segunda-feira, 11 de junho de 2018

Allegro ma no troppo


Allegro ma no troppo © Mariana Keller



Paulliny Gualberto Tort

As árvores retorcidas tinham cor de doce de abóbora. Pareciam deliciosas e, se eu fosse um gigante, teria devorado cada uma delas. Era bom o farfalhar de suas folhas quebradiças, o aspecto grotesco dos seus braços de madeira sempre desalinhados, que eu mastigaria com voracidade. Às vezes, uma folha se desprendia do galho torto, rodopiava no ar e caía sobre uma lápide, fazendo montes sobre os túmulos. Eu caminhava lento naquele tapete de grama seca, cascas e húmus. Cada passo fazia um som crocante, como se estivesse me equilibrando sobre uma imensa camada de crème brûlée. E me dava vontade de devorar o chão. De vez em quando alguém tossia. Minha mãe fungava as lágrimas. E uma tia que eu nunca tinha visto girava o terço de cristal entre os dedos da mão direita, tilintando as contas que se chocavam umas contra as outras durante a reza. Tim-tim. Brindavam a cada ave-maria. O resto era silêncio. E o silêncio, esse sim, eu devorava. Quando o coveiro derramou a última pá de terra sobre a laje de cimento, percebi que não veria mais meu pai. 

O velho se somara às raízes. Aos mortos. Aos mortos e às lágrimas, que minha mãe despejava sobre a terra seca. Durante o velório, fui o ombro que ela molhou e o braço a que se agarrou para permanecer de pé enquanto o padre dava prosseguimento ao protocolo da morte. Do pó vieste e ao pó voltarás. O religioso citou esse versículo durante o sermão. Percebi que também era o epitáfio de um túmulo já esquecido, de cimento esburacado, vizinho ao do meu pai. O epitáfio do meu velho era mais narcisista: Dr. Roberto Pompeu: senador, esposo e pai amantíssimo. Saudades eternas, tudo em letras douradas, afixadas sobre o mármore grafite. Não sei o que deu na minha mãe para inventar um epitáfio daqueles. Doutor Roberto Pompeu, eclipsando o da Silva que arrematava o nome. Chamava-se Roberto Pompeu da Silva. Será que até entre os cadáveres os títulos têm tanto valor quanto entre nós? Não sei. Porque, sinceramente, não acredito em nada. 

Durante o velório, as pessoas tinham se aproximado e me abraçado dizendo que ele finalmente descansara. Que estava junto de deus e todas essas coisas que dizem quando alguém morre. Por cortesia, faziam cara de cachorro espancado: derrubavam os olhos, os cantos da boca, as bochechas. Precisavam se alinhar à dor de quem estava sofrendo de verdade. Rezavam também. Rezavam em coro, em círculo, em redor do caixão. Glória ao pai como era no princípio, agora e sempre. Amém. Mesmo sem acreditar em nada, eu respondia. Amém. Eu só queria que tudo acabasse rápido, que eu pudesse ir para casa, que eu pudesse fumar um baseado, que eu pudesse. Não é que eu não tivesse chorado pela morte do meu velho. Que, dentro de mim, uma parte quisesse crer na continuidade da vida. Mas nenhuma consolação me serviria naquele momento, quando tinha acabado de vê-lo sem vida dentro do caixão. 


Allegro ma no troppo © Mariana Keller


Não tive coragem de tocá-lo. Nunca vou saber como era a consistência da carne do meu pai morto. Minha mãe e tias e primas, ao contrário, fizeram questão de acariciar suas têmporas, suas bochechas, suas mãos cruzadas sobre o ventre, como se ele ainda pudesse sentir o calor dos afagos. Faziam isso com uma ternura que eu nunca tinha visto antes. Nem quando o velho estava agonizando no leito do hospital, quando talvez ele mais tenha precisado de carícias. De todos aqueles dedinhos delgados e femininos, perfumados, deslizando sobre a pele, afastando as mechas de cabelo, massageando o tecido flácido do rosto. Mas elas preferiram fazer carinho no defunto, que começava a se desmanchar sob a ação dos germes. 

Eu não queria estar ali. Tive a impressão de que meu pai estava meio deformado no caixão. O rosto parecia esparramado, inchado. E, com o passar das horas, as mãos começaram a se encher de líquidos. No final, temi que a pele não resistisse e se rompesse, para o terror de todos, para o meu próprio terror. Fiquei imaginando os caras da funerária que mexeram nele. Revoltava-me a ideia de que alguém tivesse rido dele naquele estado. Sem intestinos, sem dentes, todo fodido. Não conheço o caráter das pessoas que receberam o corpo do meu pai e o prepararam para aquele ritual horroroso, mas torci para que não tivessem rido, que não tivessem sido cruéis, nem ignorado o sofrimento dele. Era só um corpo, eu sei. Mesmo assim, eu queria que respeitassem a carcaça do meu velho. Não por ele ter sido senador, deputado ou o caralho a quatro. Mas porque ele morreu solitário, doente. Isso deve valer de alguma coisa. Para mim, valia. 

Meu pai havia se pronunciado para multidões, lutado pelas diretas, conhecido presidentes. No entanto, sua morte foi tão silenciosa e discreta quanto outras que ocorreram no mesmo C.T.I., nas horas tristes da madrugada. Ligaram no celular da minha mãe, às duas horas da manhã, para comunicar a morte do velho. E ninguém deu os parabéns pelo sujeito excepcional que havia sido. Apenas lamentaram a despedida, do mesmo jeito que certamente haviam lamentado dezenas, centenas de outras mortes presenciadas naquele lugar. Depois o diretor do hospital telefonou para dar os pêsames de modo mais político, mas quem esteve lá, limpando o sangue, a merda e o catarro que saíam dele, não viu diferença. Gente é isso. Um corpo em relação aos demais. O que se faz no mundo finda como tudo. Finda como as folhas cor de abóbora que vi caindo no cemitério sobre a sepultura luxuosa do meu pai. De onde saímos em caravana até o estacionamento e demos prosseguimento aos nossos dias, que a partir de então aconteceriam na ausência dele. No fundo, todos sabíamos que logo surgiriam folhas novas, de superfície acetinada, e que os mortos ficariam no passado. As árvores continuam a existir após o despencar das folhas secas. É o que tento dizer agora para minha mãe. Velha, a vida é um outono.

Xxx

Paulliny Gualberto Tort nasceu em Brasília, capital do Brasil, e é escritora de ficção. Publicou seu primeiro romance, Allegro ma non troppo, pela editora Oito e Meio em 2016. O livro foi semifinalista do Prêmio Oceanos de Literatura 2017. No ano anterior, o site especializado LiteraturaBr mencionou a obra como um dos 20 melhores livros publicados por editoras independentes naquele período. Em 2017, Paulliny foi convidada pela editora Penalux para integrar a coletânea Novena para pecar em paz, publicação que reúne contos de nove escritoras de Brasília sob a organização de Cinthia Kriemler. Em 2008, integrou a coletânea com os 10 melhores contos do Prêmio Maximiano Campos de Literatura. Também teve textos ficcionais publicados por revistas e blogs diversos. Nos últimos anos, participou de oficinas de escrita criativa com renomados autores, tais como Charles Kieffer, Noemi Jaffe e João Gilberto Noll. Paulliny, que também é jornalista e mestre em Comunicação e Sociedade pela Universidade de Brasília, produz e apresenta o Marca Página, programa sobre Literatura veiculado pela Rádio Nacional. Atualmente, está escrevendo seu segundo romance e tem se dedicado à produção e à curadoria de eventos literários em sua cidade. Paulliny Gualberto Tort participou da 5° edição do Printemps Littéraire Brésilien. 



Mariana Keller é nascida em Guarulhos em 1983, trabalha e estuda em Paris. Formada em Arquitetura pela Universidade de São Paulo, tem formação complementar em fotografia, cenografia e artes visuais. Desde 2013 desenvolve séries fotográficas tendo como tema os Espaços de Paisagem. Em 2016 inicia o master em Esthétique parcours « Téorie Culturelle » na Sorbonne e atualmente cursa a Licence menção « Langues, Littératures et Civilisations Etrangères et Régionales » parcours « Portugais » na Sorbonne
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sexta-feira, 8 de junho de 2018

Uma caneta

Flávio Cerqueira, Sobre tudo, mas não sobre qualquer coisa - 2016. Foto © Romulo Fialdini




Uma caneta
Andrea Nunes
Porque era ele. Porque era eu
Michel de Montaigne


A morte de meu pai às vésperas do Natal de um ano eletrizante da minha vida foi mais ou menos como um apagão. Não lembro como desmontei o pinheiro da sala, cuja cintilância feria meus olhos enlutados. Não lembro que roupa usei, nem nenhum presente trocado naquela ocasião normalmente tão festiva.  Aquilo de certa forma parecia uma última zombaria de um intelectual de esquerda que tinha ojeriza à esquizofrenia consumista provocada nas pessoas pelo Natal.

Papai foi  um homem de poucas vaidades materiais. O seu ego morava no intelecto. Conhecia algo acerca de grifes, mas apenas o que convinha para zombar da babaquice da sociedade de consumo. Seu maior tesouro eram livros, pessoas e sabonetinhos de hotel, essas coisas inoxidáveis pela ação corrosiva da cobiça humana.

Entretanto, apesar desse desapego ao consumo, papai tinha ciúme dos seus presentes. Era incapaz de trocar um livro duplicado, ou repassar uma bermuda que não lhe caía bem. Tinha uma prateleira de perfumes que nunca usaria, e gravatas de estampas pavorosas que nunca saíram da embalagem. Mas jamais se livraria desses inutensílios , pois representavam o carinho das pessoas que tiveram o trabalho de procurar um objeto e sair de casa para, com aquela oferenda, homenageá-lo. Eu achava aquilo engraçado na época, mas hoje percebo que papai conhecia melhor do que a maioria de nós o significado da palavra "presente": a única coisa que justificava o amor pelas coisas era o elemento humano que elas representavam. Era a conotação das presenças que ressignificavam os presentes.

Quando papai partiu desta vida, eu quis guardar uma lembrança dele, e não conseguia decidir o quê. Lembrei então de uma caneta Mont Blanc que ele ganhara de amigos, e se tornara um objeto de estimação. A caneta, que ele ostentava orgulhoso no bolso do paletó, participara de reuniões com ministros de Estado, palestras e conferências internacionais, e servira para assinar documentos que mudaram a história da Educação no nosso país.

Pronto, estava decidido: a caneta Mont Blanc agora moraria no bolso do meu blazer, e rodaria por vários lugares representando glamourosamente a lembrança de papai nas sessões de autógrafos dos meus livros.

Perceber que a caneta era uma falsificação grosseira foi, primeiro,  um choque: ela era leve como uma BIC, e descascada nas extremidades. Uma caneta visivelmente barata.

Nutri sentimentos sucessivos de raiva, por ele ter sido enganado, pena, e depois resignação. No fim, o que importava era o que o presente significava pra ele, não o seu valor de mercado.

Continuei usando a caneta nos meus eventos literários, palestras e solenidades. Conforme ia usando, percebia, pelo olhar das pessoas, que eu não era a única a saber que aquela era uma Mont Blanc falsificada, e isso me trouxe algumas lições. A primeira delas foi sobre a relatividade do que é precioso: eu jamais deixei de usar essa caneta, nem a trocaria por uma de ouro maciço cravejada de rubis. Porque o valor de um objeto nem sempre é algo que a aparência possa mensurar.

Nenhuma caneta teria escrito a história de papai tão bem quanto aquela. Comecei então a suspeitar que carregava no bolso o objeto mais inestimável do universo. E, naquele momento, pensei que aquele sentimento era porque da caneta ainda emanavam as tintas panfletárias e apaixonadas com que meu pai combateu a superficialidade dos valores capitalistas. Todo dia eu a tomava nas mãos com um orgulho solene de quem carrega o mastro de todas as bandeiras de resistência.

A caneta Mont Blanc de meu pai. 

Mas a segunda lição que aquela herança me trouxe foi desprendimento. Não me importava mais com o que as pessoas iriam pensar em me ver com a caneta descascada e enferrujada. Não era mais importante do que ter a lembrança de meu pai comigo nos momentos mais importantes da minha vida intelectual. E, ao me desapegar dessas vaidades , me percebi crescendo como ser humano.

Se me fosse dado, só por uns instantes, a dádiva de usar a caneta para escrever uma carta ao céu, eu diria :

Obrigada, papai, por me ensinar com seu presente- presença . Espero que, quando eu partir, alguma de minhas filhas ponha essa caneta no bolso e saia pelo mundo escrevendo a história. Pelo menos , a nossa história.

Ah: Preciso te dizer que comecei usando esse objeto pensando que o faria puramente por saudades suas. Depois, percebendo o simbolismo que ele carregava, passei a usá-lo para homenagear suas lutas. Então ela foi se tornando um precioso presente do seu bonito passado. Mas a caneta Mont Blanc, em sua falsificação barata, me ensinou verdades que não têm preço. Assim, estou particularmente afeiçoada a ela. Como o objeto mágico que é, foi me reescrevendo de tal modo que hoje, ela representa uma parte indissociável do que eu aprendi a ser.

XXX



Andrea Nunes é  membro da Academia Feminina de Letras e Artes da Paraíba, membro da Associação Brasileira de Escritores de Romance Policial, Suspense e  Terror - ABERST e Promotora de Justiça. Publicou os romances policiais O Código Numerati- 2010 e A Corte Infiltrada (editora Buzz, 2017). Foi colaboradora da coluna Realidade Alterativa (Revista Superinteressante, novembro de 2017). Recebeu  da Academia Pernambucana de Letras a menção honrosa de melhor escritora nordestina no Prêmio Dulce Chacon .  Participou da Printemps Littéraire Brésilien na França, Alemanha e Portugal . Faz parte da delegação de escritores convidada para o VII Colóquio Internacional de Literatura Brasileira Contemporânea, a se realizar na Dinamarca , em dezembro de 2018

quarta-feira, 6 de junho de 2018

Nem mesmo



© Monika Grzymala


Nem mesmo
Marcelo Maluf

O universo não tem notícia da nossa existência
José Saramago

o rio nunca é o mesmo nem mesmo Heráclito nem mesmo a rua nem mesmo a cidade é a mesma história nem mesmo a memória nem mesmo o imigrante, o exilado, o   afogado, o recém-nascido, o falecido, o índio, o quilombola o que era útil agora é arte
nem mesmo a árvore,
nem mesmo a casa,
nem mesmo o templo,
nem mesmo o Sidarta,
nem mesmo o segredo,
nem mesmo a gaveta,
nem mesmo o telhado,
nem mesmo o cabelo,
a unha, o músculo, os ossos,
o elevador, o soldado
a aldeia, o quilombo, a senzala, a favela,
nem mesmo o horror, a miséria,
a festa, a passeata contra a barragem,
nem mesmo é a mesma água que fica parada. nem mesmo você, nem mesmo eu, nem
mesmo Deus, nem mesmo o ateu, nem mesmo Dante, Buda ou Marx. nem mesmo Ísis, Teresa ou Dar’c, nem mesmo os passos pisam o mesmo chão,
nem mesmo a terra respira os dias, nem mesmo os mesmos homens se calam, nem mesmo as mulheres caladas, nem mesmo os cães, os gatos, os porcos, os cavalos,
as galinhas, as moscas e os vermes.
nem mesmo nós
caminhando juntos à procura
de uma história que não se sabe
nem mesmo o universo
nem mesmo esse quarto,
esse caderno, essa caneta,
nem mesmo a minha mão esquerda
nem mesmo as palavras:
ser. nada. nunca. não. será.
nem mesmo Sartre
nem mesmo Saramago
tudo é sagrado
ninguém sabe

XXX



Marcelo Maluf é escritor e professor de criação literária . Mestre em Artes pela Unesp. Escreveu o livro de contos Esquece tudo agora (Terracota, 2012) e o infantil As mil e uma histórias de Manuela (Autêntica, 2013), entre outros. Em 2015, publicou o romance A imensidão íntima dos carneiros (Editora Reformatório),  livro finalista do Prêmio da Associação Paulista de críticos de Arte (APCA, 2015), finalista do Prêmio Jabuti (2016) e Vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura (2016), na categoria estreante com mais de 40 anos. Participou da 4° edição do Printemps Littéraire Brésilien.


terça-feira, 29 de maio de 2018

A Vós, A Voz


« Prendre la parole », Christian Boltanski
A Vós, A Voz
Por Mário Rodrigues *

A premissa de toda escrita é o gesto, não a palavra.
Leonardo Tonus


O Escritor está no metrô de Paris.
          Está em algum ponto entre Porte de Clignancourt e Gare du Nord. Ao seu lado, o Professor da Sorbonne. Em Château Rouge, entra no vagão um grupo de portugueses.
          Os lusos falam baixinho, mas o Escritor reconhece a língua, sua língua. O Professor da Sorbonne lhe esclarece (muitos de seus alunos são portugueses expatriados):
          “Os portugueses que migram para Paris, em sua quase totalidade, têm uma característica: a discrição. Desejam passar despercebidos, não ser notados. A maioria exerce profissão humilde, sem prestígio. Querem ser incógnitos.”
          No dia seguinte, o Escritor vai sozinho à Sacré-Cœur.
          Depara-se com um grupo de jovens alemães. Falam alto, são altos, seus topetes em destaque (graças aos flancos raspados) são altos. Observa os germânicos ostensivamente. Eles não se incomodam em ser identificados como tal. Orgulham-se de sua voz, de seus sons guturais.
          O Escritor se espanta: sua língua, silenciada.

Um corte no espaço-tempo.
          O Escritor está no metrô de São Paulo.
          Está entre as estações Trianon-Masp e Consolação. Ele e seu irmão mais velho vão à Paulista. Não lembra bem fazer o quê.  MASP, talvez.
          O Escritor é ainda muito menino. Seu irmão fala baixinho. Não quer denunciar o sotaque. (Sotaque que não é apenas nordestino, não é apenas pernambucano, não é apenas do interior de Pernambuco, não é apenas do Agreste, mas é do Agreste Meridional. Caso não saibam: aquela mesorregião tem seu próprio sotaque.)
          Escuta os primos mais velhos. Muitos já anularam o sotaque, por isso aumentam a voz. Outros já adotaram o sotaque paulista, emulando o “S” sibilante e o “R” retroflexo dos paulistanos daquele tempo (hoje é diferente). O tom de voz dos primos aumenta de acordo com a ausência de sotaque.
          O escritor se espanta: seu sotaque, silenciado.

 « Prendre la parole », Christian Boltanski


Novo corte no espaço-tempo.
          O Escritor está diante de seu projeto literário.
          Tem uma opção: pode anular seu sotaque. Ou ridicularizá-lo por torná-lo folclórico, pitoresco, novelesco-global. Pode macaquear a voz que o mercado lhe pede, lhe impõe. O Escritor lê a pesquisa da estudiosa da UnB: quase não há autores como ele, do interior do Nordeste, nas grandes editoras do país.
          Há uma escolha a fazer.
          Então, o Escritor lembra do Professor da Sorbonne, aquele da viagem pela periferia parisiense: “A premissa de toda escrita é o gesto, não a palavra.”
          Sim, o gesto precede a palavra.
          Escrever são gestos, posturas, tomadas de posição.
          O Escritor faz parte da geração que não precisou migrar; que não achou natural dizer às mulheres “vá-pilotar-fogão”; para quem homossexuais não são “bichas”; negros não são “crioulos”; índios não são “bugres”; para quem o trabalhador braçal não é apenas “orelha-seca”. Os tradicionais lugares de chancela e as famosas instituições corroboradoras estão, para o Escritor, caducas – superadas.
          Não abrirá mão desta voz: Sua Voz. Não falará baixinho. Não será ele a perpetuar os estratos e as castas.
          Então, faz o gesto. E o gesto é postura. E a postura torna-se voz. E a voz é grave e é alta.
          O Escritor se espanta: assim devem ser todas as vozes.
          Todas.

XXX


Mário Rodrigues nasceu em Garanhuns, Pernambuco. É formado em Letras e especialista em Língua Portuguesa pela Universidade de Pernambuco. Em 2016, venceu o Prêmio Sesc de Literatura, com os contos de Receita para se fazer um monstro (Record). Em 2017, foi finalista do Prêmio Jabuti, com o mesmo livro. Em 2018, acaba de publicar o romance A cobrança (Record). Mário Rodrigues participou da 4° edição do Printemps Littéraire Brésilien.

segunda-feira, 28 de maio de 2018

Cariátides


Cariátides © Mariana Keller

Cariátides

Márcia Tiburi

Não há esperança para nós, penso ao procurar a palavra Atlas na enciclopédia que eu trouxe para casa depois de vender o apartamento no centro da cidade onde minha mãe viveu até morrer. Preocupada com meus estudos, minha mãe comprou os vinte volumes dessa anacrônica potência do ilegível de um vendedor ambulante quando eu era menina. O homem nos visitou por um ano em busca do valor da prestação e ela, cheia do medo dos homens que a caracterizou até a morte, nunca permitiu que ele passasse do portão da pequena casa que habitávamos antes da mudança para o centro da cidade.
Como todo luxo, a enciclopédia era algo pouco prático em nossa casa pequena onde mal cabíamos nós mesmas. Algo que se torna cada vez menos prático desde que se pode pesquisar tudo na internet. Preservar esse anacronismo, o gesto de folhar as páginas que se tornam infinitas quando comparadas ao tempo de uma vida insuficiente para elas, me parece, por algum motivo que desconheço, uma espécie de responsabilidade que me cabe.
Manter vivo aquilo que já não deveria existir é importante, eu penso, até que Susana chega pelas costas e me diz

Cariátides, Agnes. O nome disso são Cariátides.

No lugar das mulheres carregando paredes nas costas, eu via Auxiliadora sem dinheiro para pagar o aluguel. Dinheiro que ela não tinha naquela semana, que ela não teve em semana alguma e que eu e Susana com um pouco de pena, tirávamos do nosso modesto orçamento doméstico, sem dizer nada, olhando uma para a outra, a avaliar em silêncio o cansaço de viver que pesava sobre o corpo velho de nossa amiga. O senso de dever quanto ao problema que não nos cabia resolver e, mesmo assim, nos interpelava, era, de algum modo, uma mensagem indecifrável da vida.

A morfina não me deixa sentir nada enquanto lembro o que aconteceu acompanhando as páginas da enciclopédia. Ao lado, Susana posa para um quadro cujo pintor, escondido atrás da porta, é incapaz de reproduzir o movimento da fumaça de cigarro em suas mãos. Tento fazer foco nas páginas de papel finíssimo, não vejo bem as letras, estranho que eu possa estar tão tranquila e que a dor, assim como o pintor, esteja ausente.

A memória é de dias atrás. No ônibus cheio até Guarulhos, gente em pé. Eu buscava espaço para as pernas. A mochila nas costas fazia meu corpo inteiro pesar mais, tornando-o finalmente nítido para mim. Ou eram as mãos que me davam esse senso de nitidez. Inchadas e doloridas de uma semana inteira de trabalho árduo no posto de saúde, guardavam a frustração de não poder salvar aquelas mulheres espancadas, lábios rachados, cenhos cortados, olhos inchados, hematomas espalhados pelo corpo que transformam algumas delas em pessoas totalmente diferentes do que poderiam ser. Essas mãos grossas que são as minhas, ameaçavam soltar alguma espécie de rédea, me fazendo cair para trás. logo eu que me acho tão forte.
Apavorante saber que eu teria que pegar o ônibus duas vezes antes de chegar em casa e que a vida não seria diferente na manhã seguinte e que, até chegar domingo, o mundo não seria criado pelo meu trabalho e nada do que se pudesse fazer ajudaria a escapar da repetição que é esse dia após o outro, da casa para o trabalho, passando pelo ônibus, o mesmo ônibus todos os dias, várias vezes no mesmo dia. Em pé, eu segurava a barra metálica sobre minha cabeça, suportava o peso de cada minuto fingindo para mim mesma que não sentia nada e que não havia nada de tão incômodo naquilo tudo.
O mundo nas minhas costas, era a imagem que se desenhava no trajeto como um fantasma branco a embaçar a janela de vidro onde pude por minutos encostar o rosto e descansar. Eu pensava na vida avaliando o domínio do fingimento. Isso de acreditar que somos civilizados, de que, sem reclamar, suportaríamos o sofrimento ao qual estávamos submetidos dentro do grande carro popular. Talvez que esse fingimento tivesse algo a ver com a máscara que Rita trouxe às escondidas da escola durante a semana, e que eu devia fazê-la devolver porque Susana não tinha paciência para as coisas da escola. Então era tudo comigo.

A máscara na minha mochila, Rita na escola e as lembranças de uma semana dura me empurravam para o fundo do grande coletivo onde era fácil odiar o mundo. Só de pensar onde estava, o cansaço parecia duplicado. O cansaço de estar e o cansaço de pensar no meu próprio cansaço. Esse era o destino naquele momento, o cansaço a ser vivido de maneira dupla. As ideias navegavam na minha mente sem paradeiro certo, antes que as coisas tivessem sido empurradas para fora de seu lugar habitual. Agora, abrindo as páginas dessa enciclopédia em busca de Atlas, sei que as coisas nunca estiveram em um lugar habitual e que tudo o que aconteceu, estava por acontecer.

Era preciso passar no terminal de ônibus e carregar o bilhete se não quisesse voltar para casa desperdiçando mais ainda do que já tinha sido posto fora durante a semana com o valor cheio da passagem. Desde que comecei a fazer pós-graduação, depois de todos esses anos, o desconto de estudante fazia parte do orçamento doméstico. Voltar a estudar era um desejo antigo e, vendido o pequeno apartamento do centro, pude voltar a fazer isso. Agora, temos dois quartos, a sala com as estantes onde posso guardar os livros todos bem organizados em ordem alfabética. Temos a área de serviço para guardar as bicicletas, o salão de festas onde faremos o aniversário de dez anos de Rita. Eram essas coisas simples que me passavam pela cabeça no momento da viagem rumo à escola. Aos solavancos do ônibus, eu ia computando os pequenos sucessos da vida.
Eu evitava prestar atenção demais ao espaço móvel, conseguia assim, senão diminuir o cansaço, pelo menos driblar um medo difuso e sem rosto que me agredia os pensamentos como um inimigo armado. Em nossa casa nova tudo é maior do que era no apartamento de minha mãe e, no entanto, custou bem mais barato. Prosseguiam meus raciocínios entregues ao barulho repetitivo do motor do ônibus. Longe do centro tudo é mais barato, eu pensava e repensava sem avançar para os motivos concretos que constituem a diferença de preço entre os espaços da cidade. Não precisava mais trabalhar em dois hospitais para pagar o aluguel. Eu me compensava tendo em vista um tempo conquistado, esse do meio do caminho a trafegar no coletivo.
No desconforto no ônibus eu podia ficar tranquila, racionalizar cada detalhe dos sofrimentos e das conquistas numa espécie de economia subjetiva compensatória. Eu me consolava com clichês, e um subtexto desconfiado me dizia para parar e descer do ônibus, mas o cansaço automatizado era maior. Como se ao pensar que o sol nasce e se põe todos os dias, e sendo evidente que a viagem teria seu fim, a vida fosse menos pior simplesmente por isso. O fim chegava todo dia, isso era certo. Tanto como um objetivo alcançado, o que eu sabia, quanto como simples fim de linha, como vim a saber.

Susana me esperava em casa, como agora, a fumar seu cigarro, pronta a ouvir o que eu deveria lhe dizer e não consigo. Rita não sabia que eu iria buscá-la na escola e muito menos que levaria a máscara comigo para devolvê-la e que ela, como eu, estaria agora sem máscara alguma. Susana me perguntou antes que eu saísse se era realmente necessário devolver a máscara. Eu tinha certeza que sim. Ela não me contestou. Não gastava seu tempo com questionamentos, quando eu mesma perguntava se algumas das atitudes que exigíamos de Rita desde tão pequena não seriam um exagero. Mesmo assim, eu era firme com o que eu entendia ser uma moral aplicável à infância. Eu pensava na educação, sempre na educação que eu mesma não recebi e que me fazia trabalhar em algo que não tinha nada a ver com o que eu estudava. Tudo me parecia justificado. Era claro que minha mãe, trabalhando o dia todo, não se ocupava muito comigo. E era mais claro ainda que eu queria fazer diferente com a minha própria filha. Eu me ocupava com Rita. Eram coisas que eu pensava, afundando um pouco mais no ônibus cujos passageiros se tornavam diferentes a cada parada. Aprendi a cuidar de mim bem cedo. Agora eu aplicava toda a minha técnica de sobrevivência mental a suportar os solavancos inevitáveis do grande carro coletivo na velocidade alucinada com que o motorista, certamente tão cansado quanto eu, nos conduzia.

Eu pensava na vida do motorista, seus oito filhos, suas três mulheres, duas mortas, uma, a mais nova, que ainda o suportava com aquele bigode cafoníssimo, com aquela barriga vergonhosa, que literalmente o aguentava por ser inocente. Eu pensava na inocência da mulher, sem saber muito bem o que era essa inocência, uma mulher cuja imagem não ficava nítida para mim, e pensava em sua mãe morrendo no hospital, não tão velha que permitisse deixar de sentir pena da pobre mulher, aquela piedade que sentimos diante do corpo morto do outro. E que só a ideia de descanso, necessário para o corpo que chega ao extremo do tempo, nos libera de sentir. Eu via, no meio disso tudo, a conta atrasada da energia elétrica cortada na semana passada e o banho frio de manhã cedo para tirar o suor do corpo de uma noite infernal no pequeno quarto sem ar condicionado. O desejo de um almoço que não aconteceria tão cedo corroía seu estômago a cada quilômetro rodado.
A raiva do motorista estava explicada. Eu me perguntava pela origem dessa explicação, enquanto, ao mesmo tempo, imaginava o medo da morte em luta com o desejo de morrer que nos conduzia. A imaginação incontida que Susana não parava de criticar e que Rita parecia ter herdado, construía em mim labirintos mentais sem saída. Talvez por isso, Rita tivesse pego a máscara, porque ela sabia que não bastava ser quem se é, que os pensamentos se pensam sozinhos, e que a imaginação sempre ajuda a consertar o real. E que, no meio da confusão, só as imagens servem de limite ao que podemos compreender.
A imagem do motorista era a de um pai, eu pensava, enquanto verificava se a máscara roubada por Rita estava dentro da mochila. Eu pensava nele, em sua pressa e lembrava de minha mãe a rir de um vizinho nosso, com barriga idêntica a do motorista, que a convidou num dia de verão qualquer para tomar uma cerveja. Não houve nada como um pai em nossa casa. E aquele homem obsceno em sua miséria exposta na forma da grande protuberância abdominal que se antepunha ao todo do seu ser, não seria o primeiro. Me dei conta disso ali no ônibus. Que a barriga do homem vinha antes dele, como um excesso material e, ao mesmo tempo, que não houve algo como um pai em minha casa. Tampouco houve algo como uma mãe, pensei, me desculpando comigo mesma quanto ao rancor que preside esse tipo de pensamento.
Pensei muito em minha mãe naquela hora perdida sem poder ler os livros na mochila, livros que eu sempre carrego por medo do vácuo do tempo que devora qualquer usuário de transporte público em uma cidade como São Paulo, sobretudo quando se vai às cidades ao redor e se tem que viajar pela marginal de ônibus na hora do rush. Minha mãe que temia os homens, que os temia porque podiam nos maltratar, também temia a cidade grande e foi morar no centro para exorcizar o espaço e o tempo. Ela sabia que as margens da cidade dão a verdadeira dimensão do seu tamanho e que o tempo se concebe pelo espaço e pelo deslocamento, muito mais do que o contrário. Era assim que ela falava sempre que aparecia uma oportunidade de expor sua visão de mundo. Aproveitava para deixar claro, em um nexo que nunca ficou evidente para mim, que por conta desses medos, dos homens e do tempo, foi que ela jamais namorou alguém, que não deixou ninguém entrar em nossa casa. Ela fazia questão de dizer que não se podia confiar em qualquer um, muito menos em um homem. Primeiro nos maltratam, ela me disse uma vez, roubando o nosso tempo, depois nos espancam e depois nos matam. Eu não podia deixar de deduzir que o motorista era um homem e que eu, que já não tinha forças para raciocinar sobre muita coisa, cada vez mais vitimada por meus próprios pensamentos cansados e, por isso mesmo, confusos. Me preocupava se devia descer do ônibus, no qual a frágil carne humana era humilhada, ou se deixava o meu questionamento dissolver-se nos meandros do acontecimento passageiro que me levaria até perto da escola de Rita.
Eu não falava dessas coisas com Susana, que foi barrada de nossa casa por minha mãe todo o tempo, desde o começo. Minha mãe não gostava de ninguém, também não aceitava a presença de Susana. Mas Susana entendia desde cedo o ressentimento dos personagens vivos e não se espantava com ele, como jamais se impressionou com o ar pesado daquele pequeno apartamento, ar que exalava do grande corpo doente de minha mãe. Não sei por que ainda penso nisso se minha mãe já morreu há mais de um ano, se eu deveria ter esquecido todos os detalhes desagradáveis que dão à vida, depois da morte daqueles que amamos, esse tom niilista. Um direito dos mortos é o de serem esquecidos junto de seus defeitos, penso agora. Mas é o erro que nos mantém vivos, eu pensava naquele momento, na travessia coletiva no ônibus, como continuo a pensar agora.
Hoje eu deveria lembrar de minha mãe em atitudes gentis, heroicas, como na madrugada em que me carregou nas costas, quando a água da chuva inundou nossa casa nos confins da cidade, como ela gostava de dizer, perto de onde vivo agora, nessa imensa Avenida Nordestina. Lembrar de minha mãe juntando nossas poucas roupas em uma mala, espantada com o meu retorno a esse bairro, anos depois de nossa diáspora, quando ela já não estivesse viva para dar sua opinião, me assusta um pouco. Lembrar de seu sorriso monótono no dia em que voltou para me buscar depois da diáspora, depois de passado um mês em que fiquei na casa de uma amiga sua da qual nunca mais tivemos notícias. Não sei como minha mãe pagou por aquele único cômodo no Copan, aquele quarto e cozinha onde vivemos economizando passos e palavras.
Nada no Centro pode ser pago, nada que envolva dinheiro tem realmente um preço, sempre é muito mais, eu pensava enquanto o ônibus seguia no desaconchego ao qual somos condenados como moradores da periferia. A rigidez de minha mãe me vem à mente no molejo angustiado desse ônibus. E seu olhar de dever por cumprir não deixa de me assistir. A disciplina também me vem à memória, eu penso em Lúcia e seu medo do mundo com certo carinho, um carinho que eu desconhecia e que me veio à consciência no desconforto do trânsito idêntico em tudo ao seu colo cansado.

Cariátides © Mariana Keller

Quando pensar em coisas mais úteis é difícil, é minha mãe que ocupa todos os meus pensamentos, muito mais que Susana, muito mais que Rita. Queremos dar aos filhos o que não tivemos, eu sempre digo a Susana lembrando de minha mãe, para que ela a conheça, para que ela saiba quem eu sou. Susana nunca contestou essa ideia tão verdadeira quanto infeliz. Ela sabe o que eu sempre quis para Rita, que também não conheceu seu pai, que não era minha filha biológica, porque Susana tinha mais condições de engravidar do que eu, mas que era, em certo sentido, mais minha filha do que de Susana, porque eu cuidava muito mais dela do que Susana era capaz, eu queria, afinal, que Rita vivesse de tudo aquilo que eu não tive. E que, desde pequena, vivesse em nome da verdade, que ela não mentisse, que ela não enganasse ninguém e que não fosse enganada, como eu mesma fui enganada e enganei, sobretudo a mim mesma. Enquanto eu meditava nesses temas, contava as paradas vendo aquele homem louco prestes a arrebentar o ônibus num muro e só o que sei agora é que o tempo retorna e não há como evitar.

O ônibus parou bruscamente me fazendo bater a cabeça na barra de metal na qual eu me segurava.  O impacto me deixou meio tonta, mas não o suficiente para cair. Uma mulher gritou com o motorista enquanto era arrastada pelos demais que preferiram descer logo sem acertar contas com o homem e sua barriga a nos transportar. Desci desconfiada daquela passividade que evitava a briga. Ninguém se atreveu a continuar. O ônibus arrancou depressa sem dar tempo de que alguém xingasse o motorista. Caminhei do ponto de ônibus até a escola, subi cinco quadras pisando no asfalto a quarenta graus, sol do meio dia, como me dizia minha mãe que nunca deixou de se espantar com o calor dos dias cada vez mais quentes desde aquela época mesmo no inverno. Quando cheguei na escola eu me sentia mal, a água da garrafa que levava comigo tinha acabado, sentei na mureta e me abanei com o único caderno que eu trazia na mochila enquanto tentava recuperar o fôlego. Eu podia ter descido na parada de ônibus em frente à escola e me poupado desse cansaço, mas as pessoas empurravam umas às outras para que evacuassem o carro naquela hora. O caderno que uso nas aulas de sociologia desapareceu depois disso, não imagino onde posso tê-lo deixado com as anotações de um curso sobre a história do corpo que eu vinha acompanhando desde o começo do ano e no qual eu desenhei, com os meus traços pouco desenvolvidos, a imagem de uma mulher segurando o mundo nas costas.

Entrei na escola, as paredes cheias de cartazes feitos pelos alunos, o cheiro de comida vindo da cozinha misturado ao cheiro de giz que ainda há nas escolas públicas onde a tecnologia chega muito devagar, o silêncio ameaçado pela sirene que tocou alguns minutos depois que eu cheguei. Vou devolver a máscara na secretaria, pensei, mas me dei conta de que antes talvez fosse melhor falar com a professora de Rita. Ela podia saber o que se passava, devia ter uma ideia de como aquela máscara verde tinha ido parar nas coisas de Rita e por que a própria Rita, questionada sobre um objeto tão estranho entre suas coisas, não falava sobre ela, mesmo quando eu insistia, mesmo quando Susana resolveu usar a máscara um dia inteiro sem que em momento algum Rita perguntasse por que sua mãe escondia o rosto atrás daquela coisa estranha cuja origem apenas ela mesma conhecia. Talvez a professora dissesse o mesmo que Susana, que Rita devia devolver a máscara quando quisesse ou quando pudesse, que talvez a máscara servisse a algum propósito psíquico, que nós é que não estávamos preparadas para o sentido daquela apropriação. Mas para mim o que de fato contava é que Rita portava um objeto que não era seu.
O que me trazia ali era o medo. Me dei conta naquele momento de que no fundo de tudo estava o meu medo. Um medo que me impedia de questionar como devia o gesto de Rita, de obrigá-la a devolver a máscara simplesmente, o medo de cometer um erro psicológico desses que se tornam irreparáveis e que depois, quando ficamos velhos, se ficamos velhos, nos pesa como um morto nas costas.
O medo de devolver a máscara, o medo de não devolvê-la. Aquela sensação de estar no meio de um caminho escuro entre o certo e o errado onde lâmpada alguma poderia ser acesa. Foi assim que eu entrei na escola pensando em devolver a máscara e livrar Rita de um problema e me livrar, ao mesmo tempo, desse problema que parecia mais meu do que de Rita. Entrei, dei aqueles passos hesitantes de quem se depara com a presença de uma impressionante primeira vez presidindo cada segundo próximo, olhei para os cartazes colados na parede perguntando a mim mesma por que eram todos iguais, todos mal feitos, talvez pela alegria de fazer ou pela alegria de fazer mal feito. Pensei em voltar para trás e perguntar na secretaria qual era a sala do terceiro ano, pois na porta da sala onde Rita sempre estudou uma placa nova sinalizava Sala de Leitura. Há quanto tempo eu não ia à escola. Por minutos, imaginei estar na escola errada, em um lugar por mim desconhecido. Susana me reprovava sempre por minha falta de radar e avisava que um dia isso me causaria problemas maiores do que me perder entre as prateleiras de um supermercado ou pegar a direção contrária da rua e acabar me distanciando do meu objetivo. Susana parecia minha mãe quando falava assim. Era em Susana que eu pensava quando entrei na sala ao fundo do corredor onde cadernos abertos e mochilas penduradas davam a certeza de que as pessoas chegariam logo para retomar seus postos. Eu pensava em Susana e via minha mãe como se ela quisesse falar comigo.
As crianças vieram do recreio correndo como se o intervalo fosse uma bomba de gás que tivesse o poder não só de fazer flutuar, mas também de acelerar o movimento dos balões. O pátio ficava atrás da escola e não se ouvia nenhum som naquele lado onde ficavam as salas. A escola tinha sido instaurada em um velho prédio onde há muito tempo funcionou uma casa noturna daquelas típicas de zona de meretrício, como dizia minha mãe, e havia muitas paredes com isolamento acústico. Sinais do isopor usado nas paredes, que até então não fora revestida senão com os cartazes dos alunos, davam a dimensão do um abandono ao qual a vida se prostrava sem muita solução.  
Fiquei à porta observando a professora que entrou tão acelerada quanto as crianças e, nesse ritmo, pedia que fizessem silêncio. As crianças continuavam pulando sobre as carteiras e gritando umas com as outras. A professora tentava contê-los vendo-me à porta. Iria me atender, como fez, quando eles se acalmaram ameaçados de ficar na escola por meia hora a mais depois do sinal.  Uma câmera lenta parecia regular os meus movimentos em contraste com a rapidez manifesta no exterior. O barulho do vento fino a correr no encontro com as paredes apareceu quando cessou a algazarra dos pequenos.
Rita entrou na sala depois de todo mundo e fingiu não me ver. A professora veio à porta. Perguntou-me o que eu desejava. Eu, se podia falar com ela. Apesar de sua gentileza, deixou claro que tinha muito pouco tempo e me olhou nos olhos como se pedisse cumplicidade. Eu comecei a contar sobre a máscara. Expliquei-lhe que estava preocupada pelo comportamento de Rita em relação à máscara, tanto por tê-la levado para casa às escondidas, como se fosse um roubo, o que não se podia afirmar, considerando a idade de Rita e o valor simbólico da máscara, quanto por fingir que não a tinha levado mesmo quando a questionávamos abertamente sobre seu gesto evidente. Rita talvez estivesse se tornando cínica, cheguei a dizer, mas a professora riu do que pareceu um exagero e me fez sentir um pouco ridícula quanto ao meu próprio pensamento. Sem demonstrar a mesma preocupação que eu, ela chamou Rita, mas Rita fingiu estar concentrada nos cadernos. A professora parecia ler meus pensamentos e me disse que Rita ficava assim quando desenhava, que não era um fingimento. Eu expliquei da minha preocupação com a verdade, com o caráter de Rita, por isso, tinha tomado a decisão de conversar e decidir, abertamente, como me parecia mais justo, o que fazer com o caso da máscara, pois não queria cometer erro ou injustiça em relação à Rita, mas que a educação não poderia ser, dizia eu, resolvida pelo caminho mais fácil que era fingir que não se viu o que se viu. E que Rita precisava ser ajudada a resolver aquilo, pois era apenas uma criança. A professora me ouvia com certa impaciência escondida atrás do dever de escutar a preocupação de uma mãe de família exposta nesse tom didático como me parecia inevitável. Em uma sala de aula devia haver os casos mais complexos e a professora possivelmente fosse a depositária de muitos segredos e tensões, tantos que os considerava banais. Era o que eu pensava e o que me fazia falar naquele momento. A professora insistiu e Rita se ergueu da cadeira, olhou-me de longe fixando o olhar no meu próprio. Eu não sabia o que fazer, se sorria, se a indagava com os olhos, se enviava uma mensagem telepática dessas que se transformam em signos fisionômicos. Eu não sabia se ficava quieta ou desviava o olhar para dar tempo ao tempo.
O barulho do vento funcionava como trilha sonora. O isolamento acústico servia apenas para dar o ar de ruina ao local. A professora chamou Rita mais uma vez, mas  Rita que olhava firme pra mim apenas fez um sinal entre olhos, cabeça e dedos de que ouvia o barulho do vento e voltou a sentar-se aconchegando o corpo todo em torno do desenho ao qual se dedicava desde a volta do pátio contradizendo a algazarra que voltava a aparecer. A professora decidiu ir até ela para insistir que atendesse ao seu pedido. Eu baixei a cabeça com vergonha de alguma coisa mal colocada em minhas palavras enquanto prestava atenção ao estranho barulho do vento conforme o sinal de Rita.
O barulho do vento cessou com o estrondo. As crianças me olhavam por entre uma névoa branca e Rita, bem longe de mim, tapava o rosto com as mãos. Tive tempo de ver o ônibus que avançou sobre a escola derrubando a parede e, dentro dele, o condutor cuja cabeça sangrava sobre o volante. O homem com a grande barriga estava morto e eu não sentia nada apesar da parede sobre minhas costas.
Na ambulância, ouvi que diziam quatro por um para sinalizar a pressão e depois, no hospital, o rosto branco de Susana como se, desde aquele dia, o pintor que a retrata agora tivesse posto uma veladura sobre seus olhos para que ela não me visse nunca mais.
Os móveis permanecem manchados de branco, assim como as páginas da enciclopédia que tento ler sem muito sucesso. Rita move meus dedos dos pés perguntando quando voltarei a andar. Eu mando uma mensagem telepática dessas que viram sinais fisionômicos e ela ri me mostrando com o dedo a máscara pendurada por um fio a enfeitar a sala.

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Marcia Tiburi é graduada em filosofia e artes e mestre e doutora em filosofia (UFRGS, 1999), tendo feito um pós-doutorado em Artes. Publicou diversos livros de filosofia, entre eles  “As Mulheres e a Filosofia” (Ed. Unisinos, 2002), Filosofia Cinza – a melancolia e o corpo nas dobras da escrita (Escritos, 2004); Metaformoses do Conceito: ética e dialética negativa em Theodor Adorno (Ed. UFRGS, 2005, vencedor do Açoarianos de melhor ensaio), “Mulheres, Filosofia ou Coisas do Gênero” (EDUNISC, 2008), “Filosofia em Comum” (Ed. Record, 2008), “Filosofia Brincante” (Record, 2010, indicado ao Jabuti), “Olho de Vidro: a televisão e o estado de exceção da imagem” (Record 2011, indicado ao Jabuti), “Filosofia Pop” (Ed. Bregantini, 2011), Sociedade Fissurada (Record, 2013), Filosofia Prática, ética, vida cotidiana, vida virtual (Record, 2014). Publicou também romances: Magnólia (2005, indicado ao Jabuti), A Mulher de Costas (2006) e O Manto (2009) e Era meu esse Rosto (Record, 2012, indicado ao Jabuti e ao Portugal Telecom). Em 2015 publicou Como Conversar com um fascista – Reflexões sobre o Cotidiano Autoritário Brasileiro (Record, 2015, indicado ao APCA). Em 2017 lancóu “Ridículo Político – uma investigação sobre o risível, a manipulação da imagem e o esteticamente correto”(record) e em 2018 “Feminismo em Comum”. Uma fuga perfeita é sem volta (2016), seu quinto romance, concorreu ao Prêmio Rio de Literatura em 2017. É professora universitária e colunista da revista Cult. Márcia Tiburo participou das edições de 2015 e de 2016 do festival Printemps Littéraire Brésilien.

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Mariana Keller é nascida em Guarulhos em 1983, trabalha e estuda em Paris. Formada em Arquitetura pela Universidade de São Paulo, tem formação complementar em fotografia, cenografia e artes visuais. Desde 2013 desenvolve séries fotográficas tendo como tema os Espaços de Paisagem. Em 2016 inicia o master em Esthétique parcours « Téorie Culturelle » na Sorbonne e atualmente cursa a Licence menção « Langues, Littératures et Civilisations Etrangères et Régionales » parcours « Portugais » na Sorbonne.