sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Na ponta da pena com Mickaël Cordeiro


Neutralidade em Chamas 
O Blog Estudos Lusófonos publica três trechos do romance ainda inédito de Mickaël Cordeira de Oliveira.

Sinopse : Num diálogo incessante, e, por vezes surdo, as personagens do romance de Mickaël Cordeiro questionam as identidades móveis oriundas de nossa contemporaneidade estilhaçada. Neutralidade em Chamas evoca a trajetória de um narrador, cujos pais portugueses emigrados em França, nunca conheceu. Ao longo de seu percurso deformador, ele busca encontrar-se e situar-se, em vão, num mundo que, ao apagar suas memórias,  tudo faz para que ele se  tranforme num ser de fronterias.

[…] De tanta tentativa frustrada negociando, a pouco e pouco, minha essência viu-se abacinando. Em mim nasceu a ilusão de uma possível hibridez. Dessa ilusão apenas restam abafeiras recheadas de mosquitos sãos que me envenenam e que cercam os precursores perdidos no sonho de poderem, um dia, constituir um ser único, desprovido de qualquer influência exterior, um ser perfeitamente integrado.
Dessa integração, ainda hoje permanecem abantesmas: as vozes que se aglomeraram em meu cérebro, contaminam a suposta pureza inicial do meu ser. Se me dissessem o que vos conto, eu viria na história traços de narceína. Imaginaria um ser em ruptura com a realidade, ensombrado, atomizado. Viria nele um desespero no limite da imolação, um grito de mártir apelando à revolução.
Mas, como sei de quem se trata, é bom lembrar-vos em jeito puramente egocêntrico que estou a falar-vos da minha própria pessoa.
Em mim, foram alimentados por dois povos, nababos que nunca vislumbraram o terrorismo que se cria num elemento sem alicerces. Nunca cultivaram o menor interesse que me fizesse acreditar numa possível evolução. Em mim, nunca houve desilusão. Para isso, era preciso ter nascido antes esperança.
Dos gritos que brigam nos meus pensamentos, cortam-se abarigas pelas raízes, estabelecendo-se abortos quando em certos horizontes não são permitidos.
Acreditem que, hoje em dia, não é tarefa fácil eu aproximar-me de napeias e outras ninfas que me entretêm enquanto não penso neles: os bosques onde elas moram nunca foram tão inundados pelos homens ávidos de riquezas e supressões de identidades.
Juro que chorei quando uma delas contou ter visto sua árvore ser cortada pelos pés, cada um dos bocados do seu tronco aniquilado pelo poder das motosserras como se fossem cavacos sem valor, cada um dos seus braços em ramos, quebrados pelas mãos dos colonos.
Nesse zuidoiro incessante entravam em gestação dores cada vez mais longínquas nas quais eu me reconhecia: a cada insulto dirigido a um dos seres imigrantes que povoam minha alma, ouvia os gritos dos zuavos e outros estrangeiros que se suicidaram como mártires em nome de uma fantochada integrante.
Desses não reza a história nem ninguém nunca falou dos soldados enviados de um povo para o outro do meu ser em antevisão da impossível viagem entre eles: no meu ser, os que viajam de uma parte para a outra pondo de lado as origens são traidores.
Por vezes, juro que ouvi enxames de namazes, gritando pela  libertação de todos os povos. Preces torvelinhando, despegando-se, caindo como resíduos de papel fragmentado, criando-se material onde apenas havia imaterialidade. […]
(p. 1)
"Porque as palavras estão por toda parte” (because words are everywhere) por Marilá Dardot , 2008
Source : http://aguarras.com.br/
O céu é o tudo que me observa. São letras solteiras que dançam à volta do meu ser. São vogais de saia curta, decotadas, maquilhadas de maneira a ficarem sobressaidos os tons mais luminosos delas, para tirá-las da brancura pálida. São consoantes de fato e gravata, de peito forte, majestuosas, são impérios de formas muito menos redondas, muito menos suaves. Enrodilham-se vogais entre elas, consoantes entre elas.
Nas vogais constituem-se casais, até há lugar para ménage à trois. Nas consoantes entijolam-se letras umas às outras. Não há mistura, ainda hoje penso na letra ainda não inventada. Nas letras, entre vogais e consoantes, as últimas verdadeiras resistentes. Algumas desvinculam-se e são expulsas. Disparadas, desnorteiam-se e regressam à terra de ninguém. Perdidas, sem identidade, vagueiam em busca de um sítio que poderia acolhê-las. Enegrece-me a tristeza delas, enegrece-me a reprodução das mesmas injustiças do lado vogal. Sentem-se ameaçadas, rejeitam tentativas de aproximação, não desistem. Entranha-se nelas um passado que nunca será esquecido. Todas as dores são infinitas, nem sempre visíveis, até naqueles que não as vêem.
Aguardam uma oportunidade, um comboio que as transportaria para outro lugar, mais seguro. Algumas, resignam-se. Entregam-se às ameaças como alguém que prefere não oferecer resistência para não sofrer danos maiores. E tentam adaptar-se, seguir o comboio que avança, sempre mais rápido. Dessas letras resignadas e miscigenadas nasceram as palavras. As palavras que rejeitam as vogais e consoantes abandonadas, que se servem delas por vezes, para ligar, para definir, para coordenar. São tretas, não merecem existir, são observadas, toda gente goza com elas. Mas essas letras são as únicas genuínas resistentes. E as palavras mesclaram-se, perdeu-se o conhecimento das letras marginais, já não pertencem à página do dia: virou-se.
Criaram-se frases, pré-estudadas, obedecendo à ditadura de uma minoria. As palavras, revoltadas, queixavam-se, achavam-se marginalizadas, à margem da sociedade da sintaxe. As letras, a pouco e pouco, foram esmorecendo, famintas, sem capacidades para se juntar a outras, e seguir o comboio da evolução. São as últimas resistentes... ( p.60)

[…]O vazio, nada. Sei que o genocídio da minha raça acabará por acontecer, há demasiada gente nesta Terra, é preciso desinçá-la, escolher um bode expiatório que eu aceito ser. Afinal, nunca agradei a ninguém e não me interessa entregar-me a eles. Dentro de mim, sou um precipício onde apenas emergem pensamentos, ideias, perguntas. O raciocínio vem depois, com as palavras rejeitadas de dentro de mim. Tudo isso não me deixa nunca em paz, esse papageamento constante, como uma saravaida infinita que fere o interior que nunca ninguém enxergou. Sou o buraco, o oco, e tudo o que ecoa, dentro de mim. Os vultos que noutros tempos me cingiam parecem ter mudado de ideias e englobaram meu ser, onde desfrutam da vida que o suposto Deus lhes ceifou. E tudo o que me rodeava está agora dentro de mim, a doença é agora o conjunto que forma meu corpo.
O vazio, nada. E queria ser poço, ter aquele interior protegido, nem se sabe se lá há vida, água, dor. Esse poço é meu Marte, gastava milhões para ver-lhe o interior, para saber se podia hospedar-me, ou apenas para visitá-lo. Gostava que me ornamentassem com folhas de hera, folhas caídas do limoeiro, coberto pelas ervas altas que ninguém cortaria, completamente disfarçado como numa guerra, invisível como nos dois lados do meu ser. Daria meu corpo à Natureza, nunca à ciência.
O vazio, nada. E conseguiram atribuir letras e palavras para exprimir estes conceitos. Eu não daria significado. Se são conceitos indefiníveis, não vale a pena invadi-los com ideias nossas, não temos nem nunca tivémos a vivência deles. Perguntas, pontuações que não me largam, horizontes que se fecham, tento não me iludir, não sou nem nunca serei o vazio, nada. […]
(p. .89)
Mickäel Cordeiro de Oliveira é graduado em Letras (Estudos Lusófonos) pela Université de Paris-Sorbonne. Em 2011, defendeu sua dissertação de Mestrado  (Master 1) sobre a obra Livro de José Luís Peixoto. Atualmente cursa o Mestrado Profissional em Estudos Ibéricos e Latino-Americanos Aplicados  (Empresas e Intercâmbios  Internacionais) da Université de Paris-Sorbonne.
Professor de português, publicou os artigos  « Rencontre avec Inês Espírito Santo » (Lusojornal, Ed. N°39, Série II, 8 de junho de 2011), « O Arrastão de Carcavelos e a Emigração », Lusojornal, Ed. N°50, Série II, 28 de setembro de 2011) e « A Guerra do Mercado » (Lusojornal, Ed. N°53, Série II, 19 de outubro de 2011).
Dedica-se a escrita  há varios anos e atualmente busca  contatos com escritores e editoras interessados por seu trabalho.

Para maiores informações e contatos :
Blog : mickao95.wordpress.com

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