sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Nem música, nem futebol...


Simpósio reúne investigadores de literatura brasileira na França
Os grupos de pesquisa de Paris-Sorbonne IV e Universidade de Brasília apresentaram estudos sobre a literatura contemporânea. Um dos destaques foi a mesa com os autores Luiz Ruffato e Elvira Vigna

Edma Cristina de Góis
20 de Janeiro de 2012

Nem música, nem futebol. Durante três dias, Paris pode conferir um dos principais e melhores produtos culturais do Brasil, a sua literatura. O Simpósio Internacional de Literatura Brasileira Contemporânea, sediado no Maison du Brésil e na Université de Paris-Sorbonne, reuniu investigadores e autores brasileiros em mesas redondas que destacaram a produção contemporânea. De acordo com um dos responsáveis pelo encontro, professor Leonardo Tonus, da Université Paris-Sorbonne (Paris  IV), a realização do simpósio, pretende contribuir para as discussões produzidas também fora do Brasil sobre a literatura brasileira. “É uma oportunidade para que professores e pesquisadores de outros países se aproximem dos trabalhos realizados pelos nossos grupos de pesquisa”, disse. Tonus refere-se ao grupo de investigação Estudos Lusófonos da Universidade de Paris-Sorbonne (Paris IV), sob a coordenação da professora Maria Graciete Besse, e ao Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea da Universidade de Brasília (Gelbc-UnB), coordenado pela professora Regina Dalcastagnè, que estão trabalhando em pesquisas conjuntas. Dos dois lados, professores de universidades federais, doutorandos e mestrandos se debruçam sobre o que tem sido publicado e lido no Brasil.
O ministro conselheiro e coordenador dos serviços culturais da Embaixada do Brasil na França, Alex Giacomelli da Silva, lembrou que esta ação corrobora as iniciativas do governo brasileiro para divulgar vários domínios artísticos do país, em especial a literatura e as artes visuais. Ele também lembrou que outro evento deverá marcar a presença da literatura brasileira no país em 2012– a feira do livro de Paris, no mês de março. A coordenadora do grupo Estudos Lusófonos da Universidade de Paris-Sorbonne (Paris IV), professora Maria Graciete Besse, salientou a importância do Simpósio que, realizado pela primeira vez na França, trouxe para o público do país questões fulcrais do acervo contemporâneo brasileiro atual.
Já a coordenadora do Gelbc, professora Regina Dalcastagnè, destacou as novas vozes sociais representadas na literatura brasileira. Segundo a professora, “autores dissonantes” estão propondo novas representações para grupos minoritários e estigmatizados, como pobres, negros e mulheres. Alguns exemplos são os autores de letras de hip-hop e autores e autoras que problematizam as representações padronizadas. A discussão do Gelbc passa pelo estatuto do literário e também sobre os critérios de valoração de uma obra.
Além da crítica universitária, os participantes puderam ouvir os escritores Elvira Vigna e Luiz Ruffato, dois dos nomes mais representativos da literatura produzida hoje, falando sobre suas preocupações literárias e percursos profissionais. Ainda durante o evento, foram lançadas a edição 38 da revista Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea, dossiê “Cena Latino-Americana” e o livro Fora do Retrato, organizado por Regina Dalcastagnè e Anderson da Mata. Os grupos de pesquisa dos dois países voltam a se reunir em junho deste ano, em data a ser confirmada, em Brasília, para mais uma rodada de discussões de pesquisas e trabalhos.

Cenário contemporâneo
Violência, família, hip-hop, envelhecimento, mulheres, imigração. A literatura brasileira contemporânea não se prende a um tema, a um grupo. Está na diversificação de vozes uma de suas mais importantes marcas. Por esta via, é possível ler bem além do que está posto nos livros. Os silêncios de alguns grupos sociais ou de algumas temáticas servem de diagnóstico de uma literatura conectada com as mudanças do Brasil nos últimos 30 anos.
Além das questões temáticas e de representação, outra preocupação paira sobre os critérios de valoração de obras e manutenção ou não dos cânones, bem como da teoria literária que legitima determinados livros e autores. Os grupos de pesquisa em literatura brasileira contemporânea, da Universidade do Brasília e da Université Paris-Sorbonne IV, lançam foco às produções literárias interditadas pelas agendas crítica, institucional e acadêmica. Assim, teorias não estabelecidas, literaturas consideradas “marginais”, uma vez que não estão no centro, legitimadas e canonizadas, fomentam as discussões dos estudiosos.
É assim que nomes como o de Carolina Maria de Jesus, autora de Quarto de Despejo (1960), para citar exemplos, é visto com reservas pela crítica acadêmica e classificado como “testemunho”, uma vez que narra a experiência de sua autora como moradora de uma favela em São Paulo. Outros casos são de autores como Luiz Ruffato, que traz o cenário do operariado brasileiro, na série de cinco livros Inferno Provisório, ou de Ferrez, autor ligado ao movimento hip-hop. Elvira Vigna, autora que lança novo romance em maio deste ano, também se soma à série de autores que, na temática ou na forma, quebra as narrativas tradicionais. Durante o simpósio, Vigna falou sobre sua preocupação com o narrador e a tentativa de não repetir algo já feito, de não ser “porta-voz de algo anterior”. Desse modo, Vigna arrisca na construção de personagens banais, desestabilizando a narrativa. Seu último livro Nada a dizer (2010) ganhou o prêmio “ficção” da Academia Brasileira de Letras.

Edma Cristina de Góis é jornalista e doutoranda em Literatura na Universidade de Brasília. Pesquisa as representações de corpos femininos na literatura brasileira contemporânea.

Vejam as fotos do Simpósio de Literatura Brasileira Contemporânea no link :Fotografias

Consultem o programa e os resumos dos trabalhos apresentados nos links abaixo :

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