quinta-feira, 19 de abril de 2012

Quase nada


Marcelo Cidade, ...e agora José?, 2012
Quase nada

 Elvira Vigna

Ver Beckett hoje é experiência desconfortável. Não que esteja datado. É que gostaríamos muito que não estivesse. A análise acadêmica mais comum fala do mergulho para dentro de personagens que perdem assim um contato significativo com o mundo exterior. Ou vice-versa, que a falta de sentido de um mundo em guerra faz com que os personagens se virem para dentro em busca do significado que já não encontram fora. Visão otimista. Supõe a possibilidade de sentido. Supõe que, não fosse o mergulho interior dos Murphy, Moran, Gogo e Didi, o mundo teria sentido. Ou que o mergulho interno deles traz uma possibilidade de sentido a um mundo destituído de.
Essa visão otimista em geral se contrapõe a outra, a do realismo socialista. Nem o mergulho provoca a falta de sentido, nem a falta de sentido provoca o mergulho. Tudo se resolve dentro de um cenário de  relações sociais.
Igualmente otimista.
Se unirmos as duas, como fez Theodor Adorno em seus ensaios sobre o autor, dá para ver uma época em que a falta de sentido - ou sua busca - era assunto. E dá para ter inveja.
E dá para pensar em Beckett como um artista político radical, que recusou qualquer compromisso, qualquer reconciliação com o ideário de acumulação desvairada que se iniciava em sua época. A ponto de escolher o francês em vez do inglês como língua de criação, porque se falava bem menos francês do que inglês. A ponto de ir abrindo mão de qualquer coisa que cheirasse a excesso, desde cenários até palavras, passando pelo movimento corporal dos atores.
É esta então a saudade. Da época em que falta de sentido era assunto.
Foi pensando nisso que sentei para escrever sobre Marcelo Cidade, um jovem artista paulistano (nasceu em 1979) que abre agora a exposição “Quase Nada”. Galeria Vermelho, São Paulo.
São três instalações, um vídeo. E um release em que tentam deixar bem claro: não se trata de obra política.
Não?
Marcelo Cidade, ...e agora José?, 2012
"... e agora, José?" é um outdoor ao contrário. Na frente, as placas de compensado pintadas de cinza fosco não têm nada. Atrás, como se fosse um reaproveitamento de material usado, um outro "outdoor", o que teria sido cortado em pedaços para ser reaproveitado, e que ainda guarda suas figuras enormes, suas frases chamativas.
As figuras são Juscelino Kubitschek, o marechal Lott, vagos contornos de Brasília. Dá para ler "bandeirante" em algum lugar.
São esses os personagens. Suas poucas palavras, emudecidas pela posição pouco nobre: no avesso, aos pedaços e nem sempre na posição mais digna. Tem um, por exemplo, que está de cabeça para baixo. Seus figurinos ridículos. Sua sensação de que nada deu muito certo (Lott, inclusive, perdeu a eleição para Jânio Quadros).
Tudo pobre, mal pintado, em preto e branco e olhe lá.
Marcelo Cidade, Adição por subtração, 2012
Aí você sobe a escada da galeria e o teatro do absurdo se abre em um segundo ato. Quadros dessa vez. Não são quadros. Seriam. Molduras enormes. Nada dentro.
Bem na entrada, já havia uma apresentação da radicalidade sendo encenada. Umas fotos pequenas, todas parecendo de um mesmo descampado montanhoso. Aqui e ali o que seriam monumentos. Insígnia, homenagem, escultura, bronze, grande nome, estátua, glória, obelisco e outros substantivos com que o poder público costuma lembrar a todos de sua existência, enfiando coisas grandes, vistosas e duráveis, em todos os cantos do planeta. Ou do que consideram sua nação.
Só que não.
Em vez daquilo tudo, placas do mesmo compensado vagabundo, recortadinhas no formato do que não está lá.
Marcelo Cidade, Obra obsoleta, 2011

E tem o vídeo. Abre com seus atores vestindo roupa de marginal. Capuzes, luvas. Tampam a cara com a camiseta. Quando não tampam, uma tarja preta providencial, fornecida na edição do vídeo, se encarrega de transformá-los nos necessários meliantes. Afundam o boné na cara. Invadem um lugar fechado. Descem. E descem. Chegam num trilho de metrô. Trens passam. Fazem cara de mau. Gestos que poderiam dizer alguma coisa, só que ninguém sabe o quê. A câmera é partícipe da ação. Conivente. Solidária. Ela também corre, treme, focaliza luzes. Pretos totais. Brancos totais. Um branco total dura quase três minutos. E aí eles sobem as mesmas escadas. Saem. A cidade continua a mesma.
Não gosto de símbolos. Mas não resisto. Um mergulho "interior"? Uergh. Não. Justamente. Sem significado. Apenas uma leve sensação de perigo. Que, aliás, não está só no vídeo. As molduras vazias têm cacos de vidros pontiagudos presos a elas. A paisagem montanhosa dos não-monumentos é tudo menos idílica.
E voltamos para "...e agora, José?".
Marcelo Cidade, ...e agora José? , 2012
Marcelo Cidade, pela idade que tem, não viveu a era JK. Portanto o que ele faz é uma espécie de arqueologia. Arqueologia pode ser entendida como uma construção. O passado "redescoberto" (invadido masculina e agressivamente?) através de meios tecnológicos para provar o quão formidável é a tecnologia usada no presente e quão infindável será o futuro que a tecnologia oferece. Arqueologia é sempre texto. E propaganda.
Nada disso por aqui. Reformulando, então: seria uma arqueologia. Não fosse a ironia becktiana do artista. Nenhuma estátua grega. Nenhum ohhhh admirativo, nem para o passado, nem para o presente e muito menos para o futuro. O que é "redescoberto" são as figuras ridicularizadas de uma ficção cujo adjetivo, nacional, é igualmente ridicularizável. Não só Brasília, em sua artificialidade, mas desde bem antes. Os bandeirantes - JK está vestido de bandeirante. E até hoje e depois. Um outdoor? Uma propaganda? Se desse para rir, eu estaria rindo aqui. Inclusive do conceito de aura. Aura, segundo Walter Benjamin, é o que parece estar longe mesmo estando a dois palmos do seu nariz. Essencial em arqueologias. Mas propaganda está a dois passos do nosso nariz em qualquer lugar em que estejamos. E propaganda é antônimo de autenticidade, um dos pré-requisitos para que a arqueologia funcione a contento. E a propaganda aqui é propaganda do nada. E tem no avesso vários níveis de invenção, todas com defeito.
Marcelo Cidade, à la Beckett, vai falando o que fala enquanto abre mão de tudo que é excessivo. Quadros não precisam ter nada dentro, narrativas podem dar em lugar nenhum, outdoors na verdade berram o nada, e descampados comemoram o que há de mais vagabundo e precário. E falso.
Sobra só o pensamento. Um registro de que a falta de sentido nos faz um pouco de falta.
Ou, como diz o personagem Nell, só com a cabeça do lado de fora de um cinzeiro desses de hall de elevador, na peça Fim de jogo:
"Não tem nada mais engraçado do que a infelicidade. Garanto a você. É, é sim. É a coisa mais cômica que existe. E a gente ri e ri e ri. Com vontade. Isso no começo. Mas é sempre igual. É como essas histórias engraçadas que a gente ouve várias vezes. A gente continua achando engraçado, mas não ri mais."
São Paulo, Abril de 2012

Para maiores informações sobre a exposição "Quase Nada" de Marcelo Cidade, consultem o website da Galeria Vermelho, no link : Galeria Vermelho

Consultem o Website da escritora Elvira Vigna e a entrevista concedida ao blog Estudos Lusófonos nos links abaixo : 



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