segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Promessa



Promessa
Yuri Al’Hanati

Antes de tudo, foi o cheiro dela que separou aquele momento dos incontáveis sonhos que já tivera antes. Sonhos nos quais o cérebro emula sensoriamente um pastiche de experiências oculares anteriores. Era isso o que eu sabia sobre beijar e ser beijado, afinal. Os filmes, os casais na rua, os programas de namoro na TV, as festas em que eu ia apenas para fazer figuração, meu repertório era puramente teórico. Mas era o bastante para o cérebro deduzir a sensação. Conhecendo apenas o toque de lábios, língua e membranas da minha própria boca, replicava a ação para uma criação do subconsciente que se manifestava na forma da menina que estava exatamente ali do meu lado agora, de verdade, mais perto de mim do que qualquer outra jamais esteve, e emulava um beijo solitário nos recônditos sombrios da minha mente.

Parecia real o bastante até então, mas não havia o cheiro. O cheiro do corpo dela tornava real. Era basicamente o xampu em seu cabelo e um pouco de suor. Nós não tínhamos a vaidade que os adolescentes têm hoje. Ela usava o uniforme de educação física da escola, da outra escola, tinha os cabelos aloirados presos num rabo de cavalo exatamente no centro da parte de trás da cabeça, e sua testa brilhava com o suor formado pelo calor e pelo jogo. Os únicos ornamentos que usava eram pulseiras coloridas feitas de crochê, amontoadas uma sobre as outras, e presilhas de cabelo, que todas as meninas do time de vôlei usavam, em temas bem infantis, como joaninhas, flores e borboletas, ou em muitas cores diferentes. A pele de suas coxas parecia arrepiada, talvez pelo que estava prestes a acontecer, talvez pelo vento frio que batia nas arquibancadas desertas do ginásio, feito de tijolo e coberto em amianto. Sentada do meu lado no fundo, na parte mais alta do galpão, ela curvou-se um pouco para baixo, puxou levemente meu maxilar para cima com um toque delicado de mãos e guiou minha boca de encontro à sua. Eu estava com a boca entreaberta, e ela também, como se estivesse soprando as sementes de um dente-de-leão. Já havia visto ela fazer isso muitas vezes. Seus lábios eram indecentes de tão carnudos, e o espaço que deixava entrevisto de sua boca era apenas um ponto negro entre bordas de lábios rosados e brilhantes. Acho que ela devia ter passado algo para fazer os lábios brilharem assim, mas se passou, passou escondida, sem que eu visse. Podia ter sido enquanto eu me distraía vendo o ginásio se esvaziar ou o zelador guardar a rede e os mastros. Lembro que ele deu uma rápida e discreta olhada em nossa direção e fez uma cara que talvez me parecesse zombaria, mas hoje sei que era de cumplicidade. Sei porque também olho saudoso assim para os casais mais jovens do que eu.


No momento em que nossos lábios se tocaram, não sei porque quebrei a promessa que havia feito a mim mesmo, de que manteria os olhos abertos no meu primeiro beijo, para não perder nada. Foi algo instintivo, talvez os olhos e a boca não sejam feitos para ficarem abertos ao mesmo tempo. Mas logo descobri que fiz bem em prescindir da visão para apurar os outros sentidos. Senti como a mão dela, que ainda segurava meu maxilar, uniu-se, atrás da minha cabeça, a seu outro braço, que esboçava me enlaçar pelo lado esquerdo do peito. Os dois braços compridos repousaram-se folgadamente em meus ombros, cruzando-se na altura dos antebraços, e ali ficaram um tempo, antes de suas mãos me agarrarem pelos lados e me trazerem para mais perto dela. Perderia isso se estivesse de olhos abertos.

Perderia também o caminho cego de minhas mãos inexperientes, que percorreram seu corpo para também entrelaçarem os dedos na altura de sua lombar. Ela era muito alta, bem mais alta do que eu, embora eu fosse de estatura mediana e fôssemos quase da mesma idade. Acho que a família dela era holandesa, ou tinha alguma parte holandesa em sua ascendência. Seu pai era alto como ela, parecia um gigante, mas não era ossudo como os alemães que eu conhecia. Tinha carnes nas faces, nos maxilares, nos braços fortes em que nenhuma veia saltava. Uma pele sólida e grossa. Mas ela parecia mais magra. Talvez seja a prática do vôlei que a tenha deixado assim. Minhas mãos passearam por toda a altura de suas costas, sentido cada osso de sua coluna, suas omoplatas, as alças de seu sutiã esportivo, suas costelas, e depois passaram por suas coxas, mas ela delicadamente tirou a minha mão com sua mão e a recolocou em suas costas, talvez porque gostasse do nosso abraço, talvez porque isso já fosse um limite intransponível num primeiro contato. Diferentemente de mim, ela já havia beijado outros garotos antes, e sabia que a liberação sexual sobe a rápidos galopes sua escalada libertina. Primeiro, era o primeiro beijo que, tão logo alcançado, dava lugar na fila dos desejos à busca incessante pela primeira transa, ou pela primeira felação, dependendo da cultura de cada lugar. Depois, o tão cobiçado sexo anal, a transa a três, e por aí vai, por um caminho de intensidade ascendente cujo final nunca foi alcançado por ninguém. E se foi, essa pessoa não voltou para contar. Ou voltou e contou, mas ninguém lhe deu fé.


Da minha parte, eu já estava realizado o bastante por beijar Maria Helena do alto dos meus catorze anos. Sua língua, quando entrava em minha boca e se enroscava vagarosamente na minha, parecia transubstanciar-se em algo entre o estado sólido e o líquido, e sua boca molhava os arredores da minha. E eu soube logo no primeiro instante que aquilo não era nada como meu cérebro havia deduzido nos sonhos que tive com ela. Melhor do que eu poderia imaginar, estar beijando a garota mais linda que eu já vi na vida. E o melhor é que só eu via sua beleza rústica, eximida de vaidade, o charme de suas longas pernas, seus olhos levemente puxados e claros, seu nariz arrebitado, suas orelhas de abano que despontavam em meio a seu cabelo quando ele estava solto, sua boca que se projetava para a frente em contraposição a seu queixo retraído, mas bem definido. Enquanto todos os meus amigos perdiam o juízo e passavam pelos piores constrangimentos para conquistar Natália, a linda e desdenhosa musa da escola, detentora dos maiores e melhores seios que todo mundo já havia visto em uma garota de quinze anos, eu descobria minha própria musa, de outra escola, que havia acabado de dar uma surra no nosso time de vôlei feminino. Nada como beijar uma vencedora.

— E aí, o que achou? — Ela me perguntou depois de lentamente afastar seu rosto do meu, com um sorriso de satisfação nos lábios que eu acabara de tocar.

— É bom... — Respondi meio sem graça. Não esperava uma pergunta como essa. Tão logo terminara meu primeiro beijo e eu já precisava avaliá-lo. Não sei o que poderia ter respondido de diferente. Ruim não era. Na verdade, minha cabeça estava nas nuvens, e naquele exato momento eu não sabia nem o nome do meu cachorro. Mas Maria Helena tinha razão para ser curiosa, afinal, ela sabia que aquele era o meu primeiro beijo, e se eu não houvesse já trocado esse tipo de confidências com ela, que começara a ser uma amiga muito próxima nos últimos meses, minha falta de jeito com todo o processo teria me denunciado e, quem sabe, ela teria até recuado ante a surpresa. Dissera-me na noite anterior, quando saíamos da nossa aula de inglês, que se o time dela ganhasse o time da minha escola, ela me daria o meu primeiro beijo. Eu mesmo não encarei a coisa muito seriamente. As meninas viviam fazendo esse tipo de jogo. Apostas, chantagens, barganhas, usavam o que havia de mais imediato em nossos anseios para conseguir presentes, deixar-nos nervosos, ou simplesmente medir seus poderes sobre nós. Um menino da minha sala até chegou a cortar o cabelo longuíssimo de metaleiro, seu maior orgulho estético, porque a Natália falou que daria um beijo nele se assim o fizesse. Obviamente, só a primeira parte do trato se concretizou. É difícil abrir mão de um poder quando apenas a ética advoga contra seu uso.

Mas Maria Helena não parecia consciente de sua própria beleza. Talvez tenha sido uma dessas garotas que crescem sem muita autoestima, e para quem os traços grosseiros do rosto demoram até compor uma beleza coerente. Acredito que a verdadeira beleza, aquela não óbvia, só existe no verdadeiro limite com a completa feiura. Basta um observador num referencial desprivilegiado para tudo perder o sentido. O olhar mal posicionado a tudo deforma, um ensinamento básico que qualquer fotógrafo de moda sabe. De maneira que fazer esse tipo de proposta para medir seu feitiço sobre mim não parecia coisa dela. Como disse, não dei muita bola, até porque a expectativa mata o plano ainda no útero. Mas ainda assim fui assistir ao jogo no dia seguinte, numa tarde de um sábado muito quente. Bom, talvez tivesse dado alguma bola, afinal de contas, saí de casa com o estomago meio embrulhado pelo almoço mal digerido. Mas queria mesmo ver o jogo. O Matias tinha ido visitar os avós de novo, e quando ele viajava, minha única companhia era Maria Helena, a quem eu não via com muita frequência. Admirava vê-la jogando, aquela menina alta e saudável pulando sobre uma rede para dar um tapa na bola, com olhos que subitamente ficavam enormes, os esparadrapos nos dedos ossudos, as presilhas no cabelo, o suporte de joelho preto que interrompia a alvura de uma de suas longas e torneadas pernas. Vê-la saindo do chão, abandonando-se ao movimento de seu corpo no ar, era a única coisa que podia evocar minha capacidade de concentração afora os filmes de terror que gostava de ver na casa do Matias, que ele garimpava nos balaios de VHS quando ia para São Paulo. E ela era uma excelente jogadora, jogava como oposto — era o que me dizia pelo menos, até hoje não tenho interesse em aprender nada teórico sobre voleibol — e parecia ser admirada também entre suas colegas de equipe, que sempre a abraçavam a cada ponto conquistado.

O técnico, um senhor forte com um cabelo loiro já meio branco, que fumava bastante, também parecia gostar dela, mas quando reunia o time para passar instruções, sempre parecia gritar mais com ela do que com as outras, como se a estratégia de jogo fosse algo de difícil assimilação para Maria Helena. Ela o olhava com olhos enormes, às vezes com a boca entreaberta, como se tivesse mesmo dificuldade em entender, ainda que não fosse mesmo uma menina burra. Pelo contrário, aprendia muitas coisas com ela desde que começamos a andar mais juntos. Estávamos na mesma série, mas ela tinha todo um conhecimento sobre biologia que buscava por fora, em livros técnicos que pegava a partir da indicação bibliográfica que suas apostilas dispunham. Isso, é claro, também me encantava. Aprendi com ela, por exemplo, como todas as flores têm números de pétalas em múltiplos de três ou cinco, e sobre os peixes-palhaço, que desenvolveram, ao longo de anos de evolução, uma relação simbiótica com as anêmonas, cujos tentáculos urticantes se tornaram inofensivos, criando-lhes uma espécie de morada venenosa, hostil a qualquer visita. Ela era muito esperta e curiosa, por isso não compreendia porque a estratégia do técnico lhe refletia nos olhos como algo quase místico, que exigia uma abstração além da mais complexa metafísica. Talvez o vôlei fosse mesmo um esporte difícil, talvez seja complicado colocar em prática, no calor do momento, quando frações de segundo são todo o tempo de que se dispõe para se tomar todas as decisões, toda uma teoria aprendida e desenvolvida na prancheta. Nada que a impedisse de ganhar o jogo com suas amigas. Quando marcaram o match point, fora ela quem ganhara a maior parte dos cumprimentos, e a quem o técnico abraçou por primeiro. Ela era uma estrela em um jogo coletivo, mas não se deixava destacar entre suas colegas de equipe. Qualquer um que olhasse para ela, porém, saberia que ela era uma líder.


— Você beija muito bem pra quem nunca beijou antes... — ela falou com um ar debochado, virando a cabeça para a frente e me olhando de lado, como se não acreditasse ser verdade. Era um elogio mascarado em uma provocação, na verdade, Maria Helena não tinha as dúvidas que aparentava. Por essa razão corei, pego de surpresa mais uma vez com a naturalidade com que tratava o assunto. Por que não podíamos falar de outra coisa? Ela trivializava sobre um ponto decisivo na minha vida, com o qual sonhei repetidas vezes. Ela sabia, ou deveria saber, que seu nome seria indelével da minha memória, da minha história pessoal, que qualquer rumo que a minha vida amorosa tomasse, seria a partir dali. O beijo de Maria Helena seria o começo do desvio, o começo da perversão, ou o começo de uma virtuosa carreira de amante, ou de uma pacata e monótona vida conjugal com a minha futura esposa, fosse ela quem fosse. Seria o único beijo sobre o qual se faria registro, se algum dia precisasse falar sobre um beijo que já dei em toda a minha vida para um psicólogo, o único beijo não-protocolar da minha vida, aquele que se dá sem a menor ideia do que guarda em seus significados, sem a definição de nossos interesses, sem a promessa de qualquer coisa, o beijo que me separa de um distinto e bem conhecido grupo de manés que nunca beijara antes, o beijo que me formaliza, me oficializa como uma pessoa como outra qualquer. Pensei em tudo isso naquela mesma noite, mas naquele exato momento impressionava-me a ousadia monótona com que falava do que acabava de acontecer. Então é assim que as pessoas tratam na hora essas relações fantásticas pelas quais choram, brigam, escrevem poesia, matam e morrem depois? Ou me beijar não era, de fato, nada demais para ela? Não gostava de pensar em nada daquilo, por isso tentei agir com naturalidade também:
— Talvez eu tenha um talento nato para a coisa. Quer dizer que você gostou então?
— Isn’t that obvious, my dear? — Eu sabia que ela falava em inglês toda vez que se sentia constrangida de algum modo, como forma de alívio cômico à tensão do momento. Gostava de brincar com a palavra dear, que soava como deer, que é veado em inglês, como se tratasse com carinho ao mesmo tempo em que zombava. Uma piada boba que aprendera com o nosso professor de inglês, tratar a todos como “meu veadinho”.
— As a matter of fact, it isn’t.
— Você quer que eu diga, né? Tá bom, foi muito bom sim. — Disse ela de súbito, como se interrompesse seu transe anglófono, emendando um sorriso cúmplice no final. Ela não estava errada, eu queria mesmo ouvir aquilo. Não apenas porque atestava a normalidade do meu beijo, como também porque eu precisava de uma aprovação feminina apenas uma vez na vida. Não era apenas o beijo, afinal, era todo um pacote de indultos que o gesto trazia. A aprovação prévia, ao Maria Helena escolher me beijar, e a aprovação posterior, a cumplicidade do momento compartilhado apenas entre nós, a temperança forçada de nossos futuros encontros, o pequeno marco que colocamos um na linha do tempo do outro, e, claro, a possibilidade disso se repetir em uma próxima vez com significativa facilidade. Eu estava adorando aquilo. Dessa vez, fui eu quem tomou a iniciativa. Passei a ponta dos dedos em seus cabelos esticados pelo rabo de cavalo e aproximei sua boca da minha. Vi como ela veio já de olhos fechados, esperando o toque dos meus lábios, esperando que eu colocasse a minha língua em sua boca, e foi só quando ela enlaçou meu tronco uma segunda vez e esbarrou de leve a mão no volume da minha calça foi que percebi que estava com uma insistente e dolorida ereção. Maria Helena percebeu também, e seus lábios, por um breve instante, descolaram-se dos meus para formar um sorriso torto, com sua língua ainda na minha boca. Senti o ar frio entrando entre nosso beijo e se misturando à lufada de ar quente que saía de dentro de seus pulmões. Era o ar de uma meia risada contida que se encaminhava direto para a minha boca. Percebi então pela primeira vez como sua respiração estava próxima do meu nariz, como meu nariz, aliás, roçava no seu a cada vez que nossas cabeças se inclinavam para lados opostos, como nossos joelhos encostavam-se lado a lado, como ela parecia dotada de um halo radiante da segunda vez em que nos afastamos, enfim, toda uma miríade de detalhes que deixei escapar pela excitação do momento. Enquanto me beijava, segurou minha cabeça com a mão cheia em meus cabelos, apoiando o cotovelo nas minhas costas, paralelamente à minha coluna, e passava a mão na minha perna descoberta que joguei entre nós no degrau da arquibancada em que estávamos, sentindo os pelos da minha canela. “Que sábado!”, eu lembro que cheguei a exclamar mentalmente. Eu mal podia acreditar no que estava acontecendo, e várias vezes naquela noite falei comigo mesmo, deitado na cama sem esconder o sorriso no rosto: “Que dia! Que dia!”. Maria Helena era uma menina como poucas, e naquele dia havia sido minha, e eu, que nunca fora de ninguém, havia sido só dela. Pertenci a alguém durante uma tarde pela primeira vez.


Nosso sábado só havia começado a ser interrompido com o toque de seu telefone celular. Era seu pai, avisando que passaria na escola dali a pouco para buscá-la. O pai de Maria Helena, o holandês gigante, se chamava Felipe, e era um homem fechado e potencialmente hostil a todos, mas me tratava surpreendentemente bem. Bem até demais, como se também fosse seu filho. Levando-se em consideração o pouco tempo da minha amizade com sua filha, nos dávamos bem. Por isso assisti ao jogo ao lado dele, meu pai postiço, de Beatriz, minha mãe postiça, e de Maria Lúcia, minha irmãzinha postiça de oito anos. Todos me adoravam por alguma razão. Talvez por eu não ser o adolescente cheio de tesão ameaçador que uma menina como Maria Helena seria capaz de atrair. Minha maior ameaça ao decoro da família era saber tocar violão, mas como só sabia tocar músicas muito tristes, acho que relevavam. Comentei a boa atuação dela enquanto oposto, como se entendesse de voleibol, e Felipe me perguntou por que eu não estava torcendo pelas meninas da minha escola. Respondi enigmaticamente que a lealdade à minha escola era-me uma virtude ausente, razão pela qual não defendia as cores da instituição em nenhum esporte. A verdade, claro, era que tinha uma ponta de esperança na promessa de Maria Helena, e que esporte nenhum me empolgava, muito menos essa estúpida competição intercolegial promovida pela emissora de TV local. Qualquer esporte me parecia uma extensão da brutalidade infantil, uma transposição civilizada do Estado de Natureza para nosso mundo de regras cavalheirescas que selecionavam o mais forte em cada categoria, ironicamente distribuindo margens de compensação genética. Entretanto, ver Maria Helena jogando era diferente, e acho que Felipe sabia tudo isso e tomava minha resposta como um gérmen de inadequação do qual todos podemos nos beneficiar para o desenvolvimento de um pensamento crítico, mínimo que seja. Agradava-lhe meu apartidarismo, meu amor a pessoas distintas sobre cores, grupos e instituições. Anos depois, quando virei fã da poesia de Wislawa Szymborska, admirei e tomei como mantra um de seus versos, do poema Possibilidades:

Prefiro-me gostando das pessoas
do que amando a humanidade

Quando o jogo terminou, Maria Helena foi abraçar os pais. Perguntaram-lhe se gostaria de jantar para comemorar, e ela disse que algumas meninas de sua equipe estavam indo com as famílias e o técnico jantar em uma pizzaria à noitinha, mas que por hora, ficaria comigo, pois eu tinha lhe prometido mostrar os arredores do colégio. “Vou mostrar pra ela onde as meninas vão vir chorar a derrota na segunda-feira”, pisquei atrevidamente para Beatriz, que riu da minha piada e aliviou um pouco a tensão da expectativa gerada pela súbita realização de Felipe ao saber que eu ficaria teoricamente sozinho com sua filha em uma escola vazia. Mas, como eu disse, o gigante me via com bons olhos — ou como pretendente desejável, ou como mancebo inofensivo, e disse apenas que passaria mais tarde para buscá-la para tomar banho e jantar. Abraçou beatriz com um braço e segurou Maria Lúcia com outro, talvez numa última demonstração de sua descomunal e intimidadora força física para me causar a mais forte das impressões e exclamou: “Juízo vocês dois, hein?”, com uma falsa tensão em sua voz. Estava relaxado, e relaxado foi.



Não havia prometido mostrar o colégio a Maria Helena. Que graça poderia haver nessa atividade, afinal? Voltamos, na verdade, às arquibancadas do ginásio, onde me sentei ao seu lado mal conseguindo esconder o nervoso responsável pela ebulição do meu suco gástrico. Ajeitei o cabelo que me caía sobre os olhos para trás da orelha, e olhei Maria Helena, suada mais uma vez após passar a toalha na cara.
— Eu tinha feito uma promessa, né? — ela perguntou, ajeitando uma das presilhas de seu cabelo, com uma calma que por uns instantes me acalmou também. Talvez ela fosse desistir agora, não havia por que ficar nervoso.
— Fez sim... — eu disse rindo, olhando em seus olhos doces e claros.
— Mas vai querer que eu cumpra agora? Eu estou nojenta!
— Não está nada nojenta. Aliás, você jogou muito hoje. Bola nenhuma passava seu bloqueio.
— Obrigada, mas estou nojenta sim, estou toda suada e está um calor insuportável.
— Não tem problema nenhum pra mim... — não consegui dizer aquela frase olhando para ela. A última coisa que queria era insistir e implorar como um dos autoflagelantes que Natália arregimentava a seu redor, e senti um gosto amargo na boca em pensar que Maria Helena esperava uma atitude parecida de mim. Olhava para a quadra, vendo o zelador que guardava as redes e que devolvia o olhar com cumplicidade. Talvez tenha sido nessa hora. Ela deve ter passado alguma coisa para fazer a boca brilhar. Quando eu voltei a encará-la, seu cabelo estava impecavelmente arrumado, o suor de sua testa havia secado parcialmente, e seus lábios brilhavam.
— Se você diz... — ela abaixou a cabeça e me olhou do jeito mais terno que uma menina já havia me olhado. — vamos cumprir a minha promessa então.
— Tem certeza de que você quer? — eu arrisquei, pois se, por um lado, não queria me humilhar por aquele beijo, também não queria forçá-la.
— É claro que eu quero, Paco, eu gosto de você. Se não quisesse, não teria prometido nada.

Quase não consegui me conter. Ouvir da boca de Maria Helena que ela gostava de mim era mais do que eu podia querer. Claro, olhando em retrospecto, era óbvio que ela gostava de mim. Que tipo de garota bonita e inteligente, afinal, andaria com um moleque cabeludo, antissocial, sem nenhum atrativo aparente, como eu? Mas, com a minha autoimagem, a minha falta de dinheiro, músculos, interesse por esporte, com a minha timidez irremediável, tudo parecia improvável. Quando constatei que era verdade, estava olhando para um ponto fixo no chão, à minha frente, sem de fato ver nada. Foi a mão de Maria Helena em meu rosto que me tirou do transe, levantou minha cabeça e me trouxe para a sempre a possibilidade de ser uma pessoa feliz vinte e quatro horas por dia.
Ficamos ali por umas duas horas, até que seu pai gigante tirou nossa tarde com a mesma facilidade e despreocupação com que a concedera. Disse para esperá-lo na saída do colégio dali a quinze minutos. Quando desligou o telefone, Maria Helena fez uma cara decepcionada e caricaturalmente emburrada, como uma criança a quem proíbem dar mais uma volta no carrossel. Soltou um “que droga...”, mas me deu um último e longo beijo antes de sugerir que fôssemos finalmente.
O sol jogava seus últimos raios na atmosfera da cidade, numa noite quente de setembro. O vento quente, em contraposição à brisa fria de dentro do ginásio, agradou nossos corpos, quentes pelo desejo sexual recém-descoberto.



— Você está todo vermelho, uma bagunça! — riu Maria Helena quando me percebeu andando a seu lado como alguém que também acabara de sair de uma partida exaustiva de um esporte qualquer. E eu estava mesmo suado, descabelado, desidratado pela empolgação da juventude que ainda não conhece os limites do próprio corpo. Dei uma risada tímida, mas porque estava me sentindo bem com o clima daquela noite, e tentei me recompor para parecer tão natural para Felipe quanto estava quando ele e sua belíssima família nos deixaram a sós.
Percebi também que não estava andando naturalmente. Estava mancando de uma perna, porque meu testículo direito doía como nunca. Mais tarde descobri que esse é o preço que o corpo cobra por não levar seus anseios além de beijos calorosos, razão pela qual a maioria dos adultos bem resolvidos pula essa etapa e, tendo o controle da situação, dá um jeito de esticar a noite em um motel, ou em alguma cama igualmente conveniente. Eu, porém, tentei apenas disfarçar ao máximo o meu incômodo e, quando Maria Helena perguntou se estava tudo bem, disse apenas que minha perna estava ainda um pouco dormente. Ela pareceu satisfeita com a resposta, talvez não conhecesse o universo masculino a esse ponto, pensei.
Quando chegamos à saída do colégio, o carro da família de Maria Helena já estava ali, e a acompanhei até o carro, abri a porta do carona como um gentleman e debrucei-me sobre a janela para dar boa noite a Felipe.

— Vamos comer uma pizza com a gente, Paco? — ele perguntou. Puxa, o gigante realmente tinha-me em alta conta. Mas educadamente recusei a oferta, não queria me forçar daquela maneira na vida de Maria Helena, e mantive a cabeça fria nesse momento por mais que o meu desejo me empurrasse na direção oposta. Além disso, não queria que meu passo claudicante desse margem a qualquer suspeita. Tenho certeza de que Felipe, criado em uma época um tanto mais conservadora, já teve sua boa dose de andar de banda, e um Quasimodo reconheceria o outro. Disse que precisava ir para casa, pois meu pai já deveria estar me esperando para a janta, mas não me vi livre da carona que Felipe insistentemente me oferecia, já que nossas casas ficavam em direções iguais tendo como referencial o meu colégio. Entrei então no banco de trás e comentamos algumas partidas do jogo. Felipe elogiou ainda a estrutura do ginásio e dos outros prédios que havia conseguido ver no caminho até o estacionamento, ao que Maria Helena prontamente concordou, demonstrando ter, de fato, gastado duas horas de um sábado a conhecer meu colégio. O gigante não era bobo, mas agradeceu a ilusão misericordiosa.

Deixou-me na esquina da rua de casa com um paternal e verdadeiramente preocupado “Se cuida, viu?”. Maria Helena também se despediu animada, completamente no controle da situação. Nem fria o bastante para manter aparências insustentáveis, nem calorosa demais, mas carinhosa como sempre, deu tchau pela janela, lembrando “até terça”, quando nos encontraríamos na aula de inglês de novo. Eu, embaraçado, desejei boa noite, bom jantar e falei “até terça”, mais ou menos no mesmo tempo, tipicamente embaraçado. Eu era péssimo naquilo, teria de trabalhar minha cara de pau daqui pra frente.

Caminhei relaxadamente pela rua até chegar à minha casa, mas não nego que ensaiei uma dancinha ridícula em algum momento pelo meio do caminho, e que saudei meu spaniel com a mesma felicidade com que ele me recebia todos os dias. Naquela noite, nunca tive medo da morte.



Yuri Al'Hanati nasceu em 1986 no litoral de Paraty (RJ), e reside em Curitiba desde 2004. Formado em jornalismo pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), atuou por quatro anos no jornal diário Gazeta do Povo nas áreas de cultura, cidades e política. Mantém desde 2010 o site de literatura Livrada! (Http://livrada.com.br) e colabora com o portal cultural A Escotilha (http://aescotilha.com.br) com crônicas semanais, além de atuar como cartunista para a Gazeta do Povo, publicando tirinhas diárias.




terça-feira, 2 de agosto de 2016

Ler é: devorar a fome dos outros

Ler é: devorar a fome dos outros

Sheyla Smanioto


Encontrei o Desesterro numa leitura, estávamos lendo em voz alta, eu e Carla, quando ela lembrou que já tinha ouvido essa história, essa história que estávamos lendo e que era o Desesterro, essa história que eu acreditava estar inventando, ela já tinha ouvido. Da vó dela. Uma história parecida, não essa, outra completamente diferente, mas nenhuma história sobrevive exata, essa é a graça, a gente nunca sabe o que as histórias tiveram que fazer para sobreviver.

De minha parte, posso garantir que não conhecia o Desesterro quando comecei a escrever, teria me poupado um bocado conhecer o Desesterro antes, encontrar pela rua, mas eu não conheci, eu tive que arrancar o Desesterro do corpo e da memória como um sonho que eu esquecia e lembrava para poder voltar a respirar. Um acordo que eu fiz com o demônio da escrita, um acordo para viver a loucura sem sucumbir tanto, sem perder o meu tamanho.

Um sonho. Os personagens na sombra, eu ouvia a respiração de cada um deles.

O Marcelino encontrou o Desesterro num parto, o parto da Fátima, a Fátima pariu o Desesterro para o Marcelino, ele circulou com caneta azul bic e disse: aqui está seu romance. Como se me apontasse na maternidade o filho. Meu trecho preferido. O que eu coloquei ali por amor, por puro amor. O que eu achei que fosse escandalizar os leitores. Não os estupros, a poesia. O parto do Desesterro.

Nasceu prematuro, deformado pela vontade que eu tinha (que eu tenho) de usar as palavras com os mortos ainda dentro. De não limpar as palavras. Nasceu sujo, tive que aprender a cuidar, tive que sobreviver ao Desesterro para depois descobrir que tudo talvez seja apenas a sina de quem tem Plutão e Sol em quadratura. Não sei.



Encontrei o Desesterro naquela expressão, “devorar um livro”, essas expressões são a língua falando com a gente, piscando, a língua mostrando o tempo que lambe as palavras suas crias. Os mortos que uivam dentro delas. O que importa. O livro e a fome são tudo que importa. A última frase que escrevi, e escrevi como se todo o livro tivesse nascido apenas para me levar até ali: ler é devorar a fome dos outros.

Poderia também ter dito: escrever é deitar no próprio estômago e brotar antigo.

Eu tentei escrever por mim, sendo hoje, juro que tentei escrever sobre vampiros e outras coisas geração y. Vou dizer que não consegui porque quando a gente escreve assim depois de tanta gente não ter conseguido, a gente tem que escrever com toda essa gente morta na praia, os diários queimados da minha vó, meu tio que registrava em um cadernos todas as notícias, os passes do Corinthians, não posso escrever só por mim. Não hoje.

Pode ser Plutão e Sol em quadratura, astrologia às vezes é profecia: quem nasce assim ou aprende que não controla, ou amaldiçoa gerações e mais gerações de dias. Não sei o que é, se é mesmo sina, mas foi só assim cavando para fora que entendi que todo esse tempo só o que fazia era aumentar minhas próprias mentiras, era deixar enormes cada uma das minhas cismas. Elas não são minhas, nunca foram. Nenhuma pessoa é uma só.

O Desesterro é uma história de terror, nada me assusta mais do que a fome, nada assusta mais o meu corpo do que ele mesmo. O Desesterro é a história de uma migrante, é a história que me pegou pela mão me levou pra São Paulo. Vinte e quatro anos para chegar no centro de São Paulo. Escrevi o Desesterro quando entendi que nem todo mundo é da periferia, que não é sobre a gente que a psicanálise fala, que os livros são os melhores túmulos e as histórias da periferia têm apodrecido à céu aberto.

Essa é uma história do Desesterro.



Sheyla Smanioto, 26, autora da periferia de São Paulo que migrou para se formar em Estudos Literários e defender mestrado em Teoria Literária pela Unicamp. Desesterro, seu primeiro romance, ganhou o Prêmio Sesc de Literatura 2015. O segundo foi selecionado pelo Rumos Itaú Cultural 2016. Escreveu o livro de contos Selfie service (inédito) com apoio do Proac Criação Literária em 2015. Também é autora da peça No ponto cego, premiada pelo IV Concurso Jovens Dramaturgos, e fez parte da Núcleo de Dramaturgia do SESI/British Council em 2013. Trabalha com produção audiovisual e seu curta "Osso da fala" foi premiado pelo Rumos Cinema e Vídeo 2012/14. Mantém o site http://sheylasm.com e um canal no youtube.

Conheça o Desesterro e o trabalho de Sheyla Smanioto

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domingo, 31 de julho de 2016

Da vida das formigas

Da vida das formigas


Eu também sempre me interessei por formigas e por sua organização social. Foi Marujo quem me iniciou ao mundo dessas trabalhadoras subterrâneas. Sentados nos degraus da padaria. Ou da mercearia da Dona Tereza.  Observávamos juntos.  O árduo caminhar das saúvas. Estivadoras terrestres, dizia Marujo. Que nos relatava suas aventuras. E a vida das saúvas. Eu sentia dó delas. Imaginando o peso das folhas sob suas frágeis costas. Diariamente. Incansavelmente. Em fila indiana. Sem qualquer possibilidade de deviância.  Saúvas não se rebelam. Não transgridem. Atuam em função da comunidade. Claro que isto não impedia o meu sádico espírito infantil de atuar.  Atormentando-as. Obstruindo suas passagens. Roubando-lhes as folhas. Esmagando-as, até. Iniciando-me assim à minha triste e inútil condição humana  Mas Marujo alertava. Silêncio. Ouçam o que elas têm a nos dizer. Naquela época havia um imenso formigueiro no zoológico de São Paulo. Onde podíamos contemplar a vida doméstica das formigas. Não a de Marujo. Que não tinha casa. Nem nome. Marujo era Marujo. Simplesmente. Morava num barraco colado ao muro de nossa casa. Minha mãe ofertava-lhe diariamente um prato de comida. Por cima do muro. E Marujo agradecia. Silencioso. Em seu terno escuro. Marujo era negro. E tinha o olhos mareados de álcool. O companheiro da criançada do bairro. Ninguém o menospreza. Diziam que fora rico. Que tinha estudo. E que se jogora na bebida por desgosto amoroso. Marujo amara. E amava suas saúvas. E nos amava. Um dia Marujo sumiu. Abandonou o bairro. O seu barraco. E o meu cotidiano. Hoje já não quase saúvas em São Paulo. Nem Marujos. Talvez tenham fugido juntos. Singrando os mares. Em busca de novos formigueiros. Como os de Ovídio Poli Junior no conto « La Abuela ou Da vida das formigas » que transcrevemos abaixo

Leonardo Tonus


La Abuela ou Da vida das formigas

Ovídio Poli Junior

Este espelho de três faces é, até agora, o único em que podemos buscar uma imagem de nosso destino. Por pequenos que sejam, os atores destes dramas têm seu peso e importância, pois sabemos perfeitamente que no infinito, que a todos nós contém, o tamanho carece de importância e o que se desenvolve no céu obedece às mesmas leis que ocorrem numa gota d’água.
(Maurice Maeterlinck)

As formigas possuem uma organização social bastante complexa. Dedicadas ao trabalho e à edificação da própria espécie, não passam o dia tecendo conjecturas. Nisso eu pensava enquanto o carro em que estávamos deixava para trás um após outro, nos trechos mais íngremes da estrada, os caminhões mais pesados e menos potentes. A caravana cuspia atrás de si uma densa nuvem de fuligem e os motoristas deixavam a porta entreaberta para engolir o vento, tal o calor que o esforço dos motores devia produzir no interior das cabines. Estávamos confortáveis dentro do carro devido à brisa que entrava pelo quebra-vento. Nos outros automóveis, que andavam sempre à esquerda e pareciam deslizar sobre a pista, o tempo e as imagens deviam ser diferentes.

Meu interesse pelas formigas era antigo. Eu as via desde pequeno habitando o chão do quintal em longas fileiras e às vezes entrando pela casa em pequenas trilhas. Eu passava os dias a vasculhar nos livros algo que pudesse estabelecer uma comparação entre os homens e aqueles minúsculos seres e me perguntando se os movimentos coordenados das antenas e das patas não seriam reveladores de uma intenção ou de algo muito diferente daquilo que na escola os professores chamavam de instinto. E dizer isso era tudo e ao mesmo tempo nada — pois as formigas continuavam a povoar o meu pensamento fosse quando eu me distraía nas aulas ou quando me debruçava sobre os livros. De onde vinha aquela agitação febril que as fazia carregar plantas e folhas para armazenar no formigueiro? De onde aquela determinação cega em percorrer longas distâncias e depois voltar em romaria para dentro das colônias?

Mais tarde vim a saber que alguns pensadores formularam a tese de que a desigualdade entre os homens teria origem natural e inata — sendo portanto semelhante à hierarquia que há entre as formigas e as abelhas. Na época não cheguei a nenhuma conclusão, mas nunca pude admitir que coisa parecida pudesse ocorrer entre os homens.

Mas isso foi noutro tempo e agora os caminhões seguiam guinchando os motores sobre a pista enquanto meu tio ia ao volante — a essa altura um pouco zonzo da cerveja que tomávamos a cada parada. A mulher que ia ao lado quase nada dizia, apenas se ocupava em contemplar o vazio através da janela e em fazer um comentário breve sobre uma coisa ou outra.

— É bonito aqui... — dizia ao passarmos diante de uma fileira de pinheiros ou por uma paisagem bovina.
Minha tia aprendera a ficar em silêncio até mesmo durante as tempestuosas crises do marido. Espreitando os seus hábitos, desenvolvera a técnica das observações vagas, que consistia em dizer rapidamente alguma coisa entre as pausas de sua respiração. Houve um tempo em que não podia abrir a boca. Se desandasse a falar, a situação piorava. Com o passar dos anos, no entanto, o marido foi ficando cada vez mais furioso com aquele mutismo, até que passou a interpretá-lo como uma espécie de escárnio e ela teve então que retomar a sua loquacidade moribunda.

O silêncio era uma virtude cultivada em segredo pelas mulheres da família. Era pelo silêncio que elas sustentavam a nostalgia romanesca daquele seu matriarcado impotente. Minha avó, que eu me lembre, nunca chegou a dizer palavra: apenas dirigia os olhos azuis de criança em nossa direção. Nos dias de Natal, deixava para cada um dos netos uma nota dobrada dentro de um envelope branco. Talvez o poder abstrato das cédulas substituísse o das palavras ou quem sabe a imagem fugidia daquilo que poderiam comprar se impusesse em nossa fantasia com mais força do que os presentes deixados em torno da árvore e que uma vez abertos exerciam somente a atração do que é idêntico a si mesmo. O fato é que toda aquela fauna de brinquedos desapareceu rapidamente da nossa memória, ao passo que os pequenos envelopes brancos permaneceram com seu fascínio misterioso.

Os homens da família falavam muito e sempre alto — com exceção do tio Bermiro, que quase nunca aparecia e vez ou outra era encontrado na sarjeta consumido pela tristeza e entorpecido pelo álcool. Havia também o tio paralítico, na verdade com parte do corpo adormecido por um derrame. Passava os dias em uma cadeira de balanço e nela estava preso há anos, lutando contra as amarras que lhe embaraçavam a língua. Por vezes, era possível vê-lo esboçar um movimento quase imperceptível com o tronco e balbuciar as suas palavras no ar.

— Olhem, que lindo...
Era minha tia quem falara, aproveitando a hora em que o marido trocava de marcha para ultrapassar um caminhão que se arrastava intrépido e sôfrego sobre a pista. O caminhão transportava uma carga descomunal de galinhas e pela exaustão das aves dentro dos caixotes e também pela poeira que se havia acumulado na traseira era de se ver que estavam bem longe de casa. Eu olhava a silhueta baça e dourada dos meus tios contra a luz que atravessava o para-brisa e voltei a pensar nas formigas. Algumas espécies, segundo os livros de entomologia, chegavam a caminhar distâncias imensas e podiam carregar um peso muitas vezes maior do que o do próprio corpo.

Paramos novamente em um restaurante à beira da estrada para esticar as pernas e tirar a água do joelho (como meu tio fazia questão de dizer). Uma balconista bela e sonolenta veio nos atender e apoiados num balcão metálico tomamos outra cerveja. Comemos três coxinhas e falamos um pouco entre um copo e outro — coisas de ocasião, próprias de um tio e de um sobrinho que se haviam distanciado e só agora se davam conta do quanto o antigo vínculo havia apodrecido. Dizer tio seria quase obscenidade: apenas um rosto franzino escondido por detrás de uma barba anacrônica de pelos ruivos cravados fundo nos sulcos da face e cultivada ao longo dos anos de acordo com as exigências da profissão — já que eu pensava que de algum modo era necessário manter uma certa dignidade quando se passava os dias desbastando calos e tratando unhas encravadas de pessoas anônimas. Anos depois, quando minha mãe foi obrigada a exercer o mesmo ofício, examinei a questão sob outro ângulo e cheguei à estúpida conclusão de que a dignidade pode ser cultivada de várias formas — inclusive sob a capa da humilhação.

Passamos por um corredor coberto de samambaias e pequenos vasos de cerâmica, ouvimos o crepitar de uma caixa registradora e caminhamos em silêncio em direção ao carro. Um pouco abaixo da porta, rente ao pneu dianteiro, uma chusma de formigas se precipitava em torno de uma lata de refrigerante que algum motorista deixara cair sobre o chão de paralelepípedo antes de enfrentar o calor da estrada.

Gastamos um pouco mais de borracha rodando sobre o asfalto e deitamos poeira sobre a vegetação ao enveredarmos por estradas de terra e caminhos vicinais. Quando chegamos ao cemitério fui ao encontro de meu pai, que tentava inutilmente atar as duas pontas de sua existência. Ao vê-lo cambaleante e dividido entre suportar a dor da perda e não deixar desabar o filho foi que me dei conta da terrível notícia. A abelha-mestra havia morrido.

Não cheguei a ver seus olhos: parei a poucos metros do esquife, o suficiente para perceber a imobilidade impassível da morte com seu silêncio pétreo e mineral, a frieza glacial e a palidez atroz daquele rosto de cera. Um pouco abaixo do caixão, que fora colocado em uma espécie de maca suspensa sobre rodilhas, centenas de formigas caminhavam em várias direções. Os livros diziam que as abelhas se comunicavam por meio de movimentos e do olfato e eu ponderava que não devia ser muito diferente com os insetos terrestres. Por certo aquele exército que ali estava tinha vindo de muito longe, contornando os obstáculos e abrindo caminho pelo gramado da necrópole. As formigas estavam excitadas e traçavam no chão pequenos círculos que se tocavam em vários pontos e por vezes formavam cruel espiral, atraídas pelo cheiro de éter ou pelos odores da morte que o engenho humano tentava em vão dissipar.

Estavam lá os tios e tias e toda a vasta parentada mas não consigo rever os seus rostos pois tudo era turvo e o lugar estava coberto por um negrume denso e leitoso. Lembro-me apenas do tio mais velho que articulava empréstimos bancários informais entre os irmãos. Vivia sempre ocupado com as cotações e chegou suado e esbaforido ao enterro — em tempo porém de assinar o livro de condolências e de verter uma ou outra lágrima.

Não consigo determinar com exatidão em que circunstâncias os nossos encontros familiares foram se tornando mais escassos. Mas os livros estavam certos: morta a rainha, toda a colônia se extingue. Pelo menos era assim com a maioria das espécies. O fato é que nada restou daquelas cerimônias ruidosas em que todos se abraçavam e os pratos velhos eram atirados à rua ao bater da meia-noite. Como que percebendo a excitação que havia no interior da casa e escondidas sob a folhagem da velha árvore coberta de flores brancas as cigarras faziam um barulho estridente e contínuo. No dia seguinte alguns mendigos vinham espreitar o portão — do qual guardavam respeitosa distância como a querer demonstrar que a sua presença ali era apenas transitória.

A cada ano, por essa época, as famílias do bairro davam início a uma nova ofensiva de filantropia. As sobras da ceia eram colocadas com cuidado em pratos de papelão zelosamente cobertos com guardanapos de papel e envoltos em folhas de alumínio. Vestidos de terno e aparentando alguma distinção, aqueles homens que vinham corvejar a casa eram em tudo diferentes dos mendigos da capital: recebiam a oferta com uma humildade solene e iam embora depois de fazer uma breve reverência — mas ainda assim submetidos à consciência do outro e ao olhar comum e inevitável que os reduzia à condição real de suas vestes.

Talvez isso não ocorresse apenas com os mendigos — pois logo após a morte da matriarca a sala que antes abrigara a nossa algaravia de criança foi cortada ao meio e deu lugar a dois aposentos, num dos quais passou a funcionar uma alfaiataria. Sob a luz escassa do velho lustre de cristal todos puderam ver pedaços de giz colorido, réguas de madeira e tesouras de vários tamanhos repousando sobre os tecidos, o papel manilha e os moldes. Pelas mãos da filha mais velha — que aos poucos se libertava dos cuidados junto ao marido moribundo — uma decadente família que prosperara com o pequeno comércio de café voltava agora ao ofício artesanal.

Estávamos em Campinas, nos estertores do regime militar. Por essa época, em vários cantos do país, imensas e ordeiras colunas tomavam as ruas e marchavam sobre o asfalto. Como formigas atacando uma colônia de cupins, apareceram de todas as direções, fizeram algum barulho e voltaram depois para os seus montinhos de terra.

O nosso pequeno formigueiro continuou a existir por algum tempo e da antiga casa preservou-se apenas a estrutura. O papel de parede foi trocado e deu lugar a estampas coloridas. As calhas e telhas foram substituídas e a sala ficou desafeiçoada com os inúmeros quefazeres que se somaram à vida econômica da família. Os mendigos não usam mais ternos rotos e já não se quebram pratos velhos como naqueles dias.

Quanto à velha árvore, foi cortada tão logo chegou o inverno. O chão de terra onde ela fincara suas raízes foi coberto por ladrilhos brancos e por falta de abrigo as cigarras foram ressoar os pulmões em outro lugar. O tio doente foi definhando aos poucos e quando um certo dia viram que ele não se movia na cadeira houve uma certa consternação na casa — que nunca mais foi a mesma sem a presença silenciosa e terna de minha avó de olhos azuis que as formigas levaram.

( Da antologia de contos, "Sobre homens e Bestas")




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Ovídio Poli Junior foi finalista do Prêmio Guimarães Rosa/Radio France Internationale (Paris) e teve destaque em concursos e prêmios literários brasileiros: Paranavaí, Paulo Leminski, Luiz Vilela, FLIPORTO, Unicamp 40 anos e Newton Sampaio. É graduado em Filosofia (USP), mestre em Educação (USP) e doutor em Literatura Brasileira (USP). Publicou O caso do cavalo probo (narrativa satírica), Sobre homens & bestas (contos) e, para crianças, A rebelião dos peixes. Participou da FLIPORTO (PE), do Fórum das Letras de Ouro Preto (MG), da FLIMAR (AL), da Feira do Livro de Jaraguá do Sul (SC), da FLAP (AP), do Festlatino (PE), da Flipinha (programação infantil da FLIP) , da FLIST (RJ) e da Ciranda Literária de Macaé (RJ). É curador da Off Flip das Letras e do Prêmio Off Flip de Literatura em Paraty e editor do Selo Off Flip. Ministra oficinas, cursos e palestras na área de literatura, é colaborador do jornal Rascunho e presta assessoria e consultoria a eventos literários, além de atuar como mediador em mesas de debate.



terça-feira, 26 de julho de 2016

Vamos jogar chutebol ?



Vamos jogar chutebol ?

Leonardo Tonus

Quando pensamos em alfabetização não podemos esquecer dos pressupostos apresentados por Emília Ferreiro e seus colaboradores na década de 80. Foi ela quem produziu uma verdadeira revolução conceitual na alfabetização, desmontando explicações que havíamos construído ao longo de décadas para justificar o fracasso escolar de crianças brasileiras na fase inicial da alfabetização.

Se antes o foco de atenção estava centrado na figura do professor que ensina, desde o trabalhos desenvolvidos pela educadora este passou a ser no aluno que aprende. Suas idéias mudaram radicalmente as perguntas que orientavam os estudos sobre a aquisição da leitura e da escrita na alfabetização. Emília Ferreiro coloca a criança como ser capaz, mesmo muito pequena, de criar hipóteses, de testá-las e de criar sistemas interpretativos na busca de compreender o universo que a cerca : este mundo feito de coisas grandes e pequenas que nos revela o mais recente livro de Henrique Rodrigues, Palavras pequenas.



O livro conta a historia de Léo, que, como este que vos escreve, adorava ver os detalhes do mundo : sua casa, seu bairro, os objetos que o cercavam, os adultos e os amiguinhos com os quais convivia.  Mais do que observar, o Léo de Henrique Rodrigues gostava mesmo era de aprender o nome de tudo e de criar palavras.  O desenho animado ficava, é claro, mais divertido na tevelisão, assim como o chutebol que ele jogava com seus amiguinhos desmagrecidos. O Léo de Palavras pequenas ( e este vosso redator já bem mais grandinho) achava estranho o fato de palavras pequenas designarem coisas grandes, e vice-versa. A jabuticaba miudinha ter um nomão desse tamanho, era um absurdo ! Tava tudo errado ! Por isso ele (e eu) reinventa tudinho de acordo com o que considerava correto.

Ao abordar essa poética natural das crianças, especialmente durante a fase de alfabetização, Palavras pequenas  trata da fascinação das crianças pelas descobertas e do sentido das coisas do mundo. Um livro pequeno que  dissimula grandes coisas. E que mostra como foi errando que Léo um dia cresceu e virou Leonardo. E que foi sempre errando que este Leonardo ( o Tonus, como alguns costumam me chamar ) descresceu e virou para sempre Léo. O erro não é fonte para castigo, mas suporte para (des)crescimentos.

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Henrique Rodrigues nasceu no Rio de Janeiro. Formado em Letras pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), cursou especialização em Jornalismo Cultural (Uerj), mestrado e doutorado em Literatura na PUC-Rio. Trabalha no Sesc Nacional, como assessor técnico em literatura, coordenando projetos de incentivo à leitura e circulação de manifestações literárias. É autor de vários livros infantis e juvenis, além do livro de poemas A musa diluída e do romance O próximo da fila.



Anabella Lopez nasceu em Buenos Aires. É formada em design gráfico na Universidade de Buenos Aires, onde também lecionou por vários anos. Foi professora da Sótano Blanco, primeira escola de ilustração de Buenos Aires. Desde 2009 trabalha exclusivamente como ilustradora e autora de livros, publicados na Argentina, Brasil, México, Estados Unidos, Canadá, França e nos Emirados Árabes. Suas ilustrações já foram expostas na Argentina, Brasil e Itália. Foi vencedora do Jabuti de 2015 com o livro A força da palmeira, na categoria de Ilustração de Livro Infantil ou Juvenil. É autora de mais de vinte títulos e alguns dos seus trabalhos já foram animados para a TV pública argentina.


domingo, 24 de julho de 2016

Sidney Sheldon, churros e outros bichinhos

Sidney Sheldon, churros e outros bichinhos

Leonardo Tonus

Eu não tenho medo de fantasmas. Nem desses outros bichinhos maldosos. Com seus olhos esbugalhados.  Seu dentões. E babas cheias de sangue. Hoje eu não tenho medo.  Mas antes eu tinha. E muito. A Sessão Coruja e seus Freddys.  As Sextas-feiras 13 na sessão da madrugada.  As unhas do Zé do Caixão me davam arrepios na espinha. Sem falar da queda de Alice pelo buraco da televisão. Assistia a tudo. E à noite, enrolado debaixo das cobertas, sabia que as Suzy da minha irmã (prenúncio das botoxadas Barbies) viriam, uma hora ou outra, perfurar meus olhos. Em algum lugar debaixo do guarda-roupa havia sempre um vampiro sedento. Ou um zumbi esfomeado querendo se deleitar de minhas parcas carnes. Sim, eu tinha muito medo desses bichinhos maldosos. Que me davam muitos arrepios. Mas hoje não. Homem feito. Barbado. Cinquentão. Nem pensar ! Arrepiar-se ? Só com o rombo de minha conta bancária no final do mês. Com a minha calvície. Com os xenofóbos. Com os racistas. Com os sexistas. E com todos esses outros bichinhos maldosos. Que, hoje, por aí, pululam. Deles, eu tenho medo. E muito. Mas de fantasma, não ! Por isso encaro com tranquilidade o livro Fome de Márcio Benjamin.
O rostinho na capa todo ensangüentado já dá o tom certeiro. Um netinho do Freddy das sessões coruja.  Já conheço o universo de Márcio. E o seu terror sertanejo. Maldito Sertão. Bons contos. Escrita enxuta. Excelente trabalho de aclimatação de um gênero literário em voga. Gostei deles. Ouso confessar. Gostei. E muito ! Professores de literatura não gostam de livros de terrror. Eu, sim. De terror. De gibi. De bula de remédio. Curto a descorberta de um mapa rodoviário. E a leitura de uma Barsa. Mas doutos professores, não !  Só buscam coisas complicadas. Escrevem difícil. Falam enrolado ! 
Eu sou enrolado. Complicado. E difícil. E gosto de Rawet, de Clarice, da norueguesa Wassmo, de Adrinha Lisboa, de Elvira Vigna, de Paula Fabrio, de Marcelo Maluf, do Marcos Peres, da Claudia Nina, de Lucia Hiratsuka.  E de tantos outros. E do Papillon. E do sex drugs and rock and roll de um Sidney Sheldon. Pronto ! Declaro publicamente pelos telhados de Paris. E sem vergonha. Com 13 anos de idade li Um Estranho no Espelho. Gostei. E tive muitos arrepios com ele. Acho que li todos os Sheldon. Emprestados na biblioteca. Foi assim que tudo começou. Lá em São Bernardo do Campo. Onde tinha Dona Delmina.


Dona Delmina gostava das subordinadas. E eu, de suas concessivas. Os emboras de minha professora de português eram estupendos. Com Dona Delmina aprendi o poder das atenuações.  O valor das refutações. E a liberdade da escolha. Dona Delmina nunca foi revolucionária. Mas era de São Bernardo do Campo. O que já a tornava um pouco rebelde. Como nós. Que gostávamos daquela cidade feia. Cinzenta. Garoenta. Poluída.  São Bernardo da borda do Campo.  E sua Rodolândia. O frango com polenta. A Via Anchieta. As sessões pipoca na discoteca.  E a molecada pulando corda na rua. São Bernardo com seus teatros. Que hoje já não existem. Lá ouvi Tetê Espíndola. Ouvi Tarancón em minha fase bicho grilo. Lá vi uma azaleia. Passarinhos nos fios caídos. A Vila Euclides. Lá tinha operários. E greves.  E tinha livros. Lá também tinha muitos churros. Naquela época as pessoas se sentavam na pracinha do centro para comê-los. Meus churros em São Bernardo tinham recheio de operário e gosto de revolta. Tudo por causa de Dona Delmina.
Dona Delmina era esperta. Proclamou um dia.  Leiam 500 páginas e terão um A. 200, um B. Com 100 garantem um C. E eu naquele corpo macilento em que só espinhas teimavam crescer  descobri a biblioteca municipal. Sidney Sheldon. Stephen King. E muitos outros. Hoje sei o quão frágil é a liberade. Por isso assumo. E declaro. A todos. E à Dona Delmina. Li Fome de Márcio Benjamin. E gostei.


Na verdade, eu o devorei ontem à noite. Como seus zumbis.  Devorando os habitantes daquela pequena cidade. Um por um. Esfomeados. Por conta da pobreza do sertão. Claro que não vou contar a história do livro. Sem arrepios não há livro de terror que se preze.  E só os malvados contam o final das histórias em sua resenhas. Os malvados. E os doutos professores. Que também não comem churros. Em Paris, comi um. Não tinha gosto. Nem recheio de operários. 
Acabo de pesquisar a vida do Sheldon no google. E terminei Fome de Benjamin. Terminei rapidinho pois sei que eles virão. Aliás, já chegaram. Trouxeram as Susy de minha irmã. A Alice. O Zé do Caixão. O Freddy. E o carinha da serra elétrica. Mas reitero: de fantasmas e desses outros bichinhos maléficos, eu não tenho medo!
Ouvi passos. Alguém  arranhou a porta. Tem um cheiro de enxofre no quarto. Eita, to todo arrepiado !  


XXX

Um pouco de leitura

Fome

Andou pela cozinha meio sem vontade e se escorou na meia-porta bem pintada, olhando praquele nada sem fim, mesmo em frente.
E então.
Bem de longe.
Apertou a vista, machucada de sol.
Lá de longe.
Fez uma sombra com a mão e procurou entender.
Era gente?
De onde?
Cansados, se arrastando, tal e qual fosse a sua vaca véia, pouco antes de morrer.
Mas era gente sim, tanta gente.
Mas.
Não tão longe mais.
Descompassado, foi o coração que avisou.
Viram.
Se arrastavam mais não.
E Zefa quase riu ao se lembrar das histórias dos cangaceiros.
Cangaceiros. Ainda tinha?
Era mulher sertaneja sim, de fibra, de força, mas enfrentar tantos com facão de torar galinha? E vinham levar o quê, pela caridade?
Correu pra fechar a porta.
Mas quando deu fé, já tavam em cima.
Deu tempo não, foi colocar a tábua e o primeiro se jogar pra cima da madeira.
Batendo, gritando, gemendo.
Era gente?
Zefa correu pro canto da cozinha.
E já ouvia os gritos de bicho pela casa toda, por todo o descampado, vazio de tudo.
Quem ia ouvir?
Tantos, tantos.
Homem, mulher. Menino até.
Tantos que a porta pintada, mas velha, ainda tentou cumprir a obrigação até se partir em um creco doído.
No canto, Zefa não acreditou.
Era gente?
Loucos, loucos, minha Nossa Senhora, roupas rasgadas, fedendo como a peste.
Partiram foi pra cima.
Ingênua, ainda tentou oferecer a galinha.
Mas o primeiro logo lhe segurou pelas orelhas, e numa dentada mais que certeira, rasgou-lhe a garganta, partindo com os dentes o escapulário no meio do caminho.
Era gente aquilo?
Foi tão combinado, que quase se pode dizer que era uma procissão.
Mas foi nada. Blasfêmia até.
Garganta, braços, peitos.
O sangue lavando o chão.
Restos de galinha e de mulher espalhados pela cozinha.
Na mesa da pia, o rádio fazia coro praqueles dentes mastigando juntos.
Todos.
No cantinho, o coração de Jesus, mesmo aceso, não pôde fazer muito não.
Era fome.

Marcio Benjamin na Sorbonne

Márcio Benjamin Costa Ribeiro, um natalense, do Estado do Rio Grande do Norte, tem 36 anos, trabalha como advogado, formado pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), e costuma apresentar-se como um escravo das letras. Desde os treze anos é metido com lápis e papéis, tentando mostrar aos outros um pouco do que se passa em sua cabeça. Participante usual de antologias de terror (Noctâmbulos, Caminhos do Medo, pela Editora Andross), também já fez muita gente rir com suas peças de teatro (Hippie-Drive, Flores de Plástico, Ultraje). Tenta tornar público seus contos exibidos com uma certa freqüência no site www.umanjopornografico.blogspot.com. Maldito Sertão é o seu primeiro livro, de contos que acaba de ser quadrinizado pelo coletivo K-Ótica. Lançado em 2012 pela Editora Jovens Escribas, foi considerado um dos melhores livros de 2012 e 2013 pelo Troféu Cultura Potiguar.  de ser quadrinizado pelo coletivo K-Ótica. Em 2016 lança o seu primeiro romance Fome, o qual narra as agruras de um grupo de pessoas as quais tentam sobreviver a um apocalipse zumbi em uma pequena cidade do sertão, sem qualquer contato externo. O autor participou da 3° edição do Printemps Littéraire onde apresentou no Salon du Livre de Paris e na Universidade da Sorbonne sua antologia de contos. Marcio Benjamin é também convidado da Flipipa de 2016.