quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Cecília Meireles: as incertezas da liberdade

Cecília Meireles: as incertezas da liberdade

Conférence avec Monsieur le Professeur
Antonio Carlos Secchin

(De l’Académie Brésilienne des Lettres)
− Conférence en portugais −

Le jeudi 06 octobre à 18h30

Amphithéâtre Descartes
Université Paris-Sorbonne
17, rue de la Sorbonne
75005 – Paris

En raison de l'état d'urgence et du plan Vigipirate, merci de bien vouloir confirmer votre présence par email à l’adresse suivante :




Antonio Carlos Secchin nasceu no Rio de Janeiro.   É professor emérito de Literatura Brasileira da Faculdade de Letras da UFRJ e Doutor em Letras pela mesma Universidade.
Poeta com seis  livros publicados, destacando-se Todos os ventos (poesia reunida, 2002), que obteve os prêmios  da Fundação Biblioteca Nacional,  da Academia Brasileira de Letras  e do PEN Clube para melhor livro do gênero  publicado no país em 2002.
Ensaísta, autor de João Cabral; a poesia do menos, ganhador de três  prêmios nacionais, dentre eles o Sílvio Romero, atribuído pela ABL em 1987. Organizou várias seletas e obras completas de poetas brasileiros, (Castro Alves, Mário Pederneiras, Cecília Meireles, João Cabral de Melo Neto, Ferreira Gullar).  Em 2010, publicou Memórias de um leitor de poesia. Este ano, pela Cosac Naify, será editada a obra João Cabral: uma fala só lâmina, reunindo tudo que Secchin escreveu sobre o poeta pernambucano ao longo de trinte e cinco anos.
Proferiu quatrocentas e vinte palestras em vários estados do  país  e no exterior. Foi professor convidado das Universidades de Barcelona, Bordeaux, Califórnia, Lisboa, Mérida, México, Los Angeles, Nápoles, Paris (Sorbonne), Rennes e Roma.
Autor de mais de três centenas de textos (poemas, contos, ensaios) publicados nos principais periódicos literários brasileiros e internacionais. Sobre sua obra já escreveram favoravelmente ensaístas como Benedito Nunes, José Guilherme Merquior, Eduardo Portella, Alfredo Bosi, Antônio Houaiss, Sergio Paulo Rouanet, José Paulo Paes e Antonio Candido, entre outros.
Em 2013, a editora da UFRJ publicou Secchin: uma vida em letras, livro-homenagem com cerca de 90 artigos, ensaios e depoimentos de renomados críticos e docentes brasileiros e estrangeiros. Todos os aspectos de sua multifacetada produção foram objeto de estudo: a poesia, o ensaísmo, a ficção, o magistério, a bibliofilia.
Em 2014 publicou João Cabral:uma fala só lâmina e Papéis de poesia.
Foi eleito em junho de 2004 para a Academia Brasileira de Letras.

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

O Cisne e o aviador

O Cisne e o aviador

Heliete Vaitsman



2.

O Aviador chamou minha atenção logo que o vi a primeira vez, conta Frida a Brígida, muito antes dos falsos cisnes, dos edifícios espelhados e dos vendedores de água de coco, antes das bicicletas e da ausência dos nadadores. Na minha hora de folga diária depois do almoço, a hora abafada, se o verão não estivesse no auge eu caminhava pela orla quase deserta, e às vezes me sentava num tronco caído com um livro na mão. Não baixava os olhos ao passar por aquele homem maduro que ao me ver ajeitava os óculos de lentes espessas e interrompia o que estivesse fazendo – era o tipo de pessoa sempre em ação, manejando ferramentas, empurrando um bote para a água, ensinando algum movimento aos filhos. Fazia dez anos que eu estava no Rio quando, no dia seguinte a uma tempestade, dia de nuvens espessas, tropecei numa raiz de árvore – um jequitibá vermelho, gigantesco -- e correu para me ajudar. Levantei devagar, os joelhos ralados, um fio de sangue saindo do cotovelo. Não fiz de propósito, nem pense nisso. As poesias de Rilke em edição portuguesa voaram longe e ele as estendeu para mim antes de trocamos as primeiras palavras.
Aos poucos nos aproximamos, macho e fêmea iguais desde que o mundo é mundo. A faísca, você sabe. Por que nos percorre ou nos ignora, nunca descobri. Ele tinha chegado pouco depois da guerra, contou, e construíra uma dúzia de pedalinhos que eram utilizados em passeios por adultos e crianças. Eu era uma mulher madura aos 27 anos, dona do meu nariz, e livre; ainda que trabalhasse seis dias por semana, as noites e os domingos me pertenciam, e também a hora arrastada em que todos descansavam. Nunca tinha me apaixonado de verdade, nunca tinha imaginado compartilhar minha vida com um homem. Diante dele, porém, ao longo dos dias, seguidos de suas noites, olhei o avesso de mim e do mundo. Do meu mundo, letrado e contido. Ele erguia a cabeça e dizia que ia chover à noite, porque o vento sul trazia as nuvens que sabia nomear. Também era capaz de apontar todos os pontos de um globo terrestre, promontórios, baías, escarpas, e foi assim que me mostrou de onde vinha, segurando-me o braço com a mão direita cheirando a graxa. 
Não sei mais se foi apenas fantasia. Talvez. Mas o que lembro é concreto. Como se o mundo fosse feito de certezas e o futuro pudesse ser desenhado ao nosso gosto. O sofrimento nos encontra, não é preciso buscá-lo, você sabe. Hoje vocês têm psicólogos para explicar tudo, naquela época a gente só contava com a própria consciência para decifrar as emoções. Para mim, a presença dele era um intervalo; por mais amenos que fossem os trópicos, o cotidiano não dava trégua a forasteiros, precisávamos caminhar em linha reta se quiséssemos ser aceitos.
Tinha sido piloto militar famoso em seu pequeno país invadido por russos e alemães, me contou, os olhos azuis perdendo-se nas curvas das montanhas, Dois Irmãos, Pedra da Gávea, a beleza intocada. Rosto aceso ao desfiar um rosário de nomes exóticos, travessias oceânicas, desertos africanos, ilhas asiáticas, omitia memórias de guerra. Não ostentava cicatrizes nem mencionava feridas, não estivera em combate, retirara-se para uma propriedade rural que teria prosperado se os tempos fossem de paz. Por que viera, então? Apenas uma vez fiz a pergunta. Não em busca de glória, disse. Que os mortos fiquem entre os mortos, e não invadam o reino dos vivos – era meu lema silencioso naquela época, parecia ser o dele.
Apenas três anos depois de ter chegado, já era louvado como empreendedor – “PILOTO EUROPEU TRAZ NOVOS FLUTUANTES PARA OS CARIOCAS”, dizia uma revista semanal – e herói – “LUTOU CONTRA OS COMUNISTAS E FOI PERSEGUIDO!”. Estufava o peito ao mostrar o álbum de recortes, o hidroavião, os pedalinhos que montara (pensava em dar-lhes nomes além de números). Era preciso acostumar o povo dessa cidade a admirar do alto as suas paisagens. Tanta beleza a aproveitar se formos empreendedores! Em breve os casais fariam brindes à luz de velas sob o céu estrelado, num restaurante flutuante igual ao dos rios europeus.
Não mostrou surpresa ao tomar conhecimento de minha origem, não fez perguntas, esperou que eu contasse. Contei pouco, e continuei, meses a fio, a reduzir a velocidade dos meus passos toda vez que o via junto aos barquinhos, na hora sem clientes, desertas as margens quase selvagens da Lagoa. Só gringos acreditavam que caminhar era um exercício, e eu, eterna caminhante, aproveitava a solidão.
À medida que trocávamos novas palavras, tateando na língua cheia de vogais – sem sinônimos para neve, eu brincava, nunca mais sentiremos frio – ele conferia com o olhar a moça ágil na sua frente e me estendia os remos de um caiaque que eu conduzia, sozinha, sobre as águas mansas, levantando a vista do fundo lodoso e enxergando o querido Tiergarten, meu parque enfeitado por faias e monumentos em meio aos gramados – organizados, geométricos – onde tantas vezes papai abrira diante de nós a toalha xadrez de piquenique.
Não podia prever, o ás da aviação, que as pessoas se desdizem, vão e voltam. Antes que o mundo virasse do avesso,  teve tempo de me observar como ninguém fizera. Uma tarde, entramos no barracão onde guardava ferramentas; a ponta dos dedos passou rapidamente por meus cabelos, e me arrepiei da ponta dos pés ao último fio de cabelo. Perrrfil camafeo – declarou com seu sotaque carregado, a voz baixa, inquieto, e lastimei que fosse refém da mulher e dos filhos que trabalhavam com ele no cais dos pedalinhos.  A moça ágil que eu era ainda não sabia que na vida só somos reféns de nós mesmos e da nossa covardia.
O belo perfil não me teria servido, reagi, eu teria virado pó como os outros se estivesse lá – cabelos de cinzas no lugar de cachos dourados de ariana. O Aviador engoliu a frase com uma careta. Pouco pródigo em aquiescências, tampouco fazia exigências, quem agia era eu, meus passos é que se aproximavam dele e do barracão de madeira, nos espaços deixados pela vida real. Os alemães têm fama de racionais, meu bem, mas a racionalidade é só uma camada sobre um romantismo delirante. A língua da ordem criminosa confunde quem não nos conhece. À berlinense antes tão cheia de si, obrigada a baixar os olhos para sobreviver na mansão, convinha a exaltação. Pudesse o destino colocar no meu caminho gente determinada a sorver apenas o novo mundo. Bastava-me um passado, o meu, não quis me defrontar com o dele.
Tudo isso aconteceu antes que os relatos sobre ele me deixassem perplexa, primeiro, insone, depois. Quando tudo se precipitou e o Aviador foi banido da Lagoa, condenado pelos mesmos entusiastas que haviam proclamado seu futuro radiante de “exímio construtor naval” e “precursor da urbanização”, foi com um suspiro de decepção que apressei o começo da minha segunda vida. Devia odiá-lo, não o odiei, mea culpa. Não me olhe decepcionada você também, Brígida, o que podia fazer?

Heliete Vaitsman é jornalista, tradutora e escritora. Graduada em Comunicação, Direito (UFRJ) e  Didática da Língua Inglesa (UERJ), fez cursos de pós-graduação em tradução e interpretação na PUC-Rio e na Georgetown University. Seu romance de estréia, O Cisne e o Aviador (editora Rocco, 2014), foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura 2015.  Atuou em diferentes postos no Jornal do Brasil e em O Globo, onde foi titular da coluna Bem-Estar, e colaborou com as editoras Campus/Elsevier, Imago, Objetiva e Rocco. É diretora do Museu Judaico do Rio de Janeiro e autora do livro Judeus da Leopoldina. É atualmente sócia de uma pequena agência literária no Rio de Janeiro.




segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Paris-Brest

Paris-Brest

Nunca entendi direito este apego de certas pessoas por trens. Também faço parte destes nostálgicos. Cantado a Maria-Fumaça. Os pés esmagados num vagão da CPTM. Todos esprimidos como sardinhas em lata. Sem óleo, obviamente. Nesta era dos bio.  Dos lights. E dos desnatados. Sem gorduras trans. Sódio. Ou qualquer outro glutenzinho malévolo que venha atazanar a nossa taxa de colesterol. Desamantegaram os meus croissants. Os pastéis foram para o forno. E o torresminho, destronado, vingou-se tomando um caldo de cana sem sacarose. Sôbolos rios que vão. Pelo brejo, talvez. Ou não. De todo modo, sempre gostei de trens. O meu primeiro foi até Rio Claro. Era um trem especial que tinha um nome esquisito. Hoje nem tchuc-tchuc eles fazem. Silenciosos. Velozes. A bala. Recuso-me a associar minha velha e nostálgica Maria-Fumaça a qualquer metáfora bélica. Meus trens não são a bala. Mas de bala. Cada vez que entro num deles, vingo-me. Cantando o jingle  do baleiro rodando. 


Le TGV numéro 4440, à destination de Brest, départ 12H01 partira voie 6. Il desservira. Voz docinha. Essa tem bastante sacarose. E até anelina. E eu gosto. Lembra a da mocinha  que sai nos alto falantes dos aeroportos no Brasil. Voo número 389 para Teresina. Embarque imediato. Meu amor. Portão 2. Mas antes passe aqui para um cafuné. Eu iria. E eu vou. Aqui. Cantando.  O roda-roda-roda-baleiro-atenção. Hoje meu trem vai para Brest. Eu desço em Rennes. Paris-Brest. Como o docinho. Pâtisserie en forme de couronne, composée d'une pâte à choux fourrée d'une crème mousseline pralinée, garnie d'amandes effilées. Tchuc-tchuc. E lá vou eu. No meu trem recheado de mousselina. Com um livro coberto de amêndoas. O livro é de Alexandre Staut. Ele também é um Paris-Brest. Que li. E gostei. E comi. Como Ezequiel. Devorei-o. Todinho. É doce como mel. E só sobrou o prólogo que hoje publico. Mas atenção. Leiam rápido. Pois ainda não almocei. E o baleiro já começou a rodar.
Leonardo Tonus

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Reescrevendo Trufault

Por Alexandre Staut

Uma das primeiras lembranças que tenho da França vem de “O garoto selvagem” (1970). Assisti ao filme numa madrugada, como tantas outras, na sessão Coruja, no fim dos anos 1980. François Truffaut, o diretor, inspirou-se em fatos reais de 1700 e pouco. A história fala de um garoto de idade indefinida, 11 ou 12 anos, aparentemente surdo-mudo, que grunhia e se movia como quadrúpede, numa floresta francesa, apartado da civilização e da espécie humana.
Logo nas primeiras cenas, o menino de cabelos longos e desgrenhados cheira o solo. Procura bolotas, cogumelos e raízes, que lhe servem de alimento. Em seguida, ele é capturado por caçadores e levado a um vilarejo. Vai viver com um médico (interpretado pelo próprio Truffaut) e vira atração entre as crianças do lugar.
Maravilhada com o esquisitinho, a meninada monta em seu lombo, como se fosse um burrico, divertindo-se ao perceber que o forasteiro se comporta mais como bicho do que como gente.
O filme se desenvolve a partir das tentativas do médico de modificar o comportamento do menino. Ele é batizado de Victor, tem o cabelo cortado e esfregam a sua pele para retirar-lhe a sujeira.
No entanto, Victor resiste ao mundo civilizado. Morde enfermeiros do instituto de surdos-mudos de Paris que tentam se aproximar para saber um pouco mais da vida que levava escondido no mato.
Nas anotações que faz sobre a descoberta, o médico escreve que o rapazinho não liga para os sons da voz humana, mas pode despertar de um sono profundo ao ouvir o barulho de uma noz quebrando. Nas tentativas de lhe apresentar o verniz da civilização, o homem o ensina a andar como um bípede, apresenta-lhe sapatos e mostra como beber leite educadamente numa cumbuca.
Aliás, a primeira palavra que Victor fala é lait (leite).
Os progressos na comunicação acontecem principalmente por meio da alimentação, sempre ao redor de uma mesa. É também em torno da mesa que o garoto recebe o seu primeiro castigo, por maus modos. É trancado num armário escuro e, quando sai, chora pela primeira vez. Entre avanços e fugas para o meio do mato, ele resolve encarar a vida em sociedade, com suas alegrias e mazelas.
Esse filme me acompanha há pelo menos três décadas. Depois de assisti-lo na TV, comprei o DVD e já o vi num festival sobre Truffaut, num cinema obscuro da periferia de Paris. Um dos meus maiores fetiches literários é reescrever essa história a partir do roteiro do cineasta, ou seja, fazer o inverso do que se costuma fazer quando se adapta uma obra literária para a tela grande.
Não sei se um dia vou conseguir realizar tal projeto. Em todo caso, há uns anos, me dei conta de que vivera história semelhante à de Victor. Foi, mais precisamente, em 2002, quando aportei num pequeno vilarejo francês, chamado L’Aber Wrach, ao norte da cidade de Brest, no oeste do país.


Não que eu queira fazer qualquer alusão ao mito do bom selvagem americano frente ao homem civilizado. Quero contar apenas que, no começo do outono de 2002, vi-me num lugar do qual não conseguia entender costumes, comportamentos. Estava eu lá sem falar e sem entender uma única palavra da língua local, o francês. Mas, antes de contar essa história, é preciso dizer que a minha aventura envolvendo a França começou uns anos antes.
Vislumbrei morar no país ainda no século passado, em 1999, numa temporada de um ano em Londres, período em que lavei louça e fui ajudante de cozinha em restaurantes. Lá, conheci chefs e cozinheiros franceses, em meio aos banquetes em que trabalham tantos brasileiros até os dias de hoje.
Nas cozinhas de hotéis pelos quais passei, The Chesterfield Mayfair, por exemplo, vi pela primeira vez cozinheiros uniformizados, de toque na cabeça, adorno que os coroava como se fossem de uma linhagem especial e principesca. Vi também alguém coar um molho de vinho tinto púrpura e aromático num utensílio de inox chamado chinois. Ouvi pela primeira vez a palavra fouet e alguém se referir ao fogão industrial de seis bocas como “piano”.
Foi na cozinha de um desses hotéis grã-finos que criei o meu primeiro colis de fruits rouges, onde também experimentei pela primeira vez um cassoulet ou um peixe assado com molho beurre blanc.


Um ano e meio depois, de volta ao Brasil, fui escrever sobre gastronomia em publicações nacionais. Sou jornalista e escrevi minha primeira matéria sobre culinária no caderno Variedades, do extinto Jornal da Tarde, a convite dos editores Sérgio Roveri e Regina Ricca.
Na época, o jornal contava com Saul Galvão como crítico da área; eu ficara responsável por reportagens que envolviam culinária, restaurantes e comportamento. Era um momento em que o Brasil começava a despertar para o mundo dos temperos e sabores.
Depois da breve passagem pelo jornal, trabalhei no núcleo de revistas da Folha de S.Paulo, onde fiz mais reportagens sobre restaurantes. Era o responsável por receber semanalmente a crítica do Josimar Melo, que saía no Guia da Folha, às sextas-feiras.
Em meio a chefs, cozinheiros e donos de restaurantes que conheci nesse entreato, alguns se tornariam bons amigos e me estimulariam a viajar para a França. Por sorte, surgiu o convite para passar uma temporada nos arredores de Brest, mais especificamente na cozinha de um restaurante por lá.
Mesmo sem ter a mínima pretensão de me tornar chef, cozinheiro ou coisa do gênero – minha história sempre esteve relacionada às letras e palavras –, senti uma espécie de chamado de alma para me mudar de mala e cuia para a Europa. É dessa experiência que o livro Paris-Brest trata.

Paris-Brest de Alexandre Staut
(Companhia Editora Nacional)

Lançamento no dia 27 de setembro, 
na Livraria Cultura, do Conjunto Nacional, 
em São Paulo
entre 19h e 21h30

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Alexandre Staut é jornalista e escritor. É autor de dois romances e um livro infantil. É o idealizador e o editor da revista literária São Paulo Review.  O texto acima é o prólogo de ‘Paris-Brest’









segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Promessa



Promessa
Yuri Al’Hanati

Antes de tudo, foi o cheiro dela que separou aquele momento dos incontáveis sonhos que já tivera antes. Sonhos nos quais o cérebro emula sensoriamente um pastiche de experiências oculares anteriores. Era isso o que eu sabia sobre beijar e ser beijado, afinal. Os filmes, os casais na rua, os programas de namoro na TV, as festas em que eu ia apenas para fazer figuração, meu repertório era puramente teórico. Mas era o bastante para o cérebro deduzir a sensação. Conhecendo apenas o toque de lábios, língua e membranas da minha própria boca, replicava a ação para uma criação do subconsciente que se manifestava na forma da menina que estava exatamente ali do meu lado agora, de verdade, mais perto de mim do que qualquer outra jamais esteve, e emulava um beijo solitário nos recônditos sombrios da minha mente.

Parecia real o bastante até então, mas não havia o cheiro. O cheiro do corpo dela tornava real. Era basicamente o xampu em seu cabelo e um pouco de suor. Nós não tínhamos a vaidade que os adolescentes têm hoje. Ela usava o uniforme de educação física da escola, da outra escola, tinha os cabelos aloirados presos num rabo de cavalo exatamente no centro da parte de trás da cabeça, e sua testa brilhava com o suor formado pelo calor e pelo jogo. Os únicos ornamentos que usava eram pulseiras coloridas feitas de crochê, amontoadas uma sobre as outras, e presilhas de cabelo, que todas as meninas do time de vôlei usavam, em temas bem infantis, como joaninhas, flores e borboletas, ou em muitas cores diferentes. A pele de suas coxas parecia arrepiada, talvez pelo que estava prestes a acontecer, talvez pelo vento frio que batia nas arquibancadas desertas do ginásio, feito de tijolo e coberto em amianto. Sentada do meu lado no fundo, na parte mais alta do galpão, ela curvou-se um pouco para baixo, puxou levemente meu maxilar para cima com um toque delicado de mãos e guiou minha boca de encontro à sua. Eu estava com a boca entreaberta, e ela também, como se estivesse soprando as sementes de um dente-de-leão. Já havia visto ela fazer isso muitas vezes. Seus lábios eram indecentes de tão carnudos, e o espaço que deixava entrevisto de sua boca era apenas um ponto negro entre bordas de lábios rosados e brilhantes. Acho que ela devia ter passado algo para fazer os lábios brilharem assim, mas se passou, passou escondida, sem que eu visse. Podia ter sido enquanto eu me distraía vendo o ginásio se esvaziar ou o zelador guardar a rede e os mastros. Lembro que ele deu uma rápida e discreta olhada em nossa direção e fez uma cara que talvez me parecesse zombaria, mas hoje sei que era de cumplicidade. Sei porque também olho saudoso assim para os casais mais jovens do que eu.


No momento em que nossos lábios se tocaram, não sei porque quebrei a promessa que havia feito a mim mesmo, de que manteria os olhos abertos no meu primeiro beijo, para não perder nada. Foi algo instintivo, talvez os olhos e a boca não sejam feitos para ficarem abertos ao mesmo tempo. Mas logo descobri que fiz bem em prescindir da visão para apurar os outros sentidos. Senti como a mão dela, que ainda segurava meu maxilar, uniu-se, atrás da minha cabeça, a seu outro braço, que esboçava me enlaçar pelo lado esquerdo do peito. Os dois braços compridos repousaram-se folgadamente em meus ombros, cruzando-se na altura dos antebraços, e ali ficaram um tempo, antes de suas mãos me agarrarem pelos lados e me trazerem para mais perto dela. Perderia isso se estivesse de olhos abertos.

Perderia também o caminho cego de minhas mãos inexperientes, que percorreram seu corpo para também entrelaçarem os dedos na altura de sua lombar. Ela era muito alta, bem mais alta do que eu, embora eu fosse de estatura mediana e fôssemos quase da mesma idade. Acho que a família dela era holandesa, ou tinha alguma parte holandesa em sua ascendência. Seu pai era alto como ela, parecia um gigante, mas não era ossudo como os alemães que eu conhecia. Tinha carnes nas faces, nos maxilares, nos braços fortes em que nenhuma veia saltava. Uma pele sólida e grossa. Mas ela parecia mais magra. Talvez seja a prática do vôlei que a tenha deixado assim. Minhas mãos passearam por toda a altura de suas costas, sentido cada osso de sua coluna, suas omoplatas, as alças de seu sutiã esportivo, suas costelas, e depois passaram por suas coxas, mas ela delicadamente tirou a minha mão com sua mão e a recolocou em suas costas, talvez porque gostasse do nosso abraço, talvez porque isso já fosse um limite intransponível num primeiro contato. Diferentemente de mim, ela já havia beijado outros garotos antes, e sabia que a liberação sexual sobe a rápidos galopes sua escalada libertina. Primeiro, era o primeiro beijo que, tão logo alcançado, dava lugar na fila dos desejos à busca incessante pela primeira transa, ou pela primeira felação, dependendo da cultura de cada lugar. Depois, o tão cobiçado sexo anal, a transa a três, e por aí vai, por um caminho de intensidade ascendente cujo final nunca foi alcançado por ninguém. E se foi, essa pessoa não voltou para contar. Ou voltou e contou, mas ninguém lhe deu fé.


Da minha parte, eu já estava realizado o bastante por beijar Maria Helena do alto dos meus catorze anos. Sua língua, quando entrava em minha boca e se enroscava vagarosamente na minha, parecia transubstanciar-se em algo entre o estado sólido e o líquido, e sua boca molhava os arredores da minha. E eu soube logo no primeiro instante que aquilo não era nada como meu cérebro havia deduzido nos sonhos que tive com ela. Melhor do que eu poderia imaginar, estar beijando a garota mais linda que eu já vi na vida. E o melhor é que só eu via sua beleza rústica, eximida de vaidade, o charme de suas longas pernas, seus olhos levemente puxados e claros, seu nariz arrebitado, suas orelhas de abano que despontavam em meio a seu cabelo quando ele estava solto, sua boca que se projetava para a frente em contraposição a seu queixo retraído, mas bem definido. Enquanto todos os meus amigos perdiam o juízo e passavam pelos piores constrangimentos para conquistar Natália, a linda e desdenhosa musa da escola, detentora dos maiores e melhores seios que todo mundo já havia visto em uma garota de quinze anos, eu descobria minha própria musa, de outra escola, que havia acabado de dar uma surra no nosso time de vôlei feminino. Nada como beijar uma vencedora.

— E aí, o que achou? — Ela me perguntou depois de lentamente afastar seu rosto do meu, com um sorriso de satisfação nos lábios que eu acabara de tocar.

— É bom... — Respondi meio sem graça. Não esperava uma pergunta como essa. Tão logo terminara meu primeiro beijo e eu já precisava avaliá-lo. Não sei o que poderia ter respondido de diferente. Ruim não era. Na verdade, minha cabeça estava nas nuvens, e naquele exato momento eu não sabia nem o nome do meu cachorro. Mas Maria Helena tinha razão para ser curiosa, afinal, ela sabia que aquele era o meu primeiro beijo, e se eu não houvesse já trocado esse tipo de confidências com ela, que começara a ser uma amiga muito próxima nos últimos meses, minha falta de jeito com todo o processo teria me denunciado e, quem sabe, ela teria até recuado ante a surpresa. Dissera-me na noite anterior, quando saíamos da nossa aula de inglês, que se o time dela ganhasse o time da minha escola, ela me daria o meu primeiro beijo. Eu mesmo não encarei a coisa muito seriamente. As meninas viviam fazendo esse tipo de jogo. Apostas, chantagens, barganhas, usavam o que havia de mais imediato em nossos anseios para conseguir presentes, deixar-nos nervosos, ou simplesmente medir seus poderes sobre nós. Um menino da minha sala até chegou a cortar o cabelo longuíssimo de metaleiro, seu maior orgulho estético, porque a Natália falou que daria um beijo nele se assim o fizesse. Obviamente, só a primeira parte do trato se concretizou. É difícil abrir mão de um poder quando apenas a ética advoga contra seu uso.

Mas Maria Helena não parecia consciente de sua própria beleza. Talvez tenha sido uma dessas garotas que crescem sem muita autoestima, e para quem os traços grosseiros do rosto demoram até compor uma beleza coerente. Acredito que a verdadeira beleza, aquela não óbvia, só existe no verdadeiro limite com a completa feiura. Basta um observador num referencial desprivilegiado para tudo perder o sentido. O olhar mal posicionado a tudo deforma, um ensinamento básico que qualquer fotógrafo de moda sabe. De maneira que fazer esse tipo de proposta para medir seu feitiço sobre mim não parecia coisa dela. Como disse, não dei muita bola, até porque a expectativa mata o plano ainda no útero. Mas ainda assim fui assistir ao jogo no dia seguinte, numa tarde de um sábado muito quente. Bom, talvez tivesse dado alguma bola, afinal de contas, saí de casa com o estomago meio embrulhado pelo almoço mal digerido. Mas queria mesmo ver o jogo. O Matias tinha ido visitar os avós de novo, e quando ele viajava, minha única companhia era Maria Helena, a quem eu não via com muita frequência. Admirava vê-la jogando, aquela menina alta e saudável pulando sobre uma rede para dar um tapa na bola, com olhos que subitamente ficavam enormes, os esparadrapos nos dedos ossudos, as presilhas no cabelo, o suporte de joelho preto que interrompia a alvura de uma de suas longas e torneadas pernas. Vê-la saindo do chão, abandonando-se ao movimento de seu corpo no ar, era a única coisa que podia evocar minha capacidade de concentração afora os filmes de terror que gostava de ver na casa do Matias, que ele garimpava nos balaios de VHS quando ia para São Paulo. E ela era uma excelente jogadora, jogava como oposto — era o que me dizia pelo menos, até hoje não tenho interesse em aprender nada teórico sobre voleibol — e parecia ser admirada também entre suas colegas de equipe, que sempre a abraçavam a cada ponto conquistado.

O técnico, um senhor forte com um cabelo loiro já meio branco, que fumava bastante, também parecia gostar dela, mas quando reunia o time para passar instruções, sempre parecia gritar mais com ela do que com as outras, como se a estratégia de jogo fosse algo de difícil assimilação para Maria Helena. Ela o olhava com olhos enormes, às vezes com a boca entreaberta, como se tivesse mesmo dificuldade em entender, ainda que não fosse mesmo uma menina burra. Pelo contrário, aprendia muitas coisas com ela desde que começamos a andar mais juntos. Estávamos na mesma série, mas ela tinha todo um conhecimento sobre biologia que buscava por fora, em livros técnicos que pegava a partir da indicação bibliográfica que suas apostilas dispunham. Isso, é claro, também me encantava. Aprendi com ela, por exemplo, como todas as flores têm números de pétalas em múltiplos de três ou cinco, e sobre os peixes-palhaço, que desenvolveram, ao longo de anos de evolução, uma relação simbiótica com as anêmonas, cujos tentáculos urticantes se tornaram inofensivos, criando-lhes uma espécie de morada venenosa, hostil a qualquer visita. Ela era muito esperta e curiosa, por isso não compreendia porque a estratégia do técnico lhe refletia nos olhos como algo quase místico, que exigia uma abstração além da mais complexa metafísica. Talvez o vôlei fosse mesmo um esporte difícil, talvez seja complicado colocar em prática, no calor do momento, quando frações de segundo são todo o tempo de que se dispõe para se tomar todas as decisões, toda uma teoria aprendida e desenvolvida na prancheta. Nada que a impedisse de ganhar o jogo com suas amigas. Quando marcaram o match point, fora ela quem ganhara a maior parte dos cumprimentos, e a quem o técnico abraçou por primeiro. Ela era uma estrela em um jogo coletivo, mas não se deixava destacar entre suas colegas de equipe. Qualquer um que olhasse para ela, porém, saberia que ela era uma líder.


— Você beija muito bem pra quem nunca beijou antes... — ela falou com um ar debochado, virando a cabeça para a frente e me olhando de lado, como se não acreditasse ser verdade. Era um elogio mascarado em uma provocação, na verdade, Maria Helena não tinha as dúvidas que aparentava. Por essa razão corei, pego de surpresa mais uma vez com a naturalidade com que tratava o assunto. Por que não podíamos falar de outra coisa? Ela trivializava sobre um ponto decisivo na minha vida, com o qual sonhei repetidas vezes. Ela sabia, ou deveria saber, que seu nome seria indelével da minha memória, da minha história pessoal, que qualquer rumo que a minha vida amorosa tomasse, seria a partir dali. O beijo de Maria Helena seria o começo do desvio, o começo da perversão, ou o começo de uma virtuosa carreira de amante, ou de uma pacata e monótona vida conjugal com a minha futura esposa, fosse ela quem fosse. Seria o único beijo sobre o qual se faria registro, se algum dia precisasse falar sobre um beijo que já dei em toda a minha vida para um psicólogo, o único beijo não-protocolar da minha vida, aquele que se dá sem a menor ideia do que guarda em seus significados, sem a definição de nossos interesses, sem a promessa de qualquer coisa, o beijo que me separa de um distinto e bem conhecido grupo de manés que nunca beijara antes, o beijo que me formaliza, me oficializa como uma pessoa como outra qualquer. Pensei em tudo isso naquela mesma noite, mas naquele exato momento impressionava-me a ousadia monótona com que falava do que acabava de acontecer. Então é assim que as pessoas tratam na hora essas relações fantásticas pelas quais choram, brigam, escrevem poesia, matam e morrem depois? Ou me beijar não era, de fato, nada demais para ela? Não gostava de pensar em nada daquilo, por isso tentei agir com naturalidade também:
— Talvez eu tenha um talento nato para a coisa. Quer dizer que você gostou então?
— Isn’t that obvious, my dear? — Eu sabia que ela falava em inglês toda vez que se sentia constrangida de algum modo, como forma de alívio cômico à tensão do momento. Gostava de brincar com a palavra dear, que soava como deer, que é veado em inglês, como se tratasse com carinho ao mesmo tempo em que zombava. Uma piada boba que aprendera com o nosso professor de inglês, tratar a todos como “meu veadinho”.
— As a matter of fact, it isn’t.
— Você quer que eu diga, né? Tá bom, foi muito bom sim. — Disse ela de súbito, como se interrompesse seu transe anglófono, emendando um sorriso cúmplice no final. Ela não estava errada, eu queria mesmo ouvir aquilo. Não apenas porque atestava a normalidade do meu beijo, como também porque eu precisava de uma aprovação feminina apenas uma vez na vida. Não era apenas o beijo, afinal, era todo um pacote de indultos que o gesto trazia. A aprovação prévia, ao Maria Helena escolher me beijar, e a aprovação posterior, a cumplicidade do momento compartilhado apenas entre nós, a temperança forçada de nossos futuros encontros, o pequeno marco que colocamos um na linha do tempo do outro, e, claro, a possibilidade disso se repetir em uma próxima vez com significativa facilidade. Eu estava adorando aquilo. Dessa vez, fui eu quem tomou a iniciativa. Passei a ponta dos dedos em seus cabelos esticados pelo rabo de cavalo e aproximei sua boca da minha. Vi como ela veio já de olhos fechados, esperando o toque dos meus lábios, esperando que eu colocasse a minha língua em sua boca, e foi só quando ela enlaçou meu tronco uma segunda vez e esbarrou de leve a mão no volume da minha calça foi que percebi que estava com uma insistente e dolorida ereção. Maria Helena percebeu também, e seus lábios, por um breve instante, descolaram-se dos meus para formar um sorriso torto, com sua língua ainda na minha boca. Senti o ar frio entrando entre nosso beijo e se misturando à lufada de ar quente que saía de dentro de seus pulmões. Era o ar de uma meia risada contida que se encaminhava direto para a minha boca. Percebi então pela primeira vez como sua respiração estava próxima do meu nariz, como meu nariz, aliás, roçava no seu a cada vez que nossas cabeças se inclinavam para lados opostos, como nossos joelhos encostavam-se lado a lado, como ela parecia dotada de um halo radiante da segunda vez em que nos afastamos, enfim, toda uma miríade de detalhes que deixei escapar pela excitação do momento. Enquanto me beijava, segurou minha cabeça com a mão cheia em meus cabelos, apoiando o cotovelo nas minhas costas, paralelamente à minha coluna, e passava a mão na minha perna descoberta que joguei entre nós no degrau da arquibancada em que estávamos, sentindo os pelos da minha canela. “Que sábado!”, eu lembro que cheguei a exclamar mentalmente. Eu mal podia acreditar no que estava acontecendo, e várias vezes naquela noite falei comigo mesmo, deitado na cama sem esconder o sorriso no rosto: “Que dia! Que dia!”. Maria Helena era uma menina como poucas, e naquele dia havia sido minha, e eu, que nunca fora de ninguém, havia sido só dela. Pertenci a alguém durante uma tarde pela primeira vez.


Nosso sábado só havia começado a ser interrompido com o toque de seu telefone celular. Era seu pai, avisando que passaria na escola dali a pouco para buscá-la. O pai de Maria Helena, o holandês gigante, se chamava Felipe, e era um homem fechado e potencialmente hostil a todos, mas me tratava surpreendentemente bem. Bem até demais, como se também fosse seu filho. Levando-se em consideração o pouco tempo da minha amizade com sua filha, nos dávamos bem. Por isso assisti ao jogo ao lado dele, meu pai postiço, de Beatriz, minha mãe postiça, e de Maria Lúcia, minha irmãzinha postiça de oito anos. Todos me adoravam por alguma razão. Talvez por eu não ser o adolescente cheio de tesão ameaçador que uma menina como Maria Helena seria capaz de atrair. Minha maior ameaça ao decoro da família era saber tocar violão, mas como só sabia tocar músicas muito tristes, acho que relevavam. Comentei a boa atuação dela enquanto oposto, como se entendesse de voleibol, e Felipe me perguntou por que eu não estava torcendo pelas meninas da minha escola. Respondi enigmaticamente que a lealdade à minha escola era-me uma virtude ausente, razão pela qual não defendia as cores da instituição em nenhum esporte. A verdade, claro, era que tinha uma ponta de esperança na promessa de Maria Helena, e que esporte nenhum me empolgava, muito menos essa estúpida competição intercolegial promovida pela emissora de TV local. Qualquer esporte me parecia uma extensão da brutalidade infantil, uma transposição civilizada do Estado de Natureza para nosso mundo de regras cavalheirescas que selecionavam o mais forte em cada categoria, ironicamente distribuindo margens de compensação genética. Entretanto, ver Maria Helena jogando era diferente, e acho que Felipe sabia tudo isso e tomava minha resposta como um gérmen de inadequação do qual todos podemos nos beneficiar para o desenvolvimento de um pensamento crítico, mínimo que seja. Agradava-lhe meu apartidarismo, meu amor a pessoas distintas sobre cores, grupos e instituições. Anos depois, quando virei fã da poesia de Wislawa Szymborska, admirei e tomei como mantra um de seus versos, do poema Possibilidades:

Prefiro-me gostando das pessoas
do que amando a humanidade

Quando o jogo terminou, Maria Helena foi abraçar os pais. Perguntaram-lhe se gostaria de jantar para comemorar, e ela disse que algumas meninas de sua equipe estavam indo com as famílias e o técnico jantar em uma pizzaria à noitinha, mas que por hora, ficaria comigo, pois eu tinha lhe prometido mostrar os arredores do colégio. “Vou mostrar pra ela onde as meninas vão vir chorar a derrota na segunda-feira”, pisquei atrevidamente para Beatriz, que riu da minha piada e aliviou um pouco a tensão da expectativa gerada pela súbita realização de Felipe ao saber que eu ficaria teoricamente sozinho com sua filha em uma escola vazia. Mas, como eu disse, o gigante me via com bons olhos — ou como pretendente desejável, ou como mancebo inofensivo, e disse apenas que passaria mais tarde para buscá-la para tomar banho e jantar. Abraçou beatriz com um braço e segurou Maria Lúcia com outro, talvez numa última demonstração de sua descomunal e intimidadora força física para me causar a mais forte das impressões e exclamou: “Juízo vocês dois, hein?”, com uma falsa tensão em sua voz. Estava relaxado, e relaxado foi.



Não havia prometido mostrar o colégio a Maria Helena. Que graça poderia haver nessa atividade, afinal? Voltamos, na verdade, às arquibancadas do ginásio, onde me sentei ao seu lado mal conseguindo esconder o nervoso responsável pela ebulição do meu suco gástrico. Ajeitei o cabelo que me caía sobre os olhos para trás da orelha, e olhei Maria Helena, suada mais uma vez após passar a toalha na cara.
— Eu tinha feito uma promessa, né? — ela perguntou, ajeitando uma das presilhas de seu cabelo, com uma calma que por uns instantes me acalmou também. Talvez ela fosse desistir agora, não havia por que ficar nervoso.
— Fez sim... — eu disse rindo, olhando em seus olhos doces e claros.
— Mas vai querer que eu cumpra agora? Eu estou nojenta!
— Não está nada nojenta. Aliás, você jogou muito hoje. Bola nenhuma passava seu bloqueio.
— Obrigada, mas estou nojenta sim, estou toda suada e está um calor insuportável.
— Não tem problema nenhum pra mim... — não consegui dizer aquela frase olhando para ela. A última coisa que queria era insistir e implorar como um dos autoflagelantes que Natália arregimentava a seu redor, e senti um gosto amargo na boca em pensar que Maria Helena esperava uma atitude parecida de mim. Olhava para a quadra, vendo o zelador que guardava as redes e que devolvia o olhar com cumplicidade. Talvez tenha sido nessa hora. Ela deve ter passado alguma coisa para fazer a boca brilhar. Quando eu voltei a encará-la, seu cabelo estava impecavelmente arrumado, o suor de sua testa havia secado parcialmente, e seus lábios brilhavam.
— Se você diz... — ela abaixou a cabeça e me olhou do jeito mais terno que uma menina já havia me olhado. — vamos cumprir a minha promessa então.
— Tem certeza de que você quer? — eu arrisquei, pois se, por um lado, não queria me humilhar por aquele beijo, também não queria forçá-la.
— É claro que eu quero, Paco, eu gosto de você. Se não quisesse, não teria prometido nada.

Quase não consegui me conter. Ouvir da boca de Maria Helena que ela gostava de mim era mais do que eu podia querer. Claro, olhando em retrospecto, era óbvio que ela gostava de mim. Que tipo de garota bonita e inteligente, afinal, andaria com um moleque cabeludo, antissocial, sem nenhum atrativo aparente, como eu? Mas, com a minha autoimagem, a minha falta de dinheiro, músculos, interesse por esporte, com a minha timidez irremediável, tudo parecia improvável. Quando constatei que era verdade, estava olhando para um ponto fixo no chão, à minha frente, sem de fato ver nada. Foi a mão de Maria Helena em meu rosto que me tirou do transe, levantou minha cabeça e me trouxe para a sempre a possibilidade de ser uma pessoa feliz vinte e quatro horas por dia.
Ficamos ali por umas duas horas, até que seu pai gigante tirou nossa tarde com a mesma facilidade e despreocupação com que a concedera. Disse para esperá-lo na saída do colégio dali a quinze minutos. Quando desligou o telefone, Maria Helena fez uma cara decepcionada e caricaturalmente emburrada, como uma criança a quem proíbem dar mais uma volta no carrossel. Soltou um “que droga...”, mas me deu um último e longo beijo antes de sugerir que fôssemos finalmente.
O sol jogava seus últimos raios na atmosfera da cidade, numa noite quente de setembro. O vento quente, em contraposição à brisa fria de dentro do ginásio, agradou nossos corpos, quentes pelo desejo sexual recém-descoberto.



— Você está todo vermelho, uma bagunça! — riu Maria Helena quando me percebeu andando a seu lado como alguém que também acabara de sair de uma partida exaustiva de um esporte qualquer. E eu estava mesmo suado, descabelado, desidratado pela empolgação da juventude que ainda não conhece os limites do próprio corpo. Dei uma risada tímida, mas porque estava me sentindo bem com o clima daquela noite, e tentei me recompor para parecer tão natural para Felipe quanto estava quando ele e sua belíssima família nos deixaram a sós.
Percebi também que não estava andando naturalmente. Estava mancando de uma perna, porque meu testículo direito doía como nunca. Mais tarde descobri que esse é o preço que o corpo cobra por não levar seus anseios além de beijos calorosos, razão pela qual a maioria dos adultos bem resolvidos pula essa etapa e, tendo o controle da situação, dá um jeito de esticar a noite em um motel, ou em alguma cama igualmente conveniente. Eu, porém, tentei apenas disfarçar ao máximo o meu incômodo e, quando Maria Helena perguntou se estava tudo bem, disse apenas que minha perna estava ainda um pouco dormente. Ela pareceu satisfeita com a resposta, talvez não conhecesse o universo masculino a esse ponto, pensei.
Quando chegamos à saída do colégio, o carro da família de Maria Helena já estava ali, e a acompanhei até o carro, abri a porta do carona como um gentleman e debrucei-me sobre a janela para dar boa noite a Felipe.

— Vamos comer uma pizza com a gente, Paco? — ele perguntou. Puxa, o gigante realmente tinha-me em alta conta. Mas educadamente recusei a oferta, não queria me forçar daquela maneira na vida de Maria Helena, e mantive a cabeça fria nesse momento por mais que o meu desejo me empurrasse na direção oposta. Além disso, não queria que meu passo claudicante desse margem a qualquer suspeita. Tenho certeza de que Felipe, criado em uma época um tanto mais conservadora, já teve sua boa dose de andar de banda, e um Quasimodo reconheceria o outro. Disse que precisava ir para casa, pois meu pai já deveria estar me esperando para a janta, mas não me vi livre da carona que Felipe insistentemente me oferecia, já que nossas casas ficavam em direções iguais tendo como referencial o meu colégio. Entrei então no banco de trás e comentamos algumas partidas do jogo. Felipe elogiou ainda a estrutura do ginásio e dos outros prédios que havia conseguido ver no caminho até o estacionamento, ao que Maria Helena prontamente concordou, demonstrando ter, de fato, gastado duas horas de um sábado a conhecer meu colégio. O gigante não era bobo, mas agradeceu a ilusão misericordiosa.

Deixou-me na esquina da rua de casa com um paternal e verdadeiramente preocupado “Se cuida, viu?”. Maria Helena também se despediu animada, completamente no controle da situação. Nem fria o bastante para manter aparências insustentáveis, nem calorosa demais, mas carinhosa como sempre, deu tchau pela janela, lembrando “até terça”, quando nos encontraríamos na aula de inglês de novo. Eu, embaraçado, desejei boa noite, bom jantar e falei “até terça”, mais ou menos no mesmo tempo, tipicamente embaraçado. Eu era péssimo naquilo, teria de trabalhar minha cara de pau daqui pra frente.

Caminhei relaxadamente pela rua até chegar à minha casa, mas não nego que ensaiei uma dancinha ridícula em algum momento pelo meio do caminho, e que saudei meu spaniel com a mesma felicidade com que ele me recebia todos os dias. Naquela noite, nunca tive medo da morte.



Yuri Al'Hanati nasceu em 1986 no litoral de Paraty (RJ), e reside em Curitiba desde 2004. Formado em jornalismo pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), atuou por quatro anos no jornal diário Gazeta do Povo nas áreas de cultura, cidades e política. Mantém desde 2010 o site de literatura Livrada! (Http://livrada.com.br) e colabora com o portal cultural A Escotilha (http://aescotilha.com.br) com crônicas semanais, além de atuar como cartunista para a Gazeta do Povo, publicando tirinhas diárias.




terça-feira, 2 de agosto de 2016

Ler é: devorar a fome dos outros

Ler é: devorar a fome dos outros

Sheyla Smanioto


Encontrei o Desesterro numa leitura, estávamos lendo em voz alta, eu e Carla, quando ela lembrou que já tinha ouvido essa história, essa história que estávamos lendo e que era o Desesterro, essa história que eu acreditava estar inventando, ela já tinha ouvido. Da vó dela. Uma história parecida, não essa, outra completamente diferente, mas nenhuma história sobrevive exata, essa é a graça, a gente nunca sabe o que as histórias tiveram que fazer para sobreviver.

De minha parte, posso garantir que não conhecia o Desesterro quando comecei a escrever, teria me poupado um bocado conhecer o Desesterro antes, encontrar pela rua, mas eu não conheci, eu tive que arrancar o Desesterro do corpo e da memória como um sonho que eu esquecia e lembrava para poder voltar a respirar. Um acordo que eu fiz com o demônio da escrita, um acordo para viver a loucura sem sucumbir tanto, sem perder o meu tamanho.

Um sonho. Os personagens na sombra, eu ouvia a respiração de cada um deles.

O Marcelino encontrou o Desesterro num parto, o parto da Fátima, a Fátima pariu o Desesterro para o Marcelino, ele circulou com caneta azul bic e disse: aqui está seu romance. Como se me apontasse na maternidade o filho. Meu trecho preferido. O que eu coloquei ali por amor, por puro amor. O que eu achei que fosse escandalizar os leitores. Não os estupros, a poesia. O parto do Desesterro.

Nasceu prematuro, deformado pela vontade que eu tinha (que eu tenho) de usar as palavras com os mortos ainda dentro. De não limpar as palavras. Nasceu sujo, tive que aprender a cuidar, tive que sobreviver ao Desesterro para depois descobrir que tudo talvez seja apenas a sina de quem tem Plutão e Sol em quadratura. Não sei.



Encontrei o Desesterro naquela expressão, “devorar um livro”, essas expressões são a língua falando com a gente, piscando, a língua mostrando o tempo que lambe as palavras suas crias. Os mortos que uivam dentro delas. O que importa. O livro e a fome são tudo que importa. A última frase que escrevi, e escrevi como se todo o livro tivesse nascido apenas para me levar até ali: ler é devorar a fome dos outros.

Poderia também ter dito: escrever é deitar no próprio estômago e brotar antigo.

Eu tentei escrever por mim, sendo hoje, juro que tentei escrever sobre vampiros e outras coisas geração y. Vou dizer que não consegui porque quando a gente escreve assim depois de tanta gente não ter conseguido, a gente tem que escrever com toda essa gente morta na praia, os diários queimados da minha vó, meu tio que registrava em um cadernos todas as notícias, os passes do Corinthians, não posso escrever só por mim. Não hoje.

Pode ser Plutão e Sol em quadratura, astrologia às vezes é profecia: quem nasce assim ou aprende que não controla, ou amaldiçoa gerações e mais gerações de dias. Não sei o que é, se é mesmo sina, mas foi só assim cavando para fora que entendi que todo esse tempo só o que fazia era aumentar minhas próprias mentiras, era deixar enormes cada uma das minhas cismas. Elas não são minhas, nunca foram. Nenhuma pessoa é uma só.

O Desesterro é uma história de terror, nada me assusta mais do que a fome, nada assusta mais o meu corpo do que ele mesmo. O Desesterro é a história de uma migrante, é a história que me pegou pela mão me levou pra São Paulo. Vinte e quatro anos para chegar no centro de São Paulo. Escrevi o Desesterro quando entendi que nem todo mundo é da periferia, que não é sobre a gente que a psicanálise fala, que os livros são os melhores túmulos e as histórias da periferia têm apodrecido à céu aberto.

Essa é uma história do Desesterro.



Sheyla Smanioto, 26, autora da periferia de São Paulo que migrou para se formar em Estudos Literários e defender mestrado em Teoria Literária pela Unicamp. Desesterro, seu primeiro romance, ganhou o Prêmio Sesc de Literatura 2015. O segundo foi selecionado pelo Rumos Itaú Cultural 2016. Escreveu o livro de contos Selfie service (inédito) com apoio do Proac Criação Literária em 2015. Também é autora da peça No ponto cego, premiada pelo IV Concurso Jovens Dramaturgos, e fez parte da Núcleo de Dramaturgia do SESI/British Council em 2013. Trabalha com produção audiovisual e seu curta "Osso da fala" foi premiado pelo Rumos Cinema e Vídeo 2012/14. Mantém o site http://sheylasm.com e um canal no youtube.

Conheça o Desesterro e o trabalho de Sheyla Smanioto

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