quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Erótica literária brasileira


Le miroir, Paul Delvaux ( 1887-1894)


Nesta entrevista a Professora Eliane Robert Moraes fala de sua pesquisa sobre a erótica literária brasileira e, em particular, de seu projeto de elaboração de uma antologia da poesia erótica no Brasil. Para além do problema do estabelecimento de um corpus que vai de Gregório de Matos a Ana Cristina Cesar, passando por Fagundes Varela e Olavo Bilac, Eliane Robert Moraes aponta, neste vídeo, para questões delineadoras de seu trabalho e relativas  ao conceito de erotismo literário.

Consultem o video da professora : Erótica literária brasileira - Entrevista



Pequeno florilégio da poesia erótica brasileira
Por Eliane Robert Moraes


Encarnação
Cruz e Souza (1861-1898)

Carnais, sejam carnais tantos desejos,
carnais, sejam carnais tantos anseios,
palpitações e frêmitos e enleios,
das harpas da emoção tantos arpejos...

Sonhos, que vão, por trêmulos adejos,
à noite, ao luar, intumescer os seios láteos,
de finos e azulados veios
de virgindade, de pudor, de pejos...

Sejam carnais todos os sonhos brumos
de estranhos, vagos, estrelados rumos
onde as Visões do amor dormem geladas...

 Sonhos, palpitações, desejos e ânsias
formem, com claridades e fragrâncias,
a encarnação das lívidas Amadas!




Delírio
Olavo Bilac (1865- 1918)

Nua, mas para o amor não cabe o pejo
Na minha a sua boca eu comprimia.
E, em frêmitos carnais, ela dizia:
– Mais abaixo, meu bem, quero o teu beijo!

Na inconsciência bruta do meu desejo
Fremente, a minha boca obedecia,
E os seus seios, tão rígidos mordia,
Fazendo-a arrepiar em doce arpejo.

Em suspiros de gozos infinitos
Disse-me ela, ainda quase em grito:
– Mais abaixo, meu bem! – num frenesi.

No seu ventre pousei a minha boca,
– Mais abaixo, meu bem! – disse ela, louca,
Moralistas, perdoai! Obedeci....

Pica-Flor
Gregório de Matos e Guerra (1623-1696)

A uma freira que satirizando a delgada
fisionomia do poeta lhe chamou "Pica-Flor".

Se Pica-Flor me chamais,
Pica-Flor aceito ser,
Mas resta agora saber,
Se no nome que me dais,
Meteia a flor que guardais
No passarinho melhor!
Se me dais este favor,
Sendo só de mim o Pica,
E o mais vosso, claro fica,
Que fico então Pica-Flor.

Pombas e Putas
Múcio Teixeira (1857-1928)

Vem-se a primeira moça, envergonhada,
Vem-se outra mais, mais outra... enfim dezenas
De cabaços se vão, vindo-se apenas
Sentem na vulva a rija caralhada.

E à noite, quando a porra envernizada
Deixa em brasas a crica das morenas,
Roçam pelos culhões, quais leves penas,
Os fios dos pentelhos em revoada.

As bimbas no prepúcio se abotoam;
Os beiços pelos seios roçam, voam,
Como voam as pombas nos pombais...

Os que fodem de mais, ficam fodidos;
Mas, se a foda nos deixa sem sentidos,
Tome sentido o que foder de mais



O sono, Tarsila do Amaral (1886-1973)

Eliane Robert Moraes est professeur de Littérature à la Faculté de Philosophie, Lettres et Sciences Humaines de l’Université de São Paulo (USP) et chercheur du CNPq. Elle mène une activité de critique littéraire, collaborant à divers journaux et revues du pays, et travaille actuellement à l´édition d´une Anthologie de la Poésie Érotique Brésilienne. Elle a été professeur titulaire de l´Université Catholique de São Paulo (PUC-SP) et professeur invité  de l´Université de Californie à Los Angeles (UCLA, USA),à l’Université Nouvelle de Lisbonne (Portugal) et à l´Université de Perpignan (France). Parmi ses publications, l’on remarque divers essais sur l’imaginaire érotique dans les arts et la littérature, ainsi que la traduction de Histoire de l’oeil de Georges Bataille en langue portugaise (História do Olho, Cosac & Naify, 2003) et des livres :

- Marquês de Sade - Um libertino no salão dos filósofos, São Paulo, Educ, 1992.

- Sade - A felicidade libertina, Rio de Janeiro, Imago, 1994.
- O Corpo impossível, São Paulo, Iluminuras/Fapesp, 2002.
- Lições de Sade – Ensaios sobre a imaginação libertina, São Paulo, Iluminuras, 2006.

Eliane Robert Moraes  é professora de Literatura na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP) e pesquisadora do CNPq. Desenvolve atividades de crítica literária colaborando com vários jornais e revistas nacionais. Trabalha atualmente  na edição de uma Antologia da Poesia Erótica Brasileira. Foi professora titular da Universidade Católica de São Paulo e professora convidada na Universidade da Califórnia em Los Angeles, na Universidade Nova de Lisboa (Portugal) e na Université de Perpignan (France). Entre suas publicações destacam-se diversos ensaios sobre o imaginário erótico nas artes e na literatura, a tradução para o português da História do Olho de Georges Bataille (Cosac & Naify, 2003) e os livros :
- Marquês de Sade - Um libertino no salão dos filósofos, São Paulo, Educ, 1992.
- Sade - A felicidade libertina, Rio de Janeiro, Imago, 1994.
- O Corpo impossível, São Paulo, Iluminuras/Fapesp, 2002.
- Lições de Sade – Ensaios sobre a imaginação libertina, São Paulo, Iluminuras, 2006.

Quelques publications en français – Algumas publicações em francês :
           - “Espace et mouvement dans le récit érotique moderne” In Sylviane Coyault (org.) L’ Histoire et la géographie dans le récit poètique, Clermont-Ferrand, CRLMC / Université Blaise-Pascal, 1997.
- “Le chiffre et le corps” In Norbert Sclippa (org.), Lire Sade, Paris, Ed. L’Harmattan, 2004.
- “L’ingénuité d’un pervers – Langage, enfance et érotisme chez Nabokov” In Camille Dumoulié et Michel Riaudel (orgs) , Le corps et ses traductions, Paris, Desjonquères, 2008.
- “Cette cochonnerie - L'érotisme littéraire dans le modernisme brésilien” In Latitudes - Cahiers Lusophones, vol. 34, Paris, 2008.
- “La nymphette dans le boudoir” In Jocelyn Dupont et Paul Carmignani (orgs), Ni ange, ni démon – Figure de la nymphette dans la littérature et dans les arts, Perpignan, Presses Universitaires de Perpignan, 2011.


Alguns links – Alguns links :

Curriculum Vitae

Eros Cannibale. Correspondances entre la mythologie des Indiens du Brésil et la fiction érotique européenne (disponível em português e francês)

“Topographie du risque – L’érotisme littéraire dans le Brésil Contemporain”

“Topografia do Risco: O erotismo literário no Brasil Contemporâneo”

“Um vasto prazer, quieto e profundo”

“Un oeil sans visage. De Lord Auch à Georges Bataille”

Entrevistas



2 comentários:

  1. Olá, já mandei um email mas ainda ninguém tem respondido. Estou escrevendo um trabalho sobre o erotismo de bilac e gostaria de usar o poema Delírio mas não consigo achar uma fonte adequada que mostra que esse poema é mesmo de Bilac. Alguém tem uma dica pra mim? agradeço muito por uma reposta! amelie

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  2. Por favor preciso sua ajuda! O poema Delírio está citado na antologia de Eliane Robert Moraes? O livro não é disponível aqui em Munique...

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