literatura. Publicou artigos em jornais e revistas e apresentou comunicações em conferências internacionais sobre Miguel Torga e Literatura de Viagens. Actualmente dedica-se sobretudo à escrita e à investigação académica no âmbito da Literatura de Viagens.

Maria Isabel Edom Pires é professora adjunta de Literatura Brasileira da Universidade de Brasília, é integrante do Grupo de Pesquisas Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea e realiza pesquisas sobre imigração e literatura com dois projetos em andamento: “Inventário da viagem – a narrativa brasileira contemporânea e a imigração” e “Experiência, escrita e artefatos da exogenia”, o último em conjunto com o professor José Leonardo Tonus da Université de Paris-Sorbonne. É doutora pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul onde defendeu tese sobre a crônica de escritores sul-riograndenses. Nos últimos treze anos orientou doze dissertações de mestrado e três teses de doutorado sobre a obra, em especial, de Lima Barreto, Milton Hatoum e Samuel Rawet. Tem publicado artigos sobre imigração em Milton Hatoum, Salim Miguel e Charles Kiefer. Atualmente exerce pela segunda vez o cargo de Chefe do Departamento de Teoria Literária e Literaturas da UnB.

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