segunda-feira, 30 de maio de 2011

Ana Maria Machado e os jovens escritores da Sorbonne


No último mês de Março de 2011, a escritora e acadêmica Ana Maria Machado proferiu uma conferência na Universidade da Sorbonne. O encontro foi organizado pelos professores José Leonardo Tonus, Regina Antunes-Meyerfeld e pela mestranda Vanessa Aguera. Ele contou, igualmente, com a participação dos alunos do Departamento de Português que apresentaram  textos redigidos durante o ateliê de escrita, elaborados a partir do romance Palavra de Honra.

Que língua era aquela que falavam à sua volta ? Todos afirmavam que era a mesma que a sua, mas nem sempre percebia o que estavam a dizer. Não apenas muitas palavras eram incompreensíveis. Mas mesmo a grande maioria, que podia reconhecer, vinha mais aberta, ensolarada, cheia de vogais. Escorria sinuosa para os ouvidos, musical, em ritmo mais lento e melodia com altos e baixos. Chegava doce, íntima, cheia de  sons nasais inesperados e de afetos sedutores. Os diminutivos em –inho pareciam diminuir mais as coisas, ou aproximá-las aos   poucos, sem o corte abrupto dos finais em –ito que usara a vida toda.
– Espere aí um pouquinho... – lhe disseram.
Parecera-lhe um inconveniente menor do que esperar um pouquito. Artes da língua. Era português e não era. Igual e diferente. Como tudo neste lugar onde José acabava de   desembarcar, sem encontrar ninguém conhecido. Nem mesmo o Vicente, com quem contava    e que prometera estar à sua espera no cais.
Sentou-se sobre o saco de lona e resolveu aguardar um pouco[1].


C
Domingos Rebelo, Os emigrantes
aminhavam à sua volta apressados; à sua frente, abraços saudosos entre aqueles que consigo tinham chegado, e os que esperavam, ansiosos, no cais. Observava-os numa inocente inveja, numa alegria branda que lhe fazia prometer a si próprio que, de onde quer que partisse e onde quer que chegasse, alguém o esperaria ansiosamente ou deixá-lo-ia num triste adeus de lamento. Esse seria o seu objectivo primordial : provar mil línguas, mil sonoridades e levá-las consigo na bagagem. Sentado sobre o saco de lona, como por cima da única coisa que, agora ali, lhe pertencia. A sua mala, que o acompanharia na sua ainda jovem viagem, é o símbolo das suas raízes: identidade transportada às costas para que nunca se esquecesse de onde viera. Dispersado na movimentação à sua volta, pelos gestos estranhos e elevações de vozes desajeitadas, esquecia-se progressivamente que o seu amigo poderia estar à sua procura pelo cais. Dançavam as pessoas apressadas, numa correria vagarosa, ambulante, ao ritmo das ondas onde os barcos repousam, balançando. Era estrangeiro, estranho, vindo de fora. Os sons criavam uma distância marcada por um muro pesado, uma separação abrupta entre si e os outros. Estrangeiro. Tão estrangeiro, que nem com estranheza o olhavam: ninguém o via. A ânsia pelo novo misturava-se com o medo da mudança, a angústia perplexa em olhares de vergonha. Encolheu-se sobre o saco de lona, com receio de observar, de experimentar a luz que rompia pelo cais, quando sobre o seu ombro sentiu uma mão que não era a sua, um peso que não lhe pertencia. Voltou-se lentamente e a imagem nos seus olhos reflectida trouxe-lhe um apaziguamento das incertezas que o corrompiam: Vicente sorria-lhe alegremente. Num longo abraço de saudade recuperou os olhos luminosos, a ânsia por cheiros desconhecidos, e a eterna vontade de descobrir os mistérios da cidade.
Sara Palha – 1° ano LLCE.

A
guardava a chegada de Vicente, enquanto a orquestra da língua portuguesa continuava. As crianças jogando peão na calçada oposta compunham a mais bela melodia: um forte inicial, uma curta pausa em stacatto e um crescendo que explodia em gargalhadas. Ah! Isto ele conhecia bem. De onde ele vinha, riam muito. José sentiu-se mais em casa e não pôde controlar o sorriso que se esboçou no canto direito da sua boca. Mais ao longe, homens de negócios discutiam sobre suas aventuras finaceiras, em tons graves e oitavados. Repetiam seus recados e reuniões em arrojados telefones celulares, todos com um sorriso no rosto. De repente, a sensação de que o saco de lona havia se tornado o seu assento, reservado e aquecido para si. José se via como se estivesse no teatro.
Pedro Mitraud – 1° ano LLCE   
S
entado sobre o saco, encontrou-se envolvido pela sonoridade de uma língua cheia de sons diferentes, novos, desconhecidos, repletos de « ch » e de «nh », mas que nos seus ouvidos lhe pareciam tão melodiosos e familiares. Toda esta beleza musical de uma língua que, outrora lhe parecia  tão agressiva, tornava-se, agora, objeto de uma admiração perplexa. Ali, rodeado pelo atraente desconhecido, oferecido pelas terras de Camões, ele ouvia todos os detalhes daquela melodia e tentava limar as arestas musicais daquela língua….  Magnífico e sublime, pensava.
Ivo Nascimento (1° ano LLCE)

U
Lasar Segall, Navio de imigrantes
m pouco. Um pouco mais. Mais um bocadinho. O frio anunciava os primeiros sinais da descida da noite. As vozes há muito se calaram para dar lugar ao silêncio que gritava pelo cais adentro,como testemunha solitário. Escurecia: a queda da noite infiltrava-se pelos barcos presos à doca, roubando todas as cores vivas, todos os sons humanos que ali tinham estado, à luz do dia. Escurecia dentro de si a alegria dos primeiros olhares, o genuíno nervosismo da chegada, a ânsia pelas primeiras palavras que trocaria e os primitivos passos em terras estrangeiras. Estava escuro lá fora, tão escuro que dentro de si se instalava um profundo e sombrio abandono. O sopro do vento varria as folhas do chão, os pássaros negros cantavam melodias nocturnas, as ondas empurravam os barcos: ruídos negros que o assustavam. Perdido, avistou ao longe, o vulto dum caminhante que se aproximava na sua direcção. Os traços definiam-se à medida que o passo acelerava. O vulto enxergou-o e desatou a correr direto a si. Sentado sobre o saco permaneceu imóvel, petrificado, sem reflexos e de fôlego cortado. Fechou os olhos, amedrontado, imaginando todas as terríveis possibilidades para o que lhe iria acontecer: o vulto cada vez mais próximo de si. Gritava alguma coisa, uma palavra que não conseguia compreender com todas as vozes da noite a murmurarem ao mesmo tempo; grito que a cada passo se tornava mais perceptível, adquirindo contornos que reconhecia, e lentamente se formavam numa palavra que tantas vezes ouvira: era o seu nome!
Sara Palha – 1° ano LLCE.

E
sperando Vicente, José aproxima-se de um grupo de brasileiros que esperava o barco para a cidade de Salvador. Vivia intensamente e interiormente uma expectativa em familiarizar-se com esta suave e desconhecida língua. O grupo percebera a preocupação de José.
- Amiguinho, procura alguém ?
José, ainda maravilhado com a sonoridade que saía dos lábios das pessoas, hipnotizado, responde :
- Não, apenas com um movimento de cabeça.
No fundo dele próprio, queria desfrutar daquele momento novo entre duas línguas tão incomuns. Desviou o olhar. Afastou-se e voltou a esperar o amigo, na ânsia de com ele compartilhar este primeiro momento majestoso nesta terra cheia de promessas.
Lucimar Moraes, 2° ano LLCE.


Mas não queria aguardar. Ficava sentado e dizia a si mesmo que teria de saber mais. Mais, muito mais : tudo sobre esta língua que lhe parecia tão familiar e ao mesmo tempo tão desconhecida. Diminutivos, vogais, « -inhos », « -itos », tudo ressoava-lhe como uma história muito velha de que não se podia lembrar. Algo lhe dizia, portanto, que a sua alma já conhecia a nova língua. Sentia-se como se tentasse alcançar o fruto proibido, mas ainda faltava-lhe um pouco. Ambicionou-se. Decidiu-se. Vai compreender. Vai saber. E de repente levantou-se e afundou-se no mar de homens que cantavam a mais suave canção. Perdia-se no mundo destes doces sons. A redescobeta da sua própria língua, esta grande aventura esperava-o.
Monica Magaon – 2° ano LLCE       


O
u esperar um pouquinho como se dizia nesta nova terra. E, assim, observava o comportamento de cada um. O jeito de andar, descontraído, diferente do que vira antes : um andar mais lento, suave.  Também o jeito de falar e  de se expressar.
Jesuína ALVES (1° ano LLCE


Ele olhava para aquele mundo desconhecido com uma visão nova e objetiva daquilo que o rodeava. Estas cores vivas, estes sons melodiosos e estes cheiros suaves não o deixavam indiferente.Todos os seus sentidos a sentir… provocavam nele uma grande alegria, mas uma alegria que deixou, pouco a pouco, lugar à solidão. Apesar de toda a gente que andava por cá, ele sentia-se muito só. O medo provocado por este mundo novo batia no seu peito.
Marta  Rodrigues,1° ano LLCE


Ana Maria Machado, Sorbonne - Março 2011





Ana Maria Machado e o Prof. Leonardo Tonus
Sorbonne - Março de 2011














[1] Ana Maria Machado. Palavra de Honra. Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 2005, p. 32-36

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