quinta-feira, 10 de março de 2011

Entrevista com o escritor João Almino

De passagem por Paris, o escritor João Almino concedeu ao Professor José Leonardo Tonus uma entrevista sobre seu mais recente romance Cidade Livre, texto que coloca em cena um dos momentos mais espetaculares da história do Brasil contemporâneo : a construção e a inauguração de Brasília. 

                                  
      Cidade Livre, de João Almino
                                                                                 

     Presente em grande parte de seus romances, o universo brasiliense surge, no último trabalho de João Almino, como um espaço mítico que o olhar descentrado do narrador-personagem vem revelar. J.A, um escritor sem editora, relata ao longo deste romance sua infância vivida no Núcleo Bandeirante, cidade-satélite habitada por uma horda anônima de operários originários dos quatro cantos do Brasil. A história começa com um prológo, cuja ambiguidade em torno da voz autorial/atorial cria, à maneira machadiana, um jogo de falsos semblantes. Se, ao mimar o regime autobiográfico, (“eis o que eu vivi, eis o que eu escrevi”), o narrador-personagem responde ao protocolo da leitura memorialística, sua ficcionalização tende a atenuar e a diluir as tênues fronteiras existentes entre história e ficção, entre a verdade e  a mentira.
     Elaborada a partir  de um suporte narrativo virtual em rede (o blog), a estrutura  romanesca de Cidade Livre refuta as noções clássicas da autoria textual. Com efeito, ao acentuar os efeitos de dissimulação, o autor assegura ao texto uma configuração caleidoscópica capaz de neutralizar a articulação linear e unívoca das informações veiculadas. Em Cidade Livre, estas apresentam-se, antes, sob a forma de sequências associativas, convergentes e/ou divergentes, que reavaliam, constantemente, o conjunto dos dispositivos escriturais : instâncias narrativas, focalização, temporalidade e espacialidade. Ao olhar irônico e desabusado de J.A., justapõem-se, ao longo do texto, as lembranças fragmentadas de seu pai adotivo registradas num diário lacunar, o testemunho de personagens históricas ficcionalizadas, os comentários dos leitores virtuais do blog que destilam, completam ou alteram as informações diegéticas e, finalmente, o olhar  admirativo da população anônima de candangos que, em Brasília, acreditava ver o raiar de uma nova era para o país. A intriga  articula-se em torno do relato de sete noites de vigília durante as quais  J.A acompanha a agonia do pai  até a sua morte. O corte temporal aqui escolhido pelo autor confere ao texto uma dimensão mítico-simbólica inscrevendo-o na tradição dos mitos de restauração cíclica.  Romance de fundação, ou de anti-fundação, Cidade Livre conduz o leitor pelos abismos labirínticos de uma memória individual e coletiva estilhaçada que, através das brechas, frestas, insterstícios e  desvãos da história não-oficial do país, recompõe o momento inaugural do Brasil moderno. A euforia e o otimismo da construção de Brasília contrastam, ao longo do romance, com as desilusões familiares e o desencanto dos trabalhadores locais, dentre os quais, Valdivino, assassinado no dia da inauguração da capital brasileira. Sua morte misteriosa constitui o motor dramático e interpretativo desta narrativa que concentra no candango todas as contradições do devir da nação brasileira, dividida entre sua ancoragem rural e urbana, seu ímpeto modernista e tradicional, sua racionalidade e irracionalidade profundas. A localização do romance no universo brasiliense é neste sentido significativa.  Espaço movediço e desprovido de história,  Brasilia é em Cidade Livre um território sem raízes povoado de identidades precárias, órfãs e bastardas, em suma : o espaço das utopias e distopias de um Brasil que, em construção,  ja é ruína.

- Muitos críticos têm sublinhado, neste  seu último trabalho, sua preocupação com o resgaste de um material  histórico brasiliense. Poderia nos falar um pouco da gênesis do romance, das fontes utilizadas e do processo de redação?
João Almino : Não é um romance histórico. Todos os personagens centrais bem como as tramas que dão corpo ao romance são puras criações literárias. As memórias do narrador, João, são inventadas. O J.A. do prefácio não passa de uma referência jocosa ao M. de A. do Memorial de Aires. No entanto, como a história se passa no momento da construção de Brasília e na "Cidade Livre", a cidade que foi construída para ser destruída no dia da inauguração de Brasília, adicionei ao texto elementos e personagens históricos que, embora secundários, têm a função de criar uma atmosfera de verossimilhança para o conjunto das histórias. Havia perseguido o tema do novo, da criação e da fundação nos romances anteriores e, desta vez, resolvi revisitá-lo sob a ótica da própria construção da cidade. Uma parte substancial do material que eu havia acumulado sobre Brasília ao longo dos anos ainda não havia utilizado na minha ficção. A isso somei uma pesquisa em bibliotecas norte-americanas, onde encontrei várias dezenas de livros, revistas, folhetos e artigos de jornal sobre Brasília nos anos de sua construção.

- A  crítica sublinha  uma certa predominância do espaço brasiliense em sua obra. Por que a escolha de Brasília, sobretudo enquanto elaboração mítica? Em sua opinião, de que maneira o mito permite uma releitura da história oficial? 
João Almino : O mito tem um sentido de permanência maior do que a realidade histórica. Não pode ser facilmente destruído. Pode também oferecer uma chave de interpretação de uma história profunda e nem sempre aparente. Brasília tem uma carga simbólica como poucas cidades do mundo. Seu projeto acompanhou toda a história do Brasil independente e veio a ser identificado com a aspiração de modernidade do País. Brasília é, assim, uma ideia de Brasil e uma metáfora do mundo moderno. Escrever sobre Brasília é escrever sobre o Brasil e sobre os dilemas, contradições e tensões desse mundo moderno. Brasília pode também servir de suporte a um ideário estético-literário. Uma cidade desenraizada, ainda um vazio com pouca tradição, povoada de migrantes, com uma identidade múltipla, cambiante e aberta, cria um espaço de possibilidades que legitima a liberdade de imaginação. Pode também ser propícia a uma literatura que procura evitar os estereótipos. Seu caráter universal favorece uma tomada de partido contra o pitoresco. Em Brasília, existe uma tensão exacerbada entre a geometria do plano e a criatividade espontânea da vida cotidiana, entre a ordem e o caos, entre o futurista e o arcaico, entre o projeto racional e moderno e expressões pré-modernas e irracionais, presentes, por exemplo, na experiência de suas várias seitas místicas. E tudo isso é um ótimo material para a literatura.

- Cidade Livre inscreve-se na dinâmica dos mitos de fundação. Por que estabelecer o mito de fundação a partir da categorias da orfandade? Compartilha a opinião do escritor e sociólogo canadense Gérard Bouchard que vê na bastardia uma chave interpretativa para se pensar a identidade dos países no Novo Mundo?
João Almino : Sim, somos povos bastardos, e esta é uma de nossas qualidades.  Ao invés de pensar numa identidade referida a raízes ou tradições, prefiro trabalhar com a hipótese da ocupação de um espaço vazio, com a possibilidade de criação livre e de assimilação sem preconceitos das mais diferentes fontes. A orfandade implica maior liberdade e também maior responsabilidade na construção de uma ética e de um destino.

- O romance Cidade livre apresenta uma nítida estrutura  labiríntica. Seria esta a materialização de um espaço fechado que enclausura seus habitantes ou antes, como diria Octavio Paz, a sugestão de um território fechado com poucas saídas? Neste sentido, que saídas proporciona às  suas personagens no final do romance?
João Almino : Você tem razão, há uma estrutura labiríntica, com arquitetura concêntrica. O personagem narra suas memórias a partir de suas próprias recordações, de uma conversa de sete noites com seu pai moribundo e da leitura de papéis que haviam sido enterrados pelo pai no dia da inauguração da cidade. Essas memórias, inicialmente escritas cerca de seis meses após a morte do pai, são postadas por partes num blog e comentadas por leitores. O que lemos, contudo, não é o processo da escrita, mas sim o texto na sua forma final, após incorporadas as opiniões ou comentários dos leitores e após feita uma revisão por João Almino, que, apesar da coincidência com o nome do autor, não deixa de ser também um personagem fictício. Os tempos se justapõem no relato: o da conversa com o pai, o do momento da escrita, aquele após a revisão final e o do passado a que estão referidas as conversas do pai e as recordações do menino. O tempo em si é um labirinto, já dizia Borges. Talvez tenha sido por causa desse outro labirinto, o do tempo, que Teseu um dia perdeu Ariadna, depois de matar o Minotauro e ter seguido o fio que ela havia tecido para que ele saísse do labirinto e voltasse a ela. A literatura é como esse fio de Ariadna, mas não dá garantias a ninguém. Gostaria de que, ao lidar com os becos sem saída do labirinto, que levam à prisão, à morte, ao desespero, à desilusão ou ao misticismo, o leitor pudesse abrir mais seus horizontes para lidar com  as dificuldades da vida. Mas não posso estar certo disso. A única saída clara do labirinto, entre os personagens, é a da escrita. Com papéis desenterrados, a conversa com um moribundo, a dúvida em torno a um possível assassinato ou ainda o próprio fracasso, é possível ao filho construir o relato que o pai não conseguira.

- Seu último romance apóia-se, em grande parte, num jogo de dissimulações e de simulacros. De que maneira Cidade Livre questiona o valor e o papel do relato histórico? Por que se servir do indízivel  histórico  como transmissor da verdade ou de uma impossibilidade de se restaurar a verdade?
João Almino : Não questiono o valor e o papel do relato histórico. No entanto, por definição a ficção, para que seja ficção, não pode se confundir com a história. Era o que já dizia E. M. Foster em Aspectos do Romance: o historiador registra, enquanto o romancista deve criar, e uma parte do material com o qual este trabalha não está facilmente disponível para o historiador, pois pertence a um universo interior de difícil acesso, em que imperam as paixões, os sonhos, as alegrias, as tristezas e angústias. O trabalho do ficcionista deve incluir também o duvidoso, o fragmentário, o incompleto, o recôndito e obscuro. Esse é, aliás, o material por excelência do romance, pois a  verdade transparente e a certeza demonstrável cabem numa tese ou num tratado científico. Um questionamento metódico pode ser feito num ensaio filosófico. Escrevemos ficção quando todas as outras formas de expressão são insuficientes para dizer o que queremos dizer ou o que nem sequer queremos dizer, por não conhecermos ainda o território em que pisamos. Pois a ficção é uma busca, uma interrogação, uma imersão nas emoções e uma aventura do pensamento.

- Como encara hoje a produção literária contemporânea no Brasil? De que autores nacionais sua escrita  e preocupações  estéticas tendem a se aproximar?
Jão Almino : Posso apenas dizer, sem com isso acreditar em afinidades ou influências, que os autores brasileiros de que mais gosto e que mais li e reli são Machado de Assis, Graciliano Ramos e Clarice Lispector. Sei que esta lista tão pequena deixa de lado alguns dos gigantes de nossa literatura, mas estes são os três aos quais sempre volto. Quanto à produção contemporânea, creio que passa por um bom momento. É diversificada, rica e criativa.

Apresentação e entrevista realizadas  pelo professor José Leonardo Tonus
Université de Paris-Sorbonne/Dezembro de 2010.
Para mais informações sobre o escritor, consultem o site  http://www.joaoalmino.com/

João Almino na Université de Paris-Sorbonne
Dezembro/2010





terça-feira, 8 de março de 2011

Rencontre avec Ana Maria Machado

Le département de Portugais de l'Université de Paris-Sorbonne
est heureux d’accueillir 

ANA MARIA MACHADO
de l'Académie Brésilienne des Lettres

Le Vendredi 18 mars 2011
à 14H30
en salle DCI

 Université de Paris-Sorbonne
Centre Championnet
113, rue Championnet 
75018 PARIS


“Não tenho compromisso com mensagem. Meu objetivo é contar uma história. Isso significa transmitir uma perplexidade, uma procura de sentido, perguntas e dúvidas. Não conheço história que não seja assim, para qualquer idade.
Ana Maria Machado



História de cinco gerações de uma família luso-brasileira, desde a vinda, no século XIX, do jovem José Almada para o Brasil com o propósito de ganhar a vida sem deixar de ser um homem de bem, honrado, íntegro, ético e de palavra. Almada instala-se em Petrópolis e constrói um grande patrimônio. As gerações se sucedem até chegar à Letícia, que costura relatos esparsos para reconstruir a história dos Almada.

Conférence : Le portugais du Brésil et son contact avec les langues africaines

Fotografia-postal  de Christiano Junior ( Açores, 1832 - Assuncion, 1902)

Le département de Portugais est heureux d’accueillir

Monsieur Francisco da Silva Xavier
chercheur 

qui fera une conférence sur :
Le portugais du Brésil et son contact avec les langues africaines

Mardi 29 mars 2011
à 10H30
en salle 21 
 
Institut d’Études Hispaniques
31, rue Gay Lussac 75005 Paris

As línguas africanas foram transplantadas para o Brasil ao mesmo tempo em que se praticava o tráfico de escravos na África, entre a metade do século XVI até o XIX, acarretando a emergência de uma situação linguística nova para os falantes cativos. De fato, o tipo de tráfico praticado em diferentes ciclos (o ciclo da Guiné, o ciclo do Congo e Angola, o ciclo da costa da Mina e o do Benin e finalmente o ciclo de Angola e Moçambique) e a especificidade em que se estabeleceu o contato entre o português do Brasil e as  línguas africanas modificaram, no país, o estatuto lingüístico destas.
Nesta conferência abordaremos o plurilinguismo africano, os documentos que atestam a existência de línguas africanas no Brasil colonial, o panorama dos estudos do contato de línguas africanas com o português do Brasil e de que maneira os traços de línguas africanas encontrados no português do Brasil têm sido analisados em diferentes campos de pesquisa no país. Finalmente, mostraremos como o contato estabelecido entre o português falado no Brasil e as línguas africanas tem suscitado debates e pesquisas importantes para a compreensão das especificidades do português do Brasil e das próprias línguas africanas.

segunda-feira, 7 de março de 2011

Entretien avec Alda Maria Lentina : Le travail de recherche

Alda Maria Lentina, doctorante 
Dans cet interview,  la doctorante Alda Maria Lentina parle de son travail de recherche mené au sein du Département d'Etudes Lusophones à l'Université de Paris-Sorbonne. 
Commencer un thèse
La recherche
Méthodologie et appareil critique

quarta-feira, 2 de março de 2011

Histoire et Fiction dans l’œuvre d’António Lobo Antunes : de la « transparence intérieure » à l’écriture de la mémoire


Séminaires Doctorants
15 Mars 2011 
15h30/ Salle 21

Histoire et Fiction dans l’œuvre d’António Lobo Antunes : de la « transparence intérieure » à l’écriture de la mémoire

Felipe Cammaert, Centro de Estudos Comparatistas
Universidade de Lisboa

En partant des notions de récit remémoratif et de monologue remémoratif proposées par Dorrit Cohn dans La transparence intérieure (Transparent Minds, 1978), notre propos sera de commenter les différentes stratégies par lesquelles l’œuvre de Lobo Antunes interroge l’Histoire du Portugal. Nous étudierons quelques manifestations du « processus solitaire, tout intérieur » dont parle Cohn pour décrire cet acte mimétique/mnésique témoignant d’une esthétique de la simultanéité, grâce auxquelles la représentation des souvenirs se situe au centre de l’écriture fictionnelle. Seront ainsi étudiés des exemples concrets du traitement réservé aux événements majeurs de l’Histoire contemporaine portugaise, à savoir la révolution des œillets et la guerre de décolonisation en Afrique.

Institut d’Etudes Ibériques
31, rue Gay Lussac
75005 Paris

Bibliographie - L'Histoire selon Agustina Bessa-Luis

Séminaire Doctoral du 28 février 2011
L’Histoire selon Agustina Bessa-Luís
Alda Maria Lentina


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