segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Jovens escritores


Explicações

Muitos acham minha maneira de escrever blasfematória, confusa, lusofonizada. Minha escrita é calina. Se usasse galicismos, acarinhava, tocava meu leitor.
A verdade é que não se percebe grande coisa. Falem com escritores confirmados a ver se vos explicam o porquê de terem usado isto ou aquilo, de terem falado neste ou naquele. Uma palavra: frustração.
Muitos erros e confusões no português. Minha escrita calveja. Leio, analiso, tiro tudo o que não é necessário. Anulo possessivos, determinantes, troco sentido convencional de sintaxes. Dou pontapés na gramática, viro nossa língua feia. Minha escrita é caliginosa.
É tipo espalhafato: jovens apreciam, letrados e velhos: rezingões.
Minha escrita é sonho, aparece quando adormeço. Palavras rodeiam em mim, tentam aproximações umas às outras, levam tampas, beijam-se, transformam-se noutras, reaparecem mais fortes, mais compostas, mais rebeldes, rejeitam aproximações. Minha escrita é feita de encontros e de desencontros.
Minha escrita me descontrói. Quem sou eu ao lado de outros, não tenho grandes estudos, sou jovem, falta-me maturidade, falta-me ópio, ainda não fumei o suficiente, fico demasiado tempo sóbrio. Minha escrita faz vacilar por ser diferente.
Minha escrita inspira-se dos dedos deles. Se vivesse em tempo de romantismos, ela era considerada como próxima de Josés de Alencar ou Castros Alves... Excesso de egocentrismo. Excesso de ousadia: meu Deus, tive a coragem de pôr nomes de autores no plural. Inventam-se palavras a partir de personagens criadas por autores, eu, galicisizando-me, acordo-as.
Ela é bicéfala. Mistura línguas e cria trocadilhos. Ela não passa de uma perdida, de algo que não sabe o que quer, vem directamente da esquerda, é feminina.
Ela envolve multidões, insulta pessoas, apenas se alinha na moda do momento, quanto mais se choca mais se tem sucesso e reconhecimento. Tudo é feito para minha escrita ser, amada.  Amada, hoje em dia, é nome corrente em França, e, curiosamente, masculino.
Minha escrita é transexual.

Mickaël Cordeiro de Oliveira, 2008



O silêncio da escravidão

 Devagar, tacteando a erva com meus pés descalços, senti o cheiro do além, um grito suave, um apelo que, ao longe, parecia confundir-se com o silêncio da paisagem. Tomateiros erguiam-se, orgulhosos, com boa cor. Morangueiros rastejavam, e demonstravam sinais de calcagem.
Provei um tomate, deparei-me com minha língua a abrir-se, e no meio dela, ouvi gritos, dores. Assustado, ajoelhei-me e comi um morango. Aí, senti o vermelho do morango curar as chagas que se tinham formado, e os gritos foram-se desvanecendo.
Caminhei em direcção ao poço. Um belo limoeiro fornecia-lhe um espaço à sombra. Procurei sentar-me à beira do abismo: afinal, o poço tinha sido tapado. O cimento que seguia a redondeza dele permitiu-me esperguiçar-me e por fim, deitar-me.
Comecei a vislumbrar os primeiros sinais da chegada da noite: o vento provocava a libertação dos limões que embatiam violentamente no meu corpo, enquanto os cães ladravam quando se apercebiam da minha dor. Nem sempre era a fruta podre que me caía em cima, por vezes, limões bem jovens, ou outros, mais madurinhos, também se revoltavam. Mas faltava-lhes organização.
Adormeci a contar as estrelas, e ouvi de novo, aquele apelo suave. Em pleno sonho, pensei que ele se tinha transformado em irrealidade. Pensei que tivesse contaminado meu inconsciente, pensei que a realidade afectava  minha imaginação.
Mais tarde, ouvi o último grito, o que resistira à concorrência de todos os elementos naturais que tinham sons: uma cobra acabara de comer um sapo.
Deste último som, nasceu, o silêncio.

Mickael C.de Oliveira, 2010

Mickäel Cordeiro de Oliveira é estudande do  Master 1 Estudos   Lusófonos  da Universidade da Sorbonne e trabalha atualmente sobre a imigração  africana em Portugal e a imigração portuguesa em França. 
Blog : www.mickao.blogspot.com



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