terça-feira, 21 de junho de 2011

Formas do poder por Ivo Nascimento

Cândido Portinari, A descoberta da terra, 1941

Como em todas as manhãs de Março, enaltecido pelos raios brilhantes que rasgavam a escuridão de uma noite de lua cheia, o sol estava já bem visível no horizonte.
O Fuhrer - como todos o chamavam, acordado pelo som aterrador de esperança dos primeiros pássaros que a primavera trazia, estava sentado, espingarda à volta do braço, numa poltrona no meio do jardim, chávena de café na mão, a admirar a beleza de um poder absurdamente imperialista que o estatuto de Fuhrer lhe dava. 
Entrou, pela porta do quarto que dava acesso ao jardim, uma escrava negra : longo vestido de seda já amarelado devido ao uso, pés descalços, seios firmes ainda de uma juventude de outrora, mas a pele enrugada da idade. Trazia o jornal na mão direita. Chegou-se ao lado do Fuhrer, vagarosamente, e disse, receosa:
 -Senhor está aqui o seu jornal.
Pousando-o ao lado da chávena de café, levantou o tabuleiro repleto de restos do pequeno-almoço. Ficou parada. O olhar fixado no vazio imenso do horizonte, até que, por fim, ouviu:
-Pode ir, negra!
O olhar resignado, agora mais descontraído e aliviado. Virou as costas e voltou-se para a cozinha de maneira apressada, como se finalmente lhe tivessem tirado um grande peso. As horas passavam e a negra andava de um lado para o outro, atarefada, como era recorrente, pelas obrigações domésticas que lhe eram impostas. De espanador na mão, limpava todos os cantos da mobília poeirenta e as porcelanas que há muito estavam em cima dos móveis de madeira, já antigos. Lavava o soalho de um chão cansado do tempo, limpava vidros com panos que se acumulavam aos poucos num caixote de lixo, e que, em seguida, ela teria também de limpá-los.Fazia as camas e mudava os lençóis manchados das marcas de transpiração de uma noite tórrida e ardente de sexo
De andar em andar, as tarefas, repetitivas e fatigantes, faziam com que a escrava tivesse vontade de suplicar ao Fuhrer para que este comprasse outra escrava, outra “negra “como ele clama  a cada vez que se refere a um escravo africano :  negro, negra, negros, negras :  os únicos nomes que os distinguiam. A escrava desejava ajuda para as tarefas domésticas que há tanto tempo fazia sozinha. Desejo de uma companheira,  de alguém com quem pudesse conversar e partilhar momentos de uma vida repetitiva e solitária. Queria uma amiga, queria uma filha.
Sentado na poltrona e aborrecido pelo tédio de uma manhã monótona de Março, aponta a espingarda para o largo e extenso campo do qual era dono. Dispara. Dispara outra vez. Dispara mais uma vez. Três tiros disparados para o chão bastaram para criar um alvoroço no campo onde trabalhavam, desde o levantar do sol, vários africanos, bastante magros e quase nus, tendo no corpo calças repletas de buracos, e tão sujas de terra.

Ivo Nascimento é estudante do curso de Letras (Português) no Departamento de Estudos Lusofonos da Universidade da Sorbonne

Nenhum comentário:

Postar um comentário