segunda-feira, 30 de maio de 2011

Palavra de Honra de Ana Maria Machado


“Não tenho compromisso com mensagem. Meu objetivo é contar uma história. Isso significa transmitir uma perplexidade, uma procura de sentido, perguntas e dúvidas. Não conheço história que não seja assim, para qualquer idade.
Ana Maria Machado




Palavra de Honra : un roman en fugue

José Leonardo Tonus
Université de Paris-Sorbonne

Publié en 2005, le roman Palavra de Honra raconte le parcours de cinq générations d’une famille luso-brésilienne installée à Rio de Janeiro depuis le milieu du XIXe siècle. Elaboré à partir d’une structure romanesque qui tend à multiplier et à alterner les dispositifs narratifs, le récit, proche du roman familial et du journal intime, s’appuie sur un nivellement temporel qui assure l’entrecroisement de l’histoire de ces trois protagonistes : Tante Dora, Letícia e José Almada.
C’est après une longue absence que tante Dora décide de recontacter sa famille pour lui demander de l’aide. Si le mystère qu’entoure ce personnage sert de moteur à la progression narrative, sa révélation (Dora avait osé rompre ses fiançailles le jour de son mariage) permet, outre la relecture de l’histoire des Almada, une révision de l’historiographie de la famille brésilienne, fondée sur une fiction dominante qui a souvent négligé le discours de l’Autre, celui des femmes et d’une possible Her-story.
Leticia, quant à elle, est la dernière descendante des Almada et joue, dans le roman, le rôle à la fois de médiatrice et de passeur culturel d’une mémoire envisagée, non plus comme une simple succession d’intervalles autonomes, mais plutôt comme une multiplicité indistincte d’un tout singulier à préserver et à transmettre. Cette mémoire-durée, dont le personnage devient le légataire, se manifeste, tout au long du récit, par le  motif d’une chanson, qui,  transmise de père en fils, assure l’unité de l’œuvre.  Palavra de Honra s’appuie sur une structure  musicale qui, à l’instar de la fugue, se construit à partir de procédés imitatifs en contrepoint décrivant un ensemble de motifs et contre-motifs qui s’entremêlent tout au long du récit. Ce jeu polyphonique se prolonge  jusqu’à l’explicit du texte,  lorsqu’une coda,  sous la base d’un accord harmonique,  signale  la fin  de l’histoire et l’émergence du temps de la mémoire après le décès  de José Almada, ce jeune immigré, venu au Brésil  faire son Amérique.
Pour décrire le périple d’Almada, l’auteur se sert des principaux topoi de la question de l’immigration en proposant, ainsi, une réflexion sur l’ensemble du patrimoine culturel national. Tout en s’interrogeant sur l’émergence d’un nouveau rapport de l’homme au monde, Palavra de honra, évoque la manière dont l’individu et les collectivités au Brésil se sont appropriées symboliquement de leur environnement. Par l’histoire des Almada, l’auteur met en exergue les processus d’inscription du sujet social dans un nouveau univers marqué à la fois par le désir de préservation d’une mémoire en ruines et par le constat  tragique de la perte progressive des traditions, d’une certaine éthique et des mythes fondateurs qui pendant des longues années ont guidé, parfois à tort, les représentations de l’altérité au Brésil : la démocratie raciale,  l’égalitarisme et la cordialité.

Ana Maria Machado e os jovens escritores da Sorbonne


No último mês de Março de 2011, a escritora e acadêmica Ana Maria Machado proferiu uma conferência na Universidade da Sorbonne. O encontro foi organizado pelos professores José Leonardo Tonus, Regina Antunes-Meyerfeld e pela mestranda Vanessa Aguera. Ele contou, igualmente, com a participação dos alunos do Departamento de Português que apresentaram  textos redigidos durante o ateliê de escrita, elaborados a partir do romance Palavra de Honra.

Que língua era aquela que falavam à sua volta ? Todos afirmavam que era a mesma que a sua, mas nem sempre percebia o que estavam a dizer. Não apenas muitas palavras eram incompreensíveis. Mas mesmo a grande maioria, que podia reconhecer, vinha mais aberta, ensolarada, cheia de vogais. Escorria sinuosa para os ouvidos, musical, em ritmo mais lento e melodia com altos e baixos. Chegava doce, íntima, cheia de  sons nasais inesperados e de afetos sedutores. Os diminutivos em –inho pareciam diminuir mais as coisas, ou aproximá-las aos   poucos, sem o corte abrupto dos finais em –ito que usara a vida toda.
– Espere aí um pouquinho... – lhe disseram.
Parecera-lhe um inconveniente menor do que esperar um pouquito. Artes da língua. Era português e não era. Igual e diferente. Como tudo neste lugar onde José acabava de   desembarcar, sem encontrar ninguém conhecido. Nem mesmo o Vicente, com quem contava    e que prometera estar à sua espera no cais.
Sentou-se sobre o saco de lona e resolveu aguardar um pouco[1].


C
Domingos Rebelo, Os emigrantes
aminhavam à sua volta apressados; à sua frente, abraços saudosos entre aqueles que consigo tinham chegado, e os que esperavam, ansiosos, no cais. Observava-os numa inocente inveja, numa alegria branda que lhe fazia prometer a si próprio que, de onde quer que partisse e onde quer que chegasse, alguém o esperaria ansiosamente ou deixá-lo-ia num triste adeus de lamento. Esse seria o seu objectivo primordial : provar mil línguas, mil sonoridades e levá-las consigo na bagagem. Sentado sobre o saco de lona, como por cima da única coisa que, agora ali, lhe pertencia. A sua mala, que o acompanharia na sua ainda jovem viagem, é o símbolo das suas raízes: identidade transportada às costas para que nunca se esquecesse de onde viera. Dispersado na movimentação à sua volta, pelos gestos estranhos e elevações de vozes desajeitadas, esquecia-se progressivamente que o seu amigo poderia estar à sua procura pelo cais. Dançavam as pessoas apressadas, numa correria vagarosa, ambulante, ao ritmo das ondas onde os barcos repousam, balançando. Era estrangeiro, estranho, vindo de fora. Os sons criavam uma distância marcada por um muro pesado, uma separação abrupta entre si e os outros. Estrangeiro. Tão estrangeiro, que nem com estranheza o olhavam: ninguém o via. A ânsia pelo novo misturava-se com o medo da mudança, a angústia perplexa em olhares de vergonha. Encolheu-se sobre o saco de lona, com receio de observar, de experimentar a luz que rompia pelo cais, quando sobre o seu ombro sentiu uma mão que não era a sua, um peso que não lhe pertencia. Voltou-se lentamente e a imagem nos seus olhos reflectida trouxe-lhe um apaziguamento das incertezas que o corrompiam: Vicente sorria-lhe alegremente. Num longo abraço de saudade recuperou os olhos luminosos, a ânsia por cheiros desconhecidos, e a eterna vontade de descobrir os mistérios da cidade.
Sara Palha – 1° ano LLCE.

A
guardava a chegada de Vicente, enquanto a orquestra da língua portuguesa continuava. As crianças jogando peão na calçada oposta compunham a mais bela melodia: um forte inicial, uma curta pausa em stacatto e um crescendo que explodia em gargalhadas. Ah! Isto ele conhecia bem. De onde ele vinha, riam muito. José sentiu-se mais em casa e não pôde controlar o sorriso que se esboçou no canto direito da sua boca. Mais ao longe, homens de negócios discutiam sobre suas aventuras finaceiras, em tons graves e oitavados. Repetiam seus recados e reuniões em arrojados telefones celulares, todos com um sorriso no rosto. De repente, a sensação de que o saco de lona havia se tornado o seu assento, reservado e aquecido para si. José se via como se estivesse no teatro.
Pedro Mitraud – 1° ano LLCE   
S
entado sobre o saco, encontrou-se envolvido pela sonoridade de uma língua cheia de sons diferentes, novos, desconhecidos, repletos de « ch » e de «nh », mas que nos seus ouvidos lhe pareciam tão melodiosos e familiares. Toda esta beleza musical de uma língua que, outrora lhe parecia  tão agressiva, tornava-se, agora, objeto de uma admiração perplexa. Ali, rodeado pelo atraente desconhecido, oferecido pelas terras de Camões, ele ouvia todos os detalhes daquela melodia e tentava limar as arestas musicais daquela língua….  Magnífico e sublime, pensava.
Ivo Nascimento (1° ano LLCE)

U
Lasar Segall, Navio de imigrantes
m pouco. Um pouco mais. Mais um bocadinho. O frio anunciava os primeiros sinais da descida da noite. As vozes há muito se calaram para dar lugar ao silêncio que gritava pelo cais adentro,como testemunha solitário. Escurecia: a queda da noite infiltrava-se pelos barcos presos à doca, roubando todas as cores vivas, todos os sons humanos que ali tinham estado, à luz do dia. Escurecia dentro de si a alegria dos primeiros olhares, o genuíno nervosismo da chegada, a ânsia pelas primeiras palavras que trocaria e os primitivos passos em terras estrangeiras. Estava escuro lá fora, tão escuro que dentro de si se instalava um profundo e sombrio abandono. O sopro do vento varria as folhas do chão, os pássaros negros cantavam melodias nocturnas, as ondas empurravam os barcos: ruídos negros que o assustavam. Perdido, avistou ao longe, o vulto dum caminhante que se aproximava na sua direcção. Os traços definiam-se à medida que o passo acelerava. O vulto enxergou-o e desatou a correr direto a si. Sentado sobre o saco permaneceu imóvel, petrificado, sem reflexos e de fôlego cortado. Fechou os olhos, amedrontado, imaginando todas as terríveis possibilidades para o que lhe iria acontecer: o vulto cada vez mais próximo de si. Gritava alguma coisa, uma palavra que não conseguia compreender com todas as vozes da noite a murmurarem ao mesmo tempo; grito que a cada passo se tornava mais perceptível, adquirindo contornos que reconhecia, e lentamente se formavam numa palavra que tantas vezes ouvira: era o seu nome!
Sara Palha – 1° ano LLCE.

E
sperando Vicente, José aproxima-se de um grupo de brasileiros que esperava o barco para a cidade de Salvador. Vivia intensamente e interiormente uma expectativa em familiarizar-se com esta suave e desconhecida língua. O grupo percebera a preocupação de José.
- Amiguinho, procura alguém ?
José, ainda maravilhado com a sonoridade que saía dos lábios das pessoas, hipnotizado, responde :
- Não, apenas com um movimento de cabeça.
No fundo dele próprio, queria desfrutar daquele momento novo entre duas línguas tão incomuns. Desviou o olhar. Afastou-se e voltou a esperar o amigo, na ânsia de com ele compartilhar este primeiro momento majestoso nesta terra cheia de promessas.
Lucimar Moraes, 2° ano LLCE.


Mas não queria aguardar. Ficava sentado e dizia a si mesmo que teria de saber mais. Mais, muito mais : tudo sobre esta língua que lhe parecia tão familiar e ao mesmo tempo tão desconhecida. Diminutivos, vogais, « -inhos », « -itos », tudo ressoava-lhe como uma história muito velha de que não se podia lembrar. Algo lhe dizia, portanto, que a sua alma já conhecia a nova língua. Sentia-se como se tentasse alcançar o fruto proibido, mas ainda faltava-lhe um pouco. Ambicionou-se. Decidiu-se. Vai compreender. Vai saber. E de repente levantou-se e afundou-se no mar de homens que cantavam a mais suave canção. Perdia-se no mundo destes doces sons. A redescobeta da sua própria língua, esta grande aventura esperava-o.
Monica Magaon – 2° ano LLCE       


O
u esperar um pouquinho como se dizia nesta nova terra. E, assim, observava o comportamento de cada um. O jeito de andar, descontraído, diferente do que vira antes : um andar mais lento, suave.  Também o jeito de falar e  de se expressar.
Jesuína ALVES (1° ano LLCE


Ele olhava para aquele mundo desconhecido com uma visão nova e objetiva daquilo que o rodeava. Estas cores vivas, estes sons melodiosos e estes cheiros suaves não o deixavam indiferente.Todos os seus sentidos a sentir… provocavam nele uma grande alegria, mas uma alegria que deixou, pouco a pouco, lugar à solidão. Apesar de toda a gente que andava por cá, ele sentia-se muito só. O medo provocado por este mundo novo batia no seu peito.
Marta  Rodrigues,1° ano LLCE


Ana Maria Machado, Sorbonne - Março 2011





Ana Maria Machado e o Prof. Leonardo Tonus
Sorbonne - Março de 2011














[1] Ana Maria Machado. Palavra de Honra. Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 2005, p. 32-36

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Promessas de pontes em Maria Ondina Braga

A experiência da viagem na obra de Maria Ondina Braga.
Objectos de busca, cruzamentos e desencontros.

Maria Araújo da Silva
Maître de Conférences
Ilustração de Vergilio para o livro
O  meu sentir
Université de Paris-Sorbonne

A experiência das viagens que Maria Ondina Braga empreendeu pela Europa, África e Oriente reflecte-se na maioria dos seus contos, narrativas de viagens e romances, construídos numa permanente oscilação entre memórias e sonhos, impressões e reflexões, real e imaginário. A viagem física inscreve-se, na escrita ondiniana, como elemento desencadeador de incursões pela memória pessoal e colectiva e de uma descida vertiginosa pelos meandros da interioridade. Em torno da temática da viagem, destacam-se ainda as principais linhas de força de um discurso onde o apelo da distância, o fascínio pelo exótico e as representações do Diverso ocupam um lugar central. Em muitas das obras ondinianas, assistimos à representação de um universo povoado de identidades tendencialmente rizomáticas (Deleuze e Guattari) que se cruzam na terra alheia, num contexto de aproximação, concorrendo para o desenvolvimento de uma “totalidade-mundo” (Glissant) tecida de encontros dinâmicos que funcionam como um convite à comparação de culturas, de histórias singulares, de diferentes formas de deslocamento e à reflexão sobre o confronto e a permeabilidade das fronteiras entre identidade e alteridade. Em narrativas marcadamente descritivas que privilegiam a terra e os seres, apresentam-se ora os grandes espaços africanos onde a memória se projecta e o imaginário se dilue, ora o universo exótico oriental (Goa, Macau, Pequim) que representa um campo fértil onde se reflectem experiências erráticas, promessas de pontes ou elementos reveladores de diversas formas de ruptura. Procuraremos finalmente ver de que forma a geografia da distância e as figuras da alteridade funcionam como verdadeiros instigadores de uma busca de identidade levada a cabo por um sujeito inevitavemente confrontado com os meandros de uma interioridade em fuga permanente.

Comunição  no âmbito do II International Conference on Intercultural Studies ISCAP ( 25 – 27 de Maio de 2011)
 Centro de Estudos Interculturais/ Instituto Superior de Contabilidade e Administração do Porto

Séminaires doctorants : Sophia de Mello Breyner Andresen et Carlos de Oliveira

La maison déclive, Finisterra de Carlos de Oliveira et les figurations de la décadence
Paul Ndour, doctorant Université de Paris-Sorbonne
                       
Saudades do Carlos de Oliveira, Oleo de Mario Dionisio,1988
Poser la problématique de l’art engagé et son applicabilité dans le champ littéraire du Portugal de la dictature salazariste (1926-1974) procède de prime abord d’un questionnement à multiples articulations. Il s’agit d’abord de s’attacher au décalage chronologique qui rend nécessaire une analyse socio-psychologique des écrivains et favorise  « une approche non déformante » de leur discours. (A. Margarido, 1984). Il faut également considérer le décalage subjectif qui oblige l’interprète à débusquer dans le texte de surface consenti, les manifestations d’une conviction noyée par la censure (complexe de l’iceberg, C. de Oliveira, 1972). On restera attentif enfin au traditionnel décalage cognitif par lequel le réel en constante mutation distance sa représentation mimétique. Pour ces raisons, toute interprétation ne se fera que « de fora » puisqu’interrogeant une réalité farouche en elle-même, à travers une médiation  narrative soumise à une triple ambigüité. En effet, au codage sémantique, ces belles dérives réalistes selon H. Mitterand, (1998) s’ajoute la conditionnalité de l’expérience noétique de l’énonciateur (A. Rabatel, 2004) et celle du propre narrataire. Alors, Quod est veritas ? Chez C. de Oliveira, toutes ces incertitudes produisent l’inquiétude fondamentale portée par le récit autoréférentiel de Finisterra (1978). Ce dernier roman de l’auteur,  apparaît  à maints égards, comme un défi répondant aux tensions évoquées. Pour Gastão Cruz, “a diferença entre o Carlos de Oliveira de Finisterra e de antes de Finisterra, (...) reside em que, na primeira fase, ele procura captar o rigor, a geometria do real, enquanto na segunda tenta produzir esse rigor, essa geometria” (G. Cruz, 1999). Cette œuvre nous donne à voir, en effet, le surgissement d’une temporalité chavirée dont les remous ramènent à la surface une société fossilisée et mnémonique. Le texte expose l’actualité passée d’une maison en ruines (son futur anachronique) et crée ce que Manuel Gusmão appelle « nœud temporel » (Gusmão, 2009).  Pour se prémunir contre la menace extérieure un homme se réfugie dans les bas-fonds de sa double  maison (temps et espace) tandis que  (sa) la femme et son (l’) enfant entreprennent de domestiquer le réel au moyen de simulacres (V. Viçoso, 1991). Nous sommes loin du « conditionnalisme » néo-réaliste de type positiviste, et proches d’une relecture quasiment intimiste des rapports entre l’individu et son milieu. Loin d’une sotériologie néo-réaliste (en dépit de l’argument d’un confinement symbolique de son discours dans le dessin infantile (R. M.Martelo, 1998)) et proches d’un « paysage métaphysique » (Ponge, 1980) ouvrant sur une géomancie tragique. Les écrivains de la génération de Presença ont largement développé une critique d’orientation esthétique qui a enfermé la prose néo-réaliste dans une lecture politique. La notion d’intériorisation anesthésique des problèmes sociaux ( J. Régio, 1944) infère un cheminement centripète dans lequel la pratique, d’un narcissisme politique totalitariste trouvait un naturel écho. Pourtant, cette forme de quiétisme, aux antipodes de l’idéal interventionniste du néo-réalisme littéraire cadre paradoxalement bien, avec la personnalité littéraire de Carlos de Oliveira exprimée par Finisterra. Tandis que l’œuvre protéiforme de ses pairs néo-réalistes défriche de vastes aires littéraires, le romancier de la gândara ne publiera que cinq romans, entreprenant de les soumettre à un important travail de récriture (ruche peinte et repeinte). Par cette démarche intimiste, l’auteur tourne autour de son œuvre avec une logique d’introversion thérapeutique qui renvoie, mutatis mutandis, au confinement axiologique du discours « présenciste ». On peut dégager, dans les romans de Carlos de Oliveira, deux axes de réflexion. Le premier penserait la pratique d’une certaine hétérodoxie, qui  érigerait cet auteur en porte-étendard d’un réalisme social attentif « ao drama de gente rude, em que o fundo económico do conflito não viciava de modo algum a verdade psicológica das criaturas que o viviam” (J. G. Simões, 1942). Il mettrait en débat le fait que contrairement au discours néo-réaliste qui adopte un modèle téléologique largement inspiré par le matérialisme dialectique, l’écriture de Carlos de Oliveira ait amorcé une certaine déclivité. Cette trajectoire nous invite à chercher des réponses dans le fond figé des choses, abordées de profundis (J.Cardoso Pires, 1992) ; des mots (A. Salema, Vértice, 450-51.) ; du courant de conscience des personnages (J. Camilo, 1982) et de la vie de l’auteur conçue comme sa part fatale (Jouve, 2001 ; A. Roig, 1992 ; A. Abelaira, 1992).  Si cette démarche n’a rien d’innovant,  elle contribue en revanche à construire la chambre noire de la maison-écriture ou cette féconde obscurité qui donne force à la prose de Carlos de Oliveira. Le second axe,  sonderait la vitalité allégorique avec laquelle l’écriture de Carlos de Oliveira, « visite le ventre de la maison-terre » (Yourcenar, 2009). Les romans de Carlos de Oliveira projettent devant nous les marques symboliques d’un monde qui s’effondre. Rongée de l’intérieur, (rats, araignée et rouille) comme les ruches des Silvestre (Uma Abelha na Chuva (1953) ), mais également exposée aux attaques de l’extérieur  (parabole biblique Mt 7 , 24-27), à l’usure de chevaux de Troie (champignon, grande route, femme fatale et gisandra), la maison penche vers le couchant (Casa na Duna) puis livre son dernier combat par un repli sur soi (Finisterra). La famille-propriété privée, famulus-familia (Engels, 1884),  est maillée par un réseau de schèmes handicapants, qui scandent sa descente aux enfers. La famille – lignée est également contaminée physiquement, du point de vue psychologique et dans sa dimension onomastique. L’autorité narrative, semble chercher ainsi à surprendre le réel en mobilisant, par sa frénésie figurative, une stratégie de dissimulation identique à celle qui produit sa duplicité. Ce stade de l’activité mimétique consacre une étape ultime et jubilatoire dans laquelle vient se dissoudre toute existence individuée.

L’Univers mythique dans l’œuvre de Sophia de Mello Breyner Andresen

Maria Rosa Pereira, Doctorante Université de Paris-Sorbonne

 

Depuis le milieu du XXème siècle, le mythe est devenu un enjeu pluridisciplinaire. Nous étudions « L’univers mythique dans l’œuvre de Sophia de Mello Breyner Andresen » à partir d’un certain nombre de notions issues de la littérature comparée, de la mythocritique et de la mythanalyse. Son univers mythique étant avant tout fondé sur la réappropriation des mythes, nous examinerons leur recontextualisation et leur interprétation, perceptibles dans les processus de mise en discours qui passent par les dispositifs énonciatifs et pragmatiques.

Résumé : L’ample répertoire des « motifs classiques » auxquels se réfère Sophia de Mello Breyner Andresen donne un pouvoir de communication et une « dimension mythique » à son œuvre ; mais la mythologie n’est pas chez elle un ornement obligé et conventionnel. Sa poétique est avant tout création, et transformation de l’expérience vécue en mythes. La publication des archives de l’auteur a permis de mettre en perspective les documents personnels et de mieux connaître son univers : ses impressions d’enfance, les paysages maritimes qui ont marqué son imaginaire, ses convictions humanistes et sa lutte contre la dictature sont magnifiés dans son œuvre par une diction particulière, caractérisée par les rythmes, la pureté lexicale et les images, le plus souvent évoquant la nature.
C’est dans la production des textes autant que dans leur contenu thématique que nous déchiffrons l’univers mythique de la poétesse, ses structures et les métamorphoses que connaissent, dans son œuvre les narrations mythologiques. Une conception mythique du langage et de la création sont parties intégrantes de sa poétique. L’Univers mythique de Sophia de Mello Breyner Andresen est fondé sur une double structuration, voire une dualité entre les éléments apolliniens et dionysiaques, la mythologie et la doctrine catholique, entre le chaos et le cosmos, l’ombre et la lumière. Parallèlement, la poétesse est fondamentalement en quête de l’unité : « Caminho para a única unidade »[1]. Le tropisme qui l’attache aux paysages de bord de mer est une expression du « sentiment océanique ». La mythologie grecque, liée à cette recherche d’unité et de cohérence crée un lien avec le passé et porte des symboles culturels partagés par tous.

Problématique : En dépit de la multiplicité des thèmes et des formes poétiques qui font de l’œuvre de Sophia de Mello Breyner Andresen « um cruzamento de tendências »[2], sa poésie aussi engagée dans le temps réel de l’expérience préserve une unité profonde. Mais  comment se résolvent les contradictions d’une poésie aussi complexe ? Nous avons choisi cet axe en considérant que les notions de division et de réunion sont deux pôles du vocabulaire éthique de la poétesse.

MéthodologieDans une perspective phénoménologique, nous présenterons l’univers des mythes tels qu’ils peuvent être vécus dans trois champs de l’expérience : l’immanence, l’évocation des dieux de la mythologie classique, enfin, l’appréhension du sacré dans le monde contemporain, désenchanté mais auquel la Révélation chrétienne offre une voie de salut. Ensuite, nous situerons l’univers mythique de Sophia Andresen dans sa dimension textuelle : exploiter une narration mythique est toujours reprendre la parole d’un autre, donc se situer dans l’intertexte et, par un dispositif énonciatif, des visées pragmatiques toujours différents, subvertir le modèle. Nous aborderons également l’imaginaire du poète comme créateur de mythes, et les oppositions structurantes dont la résolution, au moins virtuelle, est productrice d’un sens plus profond, répondant à la nécessité de dépasser une pensée réflexive, pour s’ouvrir au monde.




Le lundi 23 mai 2011, à 17h30 heures,
salle 21 -  l'institut d' Etudes Ibériques
31 rue Gay Lussac -75005 Paris


[1]Op. I « O jardim e a casa”, p. 85.
[2]Maria de Fátima MARINHO, article paru dans Máthesis 10, 2001, 59/72.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Conférence : L'immigration portugaise avant et après l'intégration du Portugal dans l'U.E.


Georges Braque, Le portugais  ou L'émigrant, 1912.

Dans le cadre du cours de Culture Lusophone

Inês Espirito Santo
doctorante de l'école d'hautes études de sciences sociales (EHESS)

fera une communication sur

L'immigration portugaise avant et après l'intégration du Portugal dans l'U.E.

le jeudi 19 mai 2011, à 15 heures,
salle 21 -  l'institut d' Etudes Ibériques
31 rue Gay Lussac -75005 Paris

Conférence : Uma Leitura de A árvore das Palavras de Teolinda Gersão : As raízes do passado e o sentido dos frutos.

Conferência de João Amadeu da Silva
Professor Universidade Catolica de Braga

Uma leitura de A Árvore das Palavras de Teolinda Gersão:
As raízes do passado e o sentido dos frutos

A reflexão que propomos sobre o romance A Árvore das Palavras de Teolinda Gersão desenvolver-se-á a partir do símbolo “árvore”. As raízes, encontramo-las na cultura popular representada, por exemplo, em Lóia, Laureano e sua filha. Remetem para o passado e contribuem para que os seres humanos vivam em paz e em harmonia com a natureza. Estes nascem da terra, alimentam-se dela e completam o ciclo, quando morrem e frutificam. As árvores dos antepassados, o ciclo produtivo sugerido pela dança debaixo da árvore, a elevação do corpo como árvore que nasce da terra são imagens que se encontram ao longo da obra. Numa perspectiva intertextual, aludiremos a outras obras. Sob o Olhar de Medeia de Fiama Hasse Pais Brandão e a relação de Marta com os ciclos da natureza e a aprendizagem que desenvolve a partir desse contacto; Os Selos de Herberto Helder e a simbologia das áfricas, como espaço de unidade e transmutações alquímicas, harmonia e conhecimento dos espaços obscuros; A Margem da Alegria de Ruy Belo e o reconhecimento de uma realidade edénica que antecede sempre o sofrimento e a desarmonia e, por último, Lusitânia no Bairro Latino de António Nobre e, novamente, a saudade do passado, da harmonia inscrita nas experiências da infância na relação com o mundo circundante.     
A contrapor ao sentido ascensional da árvore, deparamos com a perspectiva horizontal da viagem anti-épica de Amélia. Embora Teolinda Gersão introduza esta personagem “in medias res”, como se pudesse rejuvenescer em terras de Moçambique e elevar-se pelos seus frutos, Amélia não está preparada para corresponder aos objectivos daqueles que, outrora, viajaram de Lisboa; pelo contrário, procura realizar-se nas imagens de grandeza. Não frutifica sem as raízes da cultura africana ou as familiares: a sua mentira estropia as árvores (cf. Gersão, 1997: 95). A personagem feminina degrada-se e dilui-se, por fim, num última viagem para lá das índias. Desaparecerá definitivamente por terras australianas.
Retoma-se o símbolo da árvore. Os ramos e os frutos brotam com os encontros de Zita e Rodrigo. Estes reconhecem a importância das raízes para a construção de um país independente. O futuro parece possível e, no entanto, tem de ser construído fora de Moçambique. Os grandes ideais da juventude são substituídos pela necessidade de uma realização pessoal. Recorre-se a uma nova viagem, agora de Zita ao decidir viver na terra dos seus pais, num espaço estranho, fechado, cheio de limitações e regras sociais para quem chega livre das terras africanas, onde “uma árvore que crescia nos sonhos […] chegava ao céu – que sabem eles disso, que podem eles compreender?” (Gersão, 1997: 239)  
    

le mardi 10 Mai 2011, à 15h30
salle 21 - dans le cadre du cours de Master 1
 l’Institut Hispanique
31, rue Gay-Lussac/ 75005 Paris



Referência:
Gersão, Teolinda (1997). A Árvore das Palavras. Lisboa: Publicações Dom Quixote.   

Conférence : Le lexique préroman dans la péninsule Ibérique

Beatus de Valladolid, f°120 La 5e trompette : les Sauterelles

Steven DWORKIN
Professeur de Linguistique romane et d’Espagnol
à l’Université du Michigan

fera une conférence sur :

Le lexique préroman
dans la péninsule Ibérique

Mercredi 11 mai 2011
de 12h à 13h30 en salle 14
(cours de Linguistique ibéroromane et romane L6PR125X)

Institut d’Études Hispaniques
31, rue Gay Lussac 75005 Paris

Conférence : Visões de África em A Árvore das Palavras de Teolinda Gersão


No último dia 26 de Abril de 2011, o Professor José Cândido de Oliveira Martins da Universidade Católica Portuguesa ministrou uma conferência intulada “Visões de África em A Árvore das Palavras de Teolinda Gersão”.




De acordo com a teoria do romance de M. Bakhtine, a escrita romanesca é habitada por uma pluralidade de vozes e linguagens. Esta concepção dialógica do texto romanesco, relacionada com a teoria comparatista da imagologia, permite-nos reflectir sobre as imagens ou visões de África que se vão construindo ao longo do romance de Teolinda Gersão, no contexto de desagregação do império português em África.


Bibliografia:

BAKHTINE, Mikhail (1987), Esthétique et Théorie du Roman, Paris, Gallimard.
MOLL, Nora (1002), "La imagología: definición y terminología", in Armando Gnisci (ed.), Introducción a la Literatura Comparada, Barcelona, Ed. Crítica, pp. 348-389.
PAGEAUX, Daniel-Henri (1994), "Images", in La literature Génerale et Comparée, Paris, Armand Colin, pp. 59-76.
RIBEIRO, Margarida Calafate  /  FERREIRA, Ana Paula  (org.), (2003), Fantasmas e Fantasias Imperiais no Imaginário Português Contemporâneo, Porto, Campo das Letras.