segunda-feira, 30 de maio de 2011

Palavra de Honra de Ana Maria Machado


“Não tenho compromisso com mensagem. Meu objetivo é contar uma história. Isso significa transmitir uma perplexidade, uma procura de sentido, perguntas e dúvidas. Não conheço história que não seja assim, para qualquer idade.
Ana Maria Machado




Palavra de Honra : un roman en fugue

José Leonardo Tonus
Université de Paris-Sorbonne

Publié en 2005, le roman Palavra de Honra raconte le parcours de cinq générations d’une famille luso-brésilienne installée à Rio de Janeiro depuis le milieu du XIXe siècle. Elaboré à partir d’une structure romanesque qui tend à multiplier et à alterner les dispositifs narratifs, le récit, proche du roman familial et du journal intime, s’appuie sur un nivellement temporel qui assure l’entrecroisement de l’histoire de ces trois protagonistes : Tante Dora, Letícia e José Almada.
C’est après une longue absence que tante Dora décide de recontacter sa famille pour lui demander de l’aide. Si le mystère qu’entoure ce personnage sert de moteur à la progression narrative, sa révélation (Dora avait osé rompre ses fiançailles le jour de son mariage) permet, outre la relecture de l’histoire des Almada, une révision de l’historiographie de la famille brésilienne, fondée sur une fiction dominante qui a souvent négligé le discours de l’Autre, celui des femmes et d’une possible Her-story.
Leticia, quant à elle, est la dernière descendante des Almada et joue, dans le roman, le rôle à la fois de médiatrice et de passeur culturel d’une mémoire envisagée, non plus comme une simple succession d’intervalles autonomes, mais plutôt comme une multiplicité indistincte d’un tout singulier à préserver et à transmettre. Cette mémoire-durée, dont le personnage devient le légataire, se manifeste, tout au long du récit, par le  motif d’une chanson, qui,  transmise de père en fils, assure l’unité de l’œuvre.  Palavra de Honra s’appuie sur une structure  musicale qui, à l’instar de la fugue, se construit à partir de procédés imitatifs en contrepoint décrivant un ensemble de motifs et contre-motifs qui s’entremêlent tout au long du récit. Ce jeu polyphonique se prolonge  jusqu’à l’explicit du texte,  lorsqu’une coda,  sous la base d’un accord harmonique,  signale  la fin  de l’histoire et l’émergence du temps de la mémoire après le décès  de José Almada, ce jeune immigré, venu au Brésil  faire son Amérique.
Pour décrire le périple d’Almada, l’auteur se sert des principaux topoi de la question de l’immigration en proposant, ainsi, une réflexion sur l’ensemble du patrimoine culturel national. Tout en s’interrogeant sur l’émergence d’un nouveau rapport de l’homme au monde, Palavra de honra, évoque la manière dont l’individu et les collectivités au Brésil se sont appropriées symboliquement de leur environnement. Par l’histoire des Almada, l’auteur met en exergue les processus d’inscription du sujet social dans un nouveau univers marqué à la fois par le désir de préservation d’une mémoire en ruines et par le constat  tragique de la perte progressive des traditions, d’une certaine éthique et des mythes fondateurs qui pendant des longues années ont guidé, parfois à tort, les représentations de l’altérité au Brésil : la démocratie raciale,  l’égalitarisme et la cordialité.

Extraits du Roman

Almada Negreiros, Partida dos emigrantes

Rumo ao Brasil

Depois de algum tempo à espera ali no cais, o menino pôs às costas seu saco de lona e resolveu caminhar um pouco pelas redondezas. Sem se afastar demais, para não desencontrar do Vicente quando este chegasse. Mas estava curioso . Era muita gente, muita coisa nova. Após mais de um mês no navio vendo as mesmas caras e as mesmas coisas, tudo o interessava.
Na verdade, os últimos três dias a bordo já tinham sido bem movimentados. Uma alegria, ver terra depois de tanto tempo . Primeiro a linha da costa, escura a se destacar entre  mar e céu. Em seguida, a sinuosidade das montanhas. Depois, já bem mais perto, a vegetação e as árvores, quebrando a monotonia recente, da eterna água a preencher todo o espaço que a vista alcançava.
A entrada da barra foi uma beleza. Todos acorreram ao tombadilho, ninguém queria mais saber de comer ou ficar fechado por um único minuto. Só se queria contemplar a paisagem, distinguir o famoso gigante deitado , o homem colossal formado pelas  montanhas. Fazia dias que os tripulantes a toda hora falavam nele, e procuravam no horizonte sinais que anunciassem a proximidade dessa escultura natural que marcava a chegada ao Rio de Janeiro.  Realmente, parecia um homem imenso, estendido no chão. Na silhueta rochosa, destacava-se o famoso granito do Pão de Açúcar, a guardar a entrada da baía.
O navio aproximou-se bastante desse rochedo para poder entrar na barra estreita. Dava para distinguir a pedra nua e uma vegetação esparsa. Nos outros morros, cobertos por mata fechada, percebiam-se palmeiras de variados tipos, bananeiras e muitas árvores de copas frondosas.
Passaram por um canal entre uma fortaleza à direita em terra firme e outra à esquerda, numa ilhota. Dessa,  gritaram ordens: mandaram o navio  içar sua bandeira e fizeram muitas perguntas.
 O capitão se identificou, disse de onde vinha, quantos dias passara no mar, garantiu que não havia doentes a bordo. Só então pôde prosseguir, adentrando a baía até chegar junto a outro forte, com um nome francês que o pequeno José não conseguiu guardar. Aí, finalmente, a embarcação lançou âncora. Aproximaram-se uns pequenos botes – da alfândega, da saúde. Deles subiram alguns homens a bordo, ficaram em conversas com  o capitão e alguns tripulantes.
 Ao mesmo tempo, vários outros barcos pequenos chegavam perto, vindos de todos os lados. Mas ninguém permitiu que seus robustos remadores subissem ao convés enquanto as autoridades não houvessem liberado os passageiros. Só então,  estes puderam começar a descer, pelas escadas nos costados do navio. Cada um podia levar apenas uma pequena bagagem de mão . No caso de José,  o inseparável saco de lona era tudo o que tinha mesmo. Para os outros viajantes, o restante da equipagem deveria ser recolhido mais tarde nos armazéns da alfândega, após serem examinados os fardos.
Sentado na falua com outros passageiros, o menino colhia a primeira impressão da terra onde iria viver o resto dos seus dias.  Dois impactos simultâneos. Por todos os poros, o calor. Pelos olhos, o deslumbramento.
Um céu muito azul, sem nuvens, com um sol ardente a lhe esquentar o corpo. A beleza da baía, salpicada de ilhas e ilhotas, cobertas de vegetação. As montanhas – umas pontudas, algumas quase quadradas, muitas arredondadas – que, de perto, não formavam mais gigante algum. A vegetação que as cobria, muito verde, muito densa. Golfinhos por toda parte. Gaivotas e martins-pescadores mergulhando a todo instante, voltando com pequenos peixes no bico. O mar calmo e sem ondas, um espelho de águas limpas. A brisa agradável a lhe soprar pelos cabelos.
Deteve-se também a olhar o patrão da embarcação e seus quatro tripulantes. Todos negros, fortes, sem camisa. Pareceriam estátuas, não estivessem tão suados . Mas lembravam, sim, algumas esculturas que José vira nas praças das  grandes cidades portuguesas por onde passara, a caminho de embarcar para esta nova terra. E todos tinham cicatrizes. Algumas eram nas costas, como marcas de chibatadas. Mas a maioria era no rosto, e seguia padrões regulares, a formar desenhos. O menino nunca vira  tanta gente de pele escura de tão perto. Ficou fascinado.
Mesmo agora, depois de estar mais de meia hora sentado sobre a bagagem à espera do vizinho que viria encontrá-lo, não se fartava de olhar em volta e ver toda aquela gente nova. O cais ficava em frente ao mercado. Talvez por isso houvesse tanto movimento. Ouvia os pregões dos vendedores, admirava tanta coisa diferente. Ia caminhar um pouco por entre a multidão[1].

Vers le Brésil

Après avoir attendu un moment sur le quai, l’enfant mit son sac de toile sur le dos et décida de marcher un peu dans les alentours. Sans trop s’éloigner pour ne pas manquer Vicente lorsqu’il arriverait. Mais il était curieux. Il y avait beaucoup de monde, beaucoup de nouveautés. Après plus d’un mois sur le bateau, avec toujours les mêmes têtes et les mêmes choses, tout l’intéressait.
En réalité, les trois derniers jours à bord avaient été très mouvementés. Quelle joie de voir la terre après tant de temps. D’abord la ligne de la côte, sombre, qui se détachait entre la mer et le ciel. Puis, la sinuosité des montagnes. Ensuite, bien plus près, la végétation et les arbres, rompant la monotonie récente de la sempiternelle eau emplissant tout l’espace que la vue embrassait.
L’entrée dans la baie fut magnifique. Tous accoururent sur le pont, personne ne se souciait plus de manger ni ne souhaitait rester enfermé une minute de plus. Ils voulaient seulement contempler le paysage, apercevoir le fameux géant couché, l’homme colossal formé par les montagnes. Cela faisait des jours que l’équipage parlait sans cesse de lui et cherchait à l’horizon des signes annonçant la proximité de cette sculpture naturelle qui signalait l’arrivée à Rio de Janeiro. On aurait vraiment dit un homme immense, étendu sur le sol. Le fameux granit du Pain de Sucre, gardant l’entrée de la baie, se détachait de la silhouette rocheuse.
Le navire s’approcha tout près du rocher pour pouvoir entrer dans l’étroite embouchure. On pouvait distinguer la pierre nue et une végétation éparse. Sur les autres mornes, couverts d’une forêt dense, on apercevait des palmiers de types variés, des bananiers et beaucoup d’arbres aux cimes touffues.
Ils passèrent par un canal entre une forteresse à droite sur la terre ferme et une autre à gauche, sur un îlot. De celle-ci, des ordres furent criés : ils demandèrent au navire de hisser le drapeau et posèrent de nombreuses questions.
Le capitaine déclina son identité, dit d’où il venait, combien de jours il avait passés en mer, assura qu’il n’y avait pas de malades à bord. Ce n’est qu’alors qu’il put continuer, pénétrant dans la baie jusqu’à un autre fort, au nom français que le petit José ne réussit pas à retenir. Là, enfin, l’embarcation jeta l’ancre. De petits canots s’approchèrent – ceux de la douane, des autorités sanitaires. Des hommes montèrent à bord, discutèrent avec le capitaine et certains membres d’équipage.
 En même temps, plusieurs autres petits bateaux se rapprochaient, venant de tous côtés. Mais personne n’autorisa leurs solides rameurs à monter sur le pont tant que les autorités n’avaient pas libéré les passagers. Ce n’est qu’à ce moment-là que ceux-ci purent commencer à descendre par les escaliers le long du navire. Chacun d’entre eux ne pouvait emporter qu’un petit bagage à main. Pour José, son inséparable sac de toile était de toute façon la seule chose qu’il possédait. Pour les autres voyageurs, le reste des bagages devait être récupéré plus tard au dépôt de la douane, une fois les paquets examinés.
Assis sur la frégate avec d’autres passagers, l’enfant recevait la première impression du pays où il allait vivre jusqu’à la fin de ses jours. Deux chocs simultanés : par tous ses pores, la chaleur ; par ses yeux, l’émerveillement.
Un ciel très bleu, sans nuages, et un soleil ardent qui lui chauffait le corps. La beauté de la baie, parsemée d’îles et d’îlots, couverts de végétation. Les montagnes – les unes pointues, d’autres presque carrées, de nombreuses arrondies – qui, de près, ne formaient plus du tout de géant. La végétation qui les couvrait, très verte, très dense. Des dauphins partout. Des mouettes et des martins-pêcheurs plongeant à tout instant et remontant avec de petits poissons dans le bec. La mer calme et sans vagues, un miroir d’eaux limpides. La brise agréable qui soufflait dans ses cheveux.
Il se mit également à regarder le propriétaire de l’embarcation et les quatre membres d’équipage. Tous noirs, forts, torse nu. Ils auraient eu l’air de statues s’ils ne transpiraient pas autant. Mais ils ressemblaient bien à certaines sculptures que José avait vues sur les places des grandes villes portugaises où il était passé avant d’embarquer pour ce nouveau pays. Et tous avaient des cicatrices. Certaines sur le dos, comme des marques de fouet. Mais la plupart se trouvaient sur le visage et suivaient un tracé régulier, comme des dessins. L’enfant n’avait jamais vu d’aussi près tant de personnes de couleur. Il était fasciné.
Même maintenant, après une demi-heure assis sur son sac à attendre le voisin qui viendrait le retrouver, il ne se lassait pas de regarder autour de lui tous ces gens nouveaux. Le quai était en face du marché. C’est peut-être pour cela qu’il  y avait autant d’animation. Il entendait les cris des vendeurs, admirait ces choses si différentes. Il allait marcher un peu parmi la foule[2].




Antonio Rocco, Imigrantes
A chegada

Que língua era aquela que falavam à sua volta ? Todos afirmavam que era a mesma que a sua, mas nem sempre percebia o que estavam a dizer. Não apenas muitas palavras eram incompreensíveis. Mas mesmo a grande maioria, que podia reconhecer, vinha mais aberta, ensolarada, cheia de vogais. Escorria sinuosa para os ouvidos, musical, em ritmo mais lento e melodia com altos e baixos. Chegava doce, íntima, cheia de  sons nasais inesperados e de afetos sedutores. Os  diminutivos em –inho pareciam diminuir mais as coisas, ou aproximá-las aos poucos, sem o corte abrupto dos finais em –ito que usara a vida toda.
– Espere aí um pouquinho... – lhe disseram.
Parecera-lhe um inconveniente menor do que esperar um pouquito. Artes da língua. Era português e não era. Igual e diferente. Como tudo neste lugar onde José acabava de desembarcar, sem encontrar ninguém conhecido. Nem mesmo o Vicente, com quem contava e que prometera estar à sua espera no cais.
Sentou-se sobre o saco de lona e resolveu aguardar um pouco. Talvez ainda estivesse um pouco atordoado com tantas novidades. Na certa o vizinho o procurava mais adiante. Num instante iria vê-lo. Não devia afastar-se dali. Também não se sentia disposto a caminhar muito, pois ainda não se reacostumara à terra firme. A todo momento tinha a sensação de que o chão adernava. Corrigia o equilíbrio num sobressalto, como se ainda estivesse andando pelo piso do navio, sendo balançado de um lado para o outro pelas ondas.
Engraçado isso. Ao entrar no navio estranhara tanto  aquele movimento constante. Agora lhe parecia algo corriqueiro. Passados menos de quarenta dias de travessia, a sua terra já se lhe afigurava anos distante.
No entanto, lembrava-se bem de tudo. Não apenas da aldeia onde vivera por toda a vida e que deixara para trás. Mas recordava cada detalhe da viagem ao Porto, da  estação ferroviária , da ida de comboio para Lisboa,  da paisagem que passava apressada pelas janelas do vagão, da movimentação intensa nas ruas das duas cidades.
Não se esquecia de nada. Tinha uma bagagem de lembranças concretas. Porém, mais que tudo, carregava para sempre a marca funda das ultimas recomendações que ouvira, numa conversa séria na última noite em casa. O pai reunira os três filhos mais velhos como numa cerimônia de sagração, consolidando a entrada de José no mundo adulto masculino. Com ar solene, resumira o equipamento moral de que os dotara até então e com o qual agora deixava o futuro viajante cruzar o oceano. A bagagem que o acompanharia por todos os anos `a sua frente. Tudo o que compunha um homem de bem. Ter palavra. Viver com dignidade. Ser honrado. Trabalhador. Reto. Íntegro.
– É a única herança que tenho para deixar-te, meu filho. Mas nenhum bem poderá ser mais precioso.
Na partida, novas lembranças vieram se somar `as que já armazenava e que iriam alimentá-lo pela vida afora.
Trazia ainda bem viva a impressão da estranha floresta de mastros que avistara ao se aproximar do cais onde iria embarcar. Embora ancorado, o navio balançava muito. Naquele primeiro momento, José gostou. Parecia-lhe que a embarcação o compreendia. Como seu jovem coração, prestes a arrancar num galope, também o veleiro arfava ansioso por partir, mal contendo sua arrancada sobre as ondas. O garoto subiu a escada junto ao costado com a emoção de quem põe o pé no estribo para uma grande cavalgada.
Não imaginava o mundo que encontraria lá dentro. As bagagens dos viajantes sendo descidas ao porão por um cabrestante. Os cestos de legumes e frutas que ainda acabavam de ser descarregados de botes . Os caixotes com vidros e vidros de conservas. As gaiolas de galinhas e patos, os rebanhos de carneiros no porão, até uma vaca instalada num compartimento da proa. Os presuntos e chouriços pendurados em cordames, os sacos de mantimentos. Os papagaios e macacos de estimação dos tripulantes. Os tonéis de água. A quantidade de cordas e cabos para sustentar e movimentar velas. As ferragens enormes e pesadas.
Sentia-se quase tonto, diante de tanta coisa a se oferecer a sua visão. Para completar, novos sons rodopiavam em torno a seus ouvidos. O rangido do madeirame. O alarido de exclamações, berros, ordens e apitos, vindos de todas as direções, sobre um fundo sonoro de conversas e recomendações de despedida . O som do vento a sacudir com força as velas que se desdobravam.  Os gritos ocasionais das aves marinhas que esvoaçavam em torno. O rumor constante das ondas a bater no casco, de leve, como afagos de despedida.
No porão onde viajou, não teve a sensação de fartura que talvez os passageiros lá em cima e o comandante tivessem tido, com tantas provisões a bordo. Mas de qualquer modo, dificilmente conseguiria comer muito – sobretudo nos primeiros dias.  Nunca tinha pensado que alguém pudesse viver num lugar que se mexia tanto. Mal saíram do porto e alcançaram mar aberto, o navio começou a balançar forte. Os estômagos se embrulhavam. E quem fosse resistente ao enjôo do balanço, acabava passando mal  de nojo, nauseado pelo mau cheiro e pela visão de tantos passageiros a vomitar. Alguns cambaleavam, outros  se deixavam cair e ficavam inertes, outros corriam para o tombadilho e penduravam metade do corpo para fora da amurada em convulsões seguidas.
Com o passar dos dias, porém, o pequeno José foi se acostumando.  Procurava ficar fora do porão tanto quanto podia. Era fundamental sair daquela escuridão e desconforto,  ficar longe de todos aqueles corpos deitados pelo chão em esteiras  ou sobre cobertores e trouxas, sob redes que se entrecruzavam, penduradas por toda parte. Afastando-se, perdia seu lugar e estava sempre a ter de buscar uma brecha onde instalar-se `a noite para dormir no chão duro, usando o saco de lona como travesseiro. Mas tinha de sair do meio de todos aqueles cheiros humanos. E dos tantos barulhos que os acompanhavam – choro, tosse, gritos, pigarro, roncos, peidos, arrotos. Preferia o alarido lá de fora que começava ainda de madrugada : vozes e passos dos marinheiros, baldes d’água sendo jogados, escovas esfregadas no convés.
Fez amizade com um dos grumetes e até o ajudava algumas vezes. Descobriu um lugar no tombadilho onde se aninhava junto a um escaler e passava desapercebido. Ficava horas a fio, a sentir o vento  úmido e salgado, ar vivo a lhe fustigar.
Passados os primeiros dias de neblina, entregava-se todo `a visão do horizonte com que tanto  sonhara. Tio Adelino tinha razão. Existia mesmo aquela linha entre céu e mar, entre azul e azul – ou verde ou cinza. A cada noite, as estrelas iam mudando de posição, até que  o menino deixou de encontrar  no céu algumas de suas conhecidas que o acompanhavam desde sempre. E jamais perderia a memória esplêndida de sua primeira noite de lua cheia num céu tropical,  refletida no mar sereno, enquanto o navio deslizava com todas as velas pandas, fendendo o oceano como uma faca quente na manteiga.
Era doce, era belo, era grandioso. Prateados pelo luar, marinheiros entoavam canções que exalavam saudades, acompanhados por uma gaita , pelos rangidos e estalidos do navio e pelo marulho das vagas. Fazia pensar em Deus de uma maneira aconchegante. José se aninhou em Seu colo, como o menino Jesus nos braços de seu santo patrono, na imagem que conhecia tão bem, do pequeno altar da igrejinha da aldeia. Beijou a medalha que a irmã lhe dera e que trazia ao pescoço numa tirinha de couro. Pediu proteção, nessa vida que iniciava ao mergulhar no desconhecido. Um mundo ignoto, de mar e terra, talvez com perigos capazes de lhe engolir corpo e alma.[3]

                                                           L'arrivée

Quelle était cette langue que l’on parlait autour de lui? Ils affirmaient tous que c’était la même que la sienne, mais lui ne comprenait pas toujours ce qu’ils disaient. Non seulement de nombreux mots étaient incompréhensibles, mais la plupart de ceux qu’il parvenait à reconnaître étaient plus ouverts, ensoleillés, pleins de voyelles. Ils coulaient, sinueux aux oreilles, musicaux, à un rythme plus lent et d’une mélodie ondoyante. Ils étaient doux, intimes, plein de sons nasaux  inattendus et d’attraits séducteurs. Les diminutifs en –inho paraissaient diminuer encore plus les choses, ou s’en rapprocher peu à peu, sans la fin abrupte des terminaisons en –ito qu’il avait toujours utilisées.
– Attends un pouquinho... – lui dirent-ils.
Cela lui paraissait un inconvénient moindre que d’attendre un pouquito. Les subtilités de la langue. C’était du portugais et ça n’en était pas. Pareil et différent. Comme tout à cet endroit où José venait de débarquer, sans trouver personne qu’il connaissait. Pas même Vicente, sur qui il comptait et qui avait promis de l’attendre sur le quai.
Il s’assit sur son sac de toile et décida d’attendre un moment. Peut-être était-il encore un peu étourdi par tant de nouveautés. Le voisin le cherchait certainement plus loin. Il le verrait dans un instant. Il ne devait pas s’éloigner de là. De toutes façons, il ne se sentait pas non plus en état de marcher beaucoup, car il n’était plus habitué à la terre ferme. A tout moment, il avait la sensation que le sol tanguait. Il corrigeait le déséquilibre dans un sursaut, comme s’il était encore sur le bateau, balancé d’un côté à l’autre par le mouvement des vagues.
C’est curieux. Lorsqu’il était monté sur le bateau, il avait été très gêné par ce mouvement constant. Maintenant, cela lui paraissait normal. Après moins de quarante jours de traversée, il lui semblait avoir déjà quitté son pays depuis des années.
Mais il se souvenait bien de tout. Pas seulement du village où il avait vécu toute sa vie et qu’il avait laissé derrière lui ; il se souvenait de chaque détail du voyage jusqu’à Porto, de la gare, du voyage en train à Lisbonne, du paysage qui défilait à toute vitesse par les fenêtres du wagon, de l’intense animation dans les rues des deux villes.
Il n’oubliait rien. Il avait un bagage de souvenirs concrets. Mais plus que tout, il portait à jamais la marque profonde des dernières recommandations qu’il avait entendues, lors d’une conversation sérieuse, le dernier soir chez lui. Son père avait réuni les trois aînés comme dans une cérémonie rituelle qui marquait l’entrée de José dans le monde adulte masculin. D’un air solennel, il avait résumé le bagage moral dont il les avait dotés jusqu’alors et avec lequel il laissait le futur voyageur traverser l’océan. Un bagage qui l’accompagnerait pendant toutes les années à venir. Tout ce qui faisait de lui quelqu’un de bien. Etre un homme de parole. Vivre dans la dignité. Etre honnête. Travailleur. Droit. Intègre.
– C’est l’unique héritage que j’ai à te laisser, mon fils. Mais aucun bien ne pourra être plus précieux.
Au moment de partir, de nouveaux souvenirs s’ajoutèrent à ceux qu’il avait déjà accumulés et dont il se nourrirait toute la vie.
L’impression laissée par l’étrange forêt de mâts qu’il avait aperçue en s’approchant du quai où il embarquerait était encore bien vive. Bien qu’encore amarré, le navire se balançait beaucoup. Dès ce premier instant, cela plut à José. Il lui semblait que l’embarcation le comprenait. Comme son jeune cœur, prêt à s’élancer au galop, le voilier, impatient de partir, se cabrait, contenant avec peine son départ sur les vagues. Le gamin monta l’escalier sur le côté du bateau avec l’émotion de celui qui met le pied à l’étrier pour une longue chevauchée.
Il n’imaginait pas le monde qu’il trouverait à l’intérieur. Les bagages des voyageurs descendus dans la cale par un cabestan. Les paniers de légumes et de fruits qu’on terminait de décharger des barques. Les caisses contenant d’innombrables bocaux de conserves. Les cages de poulets et de canards, les troupeaux de moutons dans la cale, et même une vache installée dans l’un des compartiments de la proue. Les jambons et saucissons pendus à des cordes, les sacs de vivres. Les perroquets et les singes de compagnie de l’équipage. Les tonneaux d’eau. Quantité de cordes et de câbles permettant de tenir et de déployer les voiles. Les ferrures énormes et lourdes.
Il se sentait presque étourdi face à tant de choses qui s’offraient à sa vue. De plus, de nouveaux sons bourdonnaient à ses oreilles. Le grincement de la coque. Le vacarme des exclamations, hurlements, ordres et sifflements, venus de partout, sur fond de conversations et de dernières recommandations. Le bruit du vent secouant avec force les voiles qui se déployaient. Les cris sporadiques des oiseaux marins qui voletaient tout autour. La rumeur constante des vagues battant la coque, légèrement, comme des caresses d’adieu.
Dans la cale où il voyagea, il n’eut pas la sensation d’abondance que les passagers d’en haut et le commandant ressentirent peut-être, avec tant de provisions à bord. Mais de toutes façons, il aurait difficilement pu manger beaucoup – surtout les premiers jours.  Il n’avait jamais pensé que quelqu’un puisse vivre dans un endroit qui bougeait autant. A peine étaient-ils sortis du port et avaient-ils atteint la haute mer que le navire se mit à se balancer fortement. Les estomacs se retournèrent. Et ceux qui résistaient à la nausée du balancement finissaient par être écoeurés par la mauvaise odeur et la vision de tant de passagers en train de vomir. Certains titubaient, d’autres se laissaient tomber et restaient inertes, d’autres encore couraient jusqu’au pont et se penchaient par-dessus bord dans des convulsions successives.
Au fil des jours, néanmoins, le petit José s’habituait. Il essayait de rester le plus possible hors de la cale. Il était essentiel de sortir de cette obscurité et cet inconfort, d’être loin de tous ces corps allongés par terre sur des nattes ou des couvertures et des ballots, sous des hamacs qui s’entrecroisaient, suspendus de toute part. S’il s’éloignait, il perdait sa place et devait toujours chercher une brèche où s’installer la nuit pour dormir sur le sol dur, son sac de toile en guise d’oreiller. Mais il devait s’extirper de toutes ces odeurs humaines. Et de tous ces bruits qui les accompagnaient – pleurs, toux, cris, raclements de gorge, ronflements, pets, rots. Il préférait la clameur du dehors qui commençait très tôt le matin : voix et pas des marins, seaux d’eau jetés, brosses frottées sur le pont.
Il se lia d’amitié avec un des mousses et l’aidait même parfois. Il découvrit un endroit sur le pont où il se nichait près d’un canot et passait inaperçu. Il y restait pendant des heures, à sentir le vent humide et salé, l’air vif qui le fouettait.
Après les premiers jours de brouillard, il se livrait à la vision de l’horizon dont il avait tant rêvé. L’oncle Adelino avait raison. Cette ligne entre le ciel et la mer existait vraiment, entre bleu et bleu – ou vert ou gris. Chaque nuit, les étoiles changeaient de place, jusqu’à ce que le garçon ne trouve plus dans le ciel certaines de celles qu’il connaissait et qui l’accompagnaient depuis toujours. Jamais il ne perdrait le souvenir merveilleux de sa première nuit de pleine lune sous un ciel tropical, qui se reflétait dans la mer sereine, alors que le navire glissait toutes voiles dehors, fendant l’océan comme un couteau chaud dans le beurre.
C’était doux, c’était beau, c’était grandiose. Argentés par le clair de lune, des marins entonnaient des chansons pleines de nostalgie, accompagnés par un harmonica, par les grincements et craquements du navire et par le bruit des vagues. Cela faisait penser à Dieu d’une façon accueillante. José se lova sur Ses genoux, comme l’enfant Jésus dans les bras de son saint patron, d’après l’image qu’il connaissait si bien, sur le petit autel de l’église de son village. Il embrassa la médaille que la sœur lui avait donnée et qu’il portait au cou au bout d’une lanière de cuir. Il demanda protection dans cette vie qu’il commençait en plongeant dans l’inconnu. Un monde ignoré, fait de mer et de terre, peut-être rempli de dangers capables de l’engloutir corps et âme[4].



[1] Ana Maria Machado. Palavra de Honra. Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 2005, p. 40-43.
[2] Traduction de Charlotte Grawitz e Karine Lehmann ( Service culturel – Ambassade du Brésil)
[3] Ana Maria Machado. Palavra de Honra. Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 2005, p. 32-36
[4] Traduction de Charlotte Grawitz e Karine Lehmann ( Service culturel – Ambassade du Brésil) 

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