terça-feira, 21 de junho de 2011

Sara Palha apaixonada pelo Desconhecido

Gustav Klimt, Musique, 1895

Ele apaixonara-se por um som agudo e fino de seu nome Música, que significa Poesia. Apaixonara-se durante os dias chuvosos que inundavam a cidade de lágrimas e os corações de mágoa. Enquanto corria pelas ruas, à procura de abrigo, entrou num prédio desconhecido, de aspecto tosco e desarrumado, onde algumas gotas intrometidas se arriscavam a entrar, pelas fissuras do tecto velho, prestes a ruir. Sentou-se sobre o tapete da porta mais próxima, aguardando que o dilúvio se esquecesse de inundar a terra; encostou a cabeça à porta castanha e adormeceu, encharcado, ao som dos tiros no chão.
Os olhos entreabriram-se vagarosamente ao som de uma melodia jamais experimentada pelos seus ouvidos; a cabeça contra a porta despertara e, rapidamente, apercebera-se de que as notas que rompiam pelos seus olhos adentro, fugiam pelo espaço de ar que separava a porta do chão. Não se mexera, receoso de provocar algum ruído que perturbasse a sinfonia mais bela que alguma vez escutara. A chuva não mais caía. Permaneceu encostado ao bloco de madeira, por cima do tapete, agarrado às cordas do violino que se escondia do outro lado do muro. Surgiu enfim uma voz suave e escura, ainda que tímida, criando um eco infernal no seu peito que estremecia a cada acorde. Voz de uma mulher, voz da Delicadeza, de olhos negros e coração fechado. E toda aquela música infiltrava-se pelas suas entranhas, como a água se infiltra pelos buracos do chão, atingindo a intimidade das caves trancadas. Chovia lá dentro a amargura das cores, numa trovoada berrante de agonia, num sôfrego murmúrio cantado: as cordas acariciadas como se um corpo fosse.
Apaixonara-se pelo desconhecido.


Sara Palha é estudante do curso de Letras (Português) no Departamento de Estudos Lusofonos da Universidade da Sorbonne

Formas do poder por Ivo Nascimento

Cândido Portinari, A descoberta da terra, 1941

Como em todas as manhãs de Março, enaltecido pelos raios brilhantes que rasgavam a escuridão de uma noite de lua cheia, o sol estava já bem visível no horizonte.
O Fuhrer - como todos o chamavam, acordado pelo som aterrador de esperança dos primeiros pássaros que a primavera trazia, estava sentado, espingarda à volta do braço, numa poltrona no meio do jardim, chávena de café na mão, a admirar a beleza de um poder absurdamente imperialista que o estatuto de Fuhrer lhe dava. 
Entrou, pela porta do quarto que dava acesso ao jardim, uma escrava negra : longo vestido de seda já amarelado devido ao uso, pés descalços, seios firmes ainda de uma juventude de outrora, mas a pele enrugada da idade. Trazia o jornal na mão direita. Chegou-se ao lado do Fuhrer, vagarosamente, e disse, receosa:
 -Senhor está aqui o seu jornal.
Pousando-o ao lado da chávena de café, levantou o tabuleiro repleto de restos do pequeno-almoço. Ficou parada. O olhar fixado no vazio imenso do horizonte, até que, por fim, ouviu:
-Pode ir, negra!
O olhar resignado, agora mais descontraído e aliviado. Virou as costas e voltou-se para a cozinha de maneira apressada, como se finalmente lhe tivessem tirado um grande peso. As horas passavam e a negra andava de um lado para o outro, atarefada, como era recorrente, pelas obrigações domésticas que lhe eram impostas. De espanador na mão, limpava todos os cantos da mobília poeirenta e as porcelanas que há muito estavam em cima dos móveis de madeira, já antigos. Lavava o soalho de um chão cansado do tempo, limpava vidros com panos que se acumulavam aos poucos num caixote de lixo, e que, em seguida, ela teria também de limpá-los.Fazia as camas e mudava os lençóis manchados das marcas de transpiração de uma noite tórrida e ardente de sexo
De andar em andar, as tarefas, repetitivas e fatigantes, faziam com que a escrava tivesse vontade de suplicar ao Fuhrer para que este comprasse outra escrava, outra “negra “como ele clama  a cada vez que se refere a um escravo africano :  negro, negra, negros, negras :  os únicos nomes que os distinguiam. A escrava desejava ajuda para as tarefas domésticas que há tanto tempo fazia sozinha. Desejo de uma companheira,  de alguém com quem pudesse conversar e partilhar momentos de uma vida repetitiva e solitária. Queria uma amiga, queria uma filha.
Sentado na poltrona e aborrecido pelo tédio de uma manhã monótona de Março, aponta a espingarda para o largo e extenso campo do qual era dono. Dispara. Dispara outra vez. Dispara mais uma vez. Três tiros disparados para o chão bastaram para criar um alvoroço no campo onde trabalhavam, desde o levantar do sol, vários africanos, bastante magros e quase nus, tendo no corpo calças repletas de buracos, e tão sujas de terra.

Ivo Nascimento é estudante do curso de Letras (Português) no Departamento de Estudos Lusofonos da Universidade da Sorbonne

Scarlayte Borges : suas flores, suas cores

Beatriz Milhazes, Havai, 

                                                                           Ainda

            Ainda que eu tenha dias difíceis  e que o céu não esteja azul e que eu não veja o sol, eu não perco o otimismo e me lembro de que estas nuvens passarão e de que o sol há de iluminar a minha vida…
Ainda que eu me arrependa dos meus atos, eu me lembro de que os erros são humanos e de que são as maiores lições de vida....
Ainda que eu tenha decepções amorosas, eu me lembro de que há pessoas que me amam e  que por elas eu sempre lutarei...
Ainda que a saudade seja a minha maior dor, eu me lembro de que as lembranças são as maiores forças para combatê-la...
Ainda que eu perca o gosto de viver e ainda que eu me lembre de que a vida não é um mar de flores…             
a vida vale a pena, a vida vale ser vivida,
                 ainda.


Scarlayte Borges é estudante do curso de Letras (Português) no Departamento de Estudos Lusofonos da Universidade da Sorbonne

domingo, 12 de junho de 2011

Dançar e voar com Elodie Morais

Grupo Corpo, Nazareth, 1993

Motivo
Aprendi o que é viver.
como sentir-se livre,  sem sofrer.
Viver sem nenhuma esperança.
E dançar.
Danço ao som da música
que me leva lá no ar,
como uma pena.
Deixando, cá embaixo,
a tristeza.
Sou feliz.

Alfredo Volpi, A menina triste
Infância
Meu pai à frente do futebol.
Minha mãe vendo a novela.
Meu irmão jogando bola.
Eu, sozinha
no quarto,
deitada,
lia o jornal.

Ao meio-dia, ouço um som longínquo.
Minha mãe chorando sem parar.
-Psiu!
E virou a cabeça, olhando para mim.

Lá longe, meu pai indo-se com outra mulher.
Eu corri atrás.

(Eu não sabia : nós éramos as personagens desta novela : infância)


Elodie Morais é estudante do curso de Letras (Português) no Departamento de Estudos Lusofonos da Universidade da Sorbonne

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Maneiras de dizer o amor por Luis Alves

Paula Rego, Amor, 1955


Por mais puro que seja compreender o amor,
a forma de o expressar traz consigo  a dor…
Tentar explicá-lo não tem denominação,
sabendo que vem da voz do coração.

A maneira de dizer o amor : eu amo.
Oh! olhar no espelho que o reflete
e que, na minha vida sempre se inverte,
diz a ele o quanto o chamo…

Se o amor pelo outro é esquecido,
e que tu não o tenhas acolhido,
o sofrimento que nos traz abrigo

é transitório e passageiro.
O que tenho aqui comigo
é uma espécie de amor aventureiro.


Edvard Munch, Cupido


Tu és a que no mundo anda perdida,
Tu és a que na vida não tem norte,
És a irmã do sonho, e  desta sorte
És a crucificada… a dolorida…

Sombra de névoa tênue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele  brutalmente para a morte !
Alma de luto sempre incompreendida !...

És aquela que passa e ninguém vê…
És a que chamam triste sem o ser…
És a que chora sem saber por quê….

És talvez a visão que alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo para me ver…
E há pouco tempo encontrou-me, para nunca mais sofrer.
inspirado do poema "Eu" de Florbela Espanca



Luis Alves é estudante do curso de Letras do Departamento de Estudos Lusofonos na Universidade da Sorbonne.