segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Um dedo de prosa com Elvira Vigna



Um dedo de prosa com Elvira Vigna

Assistam ao belíssimo depoimento que a escritora Elvira Vigna concedeu à equipe do Blog Estudos Lusófonos no qual ela evoca e discute o papel do narrador face ao processo de espetacularização da escrita contemporânea. 
Para assistir à entrevista, cliquem no link : Entrevista de Elvira Vigna

A versão impressa do texto apresentado por Elvira Vigna ("Em busca de um narrador") encontra-se disponivel no site da escritora no link : Em busca de um narrador

Un peu de lecture…..um pouco de leitura
Primeiro capítulo do romance Nada a dizer.  

Capítulo I
O dia 16 de novembro
No dia 16 de novembro, Paulo abriu os olhos e voltou-se para a nesga de luz que passava pelas duas cortinas – a mais pesada, de um plástico cinza, e a mais leve, de um tecido branco transparente que ficava por cima da outra. Permaneceu assim por alguns momentos, antes de iniciar o preparo para que o resto todo de seu corpo pudesse acompanhar os olhos e sair do quarto escuro, pequeno e já cheio de ruídos: alguém que ligava a televisão no quarto ao lado; o carrinho da arrumadeira, ameaçador, no hall; o tlim do elevador. Primeiro, fez uma inspeção mental básica no estômago e boca. Não, nenhum vestígio do mal-estar da noite anterior, em que depois de comer um X-tudo no bar da esquina, vomitou e cagou a alma. E ao falar para si mesmo essa frase, poderia ter achado engraçado: a alma. Seria oportuno, rá, rá, se livrar da alma na véspera. Mas Paulo não era uma pessoa de muitas reflexões. Isso normalmente. Naquela hora, então, é que não havia de fato lugar para elas. Depois do estômago foi a vez do joelho e, nesse, a inspeção não poderia ser apenas mental. Então Paulo esticou a perna, dobrou e tornou a esticar. Nada de muito ruim. A dor nas costas, com a hérnia de disco, estava como sempre ao acordar: existente. Mas, no decorrer do dia, com os movimentos, tendia a se estabilizar. E, depois disso, como se já se sentisse cansado – e o motivo do cansaço seria, então, o fato de ter joelhos, estômago e costas -, ainda ficou, os olhos agora mirando a escuridão, a ouvir o tique-taque do relógio grande, feio, da mesinha de cabeceira. Ficou ouvindo o tique e o taque e o tique e o taque, em sua previsibilidade, enquanto dava um tempo para que a arritmia se manifestasse. Era o único sintoma de sua cardiopatia, para a qual tomava quilos de remédios cotidianamente.
O dia começava.
Depois, já andando na praia em direção ao Posto Seis, seu corpo e seus mais de sessenta anos ficaram esquecidos. Andar sozinho por cidades desconhecidas era sempre um imenso prazer. Andar de ônibus ou de carro por estradas que o levassem a lugares desconhecidos, mais ainda. O Rio de Janeiro não era desconhecido até bem pouco tempo. Tinha ficado. Saíra de lá, com toda a família, não fazia um mês. Mas se a cidade continuava a mesma, ele já era outro. E entre seus pés e as calçadas, agora surgia uma distância alegre de quem não tem mais nada a ver com aquilo.
Ia, devagar porque tinha tempo, para a casa de um ex-colega de um de seus inúmeros trabalhos. Melhor dizendo, profissões. Não que tivesse buscado isso. Não que em algum momento de sua infância tivesse se dito: vou ser o que pintar, fazer o que me der na telha. Simplesmente aconteceu assim. A vida volta e meia o tirando de uma trilha e o pondo em outra. Nesse caso, a trilha, ou melhor dizendo, a avenida Atlântica, o levava para a casa de um cara chamado Pedro Correa, mais conhecido por Pecê, seu fornecedor de maconha. Entre o Pedro e o Correa, e mesmo depois do Correa, havia mais nomes. Mas Pecê era uma palavra engraçada de ser dita nas salas de mobiliário com design ergonométrico e tapetes grossos da empresa de marketing em que trabalhava. E Pecê ficou. Era um sujeito baixo e gordinho, que morava em um grande apartamento de frente para o mar, com a mulher e, de vez em quando, com um de seus filhos já adultos e independentes, mas que, por um motivo ou outro, pernoitavam com frequência na casa do pai. Era ele o correspondente atual e possível das figuras da juventude de Paulo, todas muito mais fascinantes e românticas, com uma maconha também muito mais divertida e grupal. E, se Paulo fosse dado a pensamentos, aqui também haveria um. Pois o PC, Partido Comunista, para o qual Paulo militara em sua juventude, se via assim transformado em um aposentado rico, que curtia maconha menos do que dizia curtir, e que o fazia porque sentar-se na sala com um ou outro filho, e oferecer um cigarrinho, era sua maior possibilidade de se sentir próximo.
Não havia muito papo entre Paulo e esse seu ex-colega. Tinham trabalhado juntos – não há muito que falar sobre isso, além de um Você tem visto o fulano? Você soube que o sicrano. Quem? O sicrano, aquele do departamento tal. Ah. Pois ele, não sei se você soube. O que tem duração pequena por mais que se esprema. Até que Pecê se levante do sofá, diga o aguardado Vou pegar. E volte logo depois com um pacotinho e um cigarro já preparado na mão, para que fumem um pouco, os dois, conformados ambos de que a proximidade geográfica e aleatória é tudo que há. Ficarão por um tempo encostados no peitoril da enorme janela, vendo o horizonte, ali, imutável, do jeito mesmo que era quando ambos, ainda jovens, levavam, lá embaixo na calçada, uma vida muito diferente um do outro. E, frente a esse horizonte imutável, ambos fumarão essa maconha esforçando-se para que ela também fosse imutável. Ela ajudava-os a imaginar, mais do que o horizonte, que ainda havia, como antes, muito pela frente.
Mas Paulo pousava o peso do corpo ora em uma perna, ora em outra. Para obter a maconha de Pecê, ele precisava compartilhar o clima de Pecê – a janela, os móveis pesados, o apartamento antigo e caro – e Paulo não era essa pessoa.
(Muito do que aqui se está a falar será sobre que pessoa é Paulo.)
Mas Paulo, indo de uma perna à outra sem sair do lugar, falou afinal o que ele tinha para falar, a frase-troféu, a apoteose, o segundo motivo de sua visita:
“Tem uma mulher aí me enchendo o saco, querendo dar para mim.”
Pecê foi mais bem sucedido do que Paulo no emprego da multinacional que compartilharam por alguns anos. Nela, qualquer que fosse o cargo, o importante era ostentar perfil adequado à venda. Marketing. Com seu anelão, conversa mole e profundamente mainstream, Pecê e, aliás, todos seus colegas, eram melhores no papo com os clientes, nas risadas e nas batidinhas nas costas, do que Paulo jamais seria.
Rá, rá, riu Pecê. E deu uma batidinha nas costas de Paulo.
E depois, sério:
“Ah, quando elas se tornam muito insistentes é muito chato mesmo.”
Acabaram de fumar a maconha, agora Paulo se sentindo melhor, os cotovelos encontrando um nicho na madeira do peitoril, um pouco carcomida pela maresia. Paulo sempre tinha querido dizer o que acabara de dizer – e ele virava e revirava a frase na sua cabeça, gostosamente. Nos almoços das quintas-feiras que o grupo organizava no restaurante ali embaixo, havia sempre um ou outro colega que falava de seus casos com mulheres. Rara a semana em que não havia casos novos a serem aludidos, e que eram comentados apenas com frases curtas, jamais perguntas, e sem detalhes concretos, substituídos por risadas, muxoxos e o alcear de sobrancelhas. Paulo nunca tinha tido amantes. Algumas garotas de programas, sim, quando viajara, há muito tempo, com esse mesmo grupo para outras cidades, Brasília, Recife, e principalmente São Paulo. São Paulo, para onde agora tinha se mudado. Estar morando em São Paulo excluía até mesmo de sua imaginação – já que na prática garotas de programa não eram mais uma presença real em sua vida – o rico plantel de boates e putas da rua Augusta, a uma quadra de sua nova casa. Pois era importante para Paulo que seus escapes, como denominava trepadas ocasionais, se dessem em cidades diferentes daquela em que morava. Sentia-se mais seguro assim. Mais fácil de compartimentar, de escondê-las até de si mesmo.
Amante, ia ser a primeira.

(Source : http://vigna.com.br

Au fil de mon parcours….ao longo do meu percurso
Je suis journaliste et écrivain. En tant que journaliste, j’ai travaillé pour les journaux les plus importants du Brésil, tels que O Globo, Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo et Jornal do Brasil. Après mon expérience au Jornal do Brasil, je me suis mise à écrire pour le site web Aguarras (ISSN 1980-7767) dédié à l’art, à la littérature et à la musique.
J’ai débuté ma carrière d’écrivain avec des livres pour enfants qui m’ont valu les récompenses littéraires les plus prestigieuses, parmi lesquelles le prix Jabuti (décerné par la Chambre brésilienne du livre - CBL - Câmara Brasileira do Livro) et le prix de l’Association des critiques d’art de São Paulo. La branche brésilienne de l’IBBY (International Board of Books for Young People) m’a décerné plus de dix récompenses. J’ai reçu, également, un prix de l’Institut japonais Noma. Un texte destiné aux jeunes adultes, écrit il y a des années, va prochainement être publié sous forme de roman graphique, en anglais et en portugais.
Je consacre cependant l’essentiel de mon activité à la fiction pour adultes. Nada a Dizer  (Companhia das Letras, 2010)  mon nouveau roman, a reçu le Prix de la fiction de l’Académie Brésilienne des Lettres. Un autre de mes romans, As Seis em ponto (Companhia das Letras, 1998), s’est vu récompensé par le prix de la ville de Belo Horizonte. Une étude, ainsi qu’une traduction partielle de cet ouvrage, sont parues dans le magazine espagnol Especulo, Revista de Estudios Literarios (14 mars 2000), édité par l’Université Complutense de Madrid. Coisas que os homen não entendem  (Companhia das Letras, 2002) a été traduit en suédois par Örjan Sjögren chez Tranan et mon roman O assassinato de Bebê Martê  (Companhia das Letras, 1997) a inspiré le scénario d’un film. En 2004, j’ai publié chez Lamaparino A um passo et en 2006 Deixei ele là e vim, à nouveau par la Companhia das Letras.
J’ai une Maîtrise de Journalisme de l’Université Fédérale de Rio de Janeiro et suis diplômée de l’Institut des beaux-arts de Rio de Janeiro et de littérature française par l’Université de Nancy (France). J’ai suivi, également, des cours à la Parson’s School of Design à New York où je vivais dans les années 1980.

Adaptation et traduction du portugais réalisées par Catherine Charmant-Leber, étudiante en 2ème année du D.U. de Portugais à  l’Université de Paris-Sorbonne et traductrice du chinois et de l’anglais. Source : http://vigna.com.br/

Quelques liens……alguns links

Vidéos sur l’œuvre d’Elvira Vigna
Sur O assassinato do bebê Martê
Sur A um passo
Sur Deixei ele lá e vim
Sur Coisas que os homens não entendem

Sites
http://vigna.com.br (site officiel de l’auteur)
http://aguarras.com.br (articles de l’auteur sur l’art )
(Maison d’étidion Companhia das Letras)

Articles,  études et  thèses

Article de Adelaide Calhman de Miranda - ‘’Gêneros indefinidos e corpos inadequados revelam ideal feminino inatingível, em Deixei ele lá e vim, de Elvira Vigna’’. In: Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea, nº. 32. Brasília, julho-dezembro, 2008, pp. 47-56

Article de Virgínia Maria Vasconcelos Leal “O gênero em construção nos romances de cinco escritoras brasileiras contemporâneas’’ In: Deslocamentos de gênero na narrativa brasileira contemporânea, São Paulo: Editora Horizonte, 2010

Article d’Elvira Vigna :  “Os sons das palavras: possibilidades e limites da novela gráfica” in : Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea, n. 37. Brasília, janeiro-junho, 2011,  pp. 105-122.

Article d’Adelaide Calhman de Miranda, Doutorante à l’Université de Brasília :  “A amnésia no campo minado: O papel do esquecimento na literatura brasileira de autoria feminina”

Compte-rendu “O que ainda poderia ser dito [sur Nada a dizer, de Elvira Vigna]” par Edma Cristina de Góis, doutorante en Littérature à l’Université de Brasília.

Thèse de Doctorat présentée par Virgínia Maria Vasconcelos Leal. As Escritoras contemporâneas e o Campo Literário Brasileiroa : uma relação de gênero. UnB, 2008 (sous la direction Mme Le Professeur Regina Dalcastagnè)
 
Thèse de Doctorat présentée par Anderson Luís da Mata. O silêncio das crianças: representações da infância na narrativa brasileira contemporânea. UnB, 2006 (sous la direction de Mme Le Professeur Regina Dalcastagnè)

Dossier bibliographique réalisé par Carine Figueira, étudiante en Master de Portugais à l’Université de Paris-Sorbonne avec l’aide de  Virgínia Maria Vasconcelos Leal, Edma de Góis e Regina Dalcastagnè de l’Université de Brasília


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