segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Uma erótica da leitura


Ler o quê? Como? Para quê?
Por Leonardo Villa-Forte

Torna-se cada vez menos frequente um momento em que não estejamos lendo. Lemos emails, mensagens, comentários, placas de direção, nomes de lojas, preços de produtos, pixos nos muros, correspondências e a multa que lamentavelmente chega em nossa casa. Entre uma coisa e outra, de acordo com a fatia de tempo permitida pelo cotidiano de cada um, lemos livros também.

Está claro que o impresso hoje não é o veículo único para a leitura. Ainda assim, a “vida literária oficial” (prêmios, resenhas, matérias, cursos, concursos) gira em torno deste objeto. Tal “vida literária” é, obviamente, um ganho inestimável, principalmente num país em que a valorização do livro como veículo para leitura ainda está se construindo. A inserção do livro no dia-a-dia brasileiro me parece uma meta que toda secretaria de cultura, entre outros agentes, deveria ter. Faz pouco tempo vi um vídeo do discurso do Julian Fúks na entrega do Jabuti e achei curioso como o mise-en-scène, não do autor, mas do Prêmio, lembra muito o de um evento como o Oscar. Suspeito ser uma tática de guerra: fazer a literatura disputar o campo dos eventos (geralmente concentrado em categorias como esportes, música e audiovisual) apropriando-se dos códigos desses eventos, mas colocando a literatura (ou o autor?, é outra questão) no centro. Se isso fizer com que as pessoas leiam mais livros de literatura contemporânea brasileira – além de ajudar o autor a sobreviver e continuar trabalhando em sua arte – vale muito. Uma medida que poderia ser interessante em eventos, prêmios, festivais e etc, seria incluir mais a leitura dentro dos eventos, assim como nos eventos de cinema nós vemos trailers/trechos dos filmes, se me permitem um pitaco. Ou realizar eventos com leitores no palco, não em oposição, mas em acréscimo aos eventos com autores. Mas bem, voltemos à pergunta: Ler o quê?



A audição pode ser o sentido mais traiçoeiro, pois é impossível fechar os ouvidos, mas ultimamente tem sido tão difícil fechar os olhos e fazer uma escolha consciente do que iremos ler… Somos atravessados de maneira incessante por leituras que não pedimos ou não decidimos de livre e espontânea vontade que chegassem aos nossos olhos. Demandas de trabalho, demandas de atualização sobre “o que está acontecendo”, postagens e compartilhamentos nas redes sociais, notícias.... Colocando tudo isso de lado, eu diria que o primeiro critério, a meu ver, para decidir o que ler é o prazer. É um critério subjetivo, então não tenho como responder objetivamente à questão sobre “o quê” ler. As minhas preferências passam por dois critérios: como já dito, primeiro, o critério do prazer. Ler o texto que você sente que está caminhando junto com você (mesmo que ele, em termos de conteúdo ou forma, esteja à sua frente, mas nunca atrás). Gosto de pensar que essa sensação do junto – de não estarmos sozinhos quando se lê determinado livro – se dá por uma espécie de fio invísivel que as linhas do texto lançam ao nosso peito, e, por vezes, tocam nossa pele e retornam ao livro sem nos causar dano, mas em outras, elas nos perfuram e causam uma dor gostosa que é a de um novo alfinete no coração. E quando falo de “leitura que caminha junto” não estou falando apenas de seguirmos como observadores passivos de um enredo, mas de um sensação de que aquele texto ou obra te toca, diz respeito a você ou aos seus gostos, ou à sua curiosidade (te apresenta algo ao qual você adere). Tenho interesse pela abordagem que Susan Sontag propõe como “uma erótica da arte”. O prazer do texto, de estarmos juntos aos seu corpo, antes da construção de interpretações. Antes, e não em oposição a. Isso pode estar na leitura de um romance, num livro de contos, poesia, num ensaio, numa graphic novel, numa coleções de entrevistas, num artigo que nos lança novas questões ou nos esclarece outras…

E aí entra a segunda razão para ler: a leitura que traz algum conhecimento ou contextualização ao qual ainda não temos acesso. Podem inclusive alterar o nosso prazer – dirigir as nossas leituras para novos terrenos. Mas é claro que essas definições (prazer/conhecimento) são estanques. Na realidade, os dois “motivos” muitas vezes chegam misturados, como nas minhas leituras recentes de Atmosferas urbanas, de Armando Silva e The faith of graffitti, com texto de Norman Mailer – que me mostraram a cena de arte urbana da Colômbia, e como ela, desde os anos 1980, é predominantemente textual; e como a Polícia, a Prefeitura e a população de Nova York tratou violentamente o início do graffiti nos anos 1970 em suas ruas e metrôs. Os dois “motivos” estiveram juntos também nas minhas leituras de Submissão, do Michel Houllebecq e dos quadrinhos da série Um árabe do futuro, do Riad Sattouf, uma dupla que me deu noção maior da tensão entre Oriente Médio e Europa. Assim como nos contos de O tradutor cleptomaníaco, livrinho gracioso, que vem da tradição do leste de pequenos causos ligados a pessoas comuns, e, com humor fino, trabalha em cima da nossa relação problemática com o dinheiro e a aquisição.

Penso que a leitura por prazer está sempre nos trazendo algo que temos em nós e esquecemos ou não formulamos de modo compreensível para nós mesmos. Este é um ótimo motivo para ler: compreender melhor a si mesmo. No meu caso, leio interessado nessa conjugação: uma linguagem que me seduza e um abordagem, operação, procedimento, efeito ou conteúdo que amplie aquilo que chamam de “minha visão”. Ampliar “minha visão” não precisa ser conhecer mais do graffiti em Nova York ou entender as questões do Oriente Médio, mas pode ser – e no meu caso é mais frequente –  ler um romance satírico para entender como determinado autor construiu esse gênero na sua obra; ler uma autora e ver como ela trata um personagem esquizofrênico, ler para ver como foi tecida a voz do narrador-criança, ler tentando “desmontar” o roteiro do livro, conhecer novas linguagens que estão sendo experimentadas, descobrir como um escritor desenvolveu o fiapo mínimo de enredo do seu livro, entender como um feto poderia falar e o que ele falaria – pensando no recente Enclausurado do quase sempre excelente Ian McEwan. A curiosidade é um dos melhores motivo para ler. Arrisco dizer que não há curioso de verdade que não leia.

Eu poderia ainda dizer um terceiro motivo: ler para inspirar. Há trechos de Ó – que nunca li de cabo a rabo, pois para mim não é assim -, do Nuno Ramos, que colei num mural na porta da minha cozinha e desde então esses parágrafos ficam comigo como clarões no matagal. Só na porta da minha cozinha eu percebi a força daquilo (e isso mostra como é importante, em certos momentos, transgredir o “modo de usar” da obra e gerar um outro, imprevisto, mas que será o seu e fará ela ter significado para você). Há trechos de John Cage que iluminam e expandem a ideia de criação. A estética do Lourenço Mutarelli, que admiro muito, e é sempre uma paisagem no horizonte. Trechos de Julio Ramon Ribeyro que instalam a risada em meio às pequenas desgraças. A voz musical e sempre olhando pra frente de João Gilberto Noll. As liberdades maravilhosas que Sérgio Sant’Anna, Cesar Aira e Lydia Davis se dão, e, assim, nos dão. E os trechos de Beckett que me dão dor de barriga e secam minha saliva. Tudo isso é inspirador. Acho que, ao final, busco leituras que me permitam continuar desejando ler. E se me estimularem a escrever, podem ser um alfinete a mais no meu coração.



Já sobre a questão de como ler, sinto que cada livro sugere como devemos lê-lo, e tento estar aberto a isso: não encarar cada livro como mais um livro. Para mim, a leitura tem muito de excercício de flexibilidade. Não se entra num romanção como O mestre e a margarida – divertidíssimo – da mesma maneira que se entra nas curtas e diversas Prosas Apátridas ou nos poemas-ensaio de Um teste de resistores ou na lucidez inventiva de Uma literatura nos trópicos. São coisas bastante distintas, cuja única semelhança, além de serem textos, é estarem materializadas sob a mesma forma do códex. Faz parte da beleza o fato de que para descobrir como ajeitaremos o nosso corpo ao corpo do livro, e o nosso tempo ao tempo do livro, é preciso dar início a ele sem termos essas respostas de antemão. Só depois de algumas páginas intuiremos como podemos promover essa relação. Às vezes conseguiremos manter essa conjugação por mais tempo, às vezes por menos. Há livros que consigo ler no metrô e no ônibus e aqueles que só consigo ler em casa. Há livros que leio grifando ou rabiscando quase toda página e há livros em que o melhor é seguir sem se intrometer nas suas margens. Há livros que consigo ler enquanto leio outros, e livros os quais entendo que precisarei terminá-lo antes de começar a ler qualquer outra coisa. Poesia, por exemplo, prefiro ler aos poucos. Nunca leio um livro de poemas de uma ponta até a outra de uma vez só. Leio dois, três poemas, e eles me bastam. Fico com aquilo. Levo alguns dias até voltar ao mesmo livro e ler mais dois ou três.

Nunca terminei de ler o Folhas de relva, do Walt Whitman, pois toda vez que pego o livro meus olhos recaem sobre “Eu celebro a mim mesmo,/E o que eu assumo você vai assumir,/Pois cada átomo que pertence a mim pertence a você.” – os primeiros versos – e isso me assusta, me assombra, me comove, e não consigo seguir, de uma maneira que muito me alegra. Então de vez em quando eu pulo as primeiras páginas e vou para o meio do livro, e leio novos trechos dele, com certa satisfação triste por finalmente conseguir estar em contato com outras partes além do início hipnotizante.

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Leonardo Villa-Forte é autor do romance O princípio de ver histórias em todo lugar (2015, editora Oito e Meio), do conto Agenda (2015, Megamíni/7Letras) e da coleção de contos O explicador (2014, editora Oito e Meio). Tem trechos, contos e ensaios publicados em jornais e revistas pelo Brasil, como nas revistas Pessoa, Arte & Letra, Rascunho oline, revista serrote, e traduzidos para sites e revistas em inglês e espanhol. Criou a intervenção urbana-literária Paginário e a série de colagens MixLit. Graduado em Psicologia pela UFRJ com intercâmbio em Salamanca, Espanha, é mestre em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-RJ.

domingo, 4 de dezembro de 2016

Jingle Bells

Jingle Bells
Por Leonardo Tonus


Foi em 1992. A bolsa que recebia do governo francês mal cobria minhas despesas de alimentação. O inverno era rigoroso. Em Leipzig. Sob nevascas, a Alemanha reunificava-se. E apagava sua história. Às vésperas da euforia econômica brasileira. Às vésperas. Pois as coisas são sempre vésperas. Sempre, Clarice.  Perdoai-me lembrai-vos, porque quanto a mim também não me perdôo. A  clarividência. Em 1992. 

Meu primeiro adventus, sem Messias. Ela que não era religiosa. Nem tampouco eu. Sob a luz de velas, tomamos um chá. Partilhamos uma fatia de Christstollen. E compartilhamos nossos silêncios. Ambos amassados no terror. Que evitavara os cadáveres da Altstadt da Auhenheinerstraße onde até hoje reside. E os gritos de tantas outras mulheres.  Em 1945. Sob os escombros da Frauenkirche de Dresden. E de 1992. No cerco de Sarajevo. 

Ela que me alugava um quarto. Próximo ao Ring. Numa Leipzig ainda cinzenta. Cheirando à carvão. Com seu aquecimento de ladrilhos. Também à carvão. E que me obrigava a conservar as janelas abertas. Apesar do inverno rigoroso. Do golpe de estado de Fujimori no Peru. Do assassinado do escritor egípcio Farag Foda. Da abertura da Eurodisney em Paris. E do frio. Que me devorava as entranhas. Famintas. Dos meus vinte e cinco anos. Sob os berros dos protestos xenófobos que se espalhavam pelo país. Até o meu quarto. Com suas janelas verdes. Janelas do caos. Entreabertas. Até hoje. 

Às trincheiras de Verdum. Aos gritos de Sabra e Chatila. Às ruas de Alep. À selva de Callais. Aos golpes de estado. E aos olhos marejados. Daquela que também com suas mãos rugosas. Sob os escombros do que um dia fora carne, sangue e humanidade. Não implorava esmola. Mas ninava. Em plena rua Agusta às 14 horas de uma segunda-feira. Uma boneca de plástico. Oculta de Deus, Murilo. 

O mundo abria-se em sangue. 
E meu coração. 
Até hoje. 

sábado, 3 de dezembro de 2016

A literatura é um exercício de alteridade

©Amanda Gracioli
A literatura é um exercício de alteridade
Por Natalia Borges Polesso

O mercado editorial brasileiro contemporâneo : entre diversificação e homogeneização.
Não sei se é só comigo ou se isso é recorrente com outros escritores, mas eu me sinto muito distante de saber como funciona mesmo o mercado editorial. Pra mim é um mistério. Só posso falar como consumidora. Desconheço seu funcionamento, suas preferências, seus agentes, mas conheço alguns editores, lutadores que admiro e respeito muito. Gente que aposta e que faz um trabalho essencial. E dentro disso, o que noto é a proliferação de publicações e iniciativas.  O esforço dessas editoras pequenas e médias ecoa nas prateleiras, nos veículos de comunicação e em prêmios literários. Isso é algo pra celebrar. Tenho visto também, muitas iniciativas que correm paralelas ao mercado e acho salutar. Zines, edições caseiras, cartoneiras, literatura independente e de boa qualidade transbordando em feirinhas paralelas, festas, saraus, eventos em livrarias-resistências. Torço, portanto, pela diversificação. Mas essa só funciona, só pode ser vista e contabilizada se olharmos atentamente tanto o conjunto do mercado quanto os pequenos movimentos que correm em suas margens.

Entre "selfies" e "livros": que futuro para as feiras e festas literárias no Brasil?
Quero a literatura espalhada em grandes e pequenas feiras e que essas recebam sempre atenção e que não se monopolize seu status. Toda feira ou festa literária é importante porque celebra a literatura, porque a aproxima do leitor. Quanto ao meu interesse pessoal, quero conhecer mais gente que escreve, quero saber mais sobre o que me interessa, quero curadorias pensantes para debates e eventos. Quero sim selfies e fotos e todo tipo de registro, porque isso é possível apenas agora e qual é o problema?  Quero livros e mais livros e poesia falada e slams e repentes. Quero histórias dos outros, minhas, tuas, nossas circulando pelo mundo pra que ele seja menos monotemático, menos careta, menos triste, menos injusto.

Internacionalização da literatura ou exportação do livro brasileiro?
Depende do aparato que se tem disponível em termos práticos de divulgação. Isso precisa ser pensado de maneira que o personagem principal, o livro, esteja no centro dessa lógica. Que ele circule e consiga cumprir sua função no mundo. Além disso, é preciso que se discuta de qual maneira o autor será mais valorizado. A gente quer viver de literatura, se dedicar a ela, seja com ficção, poesia ou pesquisa, mas tá difícil, hein.

Políticas públicas de leitura ou saraus literários?
Os dois. Seria maravilhoso haver uma maior interação desses dois mundos que, às vezes, se distanciam tanto. Tenho dois livros publicados via edital de fomento à cultura (Financiarte), não sei se eu teria conseguido publicar sem a ajuda do edital. Debater sobre políticas públicas, torná-las mais visíveis, ensinar mesmo – didaticamente – como escrever um projeto, como se inscrever num edital, parece bobo, mas não é. Um monte de gente vem me perguntar como se faz. Aí entra também a figura do produtor cultural, uma figura relativamente nova no campo, mas essencial para este tipo de interação. Acho que precisamos aprender a aproveitar mais os editais para realizar saraus, oficinas, residências, ciclos de bate-papos, há uma infinidade de projetos possíveis.



Ler o quê? como? Para quê?
Ler de tudo. Em papel, e-book, blog, risco de carvão. Cada um sabe o seu “pra quê?”

Ver, ouvir e imaginar o outro. A literatura brasileira contemporânea: um espaço de exclusão?
Esta é uma questão difícil, tem a ver com o modo de olhar o mundo e o lugar de onde olhamos o mundo. Por isso é muito importante ver, ouvir e imaginar o outro. A literatura, tanto a produção quanto a leitura, é um exercício de alteridade. Escrever é tentar engendrar um ponto de vista. Ler é entrar na experiência dos personagens e narradores, ou mesmo na experiência estética da poesia. Ou seja, teríamos tudo para que a literatura contemporânea brasileira não fosse um espaço de exclusão. Mas há mecanismos que extrapolam o prazer do exercício da leitura. Aí é que precisamos estar atentos (e fortes). E é aí que precisamos dar crédito a pesquisas como as da professora Regina Dalcastagnè, que divulga uma miríade de escritores e pesquisadores, ou jornalistas como a Priscila Pasko, que toca o blog Veredas, dedicado a escritoras.

Profissional das letras, agitador ou intelectual? As novas configurações do autor no cenário literário contemporâneo brasileiro.
Começo a tentar elaborar uma resposta como quem monta um quebra-cabeça: todo intelectual é um agitador, mas nem todo agitador é um intelectual, nem todo profissional das letras é um intelectual, mas todo profissional das letras causa certa agitação no campo da compreensão humana, nem todo agitador é um profissional das letras, isso é, por vezes, um problema, porque a agitação se perde na incapacidade de comunicação, a comunicação não é item exclusivo do escritor, nem do agitador, nem do profissional das letras, aliás, essa é a chave: capacidade de comunicar. Então, que bicho é esse autor? Para ousar uns rabiscos a cerca do assunto, posso falar de uma experiência pessoal que, além de me envolver, envolve meu grupo de amigos físicos e virtuais, por assim dizer. Confesso que essa é uma zona desfocada da imagem da minha pessoa a da dos meus amigos-autores. Sou uma agitadora das letras, escrevo e questiono. Tento no meu pequeno ambiente, nesta cidade do interior que se pensa maior do que realmente é, criar um pequeno caos poético. Tento expressar a minha tentativa de compreensão criando uns eventos e participando de outros, dentro do que me permite a vida de doutoranda-profissional-das-letras-na-academia, e nesses eventos realmente discutir qual é o nosso papel no cenário. Não chegamos a muitas conclusões ainda, mas o debate é sempre excitante (e necessário).

Entre fricção e consenso. Desafios e limites na e da literatura brasileira recente
Acho que o espaço da literatura é um espaço de fricção. Tem que causar atrito, pequenas rupturas.

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Natalia Borges Polesso é escritora e tem participação em diversas antologias nacionais e internacionais, sendo a mais recente Olhar Paris, lançada em 2016, pela editora Nós. Em 2013, publicou Recortes para álbum de fotografia sem gente (contos), vencedor do prêmio Açorianos de Literatura e em 2015 publicou Coração a corda (poesia) e Amora (contos), vencedor dos prêmios AGEs, Açorianos e de dois Jabutis - melhor livro de contos e escolha do leitor 2016. A autora é formada em Letras (UCS), tem mestrado em Letras, Cultura e Regionalidade (UCS) e atualmente é doutoranda em Teoria da Literatura pela PUCRS. Participou da 2° edição do Printemps Littéraire Brésilien.



quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Feiras não formam leitores efetivos

Mercado Editorial Brasileiro  e a Literatura Contemporânea

Por Suzana Vargas

Sobre mercado editorial brasileiro jamais poderemos falar sem antes frisar que o Brasil é um país de não leitores e predominantemente de analfabetos funcionais. Dito isso, é preciso  ter consciência de que nossa luta deverá ser por aumentar nosso contingente de leitores e compradores de livros para que o mercado realmente exista.

Nos últimos 20 anos, presenciamos um falso aquecimento desse mercado com o governo comprando títulos aos milhares e distribuindo-os em escolas e bibliotecas. Esse títulos contemplavam não somente autores contemporâneos como clássicos nacionais e estrangeiros, ou seja : a seleção era muito bem pensada, a distribuição era realizada a contento mas o  grande problema é que faltavam leitores e principalmente professores aptos a trabalhar com os livros que, muitas vezes, ficavam engavetados/guardados nas caixas em que chegavam nas instituições.

Também nos últimos 15 anos presenciamos a multiplicação de feiras e eventos literários pelo país, ações maravilhosas, porém sempre serão ações de marketing , de divulgação de livros e autores. Não formam leitores efetivos. E devem/ precisam continuar a se multiplicar pelo bem da leitura.

Falta, na minha opinião, ações efetivas dentro das escolas - pois é lá que os leitores se formam. Ações efetivas como, por exemplo, interferir nos currículos escolares privilegiando a leitura em detrimento de outras matérias. Tratando a literatura de modo diferenciado, artístico, não só abolindo a historicização  do conhecimento literário (principalmente no ensino médio) como, inclusive, provas…Literatura é arte...ler é matéria artística, subjetiva. Cobrar conhecimentos muito técnicos  (estilos de época e quejandos) só afasta nosso alunado já tão desestimulado....

Não é simples, não é fácil e nem eu teria aqui espaço para tratar em detalhe do problema.

Vamos agora então olhar a questão dos autores nacionais que se multiplicaram  (saudavelmente) na exata dimensão em que as mídias sociais e a internet apareceram... Ótimo tudo isso, não fosse a mudança radical que trouxeram ao modo de tratar livro e leitura na contemporaneidade.

As editoras  - acompanhando a velocidade frenética dos novos tempos - lançam milhares de títulos que - na proporção de mais ou menos 20 para 01 são absorvidos pelo mercado. Resultado: tiragens baixas e rápido envelhecimento dos lançamentos. De um modo geral, nosso autor (novo ou não) precisa produzir mais livros para permanecer um tempo maior na mídia como novidade. Ou seja: temos mais novidades que novos livros. ´Nem preciso dizer que isso tudo afeta a qualidade da produção. Esse assunto é longo, complexo e não se esgota aqui com muitos 'prós ' e 'contras".

Com relação  à divulgação no exterior, devemos priorizar, sim, programas de traduções e eventos que se comprometam com autores já traduzidos. Creio que as antologias (a exemplo da Granta) seriam ótimas saídas para os novos ou os ainda não traduzidos.

Enfim, não são observações muito otimistas porque acredito mais em políticas públicas que intervenham diretamente no sistema escolar e acadêmico (para este último, mais leitura e menos teoria ou história literária). Mas essas ações só terão resultados palpáveis em 15/20 anos...Infelizmente não resultam em votos..

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Suzana Vargas nasceu em Alegrete, Rio Grande do Sul. É mestre em teoria literária pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, pesquisadora da Fundação Biblioteca Nacional e especialista em leitura. Poeta, ensaísta e autora de literatura infantil e juvenil, tem vários livros publicados, entre eles Leitura: uma aprendizagem de prazer, Caderno de outono e outros poemas e O amor é vermelho. Em 1986, fundou a Estação das letras, um espaço dedicado a cursos ligados à literatura, no Rio de Janeiro, onde mora. Suzana tem se dedicado à divulgação e à dinamização das letras e  da cultura no Brasil. Idealizou e coordenou, por mais de dez anos, o projeto Rodas de Leitura, no Centro Cultural Banco do Brasil, do qual já participaram autores como Luis Fernando Verissimo, Jorge Amado, Gabriel García Márquez e Chico Buarque.

Sobre Suzana e seu livro Sem recreio, dizia resenha do jornal O Globo, em 1983: ''Traz-nos agora uma dicção reveladora do feminino que a coloca de imediato ao lado de uma Adélia Prado, uma Olga Savary, uma Lélia Coelho Frota e uma Consuelo Cunha Campos, entre as vozes poéticas mais ponderáveis da nova poesia brasileira escrita por mulheres''.


Em Caderno de outono e outros poemas, de 1997, a poesia de Suzana Vargas se espraia e revela seu seguro controle de linguagem. A poeta, que trabalha e vive a poesia, escreve: "Entre a chuva e o resto de feijão / na vasilha / escrevo um verso". Em ‘Fio fátuo’, do mesmo livro, ela diz: "Não me confino mais / às curvas da cozinha / pois há muito / saí da casca dos tomates / e me cortei sozinha". Já em O amor é vermelho, de 2005, a poeta trata, com densidade e delicadeza, do sentimento que é o eixo de nossa vida, reafirmando com originalidade a tradição lírico-amorosa ocidental.

A Suzana ensaísta revela-se com força e competência em Leitura: Uma aprendizagem de prazer, que ganhou edição ampliada em 2010. Baseado em sua dissertação de mestrado em teoria literária e em sua rica experiência como escritora, professora e divulgadora da literatura, o livro aponta a leitura como peça fundamental na educação de jovens e adultos e sinaliza formas de difundi-la muito além da sala de aula.

Fonte : Agência Riff (http://www.agenciariff.com.br/site)


quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Vejo a língua como o maior limite


Vejo a língua como o maior limite

Por Jacques Fux

O mercado editorial brasileiro contemporâneo: entre diversificação e homogeneização.
Sempre me questiono em relação ao mercado editorial contemporâneo: qual o sentido de continuar publicando ‘altas literaturas’? As vendas são poucas, muito poucas, enquanto a venda dos livros de youtubers, instagrammers e outras celebridades é gigantesca. Claro que acredito na literatura de qualidade, no amor pelo conhecimento e pelas letras, mas o mercado é cruel. A crise, tanto econômica quanto literária, está grave, e só aumentando. Então, como conciliar isso? Como buscar alternativas para que a literatura brasileira contemporânea não seja esquecida? Como escritor, penso dia e noite em como divulgar e vender meus livros. Acho que eles poderiam ser lidos por muitos, e por isso busco formas diferentes e contemporâneas para alcançar esses milhões de leitores (que leem os youtubers e instagrammers) por aí. Ainda tenho que fé que eles possam se interessar pela Literatura.

Entre "selfies" e "livros" : que futuro para as feiras e festas literárias no Brasil?
Espero que as festas e feiras literárias continuem existindo! Elas são importantes para motivar o público a conhecer os livros dos autores que participam desses eventos. Claro, muitos vão assistir as mesas das celebridades e best-sellers, mas eles podem acabar esbarrando em algum autor, descobrindo algum outro livro, se apaixonando por alguma obra. O autor tem que fazer um trabalho de formiguinha, tem que despertar o interesse pelo seu trabalho em cada um dos leitores que encontra. É uma guerra constante e, nessas feiras, temos que ir para a batalha!

Internacionalização da literatura ou exportação do livro brasileiro?
Ainda não tive nenhum livro traduzido e publicado no exterior (apesar de já ter minhas obras estudadas no curso de mestrado e doutorado em literatura da Boston University, e de ter uma dissertação escrita na Alemanha sobre meu primeiro livro), mas sonho com isso. Claro, traduzir é só um começo de um longo caminho e de outra guerra. Acho interessante a internacionalização, a quebra de fronteiras, e acho que todos temos que lutar para conhecer o maior número de escritores possíveis. 

Políticas públicas de leitura ou saraus literários?
Acho interessante os dois. São formas de atingir o público leitor! De buscar um por um. De lutar pela leitura e pelos livros. Cada livro que vendo, cada comentário que leio, cada novo leitor é preciosíssimo! 

Ler o quê? como? Para quê?
Ler literatura! Ler os antigos, os clássicos, os contemporâneos. Ler para compreender o mundo, as pessoas, os sentimentos, as angústias, os medos, os diferentes povos e culturas. Ler para se encantar, para se desiludir, para rir, chorar, para ler mais e mais, e sempre. Para se perder nas páginas infinitas das grandes obras, e também das obras esquecidas, das nunca lidas, das nunca imaginadas. Ler para continuar lendo, para passar o tempo, para criar tempo, para inventariar o mundo, para ser leve, rápido, exato, visível, múltiplo, consistente... e também para não ser nada disso.

Ver, ouvir e imaginar o outro. A literatura brasileira contemporânea : um espaço de exclusão?
Não. Um espaço de inclusão. Inclusão de novas vozes, de novas mídias, de novos gêneros, anseios, sonhos. Há muita gente escrevendo em redes sociais. Muitos tentando publicar. E vamos todos seguindo nessa luta!

Profissional das letras, agitador ou intelectual? As novas configurações do autor no cenário literário contemporâneo brasileiro.
Acho que o escritor tem que ser tudo hoje em dia. Tem que escrever, escrever bem, trabalhar muito na busca pela palavra correta, pela música perfeita, pelo olhar distinto. Depois que o livro for publicado, ele não pode mais viver naquele romantismo de esperar que o livro ‘vingue’ sozinho. Que alguém o leia e que o descubra. Estatisticamente é muito improvável que isso aconteça. São milhões de livros publicados. Então, acho que o autor tem que se dedicar a mostrar as qualidades de seus livros. Ele tem que ser um acrobata, um artista, um comediante, um erudito, um intelectual, um agitador, e também um maldito!

Entre fricção e consenso. Desafios e limites na e da literatura brasileira recente.
Gostei do termo ‘fricção’. Não sei se queria dizer ‘ficção’, ou ‘fricção’ mesmo. Brinco que meu romance Brochadas: confissões sexuais de um jovem escritor, que muitos o classificam como ‘autoficção’, seria na verdade uma ‘autofricção’!
Acho que os desafios são muitos. Vender, ser lido, escrever com cada vez mais qualidade literária. E mesmo com todo empenho, dedicação, amor e paixão, há o imponderável. O contingente. O fator sorte. Mas, mesmo assim, temos que tentar.
Limites: vejo a língua como o maior limite. Se eu pudesse escrever literatura em outra língua, talvez pudesse tentar novos horizontes, novos concursos, novas editoras. Impossibilitado, aguardo pelas traduções que são caras e difíceis de conseguir. Mais uma guerra!

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Jacques Fux é formado em Matemática, mestre em Ciência da Computação e doutor em Literatura Comparada pela UFMG e Docteur em Langue, Littérature et Civilisation Françaises pela Université de Lille 3. Em 2012 ganhou o Prêmio Capes pela melhor tese do Brasil em Letras/Linguística. Já viveu em Israel, França, Argentina e Estados Unidos. Foi vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura em 2013 com seu primeiro romance, Antiterapias.



segunda-feira, 28 de novembro de 2016

O que fica quando uma festa acaba?

O que fica quando uma festa acaba?

Por Rafael Gallo

Passei muito tempo olhando para as perguntas do questionário, pensando no que poderia responder. Escrevi, apaguei e reescrevi meus pensamentos várias vezes, percebendo, inclusive, que eles se alteravam sensivelmente conforme o dia. Acho que, dado o estado das coisas, qualquer escritor brasileiro atual que leve a sério seu trabalho - e o cenário no qual ele se insere - já refletiu muitas vezes sobre esses mesmos temas. Mais do que isso, já deve ter variado bastante dentro do espectro de sentimentos que essas questões suscitam. Em alguns dias estamos mais otimistas, olhando para as flores que rompem o asfalto; em outros, acordamos com o espírito punk-adorniano atacado, achando tudo um horror, uma grande fábrica de mentiras mercantilistas que precisa ser combatida.

Um exemplo, entre as questões colocadas: a literatura brasileira contemporânea é um espaço de exclusão? Poderia dizer que em certo grau sim, porque todos os espaços são, de alguma forma, de exclusão. E talvez poderíamos aqui focar no número de autores que não recebem atenção, nos muitos que não tiveram oportunidade de se fazerem conhecidos (e nós não tivemos oportunidade de conhecê-los, o que pode ser mais triste), nas dezenas de escritores do nível, talvez, de um Rubem Fonseca, dos quais nunca saberemos nada, sequer a existência. Dos muitos perfis que perdem representação, como os negros, os indígenas, os habitantes de regiões chamadas periféricas, etc. etc., porque não correspondem aos padrões da moda, do mercado. Por outro lado, e se não existisse esse mercado? Nenhuma dessas feiras e festas? Nenhuma das políticas públicas, dos incentivos à literatura? Nenhum dos saraus ou dos concursos literários? Nenhuma editora como grande negócio, que possibilite certos trânsitos? Por certo, a exclusão seria ainda maior (perderíamos até os autores que estão no mainstream e fazem algo interessante), o mundo seria um lugar ainda menos agradável e esperançoso. Eis o lado mais otimista, vendo que o copo não está cheio nem pela metade, mas tem algo ali, ao menos. E que, sim, tantos as políticas públicas quanto as editoras comerciais, tanto os saraus nas ruas quanto as grandes festas literárias têm seu valor.


Por outro lado, claro que, especialmente no caso dos ambientes mais mercadológicos, me assusta a ideia de substituição. Ou seja, ao usarmos sempre o discurso de que as festas, bienais, os best-sellers, as selfies e o interesse pela pessoa do escritor (não pelo livro necessariamente) permitem um mínimo de circulação da literatura, é preciso estar atento para o fato de que essas coisas - justamente elas que em tese disseminam a literatura – podem ter como efeito colateral a supervalorização dos elementos periféricos ao livro, ao ponto de eles dominarem o centro e deixarem o livro de fora. Uma total inversão de valores. Quando uma pessoa vai a um evento, simpatiza com o escritor – por tê-lo visto falar coisas bonitinhas/engraçadas/comoventes em uma hora e meia – e compra seu livro, estamos ganhando mesmo um leitor? Essa pessoa vai mesmo ler o livro do autor que o autografou para ela? Que fez a selfie junto? Ou será que esse conjunto de experiências – ver o bate-papo, comprar o livro, pegar um autógrafo e tirar uma selfie com o autor – já não proporciona ao consumidor a sensação de ter tido a experiência completa? De ser isso o que significa participar da literatura? Se tendo feito tudo isso, ele já é um leitor (e privilegiado, afinal teve contato pessoalmente com o autor), então ele já não precisa fazer mais nada, sequer... ler o livro. Como disse Clarice Lispector, o problema da mentira é que ela cria uma nova verdade em seu lugar.

Sei que, além disso tudo, há milhões de questões que dificultam o hábito da leitura no Brasil. Somos uma cultura com sérios problemas educacionais sob nossos pés e um sol tropical sobre nossas cabeças. Entre esse céu e essa terra, há muito mais do que poderia dizer minha vã filosofia. E então, o que fazer, diante de tantos problemas? Às vezes eu penso que poderíamos, talvez, em vez de culpar a tudo e a todos, em vez de usar a carta do “problema educacional” como condição incontornável (e nos paralisar diante disso), também pensar em pequenas coisas que possibilitem pequenas mudanças. Penso, por exemplo, na nossa própria responsabilidade como escritores e agentes do livro. Será que estamos mesmo trabalhando duro, para produzir uma literatura capaz de convencer leitores por sua própria qualidade? Será que estamos nos esforçando para disseminar o hábito da leitura? Ou estamos simplesmente levando as coisas meio em espírito de brincadeira, conforme o que for prazeroso para nós mesmos? Estamos mesmo tentando incentivar a leitura ou apenas passeando, deslumbrados com nosso próprio “sucesso”? 

Como faço a mediação de clubes de leitura, dou oficinas e faço palestras com uma certa frequência, eu percebo algo muito facilmente: se você dá livros bons para as pessoas lerem, elas aderem. Elas passam a gostar daquilo, porque é bom, porque foi apresentado de maneira adequada. É impressionante ver como a maioria, ainda que leitores “treinados”, não conhecem quase nada da literatura brasileira atual. Mas quando conhecem certos livros, se apaixonam, vão atrás de ler outras obras do mesmo autor. A ponte funciona. Se for bem construída, ela funciona. Então, por que não conseguimos fazer essas pontes com mais pessoas? Talvez começar a pensar nisso, tentar resolver melhor essa equação, seja um caminho. Apresentar bons livros para leitores, em um canal mais próximo, em vez de querer, por exemplo, transformar tudo em uma grande festa para o nosso clubinho de amigos.
Porque o Brasil tem uma espécie de sina, sempre repetida: ao longo da história, por um motivo ou outro, em determinados períodos temos um governo que ajuda a financiar certos aspectos da cultura, com alguma abundância. Mas aí a euforia toma conta, e deixamos de pensar em construir estruturas mais perenes, para simplesmente transformarmos tudo em um parquinho de diversões para os protagonistas. O que acontece poucos anos depois? Algum outro governo assume, e, por um motivo ou outro, decide que é melhor cortar esses financiamentos (afinal de contas, eles não deram muitos frutos, aparentemente, além de festejos para alguns).

E agora, José, a festa parece estar acabando. Mais uma vez. O pior é pensar que não aprendemos muita coisa. Afinal, acabamos de ter mais de 10 anos de bonança, e o que fizemos com isso? Criamos leitores? Criamos espaços e hábitos de leitura mais consistentes? Os índices mostram que não. Criamos, em grande parte, uma legião de escritores jovens, brancos, classe média, modelo exportação, fenômenos da internet. Temos mais escritores do que leitores, mais gente em cima do palco do que fora dele. De que nos serve isso? Acho que enquanto não aprendermos que precisamos construir relações mais sólidas entre possíveis leitores e os livros, vamos nos manter repetindo esses ciclos bipolares. Escrever bons livros, encorajar leituras que sejam estimulantes, ter relações mais honestas com os leitores, sermos menos egocentrados: acho que tudo isso pode ser um ponto de partida, para que a coisa fique melhor para todos. Para que nos tornemos mais do que essa festa que sempre acaba. Afinal, o que fica quando uma festa acaba?

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Rafael Gallo é paulista, autor de Réveillon e outros dias (Record, 2012), livro vencedor do Prêmio Sesc de Literatura e finalista do Prêmio Jabuti, ambos na categoria Contos. Em 2015 lançou Rebentar, seu primeiro romance, também pela Editora Record, livro vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura de 2016. Tem ainda contos publicados em diversas revistas e antologias, como a Desassossego (Ed. Mombak, 2014) e a Machado de Assis Magazine (Ed. Biblioteca Nacional, 2012), que publicou tradução do conto “Réveillon” para o espanhol.



quinta-feira, 24 de novembro de 2016

É uma escolha ser um pop star.

Profissional das letras, agitador ou intelectual?

Por Paulo Emílio Azevedo

Acredito que esta questão traduz, de fato, uma experiência (talvez, ainda não seja uma experiência nos termos benjaminianos), mas que de qualquer forma está tal processo (sim processo, parece-me mais adequado) pautado na “perplexidade” e hibridismo das identidades. E o que seria isso? As configurações que se amparam na abertura de mercados e acúmulo de funções por parte do autor geram nesse que produz a “criação” uma infinidade de perguntas sobre os desafios aos quais ele e o próprio mercado decidem abraça-los. É importante, no entanto, situar que a ideia de “decidir” expressa a retomada de escolha por este autor/produtor/criador – portanto, não é uma imposição, necessariamente, como equivalência hermética, quando o autor somente encontraria como saída deixar “ser levado por”. Ao contrário, como ressaltado é uma escolha e é, justamente, aí que ele se depara com a perplexidade diante de tais desafios e ofertas. No atual cenário de sua contemporaneidade abrangente e efêmera precisará o autor ser muitos em um só e, tais funções anteriormente tão bem delimitadas em seus status, profissionais atuantes e ações confluem para um mesmo sujeito na sua práxis: estar nas redes sociais, dar entrevistas, escrever o livro, revisar o livro, ter receio sobre o livro (se o livro é necessário ou deveria se manter no diário), tomar coragem e publicar o livro, lançar o livro, sorrir no dia do lançamento confiando a isso verdade de sê-lo (e saber que os intelectuais podem sublimar a ortodoxia de ter que parecerem chatos, pois talvez esse status caiu. Será?), não fechar portas de modo algum (e daí talvez se tornar promíscuo. Será?), viajar, entrar em contato com as editoras, vasculhar sites em seis idiomas e inscrever-se nos editais, falar in box a todo instante e outras redes sociais, ler tendendo ao esgotamento, fazer postagens, passar por outro nas postagens com uso abusivo de sujeito indeterminado para não parecer ser a si próprio - aflito por ser descoberto no protagonismo maldito de uma “fama às avessas” (ser alguém que deve existir com glamour, mas sem parecer que é o mesmo em nenhum instante), ter que lidar com seu alter corpo, seu alter ego, sua alteridade ameaçada e imaginada como leviana. Mas, repito: é uma escolha ser um pop star.
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Paulo Emílio Azevedo é Professor, Doutor pela PUC-RJ em Ciências Sociais, escritor, poeta e coreógrafo. Recebeu diversos prêmios, entre eles “Rumos Educação, Cultura e Arte” (2008/10) pelo Instituto Itaú Cultural e “Nada sobre nós sem nós” (2011-12) no âmbito da Escola Brasil/Ministério da Cultura para publicação do livro Notas sobre outros corpos possíveis (2014) – com este concorreu a final do Prêmio Rio Literário (2015) na categoria “Ensaio”. Com a atual publicação O amor não nasce em muros (2016) completa dez livros escritos, sendo o nono publicado. Entre os demais, destacam-se Meninos que não criam permanecem no C.R.I.A.M. - histórias sobre adolescentes em conflito com a lei (2008); Palavra projétil, poesias além da escrita (2013) e Ensaios de um poeta só (2015). Sendo um dos introdutores das práticas do poetry slam no Estado do Rio de Janeiro, vem desenvolvendo uma série de ações no campo da poesia falada e performance. É idealizador do sarau “Tagarela, o maior slam do mundo”, professor da oficina “Palavra Projétil” e autor do projeto “Biblioteca de gritos”, os quais receberam contemplação em editais da Secretaria Municipal de Cultura do Rio. Coordena a Rede de Criação e Protagonismos Cia Gente e a Fundação PAz. No ano de 2016 foi um dos escritores convidados pela FLIP, Paraty/RJ e da Bienal do Livro de Campos dos Goytacazes/RJ. Em sua principal pesquisa na Literatura está a criação do gênero/método Reestruturalismo.

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Inquiétudes et incertitudes des utopies


COLLOQUE INTERDISCIPLINAIRE

Inquiétudes et incertitudes des utopies dans l’espace Lusophone

Qu’est-ce que l’utopie si ce n’est un autre nom pour le désir d’une autre façon d’être ?
Paulo Pires do Vale, commissaire du Festival de l’Incertitude


Ce colloque s’inscrit dans le cadre du Festival de l’Incertitude, organisé à Paris par la Fondation Calouste Gulbenkian – Délégation en France. L’utopie de Thomas More ouvre sur un horizon de possibilités de réflexions qui la lient avec « l’horizon d’attente », terme que Paul Ricœur emprunte à Koselleck pour formuler la forme de doute qui s’empare de l’humain, face à l’attente de la réalisation incertaine de la promesse initiale. Nous proposons d’analyser les inquiétudes et les incertitudes des utopies dans l’espace lusophone, selon une temporalité allant de la période des Découvertes à nos jours.

Les problématiques, pour lesquelles nous mobiliserons les outils combinés de plusieurs champs disciplinaires, seront développées de façon croisée. Durant deux jours, cinq séances conjugueront communications et débats autour d’objets thématiques allant des arts plastiques à la sociologie en passant par le théâtre et le cinéma, la linguistique et la littérature, l’histoire et l’histoire culturelle. Il ‘s’agira également d’analyser et d’interroger les contours d’un discours qui ne cesse de défier et de perturber l’ordre des choses au sein de nos sociétés de plus en plus fragilisées.

Comission scientifique:

Egídia Souto (Université Sorbonne Nouvelle Paris 3)
Graça dos Santos (Université Paris Ouest Nanterre La Défense)
Leonardo Tonus (Université Paris Sorbonne)
Maria Helena Carreira (Université Paris 8 Vincennes-Saint Denis)
Saulo Neiva (Université Blaise-Pascal/ Clermont II)

Programme du Colloque

Le Mardi 29 NOVEMBRE

9h15- Accueil des participants
9h30- Ouverture du colloque

10h-11h30 Séance 1- Inquiétude et déplacements
Modérateur : Leonardo Tonus

Marie-Hélène Piwnik – Livros do desassossego d’une traduction l’autre: la conception novatrice de Teresa Rita Lopes

Résumé:

La conception du magnum opus de Fernando Pessoa proposée par Teresa Rita Lopes. Réflexions sur la traduction du titre en français.


Marie-Hélène Piwnik est professeur émérite à l’Université Paris Sorbonne. Elle est Agrégée d’espagnol. Ses principales publications sont "Échanges érudits dans la Péninsule Ibérique  (1750-1767)", Paris, Fondation Calouste Gulbenkian ; "Eça de Queiroz revisitado", Opéra Omnia, Prix de l’essai Grémio Literário. Elle est aussi la traductrice de nombreux romans des écrivains suivants: Eça de Queiroz, Mário de Carvalho, Urbano Tavares Rodrigues ou Gonçalo M. Tavares.

Saulo Neiva et José Augusto Cardoso Bernardes – Incertitudes et anachronismes - relectures du passé dans Les Lusiades

Résumé:

Quels rapports s’établissent-ils entre incertitude et anachronisme dans la représentation camonienne du passé collectif ? Cette représentation est-elle redevable à une conception « achronique » de l’histoire (Koselleck) ? Ou est-elle caractéristique d’une conception « moderne » du temps, fondée sur le morcellement du temps en passé, présent et futur, dont le repère principal est constitué par le présent contingent et proche ? Autrefois source d’incertitude pour l’historien, l’anachronisme a commencé à être réévalué positivement depuis quelques décennies. Acte délibéré ou involontaire, donnant lieu aussi bien à une relecture du passé qu’à une réinterprétation du présent, il nous permet de penser autrement les rapports que nous établissons à la fois avec le présent d’où écrit l’auteur, avec le passé que cet auteur réinvestit et avec le présent d’où nous lisons ses textes.

José Augusto Cardoso Bernardes est professeur à l’Université de Coimbra, où il dirige la Bibliothèque Générale de l’Université. Il s’intéresse à la littérature portugaise de la Renaissance et à la situation des Humanités dans le cadre de la recherche et del’enseignement. Tout récemment, il a coordonné les volumes Camões nos prelos de Portugal e da Europa (1563-2000).

Saulo Neiva est professeur à l’Université de Clermont-Auvergne, où il dirige le Centre de Recherches sur les Littératures et la Sociopoétique (CELIS EA4280), ainsi que la Chaire Sá de Miranda. Ses travaux portent sur les transformations des genres littéraires et sur les échanges entre la France et le monde luso-brésilien. Il a co-organisé le Dictionnaire raisonné de la caducité des genres littéraires (Droz).


Catarina Vaz – Incertitudes et ambiguïtés dans la traduction d’œuvres littéraires lusophones contemporaines

Résumé :
L’une des missions du traducteur littéraire est de construire des ponts et des liens entre les différentes langues et cultures. Les œuvres littéraires hypercontemporaines (en portugais) sont un défi majeur pour le traducteur car il doit les interpréter de façon à pouvoir recréer, dans une autre langue, les mêmes caractéristiques discursives. L’ambiguïté et l’incertitude assument dans ce cadre un enjeu majeur dans le travail mené par le traducteur. Comment interpréter un monde fragmentaire, un discours en apparence décousu où une multiplicité de temps, de lieux et de personnages évolue ? Nous souhaitons réfléchir aux processus d’interprétation présents dans le domaine de la traduction littéraire qui permettent à la fois la dilution de frontières linguistiques et le partage de significations et d’expériences.

Catarina Vaz Warrot est boursière de la FCT en post-doctorat à l’université de Porto (CLUP) travaillant sur «Le rôle du traducteur littéraire : entre coopération et re-création textuelle». Son ouvrage Chaves de leitura e chaves de escrita nos romances de António Lobo Antunes a été publié en 2013. (Lisboa, Leya, Texto Editora, coleção «ensaio», sob a direcção de Maria Alzira Seixo, 253pp.)

11h30-12h - Pause-café

12-13h Séance 2- Utopie et contre utopies
Modérateur : Maria Helena Araújo Carreira

Adelaide Fins – Devenir soi-même dans l’incertitude et l’utopie : la portée éthique et politique de Os Memoráveis de Lídia Jorge

Résumé:

Du soi utopique au soi fraternel : l’apport de Os Memoráveis à l’éthique de la sollicitude. Soulignant l’importance de la littérature pour la philosophie, cette contribution vise à accentuer la dimension éthique et politique présente dans Os Memoráveis, une éthique du « devenir soi-même » qui suppose une approche narrative de la temporalité et qui joue avec le concept de fraternité, d’abord incertain, puis relationnel. L’œuvre symbolise toute une éthique de la sollicitude que nous exploiterons dans les perspectives ouvertes par l’éthique de Paul Ricœur, Martha Nussbaum, Solange Chavel et Julia Kristeva. Notre but est de contribuer à une compréhension des sujets dont la singularité (affects, imagination, subjectivité) ne peut se comprendre que comme travaillée par l’universel (liberté, justice, démocratie).


Adelaide Gregório Fins – Université de Paris-Sorbonne/Université de Coimbra. Prépare une thèse de doctorat en philosophie politique et éthique. A participé à l’ouvrage collectif Les grandes œuvres de la philosophie en fiches. Auteurs classiques et contemporains, dir. C. Ruby, Paris, Ellipses, 2016. A traduit des textes pour Rue Descartes, Revue du Collège International de Philosophie.

Leonardo Tonus - Utopie et contre utopies de l’immigration

Résumé:

Le thème de l’immigration n’est pas nouveau dans la littérature brésilienne. Présente dès le milieu 19ème siècle, cette thématique s’est inscrite de façon définitive dans le champ littéraire brésilien, notamment pendant la période de transition démocratique. Par la quête des origines ces romans témoignent d’une volonté d’inscrire « la geste immigrante » dans le flux de l’histoire. Toute la complexité et la contradiction de ces récits reposent sur la recherche d’un « jalon premier » qui, tenu pour nouveau, n’est en aucun cas novateur. Les expériences fondatrices mises ici en exergue convergent toutes vers un questionnement sur l’échec des grandes utopies fondatrices qui pendant des siècles ont dicté les représentations identitaires du Brésil.



Leonardo Tonus est Maître de Conférences et responsable de la section de portugais à l’université Paris-Sorbonne. Ses recherches portent sur la représentation de l’immigration dans le roman contemporain brésilien et les rapports entre texte et spatialité.

13h-14h30 - Pause déjeuner



14h30-15h30h Séance 3 - Sublimer les incertitudes
Modérateur : Saulo Neiva

Egídia Souto - De l’atelier du peintre à la table du poète. «Recettes contre l’incertitude»

Résumé:

Nuno Júdice développe un jeu baroque où le destinataire doit dévoiler l’énigme de l’image et voir au-delà de l’espace de la feuille. Le poète est loin de l’imitation et cependant très proche d’une écriture symbolique qui parle à tout un chacun, selon son degré d’implication et d’intuition. Le lecteur a le choix de jouer et de voir au-delà de l’œil du créateur et, à partir de ses mots, de reproduire aussi son propre tableau comme artefact littéraire. Le poète est un autre en se faisant peintre par les mots? Mais ne cherche t-il pas à peindre le mot parfait avec son crayon? Serait-il en quête du souffle divin pour construire un discours qui semble né d’une intranquillité....


Egídia Souto est docteur en art, littérature et civilisations des pays lusophones à l’Université Sorbonne Nouvelle Paris-3, chercheur associé au CREPAL, au CEAUP (Centre d'études africaines de l'université de Porto) et membre du groupe « Raízes e Horizontes da Filosofia e da Cultura em Portugal ». Actuellement Maître de conférences à l’Université de la Sorbonne Nouvelle-Paris 3. Passionnée par la littérature, les voyages et l’art, elle a publié plusieurs articles au Portugal et en France. Depuis quelques années, elle est conférencière au musée Dapper, musée du Quai Branly et au Musée de l’Homme.


Izabella Borges - Les incertitudes de la création : quand l’écrivain s’égale au peintre

Résumé:
Notre communication vise à examiner les aspects formels du dialogue entre les arts, instauré par l’écrivain brésilien Sérgio Sant’Anna dans son œuvre. Ce dialogue, qui au départ semblait être celui d’un écrivain en quête de modèles, prend progressivement un cheminement bien particulier et débouche sur une forme nouvelle : celle l’exercice de l’ecphrasis. C’est donc en « donnant à voir » à ses lecteurs des œuvres issues d’un champ disciplinaire autre que le littéraire que Sérgio Sant’Anna tente de dépasser, à sa manière, les limites de l’écriture, afin de sublimer les incertitudes intrinsèques à l’acte de créer.

Docteur ès-lettres (Langue et littératures lusophones), Izabella Borges est membre associé du CREPAL (Centre de recherches sur les pays lusophones Université Paris 3 - Sorbonne Nouvelle). Traductrice et directrice de la collection Brésil pour les Éditions Envolume, Izabella Borges enseigne actuellement à l’Université Paris – Sorbonne.

Marcelo Marinho - Poétiques de l’incertitude: l’autobiographie irrationnelle de João Guimarães Rosa

Le chef-d'oeuvre Grande Sertão : Veredas (1956) est présenté par son auteur comme une « autobiographie irrationnelle » : l'ambassadeur, médecin et romancier polyglotte João Guimarães Rosa (1908-1967) est mort trois jours après la cérémonie d'entrée à l'Académie Brésilienne de Lettres, à l'apogée de son parcours littéraire et diplomatique. Cet événement biographique majeur, craintivement ajourné pendant quatre ans de suite, s'offre comme un « horizon d'attente » pour la lecture du pacte faustien passé par le héros Riobaldo, inévitablement condamné à perdre Diadorim, son âme. Le doute s'empare du lecteur : quel est ce lieu utopique où l'on raconte un destin pour ensuite le vivre ? Biographie et littérature se conjuguent ici pour ouvrir l'espace à la Poétique de l'Incertitude.

Marcelo Marinho est docteur en Littérature Comparée (Sorbonne Nouvelle) et chercheur associé au CREPAL. Il a enseigné dans différentes universités au Brésil, en Hongrie (Université Eötvös Lorànd) et au Canada (Université du Québec). Actuellement, il enseigne à l'Université fédérale de l'intégration latino-américaine, au Brésil. Il est l'auteur de João Guimarães Rosa (Paris, L'Harmattan).

16h-16h20- Pause-Café

16h30-18h Séance 4 - L’incertitude de créer face à la contrainte
Modérateur : Graça dos Santos

Catarina Firmo - Utopies du corps en scène chez Almada Negreiros: figures, scénarios et paysages de l'inquiétude

Résumé:
Le théâtre dans la vie de Almada Negreiros est indissociablement lié à son œuvre plastique. Dans son parcours de dramaturge et scénographe, la représentation du corps est avant tout un reflet de l’utopie : le corps abstrait dans les silhouettes futuristes des Ballets Russes ; le corps-figure, fusionné avec la matière, dans Antes de Começar où deux marionnettes débâtent l’opposition entre l’humain et le pantin ; la mascarade du Music Hall et du Cabaret artistique dans Deseja-se Mulher. Chez Almada le corps oscille encore entre l’autoportrait et la quête de l’altérité ; ce corps fragmenté, à la fois scénario et paysage se réclame aussi comme manifestation de l’inquiétude.

Catarina FIRMO est chercheuse dans un projet de pos-doctorat intitulé « Artefacts en mouvement – Frontières et hybridismes aux théâtre de formes animées », accueilli par le Centre d’Etudes de Théâtre de l’Université de Lisbonne, à l’abri d’une bourse de la Fondation pour la Science et la Technologie. Elle a été enseignante de Langue et Littérature Portugaise à l’Université Paris 8 entre 2009 et 2015. Actuellement elle donne des cours de Théorie du Théâtre à l’Ecole Supérieure d’Education de Lisbonne. Elle a soutenu une thèse de doctorat en 2011 intitulé « Du mot à la scène et du mot en scène – Dramaturgies de l’absurde en France et au Portugal » à l’Université Paris 8, en cotutelle avec l’Université de Lisbonne (sous la direction de Maria Helena Araújo Carreira et Maria João Brilhante).


Eurydice da Silva - L'âge d'or du cinéma portugais sous l'Etat Nouveau : l'envers du décor (de 1933 à 1950)

Résumé:

L’histoire du cinéma portugais pendant l’Etat Nouveau est profondément liée au contexte politique de l’époque. Dès 1933, le Secrétariat National de la Propagande contrôle la production cinématographique portugaise dans le but de promouvoir un cinéma national fidèle à l’idéologie de l’Etat. Considérées aujourd’hui encore comme l’âge d’or du cinéma portugais, les années 30-40 sont marquées par des succès commerciaux (films historiques et musicaux, comédies, adaptations de classiques de la littérature portugaise). Nous analyserons le scénario censuré d’un film représentatif de la production de l’époque : Amour de Perdition (1943), de António Lopes Ribeiro, afin de comprendre les articulations entre cinéma et politique, les modes de production de ce cinéma utopique, ou l’envers du décor de l’idéal cinématographique sous l’Etat Nouveau.


Eurydice Da Silva est scénariste et doctorante contractuelle à l’Université Paris Ouest Nanterre La Défense. Elle est membre du CRILUS (EA 369 – Etudes Romanes) et son projet de thèse porte sur le cinéma portugais pendant l’Etat Nouveau de Salazar (1933-1974).


Le Mercredi 30 NOVEMBRE

9h30- Accueil des participants


9h45-10h45 Séance 5 - Incertitude et utopie en Orient et en Afrique
Modérateur : Egídia Souto

Dejanirah Couto - Les luso-indiens dans la littérature indienne contemporaine

Résumé:

En gardant à l’esprit la ligne de force de ce colloque - la thématique de l’incertitude - la présente communication examinera le statut identitaire des luso-indiens tel qu’il nous apparaît dans l’ouvrage de Salman Rushdie « Le dernier soupir du Maure », publié en 1996. Ballotés entre deux cultures, l’indienne et l’occidentale, entre deux religions, l’hindouisme et le christianisme, les luso-indiens (ou les indiens de culture lusitanienne), sont perçus comme des métis et des intermédiaires entre deux mondes. Ils cristallisent autour de leur image une « incertitude identitaire » qui enduit de nombreux préjugés à leur égard. En dépit d’un message apparent de pluralisme et de tolérance, Rushdie demeure très ambigu lors qu’il s’agit de leur identité et de leur place dans la société indienne. La vision de Rushdie, qui rejoint celle de V.S. Naipaul sur les luso-indiens, s’inscrit dans une perception au vitriol du premier passé colonial, n’est pas dépourvue d’arrière-pensées politiques. Elle rejoint un certain débat post-moderne, actuel en Inde, sur le métissage et l’identité.


Dejanirah Couto est historienne, maître de conférences habilité à diriger les recherches à l’École pratique des hautes études. Spécialiste de l’Histoire impériale portugaise en Asie et des relations politiques, économiques et culturelles avec les Empires et états musulmans à l’âge moderne, elle a publié de nombreuses études dans son champ de recherches.


Martin Ramos - Les destinées incertaines de la chrétienté japonaise (16e-19e siècles)

Résumé:

Les succès acquis au Japon, au 16e siècle, par des missionnaires principalement portugais ont été fort précaires. Dans la première moitié du 17e siècle, l’Archipel rompt ses relations commerciales avec les puissances ibériques et les communautés catholiques connaissent la répression ; celles-ci sont rapidement coupées de leurs élites et le catholicisme disparaît peu à peu de l’espace public. À première vue, l’entreprise évangélisatrice semble ainsi avoir été un échec. Un renversement de perspective, des centres de pouvoir vers les campagnes, permet cependant une autre lecture des événements : dans de nombreux villages, l’héritage catholique — et donc aussi, en quelque sorte, portugais — se transmet de génération en génération et survit aux deux siècles de clandestinité.


Martin Nogueira Ramos est maître de conférences à l’École française d’Extrême-Orient (EFEO). Il a effectué sa thèse de doctorat sur la question du catholicisme et du crypto-christianisme dans la société villageoise japonaise du 19e siècle. Il travaille actuellement sur la diffusion du catholicisme, au 16e siècle, dans ce pays.


10h45-11h15-Pause-café

11h15-12h30- Maria-Benedita Basto, Agnès Levécot et Raquel Schefer - Afrique lusophone : dialogue entre l’histoire, l’image et la littérature à propos des incertitudes et des utopies

Résumé:

Dédiée aux pays de l’Afrique lusophone, cette table ronde se propose de réfléchir de façon interdisciplinaire et connectée sur les deux grands axes thématiques de ce colloque, que nous écrivons au pluriel : incertitudes et utopies. Dans un dialogue qui traversera l’histoire, le cinéma, la photographie et la littérature, nous tenterons de saisir la place et le rôle des incertitudes dans le travail esthétique mené par les artistes africains, en ayant comme horizon d’analyse la relation entre l’utopie, l’art et le politique. Une fonction utopie et un effet utopie pourront se dégager de nos échanges autour de passages d’œuvres choisies qui reflètent à la fois des inquiétudes, des formes de résistance et des désirs de communspossibles.


Maria-Benedita Basto est Maître de conférences en Histoire et cultures lusophones à l’Université Paris-Sorbonne, chercheuse au CRIMIC, chercheuse associée à l’IMAF et à l’IHC-UNL. Son travail porte sur des problématiques coloniales et postcoloniales autour des mémoires, de l’archive, de la décolonisation des savoirs et des (trans)nationalismes croisant histoire, littérature, cinéma.

Après avoir quitté ses fonctions de Maître de Conférences à l’Université Sorbonne Nouvelle–Paris 3, Agnès Levécot poursuit ses recherches au sein du CREPAL (Centre de Recherche sur les Pays Lusophones) dans les domaines de la production romanesque portugaise et africaine contemporaine.
Elle a publié de nombreux articles dans des revues spécialisées nationales et internationales, ainsi qu’un essai intitulé Le Roman portugais contemporain. Profondeur du temps (Paris, Editions de l’Harmattan, 2009).

Raquel Schefer est chercheuse et cinéaste. Docteur en Études cinématographiques et audiovisuelles de l’Université Sorbonne Nouvelle — Paris 3, Schefer est ATER en Études cinématographiques à l’Université Grenoble Alpes. Elle a publié l’ouvrage El Autorretrato en el Documental en Argentine. Elle est co-éditrice de la revue de cinéma La Furia Umana.


12h30- Clôture du colloque