sábado, 24 de setembro de 2011

Um dedo de prosa com Luiz Ruffato

Um dedo de prosa com Luiz Ruffato

O escritor Luiz Ruffato concedeu à equipe do Blog Estudos Lusófonos uma entrevista, na qual ela fala do conjunto de sua obra romanesca.

Num primeiro vídeo, Ruffato destaca os elementos temáticos e estilísticos que têm norteado sua produção literária : a representação do universo dos trabalhadores urbanos de classe média e a busca de uma forma de escrita contrária à tradição imposta pelo romance burguês.
Assista o vidéo do escritor brasileiro no link :Luiz Ruffato e sua obra

Num segundo momento, Ruffato fala de seu romance De mim já nem se lembra que, publicado  inicialmente pela Moderna-Editora em 2007, será relançado no decorrer deste ano. Elaborado a partir de uma correspondência fictícia entre sua mãe e seu irmão torneiro-mecânico na cidade de Diadema situada na região do ABC paulista, De mim já nem se lembra relata as principais mudanças pelas quais a sociedade brasileira atravessou durante a décade de 1970.
Assista o vídeo do escritor no link : De mim ja nem se lembra

Neste último vídeo, Luiz Ruffato apresenta o romance Azul-corvo da escritora Adriana Lisboa lançado em 2010 pela Editora Rocco.  Para Ruffato, este romance constitui um dos melhores trabalhos de Adriana Lisboa que, para além de evocar um dos episódios mais trágicos da história recente do Brasil (a ditatura militar), discute uma das questões fundamentais da contemporaeniedade : os trânsitos identitários e a impossibilidade de pertencimento.
Assista o vídeo do escritor no link : Azul-Corvo




Luiz Ruffato é mineiro, filho de um pipoqueiro semianalfabeto e de uma lavadeira de roupas analfabeta. Formou-se em tornearia-mecânica pelo Senai e em Comunicação Social pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Trabalhou como auxiliar de pipoqueiro, caixeiro, balconista de armarinho, operário têxtil, torneiro-mecânico, professor, gerente de lanchonete, vendedor de livros ambulante e jornalista. Nesta profissão, fez carreira em São Paulo, a partir de 1990, como repórter de Economia, redator, subeditor e editor de Política, coordenador de Política e Economia e secretário de Redação, encerrando suas atividades em abril de 2003, quando passou a se dedicar exclusivamente à literatura. Vive em São Paulo desde 1990. Publicou vários livros, entre eles, Eles eram muitos cavalos, em 2001, também lançado na Itália, França, Portugal e Argentina; De mim já nem se lembra, em 2007 e Estive em Lisboa e lembrei de você, em 2009, lançado em Portugal, Itália e Argentina. A partir de 2005, iniciou uma série intitulada Inferno provisório, composta por cinco volumes: Mamma, son tanto felice, O mundo inimigo (ambos também lançados na França e o primeiro, no prelo, no México), Vista parcial da noite, O livro das impossibilidades e Domingos sem Deus (no prelo).  Tem histórias publicadas em antologias nos Estados Unidos, França, Argentina, Itália, Portugal, Angola, Suécia e Polônia.  Recebeu os prêmios APCA e Machado de Assis (por Eles eram muitos cavalos, APCA (por Mamma, son tanto felice e O mundo inimigo), Jabuti (por Vista parcial da noite), e foi finalista dos prêmios Portugal Telecom (com O mundo inimigo), Zaffari-Bourbon (com O livro das impossibilidades e Estive em Lisboa e lembrei de você) e São Paulo de Literatura (com Estive em Lisboa e lembrei de você). Tem também uma menção especial no Prêmio Casa de las Américas, (por  Os sobreviventes).

Leia abaixo um trecho do romance De mim já nem se lembra de Luiz Ruffato.

Diadema, 12 de Janeiro de 1975

Mãe,

Cheguei bem. A viagem de volta é sempre  ruim, porque os anos passam e vejo que é cada vez mais difícil pensar em voltar e morar aí em Cataguazes. Deste vez andei mais pela cidade, vi alguns amigos, encontrei outros que também estão morando aqui em São Paulo e a   sensação que fica é de que nunca mais vou voltar. Isso é muito triste, porque aqui não é o meu lugar. Mas também sinto que aí também já não é o meu lugar. Ou seja, não sou de lugar nenhum. E isso dói dentro da gente. Eu vinha no ônibus, a noite cheia de estrela, e não consegui nem dormir. Tanta coisa passa pela cabeça da gente. O seu Volfe, que agora é diretor lá na firma, mas continua legal como sempre, me viu de cabeça baixa lá e veio falar comigo e me deu uns conselhos, ele falou que ele também sente isso, de estar num lugar distante de onde ele nasceu, que nem fala a mesma língua – ele fala esquisito para caramba, mas agora eu já acostumei, no começo não entendia quase nada. Foi bom conversar com ele, mas agora que terminei com a Nena eu fiquei mais sozinho ainda. Porque no tempo em que nós namoramos, fiquei apartado da turma da pensão e mesmo da firma, e deixei de jogar bola com eles e de ir nos lugares que eles vão, e então as coisas estão neste pé.
No carnaval o pessoal vai para um lugar perto daqui, Praia Grande, e me convidaram, talvez eu vá junto com eles, apesar de não gostar da bagunça do carnaval, mas eles falaram que vão para descansar, então acho que vou na companhia deles. Mas não se preocupe, eu sei me cuidar direitinho.

Célio

Mãe, estou pensando em passar o feriado da Semana Santa na roça em Rodeiro, o que a senhora acha ? A senhora poderia ir ?

(Gostei muito do Paulinho. Acho que a Lúcia esta em boas mãos. Nós lembramos que jogamos muita pelada juntos na época que a gente Morava na Vila Teresa. Espero que a Lúcia acerte com ele e que eles fiquem juntos. [1]


[1] Luiz Ruffato, De mim já nem se lembra. São Paulo : Editora-Moderna, 2007, p. 72-73


Alguns links
Depoimentos, entrevistas, vídeos e blogs:

Blog :

Blog  organizado pela Professora  Mires Bender:

Entrevista « Jogo de Idéias » - Flip 2010 :

Facebook :

Entrevista  :  “Luiz Ruffato fala sobre o ofício da ficção  no Conexões Itaú Cultural” : http://conexoesitaucultural.org.br/?p=1912

Depoimento:  “Conexões Itaú cultural” (5 vídeos) 

Depoimento para o projeto “Amores Expressos” :

Páginas iniciais de Eles eram muitos cavalos, com alguns fragmentos:

Da impossibilidade de narrar. Ruffato fala sobre o processo de criação de Eles eram muitos cavalos:

Revista Água da palavra – ver nos arquivos do n. 3 o link para o texto Até aqui tudo bem, em que Ruffato fala sobre sua história e da criação do Inferno Provisório:


Resenhas, artigos, crítica e dissertações :

Artigo de Tatiana Salem Levy.  “O silêncio da representação: uma leitura de Eles eram muitos cavalos”  in : Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea, nº 22. Brasília, janeiro/junho de 2003, pp. 173-184.

Artigo de Tânia Ramos e Amanda Cadore, Desamores expressos – Estive em Lisboa e lembrei de você. In Navegações v. 3, n. 2, PUCRS,p. 148-153, jul./dez. 2010

Artigo de Regina Dalcastagnè - “Sombras da cidade: o espaço na narrativa brasileira contemporânea”.  In : Estudos de Literatura  Brasileira Contemporânea, n°21. Brasília, janeiro/junho de 2003, pp. 33-53 : http://www.gelbc.com.br/pdf_revista/2102.pdf

Tese de Doutorado de Cristina Maria da Silva :  Rastros das Socialidades – Conversações com João Gilberto Noll e Luiz Ruffato. ( Universidade Estadual de Campinas, Brasil)


Dissertação de Mestrado de Marco Aurélio Pinheiro de Medeiros, O labirinto dos eus cambiantes: a questão da identidade em Eles eram muitos cavalos, de Luiz Ruffato. ( UERJ, Brasil)

Dissertação  de Mestrado de Rodrigo da Silva Cerqueira, Estamos sempre indo para casa – Breve análise de Inferno Provisório, de Luiz Ruffato. (Universidade Federal de Juiz de Fora, Brasil)

Dissertação de Mestrado de Terezinha Perini Ferreira, Caótica unidade: a narrativa de Luiz Ruffato em Eles eram muitos cavalos. (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, Brasil)

Trabalho apresentado por Giovanna Dealtry no Congresso de 2009 da LASA,  “A história a contrapelo em Inferno Provisório, de Luiz Ruffato”:

Trabalho apresentado  em 2008 por José Leonardo Tonus no Colóquio Internacional  Paysages urbains du monde lusophone ( Université de la Sorbonne-Nouvelle/Paris III) :  «  Paysage et l'insignifiant ».

Coluna de Eliane Brum na revista Época, sobre a “Igreja do Livro Transformador” (31/01/2011) :

Entrevista concedida a Luiz Maklouf Carvalho e Valdir Sanches:

Matéria com Luiz Ruffato no Jornal dos Lagos:

Dossiê bibliográfico realizado em colaboração  com
Laeticia Jensen Eble  - Universidade de Brasília

Um comentário:

  1. Tive o privilégio de conhecer Luiz Rufato em um evento de Letras em Brasília ( ELAEL ) além de muito talentoso, ele também demosntrou ser muito simpatico e humilde. Parabem pelo seu trabalho!!!

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