quarta-feira, 4 de maio de 2011

Conférence : Uma Leitura de A árvore das Palavras de Teolinda Gersão : As raízes do passado e o sentido dos frutos.

Conferência de João Amadeu da Silva
Professor Universidade Catolica de Braga

Uma leitura de A Árvore das Palavras de Teolinda Gersão:
As raízes do passado e o sentido dos frutos

A reflexão que propomos sobre o romance A Árvore das Palavras de Teolinda Gersão desenvolver-se-á a partir do símbolo “árvore”. As raízes, encontramo-las na cultura popular representada, por exemplo, em Lóia, Laureano e sua filha. Remetem para o passado e contribuem para que os seres humanos vivam em paz e em harmonia com a natureza. Estes nascem da terra, alimentam-se dela e completam o ciclo, quando morrem e frutificam. As árvores dos antepassados, o ciclo produtivo sugerido pela dança debaixo da árvore, a elevação do corpo como árvore que nasce da terra são imagens que se encontram ao longo da obra. Numa perspectiva intertextual, aludiremos a outras obras. Sob o Olhar de Medeia de Fiama Hasse Pais Brandão e a relação de Marta com os ciclos da natureza e a aprendizagem que desenvolve a partir desse contacto; Os Selos de Herberto Helder e a simbologia das áfricas, como espaço de unidade e transmutações alquímicas, harmonia e conhecimento dos espaços obscuros; A Margem da Alegria de Ruy Belo e o reconhecimento de uma realidade edénica que antecede sempre o sofrimento e a desarmonia e, por último, Lusitânia no Bairro Latino de António Nobre e, novamente, a saudade do passado, da harmonia inscrita nas experiências da infância na relação com o mundo circundante.     
A contrapor ao sentido ascensional da árvore, deparamos com a perspectiva horizontal da viagem anti-épica de Amélia. Embora Teolinda Gersão introduza esta personagem “in medias res”, como se pudesse rejuvenescer em terras de Moçambique e elevar-se pelos seus frutos, Amélia não está preparada para corresponder aos objectivos daqueles que, outrora, viajaram de Lisboa; pelo contrário, procura realizar-se nas imagens de grandeza. Não frutifica sem as raízes da cultura africana ou as familiares: a sua mentira estropia as árvores (cf. Gersão, 1997: 95). A personagem feminina degrada-se e dilui-se, por fim, num última viagem para lá das índias. Desaparecerá definitivamente por terras australianas.
Retoma-se o símbolo da árvore. Os ramos e os frutos brotam com os encontros de Zita e Rodrigo. Estes reconhecem a importância das raízes para a construção de um país independente. O futuro parece possível e, no entanto, tem de ser construído fora de Moçambique. Os grandes ideais da juventude são substituídos pela necessidade de uma realização pessoal. Recorre-se a uma nova viagem, agora de Zita ao decidir viver na terra dos seus pais, num espaço estranho, fechado, cheio de limitações e regras sociais para quem chega livre das terras africanas, onde “uma árvore que crescia nos sonhos […] chegava ao céu – que sabem eles disso, que podem eles compreender?” (Gersão, 1997: 239)  
    

le mardi 10 Mai 2011, à 15h30
salle 21 - dans le cadre du cours de Master 1
 l’Institut Hispanique
31, rue Gay-Lussac/ 75005 Paris



Referência:
Gersão, Teolinda (1997). A Árvore das Palavras. Lisboa: Publicações Dom Quixote.   

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