sábado, 19 de maio de 2018

Poesia e Resistência



Poesia e Resistência

A Jornada de Estudos Poesia e Resistência, realizada nos dias 7 e 16 de maio de 2018, aconteceu nas instalações da Maison des Initiatives Étudiantes – MIE Bastille fruto da parceria feita entre Sorbonne Université, Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) e Associação de Pesquisadores e Estudantes Brasileiros na França (APEB-FR). Em tempos de assombro, resta-nos agradecer a oportunidade de resistirmos juntos sobre poesia e seus modos de embate.

A primeira etapa do encontro constitui-se em uma palestra de abertura e duas mesas redondas. A palestra de abertura, proferida pela Profa Dra Cynthia Agra de Brito, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), enfocou nas potencialidades dos Letramentos Literários, em especial, com o trabalho do gênero SLAM de poesia, demonstrado como uma maneira de (re)existência nas escolas públicas de São Paulo.



Em seguida, a mesa redonda “Poesia em Resistência: o corpo fronteiriço” abordou a poesia como gesto corporal. Com Fernanda Villar, enveredamos pela perspectiva do Slam de Poesia e as noções pós-coloniais nas performances das poetisas belgas-concolesas Lisette Lombé e Joelle Sambi. A comunicação de Ana Ferreira Adão apresentou a poesia erótica de Maria Teresa Horta, poeta portuguesa contemporânea. Mariana Keller, a partir das anotações arquitetónicas sobre a poesia de Susanna Busato, remontou uma cartografia íntima do corpo no encontro com a cidade.



Na mesa “Modos de resistência nas poéticas contemporâneas”, Jean Carlos Pereira da Costa discutiu como o discurso poético acontece na montagem do filme Maranhã 66 de Glauber Rocha. Na comunicação de Sheila Staud traçou-se um percurso sobre as novas formas poéticas digitais com os poemas de Sérgio Vaz, Nelson Maca  e Negra Jaque. Lívia Bertges aproxima poesia e pintura como forma de leitura dos poemas de Arnaldo Antunes, em formato impresso e digital.



A segunda parte do encontro foi composta por três mesas redondas e uma palestra de encerramento. A primeira mesa intitulada “Diálogos: poesia e música” contou com dois participantes. Tiaraju D’ Andrea discorreu sobre os sambas-enredos apresentados nos desfiles das escolas de samba em 2018, além do trabalho formal, o conteúdo político-social reaparece como potência e Frederico Lyra expõe nas letras musicais da banda Rage Against the Machine protestos e demandas utópicas de resistência.



A mesa “Resistências: poesia em cordel” versou sobre o cordel enquanto gênero que resiste com a fala de Laura Bitarelli e as demonstrações de atualização na prática escrita de J. Borges. Com Solenne Derigond as questões sobre a patrimonialização do cordel e as práticas contemporâneas de imigração, ambas foram levantadas e discutidas como resistência do gênero.



Em “Poesia, memória e resistência”, mesa conjugada a palestra de encerramento, os ecos da memória chegam em vias da psicologia social pelo olhar de Mariana Afonso para os poemas de Helena Zelic. A fala final proferida pelo Prof. Dr. Leonardo Tonus, da Sorbonne Université, reverbera como gritos aos pedidos de socorro no abrigo poético, fazendo assim do texto acadêmico um entrelugar de resistência e resiliência, aos que não resistem à poesia.



Lívia Bertges (UFMT) e Leonardo Tonus (Sorbonne Université), organizadores da Jornada de Estudos Poesia e Resistência.



terça-feira, 15 de maio de 2018

O Peso do pássaro morto

O peso do pássaro morto © Mariana Keller

O Peso do pássaro morto
Aline Bei

acordei num Salto com minha mãe chamando
- vamos.
eu tinha prova
logo na primeira aula, no café da manhã eu sabia mais de sono do que de
matemática, meu pai testou como eu estava
me fazendo perguntas
diretamente do livro, já um pouco estragado, de tanto ser aberto e
fechado além de
esquecido no chão também do banheiro. eu não soube responder pergunta nenhuma, queria comer sucrilhos eternamente e colocar óculos escuros igual ao seu luís. cheguei a pedir 1 óculos pra minha mãe que disse preferir olhar nos meus olhos quando estávamos conversando.
tudo bem.
eu vou fazer um óculos de bolacha maria assim que acabar
a semana
de prova.
minha rotina no colégio
era a pior parte do meu dia. eu tenho
muito medo de borboleta e minha escola cheia de verde
era cheia de asa
também. eu tinha 1 amiga que
imitava borboleta pra mim, pra me provar que não era tão terrível estar perto de uma.
a imitação ficava muito boa. tão Boa que, às vezes, eu sentia medo da minha amiga chamada
Carla, mas
passava
assim que acabava a
brincadeira.
contei pra ela sobre o seu luís,
a carla não sabia o que era
benzedeiro.
- é uma pessoa
que arruma qualquer coisa dentro da gente sem precisar abrir com faca.
ela ficou curiosíssima, também porque eu disse isso
D e v a g a r.
prometi que a levaria na casa dele pra ela ficar boa, mas Antes
ela tinha que pegar uma gripe ou qualquer coisa
assim.
ela me disse que ia tentar, mas a carla tinha
uma saúde
de aço ou a mãe dela colocava um saco
invisível nela protetor de doença e machucado.
nunca ouvi a carla tossir.
ela nunca deu choro de ralar joelho, pelo menos um roxo, Nada, Carla
a menina Intacta.
fora a inteligência
dela que me explicava
divisão durante o intervalo fazendo assim:
- 2 sanduiches
para 2 meninas
é = a
1 sanduiche para cada menina e
zero fome.
falando desse jeito e depois comendo
o lanche eu entendia
Tudo, pensava
que moleza,
!,
mas na hora que a Prova me olhava nos olhos,
minha barriga
virava gelo e a cabeça
um Choro
parecido com aquele que rádio faz quando o carro está chegando na Paulista.
numa tarde de pudim perguntei pro seu luís por que rádio chora só nessa rua comprida.
- não é choro, é
chiado. o rádio chia porque a casa dele está perto. é o jeito dele dizer que está perto, uma espécie de
Reconhecimento.
(fiquei com cara de nuvem. seu luís
tirou os óculos.
Nunca tinha visto
uma fundura de olho assim pequenininho cor de pedra
lá dentro da testa
com água de meleca nos cantos virando
o canto
mais Triste que já ouvi. perguntei pra minha mãe por que tanto olho no fundo do seu luís. ela disse que era segredo, me contaria se eu jurasse.
jurei e ela soprou no meu ouvido:
é catarata,
a pessoa vai deixando de ver o mundo.
mas se ele benze
tudo
por que não benzer o olho morto pra voltar normal?
será que ele prefere não ver?
imaginar o mundo
deve ser mais bonito mesmo.


**

O peso do pássaro morto © Mariana Keller

em são paulo
o Vento ganhou banho,
levou ponto,
tomou vacina.
o veterinário disse que foi corajoso
meu ato
sorri sem jeito.
- ele ficou até com cara de menino. - eu disse
passando a mão no pelo dele.
- não ficou? mas olha,
foi bom você ter falado nisso.
porque mesmo que não dê pra gente saber qual é a idade exata dele,
dá pra saber que ele já é bem idoso.
- claro. - respondi
entendendo que o tempo
sempre leva
as nossas coisas preferidas no mundo
e nos esquece aqui
olhando pra vida
sem elas.
em casa eu disse pro Vento
- chegamos.
ele me ouviu de lado
batendo o rabo
no vaso
que espatifou no chão.
- deixa isso pra lá, depois eu limpo.
ele subiu no sofá,
se ajeitou como pode naquilo que, com certeza,
era a melhor cama que ele já teve, os olhos derramando porto
mais que vinho.
- não me importo - eu disse pra ele - que seja breve o nosso encontro.
porque no tempo da minha
memória
somos pra sempre. não existe morrer dentro, é como uma canção.
as canções não morrem nunca porque elas moram dentro das pessoas que gostam delas. você conhece aquela da rua? se
essa rua
se essa rua fosse minha?
eu mandava eu mandava ladrilhar
com pedrinhas com pedrinhas de brilhante
para o meu
para o meu
Vento passar. nessa rua nessa rua tem um bosque. que se chama que se chama solidão.
dentro dele dentro dele mora um
Vento
que roubou
que roubou meu
coração.
ele dormiu,
exausto.
(apaguei a luz)
fui pro quarto e fiz
o mesmo
apesar do buraco que senti quando
sentei o olho no telefone lembrando do lucas.




Aline Bei, O Peso do pássaro Morto, São Paulo, Editora Nós, 2017

XXX



Aline Bei nasceu em São Paulo, em 1987. É formada em Letras pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e em Artes Cênicas pelo Teatro Escola Célia-Helena. É editora e colunista do site cultural OitavaArte e colunista do site Livre Opinião- Ideias em Debate. O peso do pássaro morto é o seu primeiro livro. Aline Bei participou da 5° edição do Printemps Littéraire Brésilien.



Mariana Keller é nascida em Guarulhos em 1983, trabalha e estuda em Paris. Formada em Arquitetura pela Universidade de São Paulo, tem formação complementar em fotografia, cenografia e artes visuais. Desde 2013 desenvolve séries fotográficas tendo como tema os Espaços de Paisagem. Em 2016 inicia o master em Esthétique parcours « Téorie Culturelle » na Sorbonne e atualmente cursa a Licence menção « Langues, Littératures et Civilisations Etrangères et Régionales » parcours « Portugais » na Sorbonne.

segunda-feira, 9 de abril de 2018

Poésie et Résistance


Foto : Mariana Keller

Journée d'études Poésie et Résistance
Appel à communications


Les études sur la poésie en tant qu’outil de résistance sont multiples, notamment dans les réflexions sur le minoritaire, l’enseignement de la langue maternelle, la formation de lecteurs, la traduction ou sur les autres formes d’expression critique. La Journée d'étude « Poésie et Résistance » vise à interroger la manière dont la production poétique contemporaine aborde, dans ses perspectives éthiques et esthétiques, les formes du conflit social, politique et idéologique.  Dans le cadre de cette rencontre, il s’agira d’observer, d’une part, les rapports entre la production poétique récente et engagement politique et social. D’autre part, d’analyser la manière dont la résistance peut se produire dans le dialogue entre la poésie et d’autres langages artistiques (visuels, sonores, performatiques, etc). Les questions suscitées lors de cette journée d’études feront écho aux débats initiés lors du Printemps Littéraire Brésilien 2018 à Paris ainsi qu’au Grand Slam de Poésie et Coupe du Monde qui aura lieu en mai 2018.

La commission Scientifique, avec le soutien de L'Association de chercheur.e.s et étudiant.e.s brésilien.ne.s en France (APEB-FR), invite les chercheur.e.s travaillant sur le thème « poésie et résistance » à envoyer leurs contributions et à participer aux débats  les 7 et 16 mai 2018 à La Maison des Initiatives Étudiantes, 50 Rue des Tournelles, 75003,  Paris.

Modalités :
- Chaque proposition [en français ou en portugais] doit contenir un titre, un résumé (200 mots maximum), le nom et une brève présentation de l'auteur.e.
- Les propositions devront être envoyées avant le 27 avril 2018 à l'adresse : livia.bertges@gmail.com


Inscriptions :
Les participant.e.s à la Journée d'études Poésie et Résistance n'étant pas encore associé.e.s à l'APEB-Fr doivent y adhérer sur : http://www.apebfr.org/blog/?page_id=763

Commission Scientifique :
Susanna Busato ( UNESP – São José do Rio Preto)
Vinícius Carneiro ( LILLE 3)
Natasha Centenaro (PUCRS)

Organisation :
Leonardo Tonus (Sorbonne Université)
Lívia Bertges (UFMT)
Association de chercheur.e.s et étudiant.e.s brésilien.ne.s en France (APEB-FR)  (APEB-FR)


Références bibliographiques :
ADORNO, Theodor. Lírica e Sociedade. In: Os Pensadores, vol 48. São Paulo: Nova Cultural, 1999.
BOSI, Alfredo. O ser e o tempo da poesia. São Paulo: Companhia das letras, 2000.
CANDIDO, Antonio. O estudo analítico do poema. São Paulo: Editora da FFLCH/ USP, 1967.
MOISÉS, Carlos Felipe. Poesia não é difícil. São Paulo: Editora Biruta, 2012.
MOISÉS, Carlos Felipe. Poesia faz pensar. São Paulo: Editora Ática, 2011.
POUND, Ezra. ABC da Literatura. Trad. Augusto de Campos e José Paulo Paes. São Paulo: Cultix, 1995.  
Foto : Mariana Keller

Jornada de Estudos Poesia e Resistência
Chamada para trabalhos

O estudo sobre poesia enquanto ferramenta de resistência é múltiplo. Destacam-se reflexões sobre as minorias, o ensino da língua materna, a formação de leitores, a tradução e outros modos de expressão crítica. Sendo assim, a Jornada de estudos “Poesia e Resistência” visa interrogar as maneiras como a produção poética contemporânea aborda, nas perspectivas éticas e estéticas, as formas de conflito social, político e ideológico. O encontro se propõe a observar, de uma parte, as noções entre a produção poética recente e o engajamento social e político. De outra parte, analisar como podem ocorrer formas de resistência a partir dos diálogos entre poesia e outras linguagens artísticas (visual, sonora, performática, etc). As questões suscitadas nesta jornada de estudos apresentam-se como ecos dos debates iniciados no Printemps Littéraire Brésilien 2018 à Paris, bem como provoca um debate alinhado ao festival Grand Slam de Poésie et Coupe du Monde que será realizado em maio 2018.

A comissão científica, em parceria com a Associação de Pesquisadores (as) e Estudantes Brasileiros (as) na França (APEB-FR), convida aos interessados que desenvolvem pesquisas sobre “Poesia e Resistência” a participarem das discussões nos dias 7 e 16 de maio de 2018, na Maison des Iniatives Étudiantes, 50 Rue des Tournelles, 75003, em Paris.

Guia para propostas de contribuições
- Cada proposta deve conter título, resumo (máx. 200 palavras), o nome e uma breve apresentação do(a) autor(a).
- Serão aceitas propostas e apresentações em português ou francês.
- Todas propostas devem ser enviadas até dia 27 de abril de 2018 para: livia.bertges@gmail.com


Inscrições:
Participantes da Jornada de Estudos Poesia e Resistência que ainda não forem associados (as) à APEB-Fr devem aderir através do link: http://www.apebfr.org/blog/?page_id=763


Comitê científico:
Susanna Busato ( UNESP – São José do Rio Preto)
Vinícius Carneiro ( LILLE 3)
Natasha Centenaro (PUCRS)

Organisation :
Leonardo Tonus (Sorbonne Université)
Lívia Bertges (UFMT)
Association de chercheur.e.s et étudiant.e.s brésilien.ne.s en France (APEB-FR)  (APEB-FR)

Referências bibliográficas:
ADORNO, Theodor. Lírica e Sociedade. In: Os Pensadores, vol 48. São Paulo: Nova Cultural, 1999.
BOSI, Alfredo. O ser e o tempo da poesia. São Paulo: Companhia das letras, 2000.
CANDIDO, Antonio. O estudo analítico do poema. São Paulo: Editora da FFLCH/ USP, 1967.
MOISÉS, Carlos Felipe. Poesia não é difícil. São Paulo: Editora Biruta, 2012.
MOISÉS, Carlos Felipe. Poesia faz pensar. São Paulo: Editora Ática, 2011.
POUND, Ezra. ABC da Literatura. Trad. Augusto de Campos e José Paulo Paes. São Paulo: Cultix, 1995.



terça-feira, 3 de abril de 2018

Qu’arrive-t-il à notre histoire ?



Qu’arrive-t-il à notre histoire ?

Quel regard la littérature portugaise et brésilienne porte-t-elle sur les événements majeurs de l'histoire occidentale ? Une rencontre luso-brésilienne exceptionnelle avec les écrivains João Pinto Coelho et Rafael Cardoso qui dévoilent une critique féroce de nos civilisations.

Le 14 mars 2018, la Fondation Calouste Gulbenkian a mis à l’honneur, à Paris, la littérature brésilienne et portugaise contemporaines. La rencontre a été organisée en partenariat avec le festival Printemps Littéraire Brésilien avec la modération de Leonardo Tonus (Sorbonne Université).

Réécoutez la rencontre du 14 mars en cliquant sur le lien ci-dessous :


O que acontece com a nossa história ?

Que olhar a literatura portuguesa e brasileira trazem sobre os eventos marcantes da história ocidental ? Um encontro luso-brasileiro excepcional com os escritores João Pinto Coelho e Rafael Cardoso que revelam uma crítica feroz de nossas civilizações.

No dia 14 de março de 2018 a Fundação Calouste Gulbenkian homenageou, em Paris, a literatura portuguesa e brasileira contemporâneas. O encontro foi organizado no âmbito do festival Printemps Littéraire Brésilien e contou com a moderação de Leonardo Tonus (Sorbonne Université)
Ouçam novamente o encontro do dia 14 de março, clicando no link abaixo.


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Rafael Cardoso
Docteur par le Courtauld Institute of Art (Londres), Rafael Cardoso est écrivain et historien d’art. Il a publié de nombreux livres sur l’histoire de l’art et le design au Brésil ainsi que quatre romans. Paru chez Companhia das Letras en 2016, son dernier roman O remanescente a été traduit en allemand (S. Fischer) et en néerlandais. (Nieuw Amsterdam). Rattaché à l’Université de l’Etat de Rio de Janeiro, Rafael Cardoso est, également, curateur d’expositions. Il vit actuellement à Berlin.


João Pinto Coelho
Architecte et professeur en arts visuels, João Pinto Coelho est né à Londres. Après un long séjour aux Etats-Unis, il travaille pour le Conseil de l’Europe en partenariat avec des chercheurs sur l’Holocauste. Le projet « A Letter to Meir Berkovich » le conduit en Pologne, aux rues d’Auschwitz et aux camps d’extermination. C’est dans cet univers qui se déroule son premier roman Perguntem a Sarah Gross, finaliste du Prix LeYa en 2014, meilleur livre de fiction en 2015 par la Société Portugaise d’Auteurs et choisi pour représenter le Portugal au Festival du Premier Roman de Chambéry. En 2017, son roman Os Loucos da Rua Mazu a remporté le Prix LeYa






domingo, 11 de março de 2018

Tainá, estrela amante

Tainá, estrela amante
( mitos  dos índios Karajá)

Por Ciça Fittipaldi


No tempo de Kanamahadô, o primeiro Karajá, certa vez, uma jovem chamada Kurimatutu estava olhando pro céu, encantada,  vendo uma estrela que era mesmo a mais linda, clareando tudo com seu jeito dourado.
Apaixonada por sua beleza, a moça disse que queria pegar a estrela na mão, como flor. Depois disse que queria brincar com Tainá-hekã, a estrela grande, que se balançava, feliz, pendurada no céu.
A estrela ouvia tudo isso, contente.
Calorão do tempo seco, Kurimatutu foi tomar banho na ponta da praia. Praia do Berohoky, rio Araguaia, de areias brancas e quentinhas, onde as tartarugas tracajás vem desovar e onde se esconde, traiçoeira, a arraia com seu poderoso ferrão.
De dia mesmo, o claro da estrela batia no fundo d’água, vinha refletir na superfície, espelhando os encantos de Tainá.
Kurimatutu desejava:
- Ah, como eu queria essa estrela! Queria pra namorar... […]

À noite a estrela veio. Desceu como gente.
Chegou na casa da moça bem no meio do escuro, ninguém podia ver direito.
Chegou muito velho, cabelo branco, pele manchada, faltando dente.
Veio para casar com ela.
Só que quando Kurimatutu o viu de perto, não quis mais. Moça nova, bonita, queria casar com jovem também. Não queria porque ele estava velho demais.
No outro canto da maloca, Myreikó, mãe da moça, deitada na esteira, começou a falar, na sua língua especial, mais puxadinha e cantada que a língua dos homens:
- Esta é a minha casa, a casa das minhas irmãs e seus maridos, das nossas crianças e futuros maridos das nossas filhas... Kurimatutu já tinha um primo para se casar, moço, do jeito dela. Ficou desejando outro!...E continuava:
- Karajá só gosta de casar com gente da mesma idade. Com velho não dá. Velho não aguenta trabalhar. […]

Cedinho, Tainá saiu para pescar. Não tem coisa de comer que Karajá goste mais: pirarucu, que é enorme, a pirarara, muito forte, o matrinchã, o tucunaré, que tem estrelinha no rabo, a traíra e aquele montão de pacu.
Boto, Karajá não pesca. Deixa ele lá, encantando as águas.
Tainá trouxe muito peixe. Era uma coisa descomunal, então, Myreikó mudou de idéia:
- Este velho é grande pescador, ele ainda está muito bom para trabalhar.  Kurimatutu pode casar com ele. Tava desejando tanto...  ele veio.
Mas não adiantou nadinha, ela não quis mesmo.
A segunda filha de Mireykó também não queria, disse que já tinha marido escolhido. E acabou casando com o Hokumari, a cobra, um ser sobrenatural, da “gente do fundo”, gente que mora no fundo das águas.
Loyuá, a filha mais nova, quis. Sentiu ternura pelo velho que desceu do céu.
Então casaram. […]

Depois das festas, Tainá começou a fazer, escondido e sozinho, uma roça grande.
Ninguém sabia o que ele andava fazendo. Saía de casa cedinho, procurava terra boa e mais alta, que não ficasse alagada no tempo das chuvas, quando as águas do Araguaia  e dos riozinhos sobem e invadem as matas.
Loyuá lhe mostrava “haté”, a planta selvagem que, antigamente, alimentava os Karajá. Mostrava “hatamõ”, outra planta menor. Mas nenhuma das duas era muito gostosa, Tainá queria roçar.
Dono do milho era Tainá-hekã. Quer dizer, mais do que possuir, ele  é que conhecia e controlava o seu plantio e o seu uso, assim como das outras plantas cultiváveis.
Ninguém sabia essas coisas ainda. Os índios Karajá nunca tinham visto uma roça. Caçavam um pouco, um caititu aqui, outro lá e pronto. Gostavam mesmo é de pescar. Bastante.
Tainá trouxe as sementes do céu, da sua casa. Lá é que tinha roça grande. Aqui só tinha mangaba, caju, jatobá. Só fruta do mato...
Ele plantou mandioca, milho e abóbora. Batata doce, cará. Urucum, algodão, melancia, um bocado de coisas que antes não existiam. [….]

O casamento com Loyuá era bom. Ela fazia carinho no velho, dormia com ele na sua esteira estendida no chão. Noitadas de calor, ficavam enrolados na esteira fora da casa, na praia, dormindo debaixo da noite estrelada.
O pessoal da aldeia ficou com um pouco de raiva dele porque casou com índia nova, mas ele sempre trazia coisas boas pra casa, carne de caça, frutas, mel, bastante peixe.
E Loyuá gostava muito dele.
Logo tiveram um filho. Depressinha, já estava um menino forte.
Quando Tainá saía para trabalhar, sempre sozinho, o menino ficava procurando por ele, queria ir também.
Um dia, Loyuá e o garoto resolveram segui-lo. Foram se esgueirando entre as árvores, pisando de levinho, sem barulho, para não serem surpreendidos.
Já de longe, Loyuá viu um rapaz muito bonito, alto, forte, cabelo grande, trabalhando na roça.
Ficou assustada pensando que não era seu marido e o chamou.
Tainá respondeu, era ele, sim. Veio pra junto dela e do garoto. Estava muito jovem, a pele lisinha, cabelo comprido e trançado, com uma beleza resplandecente de estrela mesmo.
Quando estava na roça, Tainá tirava a pele mais velha, ficava rapazinho. Deixava a pele velha pendurada, pra usar depois.
Parecia imortal, só trocando a pele que nem cobra.
Estrela demora  muito pra morrer.
Nesse dia, Tainá ficou no mato trabalhando, enquanto Loyuá e o filho voltaram pra casa. De tardinha ele voltou pra aldeia, como velho.
Loyuá dormiu com ele velho mesmo. Fazia carinho, gostava de ficar com ele. […]



No outro dia ele foi pescar. De volta, vinha jovem, cabelo comprido, bem trançado. Vinha com pulseira, liga de algodão nas pernas, brinco de penas, colar.
Vinha todo pintado de jenipapo, com seu diadema de penas de arara e colhereiro que parecia o sol.
Vinha remando, na proa da canoa.
Ninguém o reconheceu…não tinha rapaz bonito como ele na aldeia.
Kurimatutu, aquela moça que, primeiro, queria brincar com ele, ficou olhando aquele moço lindo que chegava. Ficou deslumbrada com a beleza dele.
Tainá chegou na casa, sentou na esteira ao lado da sua mulher, começou a desfazer a trança.
Kurimatutu que olhava tudo, ficou loucamente apaixonada.
De novo, Kurimatutu queria namorar a estrela. Começou dizendo que ele era tão bonito…porque não casou com ela?… e que agora ela queria casar.
Depois disse pra mãe que ía pentear o cunhado.
_ Minha irmã quer pentear você… - Loyuá falava com o marido – Ela quer namorar com a sua beleza.
_ Ela pode pentear meu cabelo de velho – ele respondia.
Kurimatutu queria casar com ele moço, bonito. Queria deitar na esteira, bem junto do cunhado. A mãe não deixava. Kurimatutu insistia, teimava, ficava repetindo a vida toda:
_ “Wanybysò tyby biré karoikre”…Quer dizer:
_ “Pai do filho de minha irmã mais nova, venha para minha esteira”…
Ficou repetindo, chorosa, chorosa, a noite toda aquela choração, até virar kwakwari (quaquarí), coruja pequena, de boca larga e olhos redondos. Tainá- hekã falou então:
_ Pode voar e ficar chorando a noite toda. Você tá com vontade é disso.
Por isso é que esse pássaro canta desse jeito choroso, uh, uh, uh, gemendo sem parar. […]

Tempo depois, as sementes que Tainá trouxe do céu começaram a vingar. O milho estava nascendo que nem rabo de biri, o periquito. Melancia, começando a arrastar.
No outro dia já estava dando fruta doce e no mês novo, tinha tudo pra comer.
Tainá levou o sogro e a sogra para conhecer a roça. Depois levou toda a gente, para ensinar. Ía mostrando e dando os nomes. Rachou a melancia madura e ensinou a comer, tirando as sementes pra plantar. Abóbora também. Mandioca, ensinou tirar o tubérculo da terra e enterrar parte do galho pra nascer outra vez.
- Milho tem que cozinhar para comer – ele ensinava – Quando a espiga secar, a gente debulha e guarda os grãos numa cabaça grande e daí espera o tempo certo pra plantar, antes da estação das chuvas.
Por isso, tem milho na Terra. Tainá deixou tudo isso para os Karajá.
Aí, deu uma vontade doida de voltar pra sua terra. Tava com saudade do céu. Queria ficar espiando a gente lá de cima, ver chegar o tempo chuvoso, da roça cheia e das festas de Aruanã, com suas danças de máscaras de bichos que tem uma banda de gente, máscaras de espíritos sobrenaturais.
A mulher e os filhos de Tainá que nesse tempo já eram mais cinco, viajaram com ele pro céu. E estão lá até hoje. São a constelação das Sete Estrelas, também conhecida como Plêiades. O nome em língua Karajá é Lorobyto, o periquito estrela.
Tainá-hekã é o planeta Vênus, que daqui da Terra a gente vê como a estrela mais brilhante que tem no céu.

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Professeure d’illustration et de Design Editorial à la faculté des arts visuels de l’Université Fédéral de Goiás, Ciça Fittipaldi collabore au Programma des Nations Unies pour le développement et l’éducation des cultures autochtones dans le domaine de la communication et de l’art.  Elle é écrit et illustré plus d’une cinquantaine d’ouvrages sur la question des Indiens et des populations noires au Brésil. Ses livres ont remporté d’importants prix au Brésil et à l’étranger. Ciça Fittipaldi participe aux activités du Printemps Littéraire Brésilien 2018. 

Consultez le programme sur le lien 
: https://www.printempslitterairebresilien.com/