sábado, 15 de julho de 2017

Grito negro


Grito negro

Moisés António

Solto a minha voz num tom alto
recebo
o eco
Palavras minhas
...morrem em orelhas mocas...

Eu sou o negro
Negro
ou preto como o breu?
Ah sou filho
Filho d'Angola
Angola de Ngola Kiluanje
Angola da Mãe África
Da pele negra
Massacrada
Ensanguentada
Confundida com o selvagem!
Afinal quem é o selvagem?
A cor negra, preta
...que não me define?
ou a mente preta que mal me define como selvagem?
Tem
Existem palavras
caracteres que me aleijam o coração
Preconceito
Racismo
Indiferença...
Grito Negro
Em tom da voz
num elo
Que ouço aplausos num eco
do meu eu!
Ah eu sou negro
do solo negro
De mentes puras
Que uniu as nações num Todo!
Sou filho da África
Grito negro em alta voz...
de MARTIN LUTHER KING
" Eu tenho um sonho dum mundo melhor,
onde os meus filhos não serão julgados pelas suas cores,
mas sim pelas suas personalidade".

Grito Negro
como filho da África
Na voz de MADIBA Pai da África
NELSON MANDELA
" A winner is a dreamer who never gives up"
O vencedor é um sonhador que não desiste!
Grito Negro
....Na voz de Moisés António..
Eu sou o Mandela,
Eu sou o ML. King
Eu sou o Negro!



Eu vou

Entre o céu e o inferno
Nuvens pretas e claras
Entre rosas e espinhos
Mesmo passando-me por despercebido entre as multidões
Cambaleando,
Rastejando,
Faltando-me forças
Caminhar eu vou!
Em plena pachorra
Despercebido
Indiferenciado
Julgado na cor entre ela e o intelecto
Entre curvas e linhas tortas feito labirinto
Enigmático
Metafísico
Apocalíptico
Completando a minha inquietude
Onde as oportunidades aparecem,
Vendadas de véus tenebrosos escuros como o breu,
querendo eu,
Me cobram algo em troca
Exatamente aquilo que me falta,
Entre vendaval e o furacão
Maremoto e o terremoto
Na minha pachorra
Mesmo vivendo o incerto
A caminhar eu vou!
Sem teto no relento
Enfrentando o frio do inverno
Um grito eu darei, ainda que rouco
Enfraquecido
Semi -morto
Excluído e indouto
Acalentar-me-ei
Engolindo meu choro
Na vontade de ainda querer viver
Mesmo quando não mais me restar a mera vontade
de querer acordar
Após ter adormecido!
Entre chuva e sol; Trevas e clareza;
Inverno e verão; Céu e o inferno
A Caminhar eu vou!


O Poeta..
O poeta canta
O poeta declama
O poeta reclama
O poeta chora
O poeta é Poeta
Mesmo quando as lágrimas não jorram
Ele as faz cair na tinta da sua caneta!!
Eu sou Poeta
Ainda que mudo em pleno silêncio
A minha caneta fala por mim!
CUIDADO!
Minha Arma - Não é um canhão
Mas quando ela dispara...
Ela aterra até os grandãos!





Essa vida.

Essa vida que vivo
Não é minha
Foi me imposta
Porque não a escolhi é pesada no meu ombro!
Se eu tivesse que escolher
Entre o bom e o melhor
Nem esse seria o meu eleito desejo
do meu querer de bem viver o dia todo!
Sou benfazejo
Querendo ensejo
que complemente meu desejo
de querer viver no mundo do meu sonho!
Tenho carácter
Mas me falta o brio
Porque o meu mundo é sombrio
Vivendo o desamor!
Amor...
Não é isso que os céus nos cobram?
Mas quem o tem o mundo desdenha
E vive o terror?!
De que valem minhas boas intenções
Se não houverem ações
Por falta do que é material e físico
Tornando-me num homem fictício?
Sem dinheiro
Meu amor é nada
Ai de mim se eu for um zero a esquerda!
Este seria o meu enterro!
A vida que eu tenho, Não é minha
Porque não a escolhi
Ela foi-me imposta!


Mesmo no escuro achei a minha paz

Durmo em sono brando
No meio do lago escuro
no meu barco a solo
Embora a sós a beira-mar
Perto do mar
Longe do amor
Querendo amar
Mas sem ninguém para amar
Encontrei a minha paz!
Na solidão
Na incerteza da vida
Ainda que sem luz
No escuro
Em plena inquietude
Descobri a tranquilidade
quando menos me preocupei
Então achei a minha paz!
Jurei comigo mesmo
Ainda sem que
Nem quem
Mesmo no além sem ninguém,
Procurei não me importar mais
Então achei a minha paz!
Na solidão dentro do meu quarto
Mesmo no escuro
No meu mundo vago
Despreocupado
Mesmo sem nada nem ninguém
Eu encontrei a minha paz!

XXX



Moisés António é angolano destacando-se como poeta e narrador de lendas e mitos de sua terra natal.  Traz ao Brasil sua diversidade cultural e linguística, amparadas pela formação em Língua e Literatura em Língua Inglesa, ofertada pela Universidade Pública Agostinho Neto de Luanda, Angola. Compõe a trajetória profissional de Moisés, aulas intensivas de Inglês para membros de grupos corporativos, traduções da Língua Inglesa para a Língua Portuguesa e também da Portuguesa para a Inglesa, além de serviço de interprete. Como Artista e autor, participa de vários eventos poéticos e musicais, denominados Saraus e oficinas da Poesia Permanente Paranaense, Feira do Poeta entre os escritibas na rua em Curitiba, e entre outros eventos ligados à Imigração como o “Planeta é um só”, aonde além de fazer parte das atividades lá realizadas, tem recebido o convite para declamar seus poemas.


        


sexta-feira, 14 de julho de 2017

Baixo os olhos em sinal de respeito

Baixo os olhos em sinal de respeito

Cintia Moscovich

No meu tempo de estudante, e lá se vão anos, a Biblioteca Pública do Estado do Rio Grande do Sul era uma grande sala de estudos e de consulta. Pesquisar no emaranhado de livros, periódicos e fichas era um movimento quase sagrado, que se fazia em silêncio reverente, porque era uma dádiva estar naquilo que a gente imaginava ser a reunião do conhecimento do mundo.

         Tempos ingênuos, reconheço, mas que, a bem do caminhar das coisas, assim deveriam ter-se mantido. À medida em que o acervo da Biblioteca Pública foi-sendo sucateado e se desatualizando, meus pais fizeram com que, apesar dos parcos recursos da casa, nosso acervo de consulta crescesse. O pai fez uma casa em torno da biblioteca, esse era o legado de imigrante que ele nos deixava, e que não esperássemos nada de ninguém, muito menos de um governo que tinha de atender gente faminta, para quem leitura e estudo eram supérfluos — assim ele dizia.

         O sonho de termos nós nossa biblioteca custou muito, é verdade, mas tivemos bem cedo o entendimento que, a depender de políticas educacionais e da boa vontade do Estado, nossa formação, dos meus irmãos e minha, seria um caos. Minha geração, e falo com dor no coração, pouco pode servir-se desse acervo comum. Mas, ainda hoje, ao passar diante da Biblioteca Pública, mesmo que ache um pouco fora de moda a construção de inspiração positivista, baixo os olhos em sinal de respeito.

Xxx




Cintia Moscovich é escritora, jornalista e mestre em Teoria Literária. Autora de 8 livros individuais, mereceu os prêmios Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, o Portugal Telecom, um dos mais respeitados em Língua Portuguesa, e o Clarice Lispector, da Fundação Biblioteca Nacional. É especialsta em oficinas de criação literária.

terça-feira, 4 de julho de 2017

A porta errada

A porta errada
Jéferson Assumção*

Nós tínhamos chegado há pouco de outro bairro no outro lado da cidade e por isso eu não conhecia direito a escola, suas salas e corredores, naquele março de 1979. Então, sem saber, eu entrei em uma porta errada. Quando a abri, vi uma sala de uns três metros por quarto com as paredes repletas de livros de capas coloridas. Uma professora, que estava lá dentro, atrás de um balcão, sorriu e disse: “Pode entrar. Tá querendo alguma coisa?”. Eu entrei. Meus pais tinham estudado bem pouco, não havia livros na nossa casa na época, então se pode supor o impacto que aquela pequena biblioteca teve em mim. Quando eu, enfrentando a paralisia da timidez, decidi passar por aquela porta errada esse passo acabou abrindo também inúmeras outras. E segue abrindo ao longo da minha vida.

Minha relação com as bibliotecas começou quando eu tinha nove anos e morava no bairro Mathias Velho em Canoas, no Rio Grande do Sul. Um bairro de periferia que, no final dos anos 70, não oferecia muito aos seus habitantes. A grande maioria, como meus pais, tinha vindo do interior durante o êxodo rural da virada dos anos 60 para os 70. Mas não eram só as ruas vermelhas de pó e calor no verão e de barro gelado nos invernos infindáveis o que havia na Mathias Velho. Além dos inúmeros e cheios campinhos de futebol, a duas quadras da minha casa estava a Escola Estadual Victor Hugo Ludwig e, dentro dela, um aconchego, um refúgio.

Um ano antes, do outro lado da cidade, eu já havia recebido como prêmio da minha escola por minhas boas notas o livro O Cachorrinho Lau Lau – infelizmente não guardei o nome do autor. E por que eu conto isso? Eu tirava notas boas porque, ansioso, já tinha me alfabetizado antes mesmo de ir para o colégio, em casa, aprendendo o beabá com meus próprios botões e alguma ajuda da minha mãe. Daí que era fácil tirar notas boas e em função delas, no final de 1978, eu desfilava orgulhoso pelas ruas da Rio Branco, um bairro de metalúrgicos, com meu livrinho embaixo do braço. Sem saber, eu começava a dar meus passos narrando-me como leitor. Mostrava para os amigos que eu gostava de ler, e o fazia folheando e relendo inúmeras vezes aquele mesmo livro, para mim, meus irmãos e os vizinhos, até dormindo abraçado à minha biblioteca de um livro apenas.


Bom, na época era costume entre as famílias de periferia, pelo menos algumas das famílias que eu conhecia, esperar para colocar dois ou mais filhos juntos na primeira série. Com isso podia-se economizar um pouco com o material. Comprava-se um só livro didático para os dois, uma só borracha, um apontador, apenas um jogo de lápis de cor, um jogo de canetinhas hidrocor. Não era incomum e aconteceu lá em casa. Como era eu o mais velho, tive que esperar até os sete anos e meio para entrar na escola com meu irmão mais novo, o Jaqueson. Havia certo inconveniente, claro, em se ter apenas um livro didático para os dois, mas ao mesmo tempo era muito melhor começar a vida escolar acompanhado do irmão do que sozinho.


Pois um ano depois, naquele dia em que eu entrei na porta errada da minha escola nova do bairro novo comecei a perceber o que eu sentia por aquele meu livrinho multiplicado centenas de vezes. Impressionou-me profundamente aquela sala. O quanto havia de bonito naquelas cores! Quanta diversidade e variedade de formatos e qualidades de papéis! Mesmo os mais velhos e manuseados! Os gibis! Havia mapas nas paredes e um globo ao alcance da mão, bem à altura dos olhos de uma criança do meu tamanho. E ao me voltar para trás, eu pude ver, num lugar um tanto central numa das estantes, em um silêncio cheio de mistérios, uma enciclopédia. Barsa era o nome dela e estava completa. Como resistir a tanta coisa maravilhosa?

Imagino que aquela biblioteca não tivesse nada demais. Era muito provável que seus livros não fossem novos, como é a realidade da maioria das bibliotecas públicas brasileiras (mesmo as escolares), mas dependendo da sua perspectiva, ou seja, se você vê de baixo para cima ou de cima para baixo, uma sala com livros pode mudar de figura e significar coisas muito, muito diferentes. Foi o que aconteceu comigo, numa escola pública, num bairro periférico de uma cidade periférica na Região Metropolitana de Porto Alegre.

A partir do dia que entrei na porta errada eu, simplesmente, todos os dias passei a ir para a biblioteca nos recreios. Sim, batia a sineta, meus colegas saíam correndo e se acotovelando para suas estripulias no pátio e eu, da mesma forma, pulava a toda velocidade, com meu lanche na mão em direção à porta errada. Precisava chegar à biblioteca, antes que a professora Marina saísse para seu próprio recreio. Por minha insistência tínhamos feito um acordo. Ela deixava-me entrar e chaveava a porta errada comigo lá dentro. Eu ficava lá, com meu lanche, naquele silêncio quente e delicioso, a folhear a Barsa, os enormes Atlas tão perturbadores, ou a passar os olhos pelos diferentes livros, em busca de alguma coisa que até hoje, mesmo depois de um doutorado em Filosofia, não sei o que é nem nunca saberei do que no fundo se trata.

Naquela época, a biblioteca não ficava aberta durante o recreio e me parecia normal que a professora também pudesse ter seu descanso. Aqueles 15 minutos eram pouco mas davam para muito. No final deles, pouco depois que tocava a sineta, ouvia o barulho da chave na porta e era a professora Marina abrindo-a para que eu voltasse ao mundo normal. Passo a passo, mês a mês, fui chegando cada vez mais perto daqueles hipnotizantes livros de aventura, das histórias de Julio Verne e suas Vinte mil léguas submarinas, A Volta ao Mundo em 80 dias, Viagem ao centro da Terra etc. Também, claro, A Ilha do Tesouro, de Stevenson, Moby Dick, do Melville, as inesquecíveis aventuras da Coleção Vagalume... Tanta coisa! Eu sentia como se a biblioteca fosse uma espécie de nave, de bolha na minha realidade, e que eu podia levar para casa desdobrando-a e continuar viajando para bem longe, naquele navio no Pacífico Sul, naquela espaçonave rumo a outro planeta, naqueles trens atravessando as geladas estepes siberianas. Na verdade era apenas uma sala de madeira, mas eu garanto que era suficiente para me transportar para esses e muitos outros lugares.



Naquele mesmo ano, quando chegou o inverno e as tardes eram frias e chuvosas, em vez de ficar em casa eu preferia pegar minhas botas de borracha e o guarda-chuva e caminhar até a porta errada. Ganhei até uma carteirinha de bibliotecário e ajudava os alunos da tarde na escolha dos livros e também nas recomendações sobre como e quando tinham que entregá-los depois de lidos. Eu gostava daquela palavra: bibliotecário, e foi assim que eu fui tratado por uns dois anos seguidos na Victor Hugo Ludwig.

Não por acaso aos 12 anos de idade, eu sabia todas as capitais do mundo. A primeira coisa que um livro e uma biblioteca significavam e significam para mim é uma possibilidade de viagem, não para fugir, mas inclusive para voltar, sempre. Nem de longe eu tive uma infância triste na Mathias Velho, mas à medida que o mundo ia se ampliando à minha volta eu podia sentir que viver era muito, mas muito mais. Acho que inclusive por isso desenvolvi muito cedo um gosto pela literatura menos focada no registro sociológico ou jornalístico. Eu conhecia suficientemente a minha realidade e preferia ir para outros lugares pois já estava constantemente dentro dela. Inclusive, e sobretudo agora que sou um escritor com mais de 20 anos de atividade, vejo o quanto a literatura de imaginação pode fazer por quem vive em determinadas realidades sociais.


Mais tarde, já com 15 anos de idade, meu pai perdeu o emprego em uma demissão em massa de metalúrgicos, no início dos anos 80 e nós, eu e meu irmão, depois toda a família, começamos a trabalhar como camelôs no centro de Canoas. Além da trabalheira, foi muito divertido. E o período em que mais li por prazer em toda minha vida. Achávamos que a coisa ia durar pouco, que em breve passava a crise dos anos 80. Que nada! Foram oito anos e, neles, claro, eu aproveitei o que pude da Biblioteca Pública João Palma da Silva. Ela tinha 40 mil livros e ficava numa espécie de shopping, o Conjunto Comercial Canoas.

Com os livros da João Palma da Silva eu passei para um outro estágio. Havia temporadas em que eu lia um livro de 100 páginas por dia, de 200 páginas em dois dias. Algumas vezes, em função deste meu ritmo de leitura, acontecia uma coisa curiosa. Tinha dias que eu pegava o livro de manhã e no meio da tarde já o tinha lido. Assim, ia à biblioteca para trocá-lo por outro. Desconfiados com aquele moleque que levava livros e os trazia no mesmo dia, eu recebi mais de uma contundente negativa: “Não, não vai levar outro. Tu não está lendo!”. Nessas ocasiões, minha estratégia era contar a história que havia no livro e dizer “olha lá, confere se não é isso mesmo” para que a atendente da biblioteca se convencesse. Uma dessas vezes um dos atendentes, talvez por não conhecer do que se tratava o livro, me fez voltar de mãos vazias. E era um sentimento de vazio, mesmo, ter que ficar sentado na banca sem um livro novo pra ler.

Impossível descrever os dias de prazer e a formação aberta, solta e produtiva que tive naqueles anos de camelô, lendo e aproveitando o máximo que podia de uma das “minhas universidades”, para me referir a um título de Maxim Gorki. Foi uma formação anárquica, vital, prazerosa e livre, a partir do acesso a uma boa e variada quantidade de livros. E tudo com a escola, com aquele livrinho de presente e depois com aquela porta errada. Hoje já se passaram quase 40 anos desde aquela época. Andei por boa parte do mundo sobre o qual eu lia e decorava nos mapas. Aquela porta também se abriu para que eu pudesse chegar a trabalhar por dez anos na política cultural e até mesmo coordenar por um bom tempo a política de livro e leitura do Brasil inteiro. Quando eu fui secretário de Cultura em Canoas colocamos a biblioteca João Palma da Silva ao lado da Prefeitura e da Câmara de Vereadores, no lugar mais central da cidade. Hoje ela está lá num prédio próprio bem mais amplo e arejado, talvez com mais jovens e crianças entrando para o mundo da leitura.



XXX





Jéferson Assumção (Santa Maria-RS, 1970) é autor de mais de 20 livros entre ficção e filosofia. Recentemente publicou "Notas sobre Turibio Núñez, escritor caído" (romance bilingue, português/espanhol, BesouroBox, 2016) e "Cabeça de mulher olhando a neve" (BesouroBox, 2015, Contos), que tiveram lançamentos no Salão do Livro de Paris (França, 2016), na Argentina, Espanha e na Finlândia. É Doutor em Filosofia pela Universidade de León (Espanha), tem pós-doutorado em Teoria Literária na Universidade de Brasília (UnB) e Diploma de Estudos Avançados (DEA) em Filosofia também pela Universidade de León. Atuou por dez anos em diversos cargos na política cultural nacional. Foi  assessor, coordenador-geral e diretor de Livro, Leitura e Literatura no Ministério da Cultura, secretário municipal de Cultura de Canoas-RS e secretário adjunto de Cultura do Rio Grande do Sul. Como repórter especial, gestor cultural e ativista, já atuou em mais de 30 países, como Índia, Quênia, Marrocos, Senegal, Tunísia, diversos países sul-americanos e europeus, Japão, Cuba, República Dominicana e Costa Rica. Coordenou a participação brasileira em feiras do livro internacionais, como as de Frankfurt, Salão do Livro de Paris, Feira do Livro de Santiago do Chile e de Santo Domingo. Mora em Brasília, onde ministra uma Oficina de Escrita Criativa.

Poema


Poema
Alex Andrade

Esta coisa é a mais difícil de entender. Não digo que sejamos assim uns tolos, sem a delicadeza que a alma necessita, talvez uma espécie de resistência ao que pode nos mover, talvez. Parecerá óbvio se disser que falo do amor, mas é extremamente difícil falar do amor e ainda conservar uma ingênua vontade de sermos imutáveis. O tempo é imutável. E podemos ainda assim falar do tempo com a destreza de uma criança, que se move além dos seus limites.
Poema simplesmente não saberia dizer o que seu nome significava. Não saberia dizer de onde vinha, como tinha chegado à vida e nem onde estavam as saídas. Pareceu-lhe vagamente sonhador ter entrado na vida assim como se tivesse entrado espremida por uma brecha feita só para ela. O fato é que quando abriu os olhos estava viva. E como não conseguiria voltar atrás, ficou ali de pé, no meio de uma rua cheia de carros, pessoas e prédios, muitos prédios. Ela era uma figura meiga. Sua meiguice era mais estranheza do que meiguice. Dois olhos enormes numa magreza de rosto, um sorriso tão triste que confundia o que se passava na sua cabeça, ela era toda ao contrário. Uma colega de trabalho não sabia identificar quando ela estava sentindo alegria ou tristeza, mesmo quando varria os cômodos do hotel em que trabalhava, o que para ela significava a maior felicidade do mundo, pois trabalhar era o que lhe restava, já que não haviam outros meios de sobrevivência em uma cidade grande. Nunca seria puta, por exemplo, porque lhe faltavam os atributos. Desde que chegou do Nordeste, essa ideia nunca tinha lhe passado pela cabeça. Ninguém olharia para ela com desejo se fosse um frango de padaria a girar no forno, não haveria cães que parariam na frente para babar por ela, nunca.
Daí que nunca soube o que era o amor. A única coisa que queria era amar. Não sabia para que, nem o que se fazia com o amor. Ela pensava que todo mundo no mundo vive para amar e ser amado. “Um dia vou ser tão amada que posso até morrer, porque sei que a felicidade é morrer do coração”, ela dizia para as colegas de quarto.
E mesmo com dificuldade para ler e escrever, na adolescência essa moça tinha o hábito de decorar frases das boleias dos caminhões que passavam pela estrada na frente da sua casa. E achava que aquilo era poesia e ficava toda encantada de ter o nome que tinha, pois supunha que poesia era parente de poema ou coisa parecida. Deixa disso, mulher, desde quando nome de pobre tem a ver com coisa bonita? Isso deve ser outra história. Pousou a vassoura na quina da parede. A amiga queria tornar equívoca aquela ideia e precisava se assegurar da burrice da outra.


Esse não entendimento das coisas parecia ser ruim, mas para Poema era como uma válvula que timidamente acionava a curiosidade dentro dela. E por incrível que possa parecer, ela buscava encontrar o significado das coisas. Uma vez ficou horas pensando por que tinha que limpar as privadas dos quartos dos hóspedes todos os dias. Morava num pequeno conjugado no centro da cidade com mais três mulheres, dormia em um colchonete no canto perto da janela, onde espiava o céu e ficava contando as estrelas antes de dormir. Como também não sabia contar direito, voltava sempre para o início da contagem e recomeçava do zero. Isso a deixava tão  cansada que adormecia. A faxina do banheiro do pequeno apartamento só acontecia aos sábados e revezava com as amigas quem limparia a privada a cada semana. Na semana que chegava a sua vez, ela sofria. Um sofrimento tão cheio de referências do passado, do tempo em que a comida faltava, do sono que faltava, e só lhe restavam os sonhos. O cheiro de murrinha impregnado nos assoalhos encardidos deixava a trágica sensação de que vivia em eterno castigo, como se nunca fosse alcançar a felicidade. E para ela a felicidade poderia ser apenas um detalhe, que caberia apenas em um dia.
Às vezes ouvia música para alegrar seus movimentos, a moça que limpava privadas ligava o rádio que tinha comprado a prestação para ouvir música e entoava com sua voz desafinada alguns trechos das canções que ouvia e que conhecia, e ficava admirada com o som que saía da sua boca, brincando com a acústica que os banheiros têm, como se fosse uma criança descobrindo o mundo a sua volta.
Outra vez ouvira no rádio no meio de uma canção a voz da cantora a declamar: “Todas as cartas de amor são ridículas. Não seriam cartas de amor se não fossem ridículas”.
 Então ela sentiu uma confusão no peito, quase um susto. Como não sabia distinguir coisa alguma, ficou difícil para ela acreditar que as cartas de amor eram ridículas. E como não conhecia o amor, sentiu-se ridícula. Durante o resto do dia ficou ouvindo os versos do poema martelando na sua mente como uma tortura. Tinha certa dificuldade para ler, mas adquirira com o tempo uma facilidade para decorar as coisas que lhe interessavam.

Marie Sirgue, "Pris par le temps", 2011. 

Quando fora dormir, deitada em seu canto espremido, com a cabeça encostada na parede bem abaixo do parapeito da janela, ficou sussurrando aquela frase que não lhe saía da memória, bem baixinho que é para não acordar as outras meninas. E sonhou com tantas cartas de amor que seu coração ficou todo contente, e mesmo dormindo seu semblante triste enfim sorria.
No dia seguinte, quando acordou, a boba da moça levantou-se toda animada: era domingo, estava de folga, estava também inquieta, tinha sonhado tantos sonhos de amor que mesmo que a poesia continuasse martelando na sua cabeça que as cartas de amor eram ridículas, nada lhe doía.
Poema então pintou cuidadosamente os olhos, foi delineando os cílios, toda bem intencionada. Ainda que não ficasse bonita, era mulher e conservava uma pequena vaidade. Pintou os lábios com o batom vermelho de uma das amigas, passou perfume de farmácia no pescoço, nas axilas, em volta dos seios, até nas pontas do cabelo, despertando a curiosidade das amigas, que a assistiam  curiosas e perplexas, deitadas nos colchões espalhados pelo chão. Era de admirar que aquela figura desprovida de qualquer interesse por si mesma tivesse o ímpeto de se ajeitar, nem que fosse para sentar e assistir televisão.
Poema era assim, vivia desgrenhada, o cabelo encaracolado e maltratado, sem o menor jeito. Podia prender, jogar para um lado ou para o outro, até virar pelo avesso, não adiantava. Mas aquela manhã estava diferente, nem de longe parecia a mesma.
No meio do dia foi andando devagar pela rua, o coração batendo solenemente, estava se deixando levar como um pássaro flutuando no céu. Caminhava e vez por outra parava defronte a um outdoor para ler os anúncios e decorá-los. Levava um tempinho até juntar letra a letra, formar palavra e completar frase, mas lerdamente conseguia. Bravamente. E andava adiante repetindo o que acabara de ler, como um papagaio: “O mundo fica melhor com duas línguas”, dizia um anúncio de curso de inglês que mostrava a imagem de um casal em um beijo ardente.
Nesse outdoor, a moça demorou mais tempo para sair, ficou confusa tentando entender o que aquilo queria dizer, mas sabia exatamente o que significava a imagem que estava vendo. E teve raiva. Porque na sua ingenuidade de moça do sertão, diante do que tinha lido e visto, ela que nunca tinha sido beijada não fazia parte do mundo. Ou então seu mundo não era nada bom.
De vez em quando falava consigo mesma, reclamando do seu destino, das ausências que lhe tomavam a alma, gostaria de tanta coisa na sua vida que talvez tivesse que se multiplicar e ter mil Poemas no mundo para tudo o que desejava caber dentro.

Neste dia, aconteceu o inesperado.
Com o coração miudinho, esmagado entre a angústia e uma falta de, sentiu uma vontade imensa de chorar, chorar pelo que não viu, pelo que viu, pelo que não viveu, pela falta de tudo, até da esperança, que de repente escapou-lhe das mãos. Poema entrou no primeiro shopping que estava de portas abertas e foi direto para o banheiro. Tinha vergonha de chorar em público, porque achava feio chorar, e como já era feia de nascença ficaria mais feia ainda chorando, assim pensava. E foi borrando a maquiagem com as lágrimas, sentada no vaso sanitário dentro do reservado do banheiro, chorava feito criança. Gemia feito uma tonta e espremia entre os dedos o papel higiênico onde secava as lágrimas, repetindo com fúria: “Todas as cartas de amor são ridículas. Não seriam cartas de amor se não fossem ridículas”.
A moça do sorriso triste levou uma boa hora sentada na privada do banheiro do shopping chorando e resmungando.
Naquele dia inesperado, alguma coisa tinha que acontecer para salvar a alma daquela mulher, mesmo que durasse apenas esse dia teria de ser bom.
Poema levantou-se ainda tonta, mais do que de costume, olhou-se no espelho, desfigurada, fúnebre, a maquiagem borrada, os olhos esbugalhados, abriu a torneira e lavou o rosto.
Abriu a porta do banheiro sem o menor cuidado e saiu pelo shopping lotado feito uma sombra andando entre as pessoas. Um homem de terno elegante tirou o chapéu da cabeça e a cumprimentou parando bem a sua frente, e ficou a admirá-la por uns segundos. Olhavam-se com tanta ternura que pareciam se conhecer de algum lugar ou tempo. Na verdade era ele que a olhava como se escrevesse cada pedaço do seu corpo com a sutileza da alma, coisa que só os poetas conseguem.


Poema, ela se identificou timidamente.
Ele se aproximou e com voz delicada se apresentou também, Fernando.
Ela teve vontade de chorar, mas dessa vez era choro de emoção, não de raiva. O movimento dos olhos dele, por trás das lentes dos óculos, desenhava nela um sentimento tão preciso e ao mesmo tempo tão puro que ficavam assim, anestesiados como linha que repousa no tecido e vai costurando a roupa que veste e enobrece o homem.
Ele lhe estendeu a mão e saíram a passear pelo shopping, sem o receio de serem vistos juntos. Pararam diante da vitrine de uma livraria onde estavam expostos os livros, muitos livros. E Poema, com medo de que tudo se confundisse e isso causasse uma grande ruptura, quis recuar.
Fernando contou-lhe bem baixinho um segredo, que gostava de criar um drama em gente ou um drama em almas. Ela riu, não se sabe direito se tinha entendido o que ele quis dizer, mas estava rindo porque acreditava no que ele dizia. E desistiu de partir: pelo contrário, estava se apaixonando por ele, a tal ponto que não queria desgrudar daquele homem misterioso.
Me conta um segredo, ele pediu. Ela estava tão demasiadamente amando aquilo tudo que não saberia descrever o que se passava na sua cabeça, custou a perceber que havia ali um desejo de amor – embora ela desconheça o que é o amor, foi tentando encaixar as coisas para entender o que se passava naquele instante.
Os dois ficaram assim, na frente da vitrine da livraria, ora olhando os livros, ora se olhando pelo reflexo do vidro, admirados pela grandeza que é o momento eterno.
Poema encheu-se de pensamentos, de uma hora para outra estava sendo invadida por eles como se a bombardeassem numa guerra, tive um passado? Sem dúvida... Tenho um presente? Sem dúvida... Terei um futuro? Sem dúvida... A vida que pare daqui a pouco... Mas eu, eu... Eu sou eu, eu fico eu, eu...
O amor estava desenhando nela sua doce e amarga trajetória, dava-lhe um desespero que vinha não sabia de onde. Só sabia que estava experimentando uma coisa nova e nunca mais poderia recuar para aquilo que nunca tinha sentido antes, como voltar à página em branco.
Depois ele entrou na loja, pegou um livro e o levou até Poema, que estava pálida como numa vertigem.
Poema, Poema, ele repetia com o livro nas mãos, olhando para ela como se quisesse ler o que ela não conseguia lhe dizer.
Era admirável a comunicação que se criou entre eles, havia poucos minutos que estavam juntos e já se decifravam com uma clareza esplêndida, que tornava a felicidade em súbita morte.
Ambos estavam pálidos e ambos se achavam no amor. Ficaram em silêncio muito tempo. Fernando abriu o livro repentinamente e se pôs a ler:

Na casa defronte de mim e dos meus sonhos,
Que felicidade há sempre!
Moram ali pessoas que desconheço, que já vi mas não vi.
São felizes, porque não sou eu.
As crianças, que brincam às sacadas altas,
Vivem entre vasos de flores,
Sem dúvida, eternamente.
As vozes, que sobem do interior do doméstico,
Cantam sempre, sem dúvida.
Sim, devem cantar.
Quando há festa cá fora, há festa lá dentro.
Assim tem que ser onde tudo se ajusta –
O homem à Natureza, porque a cidade é Natureza.
Que grande felicidade não ser eu!
Mas os outros não sentirão também?
Quais outros? Não há outros.
O que os outros sentem é uma casa com a janela fechada,
Ou, quando se abre,
É para as crianças brincarem na varanda de grades,
Entre os vasos de flores que nunca vi quais eram.
Os outros nunca sentem.
Quem sente somos nós,
Sim, todos nós,
Até eu, que neste momento já não estou sentindo nada.
Nada? Não sei...
Um nada que dói...

Ele ainda tentou balbuciar um nome, Álva... Álvaro de Campos... Ela o interrompeu beijando desesperadamente sua boca trêmula.
Um beijo suave, estranho, vivo ou morto, com certeza eterno. Ela enfim acreditou ter encontrado o amor.
A moça feia, magra e sem sorriso nos lábios, que se chamava Poema e que parecia uma página em branco, mas que estava toda preenchida de versos, que demorava para juntar letras, formar palavras e criar frases. Enfim encontrou o amor, o mesmo amor das cartas ridículas, das línguas que se beijam nos anúncios dos outdoors, estava estranhamente sendo ridícula e beijada. O amor lhe caiu bem.
E subitamente caíram os dois sobre o livro que estava no chão, bem em cima da página aberta onde repousava a poesia: “Nunca, nunca, em nada, raie a madrugada, ou ‘splenda o dia, ou doire no declive. Tive, prazer a durar, mais do que nada, a perda, antes de eu o ir, gozar”.


Cobriram-lhe o corpo com o lençol. Foi sem sobressalto que ela sentiu a mão dele repousando no meio dos seus seios.
Embora estivesse cheia de amor, a faxineira do shopping que a encontrou caída entre a privada e a divisória do reservado do banheiro feminino descreveu aos curiosos  de plantão a imagem de um rosto sem sorriso, que parecia calmo, mas triste.
Fernando a conduziu com a mesma doçura de sempre, estendeu-lhe a mão e saíram os dois abraçados, num ato de amor. Ainda ouviu a voz de Poema a sussurrar-lhe palavras doces, quase em oração:

Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu criança, o mais pequeno.
Pega-me tu ao colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia
Que tu sabes qual é...

XXX


Alex Andrade é escritor e arte educador, nascido no Rio de Janeiro.Tem publicado os livros infantis A galinha malcriada e O pequeno Hamlet (ambos inspirados na obra do bardo inglês Willian Shakespeare), os livros de contos A suspeita da imperfeição, Poema, Amores, truques e outras versões, As horas e o romance Longe dos olhos.
Poemas citados no conto: “Todas as cartas de amor são”, “Eu, eu mesmo”, “Na casa defronte de mim e dos meus sonhos”,  “Leve, breve, suave,”  “O guardador de rebanhos”.